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Há um movimento para deslegitimar o voto feminino? Sim, para 47% dos brasileiros
Principais pontos
- Dois em cada três brasileiros (67%) já ouviram frases que questionam a capacidade das mulheres de escolher em quem votar.
- Entre as mulheres, 59% identificam um movimento para desestimular ou deslegitimar o voto feminino; entre os homens, são 35%.
- Pesquisa mostra ainda que 22% dos homens consideram aceitável insistir para que a parceira mude o voto; outros 35% dizem que depende.

Dois em cada três brasileiros (67%) já ouviram frases como "mulher não sabe votar" ou "mulher vota com o coração". E, a menos de uma semana do primeiro turno, quase metade (47%), acredita que elas não são comentários soltos, mas parte de um movimento que tenta deslegitimar ou desestimular o voto feminino.
A percepção muda bastante a depender do gênero: 59% das mulheres identificam esse movimento, contra apenas 35% deles. Além disso, o trabalho apontou que 44% dos homens dizem que essa tentativa não existe. Foram ouvidos 1.449 eleitores brasileiros, entre 1 e 4 de setembro.
Os dados são de um estudo realizado pela Hibou, empresa de pesquisa e insights de mercado e consumo, para a plataforma Red é de Sangue – iniciativa do braço ESG da Fresh PR, com apoio da HeForShe Brasil (movimento da ONU Mulheres) e do Sindilegis, o Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União, que combate a influência misógina nas redes sociais.
Essa sensação de que estão tentando desqualificar o voto feminino acontece em um ano em que as mulheres somam 52,8% dos 158.745.463 cidadãos aptos a votar em outubro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mesmo assim, elas representam 34,8% das candidaturas registradas para as eleições de 2026, e só duas das 13 candidaturas à Presidência.
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Para Ligia Mello, coordenadora da Hibou, o índice alto assusta, mas também tem um lado positivo. "É sinal de que o movimento está acontecendo, mas também de que as pessoas estão atentas", afirma. Segundo ela, o discurso raramente é escancarado. "Ele aparece em pequenas falas, como a de que a mulher é muito emocional".
Um debate que tomou as redes
O tema voltou ao debate público em junho, quando o influenciador Paulo Figueiredo, próximo da família Bolsonaro, questionou em uma live a "qualidade" do voto feminino. Depois do episódio, um grupo de deputadas federais pediu à Procuradoria-Geral da República que investigasse se falas desse tipo configuram tentativa de intimidar eleitoras.
Mas esse discurso é antigo, e vem ganhando cada vez mais força na internet. A pesquisa mostra que 47% dos entrevistados já tiveram contato com esse tipo de fala nas redes sociais, mensagens dizendo que mulheres não deveriam votar ou que são manipuláveis. Entre as mulheres, o índice sobe para 62%, quase o dobro do registrado entre os homens, 33%.
"A internet não é o vilão; ela é o meio. Esse discurso sempre existiu. Estamos passando de novo por um movimento dos extremos. Isso é cíclico, não é só o Brasil, é o mundo inteiro", diz Ligia. Para ela, as redes apenas tornaram mais visível algo antigo.
Homens ouvem, mas não reconhecem
Fora das redes, os homens são os que mais dizem já ter ouvido comentários misóginos, 69%, contra 66% das mulheres. Ainda assim, só um terço deles diz ter visto esse tipo de conteúdo na internet.
O estudo mostra ainda que 72% das mulheres sentem serem tratadas de forma diferente quando expressam suas opiniões políticas. Entre os homens, esse índice cai para 44%. "As pessoas simplesmente não percebem. Eles não acham que o comentário é misógino, não acham errado dizer que mulher faz drama para tudo. Acham que isso é só a realidade", comenta Ligia.
Embora a lei obrigue os partidos a destinar às candidatas ao menos 30% do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda, cerca de dois terços dos recursos seguem indo para campanhas de homens, que são a maioria dos candidatos, o que reforça o seu peso na política.
A ideia do "voto emocional"
A pesquisa revela que 98% dos homens dizem que todos têm a mesma capacidade de avaliar candidatos e propostas. Mas 25% deles concordam, total ou parcialmente, que as mulheres são mais emocionais e que isso pode atrapalhar suas decisões políticas. E um em cada cinco concorda que os homens são mais centrados e votam melhor. Entre as mulheres, esses índices são de 12% e 8%.
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Ao mesmo tempo, questionados sobre quem pesquisa mais antes de votar, só 8% dos entrevistados apontam os homens, contra 22% que apontam as mulheres. A maioria (54%) acha que pesquisam igualmente. Para Ligia, essa contradição tem uma raiz cultural. Ela cita o efeito Dunning-Kruger, em que pessoas com pouco conhecimento sobre um tema superestimam a própria competência.
