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Obesidade, crise climática e uso malicioso da IA: ameaças à sobrevivência humana?

Principais pontos

  • A revista científica The Lancet reuniu 35 especialistas de diferentes países, inclusive o Brasil, para avaliar 17 ameaças à saúde e à segurança da humanidade ao longo de 75 anos, chegando a 2100.
  • Guerra nuclear e uso malicioso da inteligência artificial, inclusive para desenvolver armas biológicas, são considerados riscos com potencial de extinção humana.
  • Mudanças climáticas, pandemias, baixa escolaridade e doenças crônicas também podem provocar perdas extraordinárias de saúde nas próximas décadas.
Pesquisa propõe que os países ampliem sua preparação para além das crises sanitárias tradicionais. Problemas como desigualdade de renda, mudanças climáticas e uso da IA para criar armas biológicas podem reduzir os anos de vida saudável da população.
Pesquisa propõe que os países ampliem sua preparação para além das crises sanitárias tradicionais. Problemas como desigualdade de renda, mudanças climáticas e uso da IA para criar armas biológicas podem reduzir os anos de vida saudável da população.
Source: Depositphotos
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Obesidade, desigualdade de renda, baixa escolaridade, mudanças climáticas, pandemias, conflitos armados e uso malicioso da inteligência artificial estão entre as 17 grandes ameaças que podem comprometer a saúde, a segurança e as condições de vida da humanidade até 2100. Duas delas, a guerra nuclear e o uso malicioso da inteligência artificial, são consideradas capazes de provocar consequências extremas, incluindo a possibilidade de extinção humana.

Essa é a conclusão de um estudo publicado no sábado, 10, pela revista científica The Lancet, que reuniu 35 especialistas de diferentes regiões para investigar os riscos que poderão afetar as próximas gerações. O comitê analisou dados e projeções de 204 países e territórios. Seu objetivo foi identificar não apenas ameaças capazes de provocar grandes perdas de saúde, mas também o que governos e instituições internacionais podem fazer para preveni-las ou reduzir suas consequências.

Intitulado “The Lancet Commission on 21st century global threats to health”, o estudo propõe que os países ampliem sua preparação para além das crises sanitárias tradicionais. Problemas de evolução lenta, como desigualdade, doenças crônicas e envelhecimento com perda de saúde, também podem produzir consequências extraordinárias.

Os pesquisadores escolheram analisar o período de 2025 a 2100, um intervalo de 75 anos, para avaliar como diferentes ameaças podem evoluir ao longo do século e quais danos poderiam ser evitados por medidas de prevenção, políticas públicas e avanços científicos.

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A escolha do ano de 2100 tem uma finalidade prática: estabelecer um horizonte comum para comparar riscos muito diferentes, desde doenças que já afetam milhões de pessoas até acontecimentos extremos que podem ocorrer no futuro. Esse período também permite examinar as consequências de decisões tomadas hoje sobre as próximas gerações.

O trabalho conta com a participação de dois pesquisadores brasileiros: a ex-ministra da Saúde Nísia Trindade Lima (entre janeiro de 2023 e março de 2025), ex-presidente da Fiocruz, e Luiz Augusto Galvão, pesquisador sênior do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fiocruz.

Quais são as 17 ameaças e por que preocupam

Para avaliar os riscos até 2100, os pesquisadores consideraram tanto problemas que já provocam doenças e mortes quanto acontecimentos extremos que, embora incertos, poderiam ameaçar a própria sobrevivência da humanidade.

Entre as 17 ameaças selecionadas, duas receberam uma classificação especial: a guerra nuclear e o uso malicioso da inteligência artificial. Segundo o estudo, ambas poderiam, em determinadas circunstâncias, provocar consequências tão graves e disseminadas que colocariam em risco a existência da espécie humana.

No caso de uma guerra nuclear, a preocupação vai além da explosão de artefatos. De acordo com o estudo, a fumaça lançada na atmosfera poderia reduzir a luz solar, comprometer a produção agrícola em escala mundial e desencadear fome generalizada. Já a inteligência artificial poderia ser utilizada, por exemplo, para facilitar a criação de armas biológicas extremamente perigosas.

As consequências possíveis desses acontecimentos são graves o suficiente, na análise dos especialistas consultados pela Lancet, para justificar medidas de prevenção, mesmo diante das incertezas.

