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Conheça o primeiro manual de jornalismo indígena do Brasil

Principais pontos

  • "Poranga Marandúa" (“Boa Notícia”) é o nome do primeiro Manual de Redação do Jornalismo Indígena, recém lançado pela Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas.
  • O documento busca posicionar os comunicadores indígenas como agentes especializados no debate público.
  • Além disso, funciona como ferramenta antirracista e educativa para a imprensa e para os cursos de jornalismo, estabelecendo diretrizes éticas para a cobertura de pautas indígenas.
Luciene Kaxinawa, jornalista e apresentadora.
Luciene Kaxinawa, jornalista e apresentadora, é coordenadora-geral da Abrinjor, Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas.
Source: Reprodução/ Instagram/ @lucienekaxinawa
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Entender as raízes e acompanhar a evolução do povo brasileiro é extremamente importante para disseminar informação sobre o que anda acontecendo nos mais diversos cantos deste país tão diversos. O jornalismo e a educação cumprem parte disso. E agora ganharam uma ferramenta valiosa para explorar essas vertentes a partir da perspectiva indígena.

É o “Poranga Marandúa – Manual de Redação do Jornalismo Indígena”, lançado neste mês na Câmara dos Deputados, em Brasília.

O título não é por acaso.“Boa notícia" é o significado da expressão Poranga Marandúa, na língua Nheengatu, da família Tupi-Guarani.

A iniciativa partiu da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), em parceria com mais de 40 povos indígenas. A primeira edição do Poranga Marandúa pode ser acessada online, de forma gratuita.

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“Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias”, reforça Luciene Kaxinawá, coordenadora da Abrinjor.

Sônia Kaingáng, jornalista indígena pioneira e comunicadora do Inka, reforça que o manual é um instrumento de trabalho para jornalistas de todo o país, mas também um material educativo.

Isso tem um impacto direto nas escolas de jornalismo, como explica a pesquisadora e comunicóloga Andreza Baré. “Essa é uma grande oportunidade para os currículos, para as ementas dos cursos de jornalismo, incluírem esse manual como uma ferramenta pedagógica de redação antirracista para falar de povos indígenas e de outros povos e comunidades tradicionais", defende.

O manual Poranga Marandúa foi criado pela Abrinjor em parceria com mais de 40 povos indígenas.
O manual Poranga Marandúa foi criado pela Abrinjor em parceria com mais de 40 povos indígenas.
Source: Reprodução/ Poranga Maranduá

O objetivo do manual pode ser resumido em dois pontos principais:

  • Colocar os povos indígenas, enquanto coletividade organizada, dentro do campo de disputa da comunicação, como agentes especializados na temática que diz respeito a esses povos;
  • Orientar os não indígenas sobre práticas, conceitos e abordagens ao cobrir ou dirimir sobre temática indígena no espaço da imprensa e da mídia como um todo.

Os organizadores do documento explicam que o manual chega em um momento no qual a comunicação indígena vive um momento de afirmação e crescimento. 

É um cenário com mais jornalistas e comunicadores indígenas atuando na grande imprensa, veículos de comunicação indígenas digitais e assessorias de comunicação de organizações indígenas e não indígenas – cobrindo desde questões culturais até pautas políticas. 

O manual defende que o jornalismo indígena não é uma editoria ou um jornalismo étnico específico. É, sim, uma prática transversal e integradora, que comunica desde a resistência e denúncia de violações até vivências positivas e afirmativas dos povos indígenas.  

Além disso, promove uma comunicação de pertencimento, pautada na autonomia narrativa, no respeito às lideranças e no compromisso com as gerações futuras.

Aprende-se, por exemplo, que o jornalismo indígena se constrói a partir de três bases fundamentais:

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  1. Base ancestral – caracterizada pela tradição oral e pelos saberes transmitidos pelos anciões, sendo a oralidade e a escuta ativa pilares essenciais.
  2. Processos históricos de formação e influência dos primeiros comunicadores populares e escritores indígenas das décadas de 1970 a 1990, responsáveis por estabelecer as primeiras referências escritas e visuais dos povos indígenas em veículos próprios.
  3. Formação acadêmica – na qual técnicas jornalísticas são absorvidas, mas constantemente adaptadas às realidades específicas indígenas

O que jornalistas não indígenas podem aprender

O público-alvo, no entanto, não são apenas indígenas jornalistas, mas comunicadores de uma maneira mais ampla.

Isso porque um dos propósitos do manual é contribuir para que os jornalistas, em geral, ao cobrir a pauta indígena, estabeleçam condutas comprometidas com o combate a injustiças e estereótipos. 

Para tanto, o Poranga Marandúa traz uma série de orientações profissionais da comunicação, no que diz respeito a temas associados aos povos indígenas.

Entre os tópicos destrinchados no manual estão:

  • Respeito entre os pares (jornalistas não indígenas e indígenas jornalistas) – essa relação precisa ser de colaboração horizontal.
  • Uso de fontes, dados e informações nas pautas e produções sobre os povos indígenas que sejam, preferencialmente, de organizações indígenas, especialistas indígenas ou de lideranças das comunidades.
  • Na cobertura de violações de direitos humanos, avaliar de forma cuidadosa e ética a exposição pública da liderança ou membro indígena responsável pela denúncia, considerando os riscos à integridade e à segurança da fonte, da sua família e da sua comunidade.
  • Seguir as normas e diretrizes éticas de reprodução de imagem. A Abrinjor alerta, particularmente, para as ameaças da fetichização de povos indígenas isolados ou de recente conto.
  • Considerar os calendários e agendas culturais das comunidades indígenas em visitas aos territórios, solicitando autorizações das comunidades, associações e órgãos oficiais, quando necessário.
  • Valorizar a diversidade linguística dos povos indígenas na transcrição de falas.
  • Evitar estereótipos, racismo e narrativas reducionistas sobre os povos indígenas.

“O Poranga Marandúa – Manual de Redação do Jornalismo Indígena é fruto de um processo político, epistemológico e cultural que vem sendo construído pelos povos indígenas ao longo de décadas de luta por reconhecimento, direitos e autodeterminação narrativa. Ele é a expressão do momento em que os povos indígenas passam ocupar o campo da comunicação como sujeitos da narrativa e não apenas como objetos da notícia”, afirma a educadora, pesquisadora e gestora pública indígena Rita Potyguara, no prefácio. 

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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