Exercício físico deve ser prescrito para cuidar da saúde mental, defendem cientistas

Principais pontos

  • Artigo publicado na revista científica “Brain Health” defende que exercícios sejam efetivamente incorporados aos tratamentos de saúde mental.
  • Pesquisadores apontam benefícios da atividade física para pessoas com depressão, ansiedade e transtornos psiquiátricos graves, além de efeitos positivos sobre a cognição.
  • Proposta é substituir recomendações genéricas por prescrições individualizadas, com orientação sobre tipo de exercício, frequência, intensidade e acompanhamento médico.
Artigo científico defende que exercícios sejam prescritos de forma individualizada.
Artigo científico defende que exercícios sejam prescritos de forma individualizada.
Source: Unsplash/ Alexandra Tran

A prática de exercícios deve deixar de ser apenas uma recomendação para uma vida saudável e passar a integrar formalmente os tratamentos médicos voltados à saúde mental e cerebral. É o que defendem pesquisadores em um artigo publicado nesta terça-feira, 3, na revista científica “Brain Health”. Para os autores, a atividade física precisa ser prescrita com o mesmo rigor aplicado a outras intervenções terapêuticas, considerando as condições e necessidades de cada paciente.

Intitulado “O exercício físico é fundamental para a saúde cerebral”, o artigo é assinado pelos psiquiatras Carl Zhou e Nicholas Fabiano, da Universidade de Ottawa, e Stanley Wong, da Universidade de Toronto, ambas no Canadá. Os pesquisadores analisam evidências científicas que relacionam a atividade física à redução de sintomas de depressão e ansiedade, à melhora da cognição e a benefícios para pessoas com transtornos mentais graves.

A proposta não é substituir medicamentos ou psicoterapia, mas reconhecer os exercícios como parte do cuidado, ao lado dos tratamentos já estabelecidos. Os autores argumentam que, apesar do conhecimento acumulado sobre os benefícios da atividade física, ela ainda ocupa um espaço secundário na prática clínica.

Uma das mudanças defendidas é abandonar orientações vagas, como simplesmente recomendar que o paciente se exercite mais. A prescrição deveria indicar a modalidade mais adequada, a frequência, a duração e a intensidade das atividades, além de prever acompanhamento e ajustes ao longo do tratamento.

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Benefícios vão além de combater  depressão e  ansiedade

Os efeitos da atividade física sobre a saúde mental têm sido investigados em diferentes grupos de pacientes. Estudos anteriores identificaram redução de sintomas depressivos e ansiosos, além de melhorias no sono, no humor e na qualidade de vida.

O artigo chama atenção também para pessoas com esquizofrenia e outros transtornos psiquiátricos graves. Nesses casos, os exercícios podem contribuir não apenas para o bem-estar psicológico, mas também para a saúde cardiovascular e metabólica, frequentemente comprometida por fatores associados à doença, ao tratamento e ao sedentarismo.

Os pesquisadores destacam ainda a relação entre atividade física e funcionamento cerebral. As evidências sugerem benefícios para a memória e outras funções cognitivas, além de associações entre uma vida fisicamente ativa e menor risco de declínio cognitivo. Isso, porém, não significa que os exercícios sejam capazes de impedir o desenvolvimento de demências.

O conjunto de resultados reforça a importância de considerar a saúde mental e a saúde física de maneira integrada, especialmente entre pacientes que convivem com doenças crônicas.

Até pequenas caminhadas podem ser um começo

A incorporação dos exercícios aos tratamentos não exige que todos os pacientes frequentem academias ou iniciem atividades intensas. Uma caminhada curta, inclusive de cinco minutos, ou um passeio com o cachorro podem representar o primeiro passo para pessoas sedentárias ou que enfrentam dificuldades de motivação.

A progressão deve respeitar as condições físicas, os sintomas e as limitações de cada pessoa. Para pacientes com depressão, por exemplo, a falta de energia e de disposição pode dificultar a adesão a uma rotina de exercícios. Por isso, metas pequenas e alcançáveis podem ser mais eficazes do que recomendações difíceis de cumprir.

A prescrição individualizada também permitiria acompanhar a evolução do paciente e adaptar as atividades conforme os resultados e as dificuldades encontradas.

O desafio de transformar evidências em tratamento

A principal questão levantada pelos autores é como fazer com que os benefícios já demonstrados pela ciência sejam efetivamente incorporados aos serviços de saúde.

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No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) já contempla práticas corporais e atividades físicas em ações de promoção da saúde, especialmente na atenção primária. A proposta discutida no artigo, porém, vai além do incentivo à movimentação: envolve integrar o exercício ao planejamento terapêutico, com objetivos clínicos definidos e acompanhamento profissional.

Essa abordagem exigiria articulação entre médicos, profissionais de educação física, fisioterapeutas e equipes de saúde mental, além de condições para que os pacientes mantenham as atividades ao longo do tempo.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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