Guerra no Oriente Médio e tarifas impostas pelos EUA testam a unidade do Brics

Principais pontos

  • Após meses de divergências, 11 integrantes chegam a consenso e pedem “máxima contenção” no Oriente Médio.
  • Bloco critica tarifas unilaterais e avança nas discussões para ampliar pagamentos e negócios em moedas locais.
  • Proposta de Brasil e África do Sul para criação de painel internacional sobre desigualdade entra na declaração final.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, recebeu líderes como os presidentes Xi Jinping, da China, e Vladimir Putin, da Rússia.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, recebeu líderes como os presidentes Xi Jinping, da China, e Vladimir Putin, da Rússia.
Source: Divulgação/ Ministério de Relações Exteriores da Índia

A guerra no Oriente Médio e as tarifas impostas pelos Estados Unidos atravessaram as discussões da 18ª Cúpula do Brics, realizada neste fim de semana (12 e 13), em Nova Délhi, na Índia, e colocaram à prova a capacidade do bloco de construir posições comuns entre países com interesses políticos e econômicos distintos.

Anfitrião do encontro, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, recebeu líderes como os presidentes Xi Jinping, da China; Vladimir Putin, da Rússia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; e Masoud Pezeshkian, do Irã. O Brasil, que exerceu a presidência do Brics em 2025, foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

O encontro resultou na Declaração de Nova Délhi, documento de 140 parágrafos que reúne posições sobre os conflitos internacionais, comércio, reforma das instituições multilaterais, sistemas de pagamento, saúde e inteligência artificial, entre outras áreas de cooperação.

Intensa negociação para acordo sobre o Oriente Médio

O consenso sobre o Oriente Médio foi um dos mais difíceis. Em maio, uma reunião de chanceleres do Brics terminou sem uma declaração conjunta diante das divergências sobre a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. O impasse envolvia especialmente o regime iraniano e o dos Emirados Árabes Unidos, integrantes do bloco que ocupam posições opostas no conflito.

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As diferenças persistiram até os dias anteriores à cúpula. O Irã buscava uma condenação mais explícita aos Estados Unidos e a Israel, enquanto os Emirados defendiam que os ataques iranianos também fossem condenados. Depois de meses de negociações, os 11 integrantes do bloco chegaram a uma formulação comum.

A solução foi um texto que evita responsabilizar diretamente os países envolvidos. A Declaração de Nova Délhi manifesta “profunda preocupação” com a escalada das tensões, pede “máxima contenção” e defende diálogo e diplomacia para alcançar paz, segurança e estabilidade duradouras na região.

O documento também ressalta a necessidade de proteger civis e infraestrutura civil, respeitar a soberania e a integridade territorial dos países e preservar o fluxo do comércio, das cadeias globais de abastecimento e de energia.

A declaração é mais específica ao tratar das instalações nucleares. Os países manifestam preocupação com ataques deliberados contra infraestrutura civil e instalações nucleares destinadas a fins pacíficos e submetidas às salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica. O Brics afirma que a segurança dessas instalações deve ser preservada inclusive durante conflitos armados.

A cúpula também abriu espaço para uma aproximação direta. Pezeshkian reuniu-se com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, à margem do encontro.

Gaza e Estado palestino

A situação dos palestinos também ocupa espaço importante na declaração. O Brics defende a manutenção do cessar-fogo e o acesso humanitário pleno e sem obstáculos à Faixa de Gaza, rejeita o deslocamento forçado da população palestina e reafirma apoio à solução de dois Estados.

O documento defende ainda a entrada da Palestina como membro pleno das Nações Unidas e um Estado palestino independente e viável, dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas de 1967, incluindo Gaza e Cisjordânia e tendo Jerusalém Oriental como capital.

Xi volta à Índia após sete anos

Além das negociações entre os integrantes do Brics, a cúpula abriu espaço para encontros bilaterais entre algumas das maiores potências do grupo.

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Xi Jinping voltou à Índia depois de sete anos. A visita ocorreu após um longo período de tensão entre Pequim e Nova Délhi, agravado pelos confrontos entre tropas dos dois países na fronteira do Himalaia em 2020.

Modi e Xi discutiram a recuperação das relações bilaterais, a disputa na fronteira, comércio e acesso aos mercados. Os dois defenderam que as diferenças entre China e Índia não se transformem em disputas. Xi também pediu uma atuação maior do Brics na busca da paz no Oriente Médio e criticou tarifas indiscriminadas e medidas protecionistas.

