Dificuldade de Lula pela reeleição segue tendência de ‘anti-incumbência’

Principais pontos

  • Flávio Bolsonaro abriu 1,87 ponto de vantagem sobre Lula no 1º turno de 2026, refletindo onda latino-americana de rejeição a quem governa.
  • Polarização e sensação de perda de poder de compra dificultam a reeleição, mesmo com economia positiva, como ocorreu com os democratas nos EUA em 2024.
  • Sem espaço nas terceiras vias e sem histórico de viradas, Lula precisa mobilizar os abstencionistas para tentar reverter o placar.
O presidente brasileiro e candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva discursa após o primeiro turno das eleições presidenciais em São Paulo, Brasil, em 4 de outubro de 2026.
O presidente brasileiro e candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva discursa após o primeiro turno das eleições presidenciais em São Paulo, Brasil, em 4 de outubro de 2026.
Source: Julia Ju / Anadolu via AFP

A vantagem de 1,87 ponto percentual conquistada por Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições de 2026 expõe um desafio diretamente conectado ao ambiente político da América Latina. A necessidade de o petista reverter um placar desfavorável no segundo turno ocorre em meio a um histórico recente de forte rejeição aos governantes em exercício na região, na qual quem ocupa o poder tem enfrentado dificuldade para transformar a gestão pública em continuidade eleitoral.

Um levantamento da Bloomberg Línea que analisou as 30 eleições presidenciais mais recentes na América Latina indica que os partidos governistas foram derrotados pela oposição em 22 oportunidades, uma taxa de insucesso de 73% que atingiu indistintamente administrações de esquerda e de direita.

A exceção à regra de punição sistemática ao incumbente restringiu-se a pouquíssimos casos no continente, como as reconduções diretas de Nayib Bukele em El Salvador, Luis Abinader na República Dominicana, Claudia Sheinbaum no México e Daniel Noboa no Equador.

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A cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), aponta que o padrão regional indica uma incapacidade recorrente das gestões públicas em converter a máquina do Estado em capital político permanente.

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"O eleitor cobra resultados e pode usar a alternância para punir quem governa, sem necessariamente aderir de maneira estável ao projeto da oposição. Por isso, derrotas de governos de esquerda e de direita são compatíveis com uma dinâmica comum de insatisfação", afirma.

Apesar do peso regional, a disputa no Brasil segue regras próprias. Enquanto em outros países da América Latina surgiram novos nomes para puxar o voto de protesto, a política brasileira continua dividida entre os dois grupos consolidados desde 2018: o petismo e o bolsonarismo.

Para o cientista político Leandro Consentino, do Observatório da Política do Insper, o fortalecimento da polarização mudou a dinâmica das reeleições no Brasil. Até 2014, quando a ex-presidente Dilma Rousseff venceu uma disputa acirrada contra Aécio Neves, a competição ocorria em um espectro político mais próximo do centro.

"Existe essa dificuldade do incumbente de se manter no cargo, que já é tradicional e tem se acentuado nos últimos anos sob a turbulência política, econômica e pela polarização, que faz com que os governos sejam eleitos por margens pequenas. Essa polarização, somada a um contexto de crise de representação que a gente tem vivido, tornou a posição do incumbente muito mais frágil."

A situação atual é diferente dos primeiros anos da reeleição no Brasil, quando Fernando Henrique Cardoso (1998) e Lula (2006) venceram com folga. O cenário mudou a partir de 2014, com a crise econômica, os desdobramentos da Lava Jato e o crescimento da oposição de direita, que culminou na derrota de Jair Bolsonaro ao tentar se reeleger em 2022.

Luciana Santana aponta que a posição de presidente já não assegura a vitória eleitoral, pois a vantagem do cargo passou a conviver com uma oposição mais organizada.

"A aprovação de medidas do governo nem sempre se traduz em votos, já que o eleitor também considera identidade e posicionamento político. Assim, os recursos da administração pública deixaram de ser garantidores de maioria nas urnas", explica.