Segundo ela, os homens tendem a escolher uma bandeira única, como segurança ou redução da maioridade penal, enquanto as mulheres avaliam o conjunto das propostas. "O homem não pesquisa tanto porque acha que já sabe. Ele recebe uma informação sobre o candidato e aquilo basta", diz.
Sobre as 12% de mulheres que concordam com o estereótipo, Ligia acredita que a influência vem menos da internet e mais do círculo próximo: família, amigos, trabalho e parceiro. "Chega uma hora que você acredita e fala: 'é verdade mesmo, eu acho que eu faço drama, não sei se eu sei votar'", acrescenta.
Silêncio em casa para evitar conflito
Com a polarização, deixar a política de lado virou estratégia para quase metade dos brasileiros. De acordo com a pesquisa, 47% já deixaram de comentar sobre o assunto ou de declarar o voto para evitar conflito, e isso vale tanto para homens quanto para mulheres.
Ligia relaciona o silêncio delas ao medo. "Existe uma preocupação das mulheres em não gerar conflito, até pelo aumento da violência contra a mulher e do feminicídio", diz. Na prática, segundo ela, muitas preferem não discutir e decidir sozinhas, na cabine de votação.
Entre os entrevistados, 67% dizem já terem votado em um candidato diferente daquele que o parceiro queria. Diante de um pedido do parceiro para votar em alguém, 65% das mulheres dizem que considerariam a opinião, mas decidiriam sozinhas, e 21% afirmam que não mudariam o voto de jeito nenhum.
Entre os homens, esse número é menor, 14%. E 5% deles afirmam que mentiriam sobre o voto para evitar briga. O percentual entre as mulheres é de 1%.
Pressão psicológica
Em tese, quase ninguém defende o controle de voto. Nenhum entrevistado, literalmente 0%, acha que o homem deve ter a palavra final nas decisões políticas do casal. Mas, enquanto 87% das mulheres concordam totalmente que o voto de uma mulher pertence só a ela, entre os homens esse índice cai para 78%.
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Além disso, só 43% dos homens consideram inaceitável pressionar incessantemente a parceira para que ela mude o voto. Os demais dizem que "depende" (35%) ou que é aceitável (22%). Para Ligia, essa pressão é uma forma de violência psicológica, e o "depende" coloca o homem em uma posição confortável. "É tipo: se ela concordar comigo, tudo bem. Se não concordar, não está tudo bem", diz.
A diferença de tratamento no debate político reforça esse pensamento. Para 70% das entrevistadas, uma mulher que expressa opinião política é chamada de histérica ou emocional, percepção compartilhada por apenas 28% dos homens. A consequência, muitas vezes, é que elas se afastam tanto das discussões quanto das candidaturas.
Diferentes prioridades na hora de votar
Questionados sobre o que levam em consideração na hora de votar, 98% dos homens citaram histórico de corrupção do candidato. O índice cai para 83% quando o critério é violência contra a mulher, 74% para nepotismo e 63% no caso de falas machistas.
Entre as mulheres, a prioridade é outra. A grande maioria, 95%, rejeitariam um candidato com histórico de violência contra a mulher e 93% recusariam alguém corrupto, seguido por 82% nepotismo. As falas machistas também aparecem por último, com 80%.
Para Ligia, a baixa rejeição a falas machistas mostra que muitos só reconhecem o machismo mais explícito. "’Seis meses de licença-maternidade é um absurdo’. Eu não sei até que ponto a gente consegue enxergar nos homens brasileiros se eles acham que isso é uma fala machista", comenta.
Nessa mesma lógica, 23% dos homens dizem ignorar falas machistas de candidatos, e outros 14% afirmam ignorá-las às vezes, o que soma pouco mais de um terço do eleitorado masculino. De acordo com Ligia, há candidatos que disputam justamente esse eleitor. "Existe essa população, e existe candidato para esse grupo", comenta.
Mulheres pesquisam mais
Apesar do cenário, Ligia diz que a pesquisa trouxe um dado importante: a percepção é de que as mulheres pesquisam mais sobre os candidatos antes de votar, o que o instituto também observa em pesquisas de mercado, seja na compra de um sapato, seja na troca de escola dos filhos. Esse comportamento também se nota na política.
Na avaliação de Lígia, essa autonomia se manifesta sobretudo nas escolhas para deputado e senador, em que há mais opções alinhadas a pautas específicas, como meio ambiente, educação ou combate à violência de gênero. Já nas disputas para presidente e governador, o voto tende a acompanhar o da casa, por falta de alternativas.
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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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