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As bets e a saúde pública: custos para sociedade já estão na casa dos bilhões
Principais pontos
- Duas histórias pessoais mostram os efeitos devastadores de quem se envolve com apostas de quota fixa.
- A estimativa de custo para tratar os danos de saúde gerados às pessoas por problemas associados a apostas e jogos de azar chega à cifra de R$ 30,6 bilhões por ano para a sociedade, mostra levantamento.
- O SUS anunciou a expansão das medidas de atendimento à população relacionada ao vício em bets.
“Apesar de jogar todos os dias escondido e não conseguir dormir por ansiedade, eu não percebi que estava viciado em bets. Pedia adiantamento todo o tempo e trabalhava com a cabeça no jogo. Perdi o emprego por isso. Mentia a todos e quase perdi tudo. Cheguei a pensar em me matar, mas não tive coragem”, diz o motoboy autônomo Jonnattan Samuel Azevedo Silva de Oliveira, 24 anos.
Ele começou a jogar com 18 anos após ver um programa de televisão que prometia ganhos extras aos vencedores. “Depois disso, contratei um curso online por R$ 100 que ensinava a ganhar nas bets. Passei a seguir os influencers que contavam como fazer dinheiro com as bets e não consegui mais parar de apostar. Eu deixei de perceber o valor do dinheiro, R$ 100 dava no mesmo que R$ 1 mil. Já não pensava mais”, conta o motoboy.
Diagnosticado com ludopatia (vício em apostas online), o caso de Jonnattan se soma ao de milhões de brasileiros. São cerca de 12,8 milhões de pessoas em situação de risco com relação a apostas, segundo o dossiê "A saúde dos brasileiros em jogo: análise político-econômica da regulamentação de apostas online e seus impactos para a saúde da população brasileira", do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas da Saúde), que utilizou dados do Lenad III (2025) - Levantamento Nacional de Álcool e Drogas – da Universidade Federal de São Paulo.
Motivação
“A expectativa de mudança de vida rápida, o celular no bolso, os influenciadores e os mecanismos digitais propiciam o comportamento compulsivo e geram vícios. Esses são alguns dos componentes da epidemia que estamos vendo no país”, diz Felix Henrique Paim Kessler, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da UFGRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e chefe do serviço de psiquiatria de adições do HCPA (Hospital de Clínicas de Porto Alegre).
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O especialista faz questão de ressaltar que não se trata de um termo hiperbólico quando se fala em epidemia. “A quantidade de usuários aumentou muito desde a regulamentação dos jogos. Essa legalização trouxe um aumento exponencial de apostadores. E, o pior, as crianças já têm contato com esses mecanismos digitais viciantes”, afirma Kessler.
O psiquiatra cita o exemplo do "loot boxes", as chamadas "caixas de recompensa" que concedem vantagens surpresas no meio dos jogos eletrônicos. Segundo Kessler, esse mecanismo leva a hábitos compulsivos, considerados manipulativos, assim como a rolagem infinita e a reprodução automática de vídeos. O ECA Digital (Lei nº 15.211/2025) — popularmente conhecida como “Lei Felca” — proibiu todas as estratégias consideradas manipulativas.
A regulamentação dos jogos de apostas online e de quota fixa no Brasil foi estabelecida pela L14790 - Planalto, de dezembro de 2023, e define normas de operação, tributação e exigências de sede no país para as empresas autorizadas. Atualmente, existem 188 marcas de bets autorizadas a operar legalmente no Brasil, confira a lista aqui.
Aumento expressivo dos casos
Devido ao crescimento expressivo de casos de pessoas que são encaminhadas pelos postos de saúde da rede pública por problemas relacionados a bets ao Ambulatório de Psiquiatria de Adições, o Hospital das Clínicas de Porto Alegre montou, há três meses, um grupo especializado para atendimento dessas pessoas encaminhadas pela rede pública. “O perfil é claro. Essas pessoas se matam de trabalhar na expectativa de mudar de vida, mas isso não vem. Olham para o Instagram e veem os influencers mostrando a vida que eles querem ter. Então, buscam um atalho nas bets”, explica o psiquiatra.
Rede púbica carregada
O SUS (Sistema Único de Saúde) anunciou, no início de agosto, expansão das medidas de atendimento à população relacionada ao vício em bets. O número de teleatendimentos mensais a pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas online aumentou de 600 para 100 mil atendimentos.
“O serviço começou a ser ofertado em março, com uma média de 600 teleatendimentos mensais. A expansão se fez necessária em razão da alta procura”, informa o Ministério da Saúde.