As outras 15 ameaças foram classificadas como riscos de consequências catastróficas para a saúde. São problemas capazes de provocar um número extraordinário de mortes, doenças e incapacidades ao longo das próximas décadas. Elas, porém, mas estão enquadradas pelo estudo como riscos de extinção da humanidade.

Nesse grupo estão desde fatores de risco conhecidos, como pressão alta e tabagismo, até problemas estruturais, como desigualdade de renda e baixa escolaridade, além de pandemias, conflitos armados e mudanças climáticas.

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A distinção é importante porque o estudo não mede apenas a possibilidade de uma catástrofe acontecer. Ele também procura calcular quanto dos danos à saúde poderia ser evitado por meio de políticas públicas, prevenção e avanços científicos.

As duas ameaças com potencial de extinção são:

  1. Uso malicioso da inteligência artificial: ferramentas avançadas de IA podem facilitar a criação ou a modificação de vírus e outros microrganismos para torná-los mais perigosos e utilizá-los como armas biológicas. O estudo também considera o risco de sistemas de inteligência artificial muito avançados escaparem ao controle humano e provocarem danos em grande escala.
  2. Guerra nuclear: além das mortes provocadas pelas explosões, um conflito nuclear de grandes proporções poderia lançar partículas na atmosfera, reduzir a luz solar e comprometer a produção agrícola. A consequência seria o risco de fome mundial, inclusive em países que não participassem diretamente da guerra.

As outras 15 ameaças são:

  1. Poluição do ar: aumenta o risco de doenças respiratórias e cardiovasculares, além de mortes prematuras. A exposição prolongada a partículas finas é especialmente prejudicial em regiões com elevadas emissões de veículos, indústrias e outras fontes.
  2. Resistência aos antimicrobianos: acontece quando bactérias e outros microrganismos deixam de responder aos medicamentos usados para combatê-los. Isso torna infecções mais difíceis de tratar e pode elevar o número de mortes.
  3. Desnutrição infantil: compromete o crescimento, o desenvolvimento físico e cognitivo e a capacidade de resistência a infecções. Seus efeitos podem acompanhar a criança até a vida adulta.
  4. Mudanças climáticas: ondas de calor, alterações ambientais e mudanças na circulação de doenças podem aumentar os problemas de saúde. Seus efeitos sobre a produção de alimentos, a água e as condições de vida também ampliam a vulnerabilidade das populações.
  5. Redução drástica da ajuda internacional à saúde: cortes nos recursos enviados por governos e instituições internacionais podem comprometer vacinação, prevenção e tratamento de doenças, sobretudo nos países mais pobres.
  6. Conflitos armados convencionais: guerras provocam mortes, ferimentos, deslocamentos populacionais e destruição de hospitais. Também interrompem tratamentos e dificultam o acesso a alimentos, água e medicamentos.
  7. Consumo elevado de álcool: aumenta o risco de doenças do fígado, câncer, problemas cardiovasculares e lesões associadas a acidentes e violência.
  8. Pressão arterial elevada: favorece infartos, acidentes vasculares cerebrais e doenças renais. Muitas pessoas convivem com o problema sem diagnóstico ou tratamento adequado.
  9. Desigualdade de renda: influencia o acesso à alimentação, à moradia, ao saneamento e aos serviços de saúde. Populações de baixa renda costumam enfrentar maior exposição a riscos e mais dificuldades para obter tratamento.
  10. Baixa escolaridade: reduz oportunidades econômicas e pode dificultar o acesso à informação, à prevenção e aos cuidados de saúde. Seus efeitos também podem alcançar as condições de vida das gerações seguintes.
  11. Pandemias de origem natural: novos agentes infecciosos, ou a disseminação de microrganismos já conhecidos, podem provocar emergências sanitárias internacionais e sobrecarregar os sistemas de saúde.
  12. Obesidade, alimentação inadequada e baixa atividade física: esses fatores, analisados conjuntamente, aumentam o risco de diabetes, doenças cardiovasculares e outras condições crônicas.
  13. Problemas de saúde mental: transtornos como depressão e ansiedade podem comprometer o bem-estar, a capacidade de trabalhar, estudar e realizar atividades cotidianas, além de exigir acompanhamento prolongado.
  14. Tabagismo: está associado a diferentes tipos de câncer, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crônicas. Seus efeitos continuam mesmo em populações nas quais o consumo de tabaco diminuiu.
  15. Envelhecimento com problemas de saúde: o aumento da longevidade pode ser acompanhado por mais anos vividos com doenças crônicas, limitações físicas e perda de autonomia. O desafio é permitir que as pessoas vivam mais tempo com saúde.

