Lula aposta na biografia operária na disputa pelo 4º mandato à Presidência

Principais pontos

  • Lula e Flávio Bolsonaro iniciam oficialmente a campanha eleitoral em locais associados às suas trajetórias políticas: o petista em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e o candidato do PL em Copacabana, no Rio.
  • No Estádio Municipal 1º de Maio, palco das greves que o projetaram como líder sindical, o presidente, em busca da reeleição, aposta em uma estratégia que resgata sua trajetória política sob o mote “Lula: onde tudo começou”.
  • Jingle, peças de campanha e pautas trabalhistas reforçam a volta às origens, mas analistas políticos questionam se o apelo à biografia consegue alcançar eleitores além da base petista.
 Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva durante Entrevista para Déia Freitas (Não Inviabilize) e As Cunhãs, no Palácio da Alvorada. Brasília - DF.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva
Source: Ricardo Stuckert/PR

Neste domingo, 16, se iniciam oficialmente as campanhas eleitorais dos candidatos à Presidência da República. O senador Flávio Bolsonaro, o representante do PL, fará seu lançamento na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição pelo PT, optou por São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, no estádio municipal 1º de Maio, também conhecido pelo nome da região: Vila Euclides.

Os dois principais concorrentes na corrida rumo ao Palácio do Planalto, pelo que apontam as pesquisas de intenção de voto, tomaram decisões que remetem a seus berços eleitorais. Flávio recorre à praia de Copacabana local onde aconteceram grandes mobilizações e atos em torno de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A escolha do estádio 1º de Maio, palco em que Lula construiu sua figura como líder sindical durante as greves operárias das décadas de 1970 e 1980, está afinada ao mote adotado pela campanha até aqui. Em materiais que divulgam o ato em São Bernardo do Campo, a chamada é "Lula onde tudo começou".

O petista participa de disputas eleitorais desde a redemocratização, concorre pela sétima vez à Presidência da República e, aos 80 anos, não deverá participar de outro pleito mesmo que seja derrotado em outubro. No primeiro jingle oficial, uma adaptação do "Rap do Silva", a trajetória política do mandatário é resgatada desde o período de luta sindical.

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"Foi com a melhor camisa pra porta da fundição / Subiu em cima da mesa, falou pra multidão". Esse é um dos versos da música, acompanhado por imagens de Lula à frente das paralisações de operários no ABC. Em outras peças oficiais de campanha e em conteúdos divulgados por apoiadores nas redes sociais, eleitores são convocados a dar um "último voto" ao petista.

A estratégia tem surtido efeito na militância, mas analistas e profissionais do marketing político ouvidos pelo GSW Brasil colocam em dúvida o quanto o resgate da trajetória de Lula, usado pela campanha como argumento eleitoral, ressoa em eleitores que não são "convertidos" à imagem do petista — grupo que, como em 2022, deve ser decisivo para a corrida presidencial.

Por outro lado, recorrer ao perfil de liderança construído antes de subir a rampa do Palácio do Planalto tem sido efetivo para a estratégia eleitoral do governo. Em convenções partidárias de que participou nas últimas semanas, Lula deu espaço privilegiado em seus discursos à defesa do fim da escala 6x1 — seis dias de trabalho e um de descanso — e da soberania nacional.

Embora tenha sido eleito com o mote da "frente ampla" e a interpretação de cientistas políticos de que teria de fazer mais gestos ao centro do que em mandatos anteriores, o petista se recuperou de uma forte crise de popularidade, desde 2025, ao associar o governo a uma pauta de interesse prioritário dos trabalhadores mais pobres e assumir uma posição reativa às tarifas aplicadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre os produtos brasileiros — garantindo o discurso de defesa da soberania.

O recurso à própria biografia como prova de legitimidade não é exclusividade desta campanha. Em abril de 2018, ao saber que seria preso por decisão do juiz Sergio Moro, Lula foi para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, espaço simbólico ligado às greves da Vila Euclides, onde uma multidão formou um cordão humano ao redor do prédio.

Dezenove meses depois, ao deixar a prisão em Curitiba, recusou a oferta da Polícia Federal de seguir de helicóptero direto ao aeroporto e caminhou até a vigília montada em sua homenagem.

Nos dois episódios, como agora, a repetição do mesmo repertório buscou funcionar como prova pública de que o apoio segue de pé.

Esse movimento, porém, ocorre em um ambiente eleitoral que favorece Lula por razões que não têm relação direta com o resgate de sua biografia. Nos últimos meses, a estratégia foi combinada à crise que assola a campanha de Flávio Bolsonaro desde a revelação de que o presidenciável pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master preso pela Polícia Federal, para financiar a produção de "Dark Horse" — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) —, para consolidar o momento de alta de Lula.

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Em pesquisa Quaest divulgada na sexta-feira, 14, foram 43% das intenções de voto para o mandatário e 40% para o senador de oposição - em eventual segundo turno.

A vantagem de três pontos sobre Flávio Bolsonaro, porém, não permite isolar o efeito da nostalgia sobre o eleitorado que ainda decide o voto em outubro.

Segundo analistas, os próximos levantamentos, após o período de início oficial das campanhas, devem captar o impacto do ato de domingo nas intenções de voto.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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