Crise entre Brasil-EUA é a pior desde redemocratização, mas ruptura é improvável, dizem especialistas

O Departamento de Estado dos Estados Unidos revogou nesta terça-feira, 4, o visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. É a primeira vez que uma medida desse tipo atinge o chefe da representação diplomática brasileira nos EUA desde a redemocratização.
O episódio marca o ápice, ao menos até aqui, de uma escalada que começou pouco depois de Donald Trump reassumir a Casa Branca, em 2025, e que se desdobrou no tarifaço que sobretaxou produtos brasileiros em 40%, além da alíquota geral de 10%, na revogação dos vistos de oito ministros do STF sob a alegação de perseguição política a Jair Bolsonaro, na ampliação da lista a integrantes do primeiro escalão do governo Lula e, dos dois lados, na negação de vistos diplomáticos e de entrada.
“Estamos vivendo o pior momento das relações entre o Brasil e os Estados Unidos pós-redemocratização”, avalia Leandro Consentino, especialista em Relações Internacionais e professor de Ciências Políticas do Insper.
Entender a revogação exige rastrear a própria origem desse atrito bilateral, que remonta a 2025. Naquele ano, meses após o ex-deputado Eduardo Bolsonaro viajar aos Estados Unidos buscando apoio da administração Trump contra o julgamento de seu pai no STF, o Brasil acabou incluído no tarifaço anunciado pela Casa Branca, resultando em uma sobretaxa de 40% sobre os produtos brasileiros.
A medida, segundo Trump, foi motivada pelo julgamento de Jair Bolsonaro no STF, que ele classifica como uma perseguição política promovida pelo judiciário brasileiro contra o ex-presidente, condenado meses depois a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Em julho de 2025, o Departamento de Estado revogou os vistos de oito ministros do STF – entre eles Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Edson Fachin, Flávio Dino e Gilmar Mendes –, sob a alegação de perseguição política ao ex-presidente.
A lista de autoridades brasileiras impedidas de entrar em território americano cresceu ao longo do ano e passou a incluir integrantes do primeiro escalão do governo Lula, caso do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O impasse do agrément
O episódio que precipitou a revogação do visto de Viotti começou em 1º de junho, quando Trump indicou Daniel Perez, parlamentar estadual da Flórida e aliado do secretário de Estado Marco Rubio, para chefiar a embaixada americana em Brasília.
O nome teve o aval de uma comissão do Senado dos Estados Unidos, mas ficou embargado no Itamaraty, que ainda não concedeu o agrément – anuência formal que o país anfitrião dá antes da posse definitiva de um embaixador.
O governo brasileiro sustenta que os Estados Unidos quebraram o protocolo ao tornar pública a indicação de Perez antes de solicitar o agrément ao Itamaraty, o que violaria o artigo 4º da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, tratado de 1961 ratificado por ambos os países. Os Estados Unidos negam irregularidade e dizem ter mantido contato contínuo com autoridades brasileiras nas últimas semanas para destravar a nomeação.
Dez dias antes da revogação do visto de Viotti, o Itamaraty já havia negado vistos de entrada a dois funcionários do Departamento de Estado – o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson –, sob a justificativa de que planejavam questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro. O Departamento de Estado cita o episódio como parte da lógica de reciprocidade que fundamentou a decisão sobre Viotti.
Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, a justificativa americana oculta a real intenção de Washington: pressionar o Brasil a ceder no agrément. “É um eufemismo diplomático. Não há precedentes para o cancelamento do visto de um embaixador em exercício como resposta à postergação, o que configura uma coerção explícita e enfraquece o status quo da Convenção de Viena”, sintetiza.
Autoridades americanas fizeram questão de diferenciar a medida de uma expulsão formal. A revogação do visto não equivale à declaração de persona non grata, mecanismo previsto na Convenção de Viena para a retirada compulsória de um chefe de missão. Viotti segue investida no cargo pelo Estado brasileiro e pode permanecer em solo americano. Sem visto válido, porém, ela não poderá retornar aos Estados Unidos caso deixe o país, e o documento só deve ser restabelecido com a concessão do agrément a Perez.
Enquanto a embaixada brasileira em Washington continua funcionando normalmente, o posto americano em Brasília segue sem embaixador titular, chefiado pela encarregada de negócios interina Kimberly Kelly.
Dimensão política
A escalada ocorre a dois meses do pleito presidencial de outubro, no qual Lula disputa a reeleição, tendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como o principal adversário.
Na semana anterior ao anúncio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro esteve em Washington para uma série de conversas com autoridades do governo Trump. No dia 29 de julho ele apareceu na Blair House, a residência oficial onde os Estados Unidos hospedam líderes estrangeiros, num encontro que reuniu lideranças evangélicas e contou também com a presença de Netanyahu.
Segundo a colunista Bela Megale, d'O Globo, dias depois desse encontro Eduardo e Paulo Figueiredo já sabiam, por meio de conversa reservada com um representante do Departamento de Estado, que o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti seria revogado antes mesmo de o Itamaraty ser oficialmente comunicado.
Após a medida vir a público, tanto Eduardo quanto o senador Flávio Bolsonaro atribuíram a responsabilidade pela crise ao Palácio do Planalto. Em vídeo publicado nas redes horas depois do anúncio, Eduardo disse que Lula está "escalando um atrito proposital" por acreditar que isso favorece sua candidatura, e repetiu a acusação feita por Marco Rubio de que o governo brasileiro não teria negociado de boa-fé com Washington.
Já Lula, em entrevista aos podcasts Meteoro Brasil e Os Três Elementos, chamou a decisão americana de “irresponsável” e “impensada” para dois países, e reclamou que os Estados Unidos deixaram o posto de embaixador em Brasília vazio por um ano e meio antes de cobrar pressa do Brasil para aprovar o nome de Daniel Perez.
O presidente também revelou ter orientado o chanceler Mauro Vieira a suspender a agenda de recebimento de embaixadores até depois da eleição, decisão que, segundo ele, vale para representantes de qualquer país, não só dos EUA.
Para Regiane Bressan, o episódio mostra os Estados Unidos usando política externa para resolver questões internas, ao tentar influenciar uma eleição em outro país, ao mesmo tempo em que coloca o governo brasileiro na posição de defender a soberania nacional sem perder apoio da própria base eleitoral.
O governo brasileiro convocou uma reunião nesta quarta-feira para definir a resposta aos Estados Unidos, sob o princípio da reciprocidade. Entre as alternativas em avaliação está uma medida espelhada na área de vistos ou outra ação de peso diplomático equivalente, opção dificultada pelo fato de os Estados Unidos não terem, no momento, um embaixador em exercício em Brasília.
"Caso o impasse continue, os próximos passos podem englobar a imposição de sanções, aplicação de barreiras tarifárias e o rebaixamento formal no nível de representações bilaterais”, avalia Bressan.
Consentino, no entanto, vê a hipótese de uma ruptura definitiva como remota, por conta do interesse comercial, econômico e até militar que ambos os países têm em preservar a relação.
"Esse conflito tem prazo de validade e, à medida que o processo eleitoral for concluído, a tendência é que o Brasil e os Estados Unidos voltem a ter boas relações."
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