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'Não quero ser exceção': estudante da USP cria app gratuito para ajudar jovens no vestibular

Principais pontos

  • Aluna do curso de Ciências da Computação, Mariana Cardoso sonhava em usar conhecimentos da área para contribuir com mudanças sociais.
  • Em julho, ela lançou o aplicativo 'Tita', que dá acesso gratuito a apostilas em PDF e questões inspiradas em provas de vestibular.
  • Ao GSW Brasil, estudante afirmou que é 'mínima exceção' na universidade, ao lado de egressos de cursinhos e escolas privadas, e iniciativa será 'para sempre grauita'.

Anos antes de entrar na USP (Universidade de São Paulo) para cursar Ciências da Computação, Mariana Cardoso aguardava a mãe chegar do trabalho para pegar seu celular emprestado, se conectar ao wi-fi de uma residência vizinha e dedicar suas horas livres ao estudo, com o objetivo de ingressar na Etec (Escola Técnica Estadual).

"Era uma das poucas chances que eu tinha para mudar de vida", explicou Mariana ao Global South World Brasil. Desde o início de julho, ela passou a receber relatos agradecidos de jovens que, como ela, "suavam a camisa" para avançar nos estudos, mas ganharam uma força extra sem precisar pagar por isso.

A razão é o Tita, um aplicativo disponível para download gratuito e acesso offline que reúne videoaulas, apostilas em PDF e centenas de questões -- formuladas com inteligência artificial -- inspiradas em provas da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) e da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Desenvolvido por Mariana com recursos próprios e conhecimentos de programação adquiridos na Etec e na USP, o app nasceu com o objetivo de transformar as universidades em ambientes onde a estudante deixe de ser a "mínima exceção" entre egressos de escolas privadas e cursinhos preparatórios. 

Mariana Cardoso, estudante da USP e criadora do Tita: 'Mercado não quer tanto assim um aplicativo gratuito'
Mariana Cardoso, estudante da USP e criadora do Tita: 'Mercado não quer tanto assim um aplicativo gratuito'
Source: Acervo pessoal

Os números mostram que o acesso ao ensino superior público ainda é elitizado no Brasil, apesar da adoção de medidas para reverter a situação. Foi apenas no vestibular de 2021 que a USP atingiu maioria de ingressantes de escolas públicas, com 51,7% -- após a destinação de porcentagens maiores a cotistas na Fuvest.

Para entender o impacto da educação e do acesso à tecnologia na vida dessa estudante, o GSW Brasil entrevistou Mariana Cardoso. 

Leia a íntegra

GSW Como surgiu o objetivo de criar um aplicativo de estudos, do zero?

MC Eu sempre tive o sonho de usar a computação para ajudar a resolver os problemas da sociedade. O principal momento em que eu senti falta de um aplicativo como o Tita foi pouco antes do vestibular da faculdade, quando prestei o 'vestibulinho'para entrar na Etec. 

Aos 15 anos e sem celular próprio, eu esperava minha mãe chegar do serviço [para pegar o aparelho emprestado], à noite, sentava num corredor de concreto onde era possível 'roubar' o wi-fi do vizinho, porque não tínhamos condição de assinar um plano de internet, e estudava assistindo vídeos no YouTube. 

Não era uma rotina de estudos organizada, e esse era um grande obstáculo. Ao mesmo tempo, precisava continuar porque essa era uma das poucas chances que eu tinha para mudar de vida. 

Quando entrei na USP, eu senti o peso de ser a "mínima exceção", ao lado de pessoas que passaram cinco, dez anos em cursinhos, o que não aconteceu comigo. Mesmo tendo acesso a um ensino de excelência [na Etec], senti falta de conhecimentos que as pessoas tiveram em cursinhos. Faltavam mais pessoas como eu naquele espaço.

Então, o Tita nasceu com esse sonho, de fazer com que mais pessoas pudessem ter a mudança de vida que a educação me proporcionou. Que mais pessoas voltassem a ter, na educação, o principal meio para essa mudança.

GSW Qual foi a complexidade de transformar este sonho em um aplicativo, de fato?

MC Foi muito difícil conciliar o desenvolvimento do aplicativo com universidade,  estágio e demais dificuldades do cotidiano. Usei as férias, virei noites e madrugadas e tive a sorte de, na Etec, ter aulas de desenvolvimento de aplicativos, o que me deu a base de conhecimento necessária. 

Foram cerca de oito meses programando, aprendendo e testanto. Tive que fazer sozinha a curadoria dos vídeos [exibidos no app], perguntando para a minha irmã, que está no terceiro ano do Ensino Médio, assim como tive que formular um banco de 1.500 questões.

Mas a maior dificuldade, mesmo, é a falta de condição para bancar tokens de IA -- o que, inclusive, é um problema do Tita. Por mais que eu queira muito que o aplicativo cresça, tenho medo de que ele deixe de atingir todo mundo igualmente, porque não temos patrocínio para esses recursos e tivemos de utilizar modelos que, ainda que não sejam os ideais, permitem que o app se mantenha gratuito.

Interface de abertura do aplicativo: acesso é gratuito e offline
Interface de abertura do aplicativo: acesso é gratuito e offline
Source: Reprodução

GSW Seu relato mostra que o Tita foi financiado com recursos próprios. Desde o lançamento, houve contato de empresas interessadas em investir no seu trabalho?

MC Desde o início, meu objetivo foi criar um aplicativo 100% acessível. As pessoas me aconselhavam a cobrar um valor simbólico, como R$ 5, mas nem todo mundo tem essa quantia.

Então, sim, 100% [do financiamento do aplicativo] foi por mim, e ainda não houve conversa com nenhuma empresa. Eu até pensei em procurar patrocinadores, buscar recursos para a melhor tecnologia possível, mas é difícil encontrar interessados em uma iniciativa cujo objetivo é ser, para sempre, gratuita.

GSW E qual foi a importância da universidade para essa iniciativa?

MC A USP não me incentivou necessariamente a criar o aplicativo, mas o fez na medida em que nos incentiva permanentemente a busca métodos e desenvolver nossos próprios projetos.

O fato de eu ter colocado uma ideia no papel e construído o aplicativo sozinha tem clara influência da USP, que me ensinou a construir códigos, programar corretamente, pensar no custo-benefício do projeto e, enfim, atuar como pesquisadora, não apenas programadora. Não agir necessariamente conforme o 'mercado' quer, até porque ele não deseja tanto assim um aplicativo gratuito.

GSW Como tem sido ver o impacto que você projetou se concretizar?

MC O primeiro impacto veio antes mesmo  do aplicativo estar disponível na Play Store, porque eu precisei testá-lo e usei a escola onde estudei para isso. Hoje, minha irmã estuda lá.

Eu sou a primeira da minha família a fazer uma universidade pública. Minha bisavó, minha avó e minha mãe foram empregadas domésticas, e tenho muito orgulho delas, mas eu continuaria esse ciclo, não fosse pela educação. Ao ver a minha irmã testando o Tita para se preparar para o vestibular, eu vi que as opções para ela são outras e senti muito orgulho.

Depois do lançamento para o público geral, recebi [relatos de] que pessoas no Ceará estão usando o aplicativo, uma página relevante no Instagram nos divulgou, alunos e professores me enviaram agradecimentos. Cada vez que leio 'estava perdido nos estudos e o Tita me deu um norte', isso enche meu coração e me faz ver que o esforço valeu a pena.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.