Modi também se reuniu com Vladimir Putin. No encontro, realizado no dia 11, às vésperas da abertura formal da cúpula, os dois discutiram comércio, energia, defesa, espaço e outras áreas da relação entre Índia e Rússia. Também conversaram sobre os conflitos no Oriente Médio e na região do Mar Negro e seus impactos sobre o comércio marítimo.

A guerra contra a Ucrânia entrou, portanto, nas conversas entre os líderes. Modi voltou a defender diálogo e diplomacia para solucionar os conflitos e reiterou a disposição da Índia de contribuir para esforços de paz. A guerra iniciada pela invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, porém, não recebeu uma referência específica na Declaração de Nova Délhi.

Brasil leva desigualdade e reforma da ONU à declaração

Sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil foi representado por Mauro Vieira. Entre as propostas de interesse brasileiro incorporadas ao resultado da cúpula está a criação de um painel internacional sobre desigualdade, iniciativa apresentada em conjunto por Brasil e África do Sul para produzir conhecimento e recomendações voltados ao enfrentamento das disparidades econômicas e sociais.

Outra pauta histórica da diplomacia brasileira aparece no capítulo sobre a reforma da governança internacional. O Brics defende mudanças nas Nações Unidas e em instituições como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio (OMC), com maior representação dos países em desenvolvimento.

China e Rússia, integrantes permanentes do Conselho de Segurança da ONU, reiteraram apoio às aspirações de Brasil e Índia de exercer um papel maior nas Nações Unidas, inclusive no Conselho de Segurança. O documento, porém, não afirma expressamente que os dois países devam receber assentos permanentes.

A posição sobre comércio também toca diretamente o Brasil. O país está entre as economias atingidas pelas medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos. Na declaração, os integrantes do Brics manifestam “sérias preocupações” com tarifas e medidas não tarifárias unilaterais consideradas incompatíveis com as regras da OMC.

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Vieira afirmou durante a cúpula que o sistema de governança global passa por um “colapso” e defendeu um “multilateralismo renovado e legítimo”. A reforma das instituições internacionais, a defesa das regras multilaterais de comércio e o combate à desigualdade ficaram, assim, entre os pontos defendidos pelo Brasil que aparecem no resultado do encontro.

Tarifas entram na mira do Brics

Embora não mencione os Estados Unidos no trecho sobre comércio, a declaração critica tarifas e outras medidas unilaterais consideradas incompatíveis com as regras da OMC.

Segundo o documento, essas barreiras podem reduzir o comércio, romper cadeias globais de suprimentos e ampliar as desigualdades econômicas. O Brics também condena medidas coercitivas unilaterais contrárias ao direito internacional, incluindo sanções econômicas e sanções secundárias não autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU.

A posição ganha peso diante das políticas comerciais dos Estados Unidos, que atingiram algumas das maiores economias do grupo, entre elas China, Índia e Brasil.

O Brics reafirmou ainda a defesa de um sistema multilateral de comércio centrado na OMC e pediu avanços na reforma da organização.

Mais negócios em moedas locais

Os países decidiram continuar as discussões para ampliar o uso de suas próprias moedas no comércio e nos investimentos entre integrantes do Brics.

O trabalho envolve mecanismos de pagamentos internacionais e maior interoperabilidade entre sistemas nacionais, com o objetivo de tornar as transações mais rápidas, baratas, acessíveis e seguras. A declaração ressalta que as soluções devem respeitar as prioridades e as legislações de cada país, sem um modelo único para todos.

O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do Brics, também é incentivado a ampliar seus financiamentos em moedas locais.

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Saúde e inteligência artificial

Na área da saúde, uma das iniciativas é avançar na criação de um sistema integrado de alerta precoce para prevenir e responder a grandes surtos de doenças infecciosas.

A declaração também trata de doenças transmitidas entre animais e seres humanos, resistência aos antimicrobianos, desenvolvimento de vacinas e cooperação em saúde digital.

Na inteligência artificial, os integrantes defendem maior cooperação para ampliar o acesso à tecnologia, especialmente no Sul Global, e avançar na discussão sobre a governança internacional da IA. O documento também prevê cooperação em infraestrutura pública digital.

China assume a presidência em 2027

A cúpula de Nova Délhi encerra a presidência indiana do Brics em 2026. A China assumirá a presidência rotativa do grupo em 2027 e sediará a 19ª Cúpula do Brics.

A Declaração de Nova Délhi registra o apoio dos demais integrantes à presidência chinesa e à realização do próximo encontro no país.

A passagem do comando para Pequim ocorre em um momento em que o Brics tenta ampliar seu peso na governança mundial sem eliminar as diferenças entre seus integrantes — diferenças que a guerra no Oriente Médio e as disputas comerciais com os Estados Unidos deixaram particularmente evidentes em Nova Délhi.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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