Essas ameaças estão interligadas. Uma criança que cresce em situação de pobreza, por exemplo, pode enfrentar simultaneamente desnutrição, dificuldades de acesso à educação e falta de atendimento médico. Mudanças climáticas e conflitos podem agravar essas condições.

Obesidade e desigualdade podem provocar perdas extraordinárias

Para comparar problemas tão diferentes, os pesquisadores utilizaram uma medida chamada DALY (Disability-Adjusted Life Year), conceito em inglês que significa ano de vida ajustado por incapacidade. Ela calcula os anos de vida saudável perdidos tanto por mortes prematuras quanto pelo tempo vivido com doenças ou limitações de saúde.

A pesquisa compara dois futuros possíveis para cada ameaça: um cenário favorável e outro desfavorável. A diferença entre eles representa a quantidade de anos de vida saudável que poderia ser preservada por políticas públicas e outras medidas de prevenção.

A maior diferença aparece na categoria que reúne obesidade, alimentação inadequada e baixa atividade física. No cálculo dos cientistas, 23,1 bilhões de anos de vida saudável são potencialmente preserváveis entre 2025 e 2100 se esses problemas forem enfrentados de forma eficaz.

Em seguida estão a baixa escolaridade, com 16,1 bilhões, e a desigualdade de renda, com 13,8 bilhões. Problemas de saúde mental representam 9,35 bilhões, enquanto o envelhecimento com problemas de saúde responde por 8,26 bilhões.

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Esses números não representam previsões de mortes nem significam que uma ameaça seja necessariamente mais grave do que outra. Eles expressam o potencial de redução dos danos dentro dos cenários considerados pelos pesquisadores.

O desafio do clima

As mudanças climáticas representam uma dificuldade particular para os pesquisadores porque nem todas as suas consequências sobre a saúde podem ser quantificadas. O estudo estima em 1,89 bilhão os anos de vida saudável potencialmente preserváveis por medidas capazes de reduzir os impactos do aquecimento global.

Esse cálculo, entretanto, não incorpora integralmente consequências como deslocamentos populacionais, perdas econômicas, alterações na produção de alimentos e outros efeitos indiretos sobre as condições de vida. Por isso, os autores alertam que os resultados podem subestimar a dimensão dos danos.

Viver mais não significa viver mais tempo com saúde

No cenário em que as tendências atuais continuam, a expectativa de vida mundial deverá aumentar 8,65 anos entre 2025 e 2100.

Já a expectativa de vida saudável crescerá apenas 5,69 anos.

A diferença significa que as pessoas poderão viver mais, mas também passar uma parcela maior da vida convivendo com doenças crônicas ou limitações físicas e mentais.

Diabetes, doenças cardiovasculares, problemas musculoesqueléticos e transtornos mentais estão entre as condições que contribuem para esse cenário.

O resultado reforça a necessidade de preparar os sistemas de saúde para acompanhar pacientes durante muitos anos, além de responder a emergências.

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O que os governos podem fazer

Diante dessas ameaças, os pesquisadores propõem três medidas principais.

A primeira é fortalecer os sistemas de saúde para que consigam identificar riscos com antecedência, prevenir crises e responder rapidamente às emergências. Isso exige financiamento permanente, equipes preparadas e capacidade de planejamento de longo prazo.

A segunda é ampliar os investimentos em pesquisa e inovação. Entre as prioridades estão novas vacinas, antibióticos, tratamentos para obesidade e tecnologias capazes de reduzir os efeitos das mudanças climáticas. O estudo também defende mecanismos de controle para tecnologias de alto risco, incluindo sistemas avançados de inteligência artificial.

A terceira é criar um acompanhamento permanente das ameaças mundiais à saúde, com atualização periódica das estimativas e apresentação dos resultados aos responsáveis pelas decisões políticas e econômicas.

A proposta é impedir que governos concentrem recursos apenas nas crises mais imediatas, enquanto problemas de evolução lenta continuam se agravando.

A principal mensagem do estudo é que a saúde das próximas gerações dependerá de decisões tomadas agora, não apenas para evitar catástrofes, mas também para reduzir desigualdades, melhorar a educação, prevenir doenças e garantir acesso aos cuidados de saúde.

Crédito da foto: Depositphotos

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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