A situação do governo Lula também apresenta semelhanças com as eleições americanas de 2024, quando Kamala Harris, após substituir Joe Biden à frente da candidatura do partido Democrata, foi derrotada por Donald Trump.

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Segundo Leandro Consentino, em ambos os casos, a insatisfação do eleitorado apareceu mesmo em cenários de indicadores macroeconômicos positivos, como crescimento do PIB e desemprego baixo.

"Nos dois casos, os índices econômicos não eram ruins nas planilhas. Mas, tanto nos EUA de 2024 quanto no Brasil de 2026, vimos uma sensação de mal-estar do ponto de vista da população com relação ao governo e com relação à própria economia", afirma Consentino.

"É importante enfatizar que inflação menor não significa retorno aos preços anteriores. O eleitor compara quanto conseguia comprar, quanto paga por moradia e serviços e quanto sobra no fim do mês. Crescimento e emprego podem melhorar enquanto permanece a sensação de perda de poder de compra", complementa Luciana Santana.

O desafio histórico do segundo turno e o mapa da abstenção

Desde a adoção do sistema de dois turnos pela Constituição de 1988, o candidato que terminou a primeira etapa na segunda colocação nunca conseguiu virar o placar na votação decisiva.

A diferença de 1,87 ponto percentual representa cerca de 2,2 milhões de votos, mas o espaço para buscar apoio direto entre as candidaturas derrotadas é reduzido, já que Lula e Flávio Bolsonaro concentraram 92,19% dos votos válidos, deixando apenas 7,81% distribuídos entre os demais concorrentes.

A transferência automática dessa fatia, no entanto, é vista com ceticismo no meio analítico. Levantamentos de intenção de voto do Datafolha realizados antes da votação no primeiro turno já mostravam que eleitores de nomes da terceira via -- como Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo) -- apresentavam uma inclinação significativamente maior a migrar para a candidatura de Flávio Bolsonaro do que para o projeto de reeleição petista.

Fechadas as urnas, Zema (Novo) e Caiado (PSD) declararam apoio a Flávio contra o PT. Já Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) liberaram os eleitores ou preferiram a neutralidade.

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Com o teto para atração desse eleitorado e com partidos de centro como União Brasil, PP e Republicanos formalizando adesão à candidatura do PL, a estratégia da campanha petista passou por uma reestruturação.

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Lula promoveu uma reformulação no comando da própria campanha após classificar a mobilização do primeiro turno como a "menos organizada" da qual participou desde 1989. O presidente escalou três lideranças com histórico de vitórias no Nordeste para integrar a coordenação decisória da campanha: o senador cearense Camilo Santana (PT), o senador eleito pela Bahia Rui Costa (PT), e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT).

A reação envolveu também uma mudança no engajamento digital. Para responder à vantagem expressiva da oposição nas plataformas digitais, a campanha montou um 'QG' em Brasília liderado por parlamentares jovens e influenciadores digitais para produzir conteúdos em formato mais direto, gravados pelo próprio presidente no cotidiano das agendas.

A necessidade de buscar quem não foi às urnas é apontada por Leandro Consentino como o único caminho viável para uma tentativa de virada no cenário atual.

"Não acho que haja muito espaço para buscar votos nas candidaturas de terceira via. Lula tem que buscar no único lugar que sobrou: aqueles que se abstiveram no primeiro turno. Tentar -- seja pela parte positiva, mostrando realizações, ou pela parte negativa, apontando ameaças do outro lado", avalia Consentino.

Sobre o comportamento das alianças formais e a heterogeneidade desse eleitorado disputado, Luciana Santana alerta que apoios partidários não garantem transferência automática de votos, especialmente quando a insatisfação com a política tradicional dificulta a formação de maiorias estáveis.

"Apoios anunciados por candidatos e partidos não transferem automaticamente seus votos. Esses conjuntos de eleitores são heterogêneos", ressalta a professora.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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