Petróleo na Foz do Amazonas: o potencial e os riscos do 'novo pré-sal'
Principais pontos
- Empresa confirma petróleo em poço no Amapá, mas ainda não sabe o tamanho nem a viabilidade comercial da descoberta.
- Potencial bilionário pode ampliar a produção brasileira, enquanto ambientalistas alertam para os riscos da exploração na região.
- A descoberta intensifica a disputa entre expansão petrolífera, transição energética e interesses eleitorais do governo Lula.

Dez meses após conseguir a licença do Ibama para perfurar um poço na Margem Equatorial – faixa litorânea que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte –, a Petrobras confirmou a existência de petróleo na Foz do Amazonas.
Na segunda-feira, 17, a presidente da estatal, Magda Chambriard, informou que amostras retiradas do poço Morpho confirmaram a existência do combustível na bacia sedimentar ao largo do Amapá. Três dias antes, a Petrobras já havia sinalizado a descoberta de hidrocarbonetos na região, a 175 quilômetros da costa.
A confirmação foi dada em uma coletiva no Oiapoque (AP), com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Segundo a presidente da estatal, a companhia pretende concluir a perfuração do poço em um prazo de 20 dias.
"Ainda precisamos delimitar a descoberta, saber quanto petróleo de fato existe nessa área", explicou.
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É importante esclarecer que há uma distinção entre a "descoberta" e a "descoberta comercial". Isso porque a presença de hidrocarbonetos no poço fornece evidência de uma acumulação, mas ainda são necessários trabalhos para determinar extensão, volume, características do reservatório, produtividade e viabilidade técnica e econômica.
O tamanho da aposta
O interesse econômico na região data de 2013, quando o primeiro bloco da Margem Equatorial foi leiloado pela ANP (Agência Nacional de Petróleo). À época, a Petrobras tentava avançar na área, mas tinha concorrentes como a TotalEnergies, BP e Ecopetrol, que posteriormente desistiram diante da demora no licenciamento ambiental.
Desde então, a companhia destinou cerca de US$ 3 bilhões ao projeto até 2029 e vinha gastando US$ 1 milhão por dia apenas com a campanha exploratória do poço Morpho, segundo a diretora de engenharia, tecnologia e inovação da estatal, Renata Baruzzi.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que a Bacia da Foz do Amazonas possa conter cerca de 6,2 bilhões de barris de petróleo recuperáveis. Caso esse potencial seja confirmado e posteriormente incorporado às reservas provadas, o volume seria equivalente a cerca de 35% das reservas provadas atuais do Brasil, que somaram 17,5 bilhões de barris em 2025, segundo a ANP.
É importante ressaltar, também, que os 6,2 bilhões são uma estimativa de potencial recuperável, e não reservas provadas ou petróleo já descoberto pela Petrobras.
Somadas a essa conta as demais bacias da Margem Equatorial, o Ministério de Minas e Energia fala em até 10 bilhões de barris no total, o equivalente a um "novo pré-sal".
Para o ministro Alexandre Silveira, a descoberta pode "reposicionar o Brasil na geopolítica global", colocando o país entre os seis maiores produtores globais de petróleo.
Segundo o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, a exploração das bacias no Norte pode garantir competitividade econômica ao país sem ser incompatível com as bandeiras ambientais do governo.
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"É preciso investir no conceito de adição energética, porque não há condição de abrir mão de nenhuma fonte. A produção de petróleo é o principal índice da nossa balança comercial e nos dá outra posição na disputa econômica global. Sem uma bacia que possa substituir o pré-sal, como é a Margem Equatorial, há um risco sério de perder esse protagonismo", afirmou.
Conflito ambiental
A confirmação do petróleo reforça as críticas de ambientalistas que acompanham o projeto desde as etapas iniciais. A urbanista e advogada Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e atual coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, já questionava a finalidade da licença concedida ainda durante a fase de estudos.
"Está explícita a posição do governo de expandir a produção de petróleo na foz do Amazonas. A narrativa de que estão apenas pesquisando é usada para distorcer a realidade", afirmou, ainda na fase de estudos, quando a Petrobras buscava a primeira licença para perfurar o bloco FZA-M-59, hoje o mesmo bloco onde a companhia acaba de confirmar a existência de petróleo depois de mais de uma década tentando avançar na região. O Observatório do Clima move uma ação judicial contra a licença emitida para o bloco.
Ambientalistas contrários à exploração argumentam que a perfuração do poço Morpho ocorre em lâmina d'água de quase 2.900 metros, profundidade que torna qualquer resposta a um eventual vazamento mais lenta e mais cara do que nos poços do pré-sal, em águas bem mais rasas.
A região também fica próxima do maior cinturão de manguezais contínuos do mundo e de um sistema de recifes de coral identificado na foz do Amazonas há pouco mais de dez anos, e que os pesquisadores ainda não conseguiram mapear por completo.
Foi justamente a distância entre o poço e a base de resgate de animais afetados por óleo, que nas primeiras versões do projeto ficava em Belém, a centenas de quilômetros dali, um dos pontos que sustentou as negativas anteriores do Ibama.
A Petrobras afirma ter estruturado para a operação um sistema de resposta a emergências que inclui embarcações de contenção, monitoramento, resgate e atendimento à fauna afetada por óleo, além de apoio aéreo.
Em 2025, a empresa realizou uma Avaliação Pré-Operacional (APO), uma simulação destinada a testar sua capacidade de resposta a uma eventual emergência. O Ibama aprovou a avaliação, mas solicitou ajustes adicionais no plano de proteção à fauna apresentado pela companhia.
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A descoberta também expõe uma contradição do governo brasileiro. O país sediou a COP30 em Belém no fim de 2025 defendendo metas globais para a redução de combustíveis fósseis, e agora gerencia a expansão de sua própria fronteira petrolífera.
A ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, que deixou o cargo em abril para se candidatar ao Senado por São Paulo, já reconheceu o contrassenso publicamente, mas ponderou que a transição energética deve ser gradual e justa, sem interromper o planejamento econômico do país.
Ativo eleitoral

Na segunda-feira, 17, Lula chamou a descoberta de "passaporte para o futuro do país", a mesma expressão usada há vinte anos, quando a Petrobras anunciou o pré-sal às vésperas da eleição de 2006 que lhe deu a reeleição.
Àquela altura, o achado ajudou a blindar politicamente um governo já desgastado pelo escândalo do Mensalão, descoberto um ano antes, e reforçou a imagem de um projeto nacional de desenvolvimento tocado pelo PT.
Duas décadas depois, Lula tenta reeditar o mesmo roteiro em um cenário em que o governo é pressionado por resultados econômicos concretos, às vésperas de uma eleição em que, aos 80 anos, disputa um quarto mandato não consecutivo.
A diferença é que, em 2006, o pré-sal já vinha acompanhado de estimativas de reservas relativamente sólidas. Desta vez, a Petrobras ainda não sabe quanto petróleo existe no poço Morpho.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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