A ferramenta é oferecida por meio do aplicativo Meu SUS Digital, em parceria com o Ministério da Fazenda e a AgSUS (Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS).
Conta para todos
A estimativa de custo para tratar os danos de saúde gerados às pessoas por problemas associados a apostas e jogos de azar chega à cifra de R$ 30,6 bilhões por ano para a sociedade, de acordo com o Ieps.
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No levantamento “A saúde dos brasileiros em jogo”, o instituto detalha os valores: os custos dos danos à saúde associados ao jogo são de R$ 17 bilhões relativos a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões relativos à depressão, sendo R$ 10,4 bilhões pela perda de qualidade de vida e R$ 3 bilhões em tratamentos médicos.
“As estimativas envolvem custos diretos para o Estado, mas também custos sociais indiretos, mais amplos, associados à perda de qualidade e duração de vida”, explica o Ieps.
Empresas alertam para o problema
Os problemas gerados pelas pessoas com vício em bets chegou aos departamentos de Recursos Humanos das empresas. De acordo com Inês Restier, diretora financeira da ABRH-SP (Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo), o vício em apostas não deve ficar circunscrito à esfera particular, como um problema pessoal do funcionário. Há um impacto silencioso que afeta todo o clima organizacional”, diz Inês, em publicação da associação. Ela cita os riscos associados à queda de produtividade, saúde mental, ética dos colaboradores.
Na saúde mental dos profissionais, os jogos podem gerar ansiedade, depressão diante do endividamento, insônia e isolamento social. “Também há conflitos entre colegas, desmotivação e aumento da rotatividade por demissões. Temos visto casos de desvio de recursos nas empresas”, completa a diretora financeira na publicação da entidade.
Influenciador
Kelvin dos Santos Araújo, 23 anos, é o melhor amigo de Jonnattan, que relatou sua história no começo desta reportagem. Ele conta que começou a jogar por influência da amizade.
“Eu entrei nisso por diversão. Jogava com regularidade, mas valores baixos, tipo R$ 20. Percebi que perdia mais do que ganhava. Entendi que tanto os influenciadores como as plataformas só fazem dinheiro com a gente. Quanto mais a gente perde, mais eles ganham. Não vale a pena”, afirma.
Kelvin se refere ao caso do influenciador Felipe Prior, que se tornou réu por publicidade enganosa, por receber comissão sobre o prejuízo dos apostadores que se cadastravam por meio de sua indicação.
“Eu só não me viciei por causa da minha mãe. Ela é ex-jogadora viciada em maquininhas de bar. Eu tive muitas experiências ruins na infância e o exemplo dela não me deixou entrar nesse problema das bets”, relata. Ele trabalha atualmente como líder de portaria numa empresa do setor de segurança. Começou com o jogo do tigrinho aos 18 anos e em plataformas não reguladas.
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“Muitas dessas plataformas retêm o dinheiro. Você não consegue sacar em menos de 24 horas. Nesse tempo, você acaba voltando a jogar por compulsão e perde tudo. Não importa se agora existem plataformas legalizadas. As bets deveriam ser proibidas”, defende.
Problema ainda maior
“O combate às bets ilegais foi um passo importante dado pelo governo. Mas seria importante a questão ser transversal, envolvendo outros órgãos do governo e não somente o Ministério da Fazenda. Afinal, trata-se de um problema que não está relacionado apenas à economia e ao nível de endividamento das pessoas, mas especialmente à saúde”, afirma o presidente do Procon de São Paulo, Luiz Orsatti Filho.
Em sua opinião, seria importante estabelecer uma coordenação conjunta entre os ministérios da Fazenda, Saúde e Justiça. Vinculado à Secretaria da Justiça e Cidadania do Governo de São Paulo, o Procon lançou em junho a campanha #ApostadorÉConsumidor para alertar a população sobre os direitos de quem faz apostas e jogos online.
A ação faz parte de um conjunto de iniciativas do órgão que já atende e direciona consumidores superendividados pelas bets. “Ajudamos no processo de renegociação de dívida. Jogo online não é investimento”, destaca Orsatti.
CPF
Perda de controle sobre o ato de jogar está entre os casos mais citados daqueles que acionaram a autoexclusão do CPF de sites e aplicativos de apostas. Dados do Ministério da Fazenda mostram que um milhão de pessoas fizeram esse pedido por meio da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta do Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas. Desse total, 35% dizem ter perdido o controle sobre as apostas.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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