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Estimulação cerebral pode ajudar a tratar obesidade, aponta estudo da USP
Principais pontos
- Pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, com apoio da Fapesp, testou a combinação de estimulação cerebral e educação nutricional em 22 mulheres com obesidade.
- O experimento identificou redução do desejo intenso por comida, com efeitos observados até seis meses depois, mas sem alterações significativas no peso.
- A técnica atua sobre uma região cerebral envolvida na tomada de decisões e no controle dos impulsos. Os resultados são preliminares e precisam ser confirmados em estudos maiores.

Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) identificou resultados positivos no uso de estimulação cerebral para reduzir o desejo intenso por comida em mulheres com obesidade.
O experimento combinou correntes elétricas de baixa intensidade com atividades de educação nutricional. Os pesquisadores observaram redução do desejo por comida após a intervenção, com efeitos identificados durante o acompanhamento de seis meses.
Os resultados abrem uma possibilidade de investigação para o desenvolvimento de terapias complementares contra a obesidade.
O estudo foi conduzido na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e publicado em setembro na revista científica "Physiology & Behavior".
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Trata-se de um experimento inicial, com um número pequeno de participantes, que ainda não permite afirmar que a técnica seja eficaz como tratamento.
A pesquisa parte de uma questão importante: a obesidade é uma doença crônica e complexa, influenciada por fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais e comportamentais.
Seu desenvolvimento não depende apenas da quantidade de alimentos consumidos ou da prática de atividades físicas. O funcionamento do cérebro também participa da regulação do comportamento alimentar, o que tem despertado o interesse dos cientistas em investigar novas possibilidades terapêuticas.
Por que estimular o cérebro?
O cérebro possui mecanismos que regulam a fome e a saciedade, mas também circuitos relacionados à recompensa e ao desejo por determinados alimentos. É por isso que uma pessoa pode sentir vontade intensa de comer mesmo quando não está com fome.
Esse impulso é conhecido como food craving, expressão em inglês utilizada para descrever o desejo intenso por alimentos específicos. Ele não deve ser confundido com a necessidade fisiológica de se alimentar.
Estudos anteriores de neuroimagem identificaram alterações na atividade de regiões cerebrais relacionadas ao controle dos impulsos e ao comportamento alimentar em pessoas com obesidade.
Uma delas é o córtex pré-frontal dorsolateral, localizado na parte anterior do cérebro e envolvido no planejamento, na tomada de decisões e na capacidade de regular comportamentos.
Há indícios de que essa região possa apresentar atividade reduzida em pessoas com obesidade. A hipótese investigada pelos pesquisadores da USP é que a estimulação elétrica consiga modificar temporariamente seu funcionamento e, assim, favorecer o controle do desejo intenso por comida.
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A técnica utilizada, chamada estimulação transcraniana por corrente contínua, consiste na aplicação de uma corrente elétrica muito fraca sobre o couro cabeludo, por meio de eletrodos. O procedimento não exige cirurgia e procura modificar a atividade das células nervosas da região estimulada.
Os cientistas também trabalham com outra hipótese: a estimulação pode favorecer temporariamente a capacidade do cérebro de aprender e modificar comportamentos.
Por isso, decidiram combinar as aplicações com atividades de educação nutricional. A intenção era investigar se a intervenção cerebral poderia contribuir para o aprendizado de estratégias de controle dos impulsos alimentares.
Esses mecanismos, porém, não foram medidos diretamente no experimento. Eles constituem a base científica que levou os pesquisadores a testar a técnica.
Como foi realizado o experimento
A pesquisa tem como primeira autora a nutricionista Marina Rodrigues Giuliani, do Laboratório de Estudos em Nutrição, Neurociências e Metabolismo da USP. Ela foi orientada por Vivian Marques Miguel Suen, professora do Departamento de Clínica Médica da FMRP-USP.
Participaram 22 mulheres, com idades entre 20 e 40 anos e obesidade de graus 1 ou 2. Elas foram divididas aleatoriamente em dois grupos de 11 participantes. Um recebeu estimulação cerebral ativa, enquanto o outro passou por um procedimento simulado, utilizado para comparar os resultados.
Durante cinco dias consecutivos, as voluntárias participaram de três sessões diárias de 20 minutos, totalizando 15 aplicações. Nos intervalos, todas receberam orientações sobre alimentação, incluindo temas como saciedade, leitura de rótulos, controle das porções, sono e diferenças entre fome física e emocional.
Os pesquisadores avaliaram o peso, a composição corporal, o apetite e diferentes aspectos do comportamento alimentar antes e depois da intervenção. As participantes também foram acompanhadas um, três e seis meses após o experimento.
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O que os resultados mostram
Entre as mulheres que receberam a estimulação ativa, houve redução do desejo imediato por comida ao final dos cinco dias. Outra medida, relacionada à tendência habitual de experimentar esses desejos, apresentou redução na avaliação realizada seis meses depois.
Não foram identificadas, entretanto, alterações significativas no peso, no índice de massa corporal (IMC) ou na proporção de gordura e massa magra das participantes. O experimento não tinha como objetivo provocar emagrecimento imediato e não incluiu uma dieta com restrição calórica.
Os dois grupos apresentaram melhora no controle consciente da alimentação e redução do comportamento alimentar descontrolado. Como todas as participantes receberam educação nutricional, os pesquisadores consideram que essas atividades podem ter contribuído para as mudanças.
Os resultados positivos precisam ser interpretados com cautela. Embora tenham sido observadas melhoras em determinadas avaliações, a análise estatística não demonstrou uma diferença global significativa entre os grupos nas medidas de desejo por comida. Portanto, ainda não é possível atribuir com segurança os efeitos à estimulação cerebral.
Também não foram registrados eventos adversos importantes durante o experimento.
Novos tratamentos
O interesse dos pesquisadores está na possibilidade de desenvolver uma ferramenta que atue sobre o comportamento alimentar e complemente os tratamentos já existentes. A obesidade envolve diferentes mecanismos biológicos e ambientais, e seu controle no longo prazo permanece um desafio, mesmo quando há perda de peso com medicamentos ou cirurgia.
“A ideia é que a estimulação possa funcionar como uma ferramenta complementar, ajudando a controlar o desejo por comida e, eventualmente, potencializando o efeito de outras terapias”, afirmou Vivian Marques Miguel Suen em entrevista à Agência Fapesp.
O estudo-piloto ainda apresenta limitações importantes, especialmente o pequeno número de participantes e as desistências registradas durante o acompanhamento.
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Também não foi possível demonstrar diretamente que a estimulação modificou os circuitos cerebrais envolvidos no controle dos impulsos.
O próximo passo dos pesquisadores será investigar outra técnica, a estimulação magnética transcraniana, em pessoas com obesidade e transtorno de compulsão alimentar. Esse procedimento utiliza pulsos magnéticos para influenciar a atividade de regiões cerebrais de maneira mais focal.
A expectativa é compreender melhor se intervenções sobre os circuitos relacionados ao comportamento alimentar podem contribuir para o tratamento da obesidade. Por enquanto, os resultados indicam uma possibilidade científica que precisa ser investigada, não uma terapia com eficácia comprovada.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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