As pesquisas erraram no primeiro turno? Entenda em duas análises

Principais pontos

  • Institutos de pesquisa davam vantagem a Lula contra Flávio Bolsonaro e não projetavam vantagens do bolsonarismo em estados como São Paulo e Rio de Janeiro.
  • Para Mauro Paulino, ex-diretor do Datafolha, decisões de última hora e 'voto envergonhado' explicam disparidades, e métodos têm sido desenvolvidos para compreender eleitor da direita.
  • Renato Dorgan, CEO do Travessia, avalia que 'sprint final' de Flávio beneficiou aliados diretos e consumou expressão de mudança levada às urnas.
Flávio Bolsonaro em carreata às vésperas do primeiro turno.
Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em carreata às vésperas do primeiro turno.
Source: Divulgação/ Campanha Flávio Bolsonaro

O primeiro turno das eleições brasileiras, realizado no domingo, 4, representou o segundo pleito nacional em que os resultados das principais pesquisas de intenção de voto ficaram distantes da expressão das urnas no país.

+Leia também: PL será a maior força do Congresso em 2027; veja como ficam Câmara e Senado

Esse fenômeno é registrado desde a disputa de 2022. Na primeira rodada do pleito, o presidente Lula (PT) teve 48,43% dos votos, e Jair Bolsonaro (PL), então candidato à reeleição, 43,20%. Na última rodada de levantamentos divulgada antes da votação, Ipec e Datafolha projetavam uma vitória do petista ainda no primeiro turno, com 14 pontos percentuais a mais do que o rival. Quaest e PoderData também mostravam Lula com uma dezena de pontos percentuais de vantagem sobre o incumbente.

O instituto que mais se aproximou do resultado foi a Paraná Pesquisas, que mostrava Lula com 47,10% das intenções de voto e Bolsonaro, com 40%, quatro dias antes da votação.

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Source: AFP

Naquela disputa, a disparidade entre os extratos fornecidos pelos institutos de pesquisas e a realidade também foi verificada em disputas por governos estaduais e cadeiras no Senado. No geral, os eleitores deram mais votos a concorrentes bolsonaristas e menos aos de esquerda na comparação com os levantamentos. 

O retrato foi associado por especialistas a um fenômeno chamado "voto envergonhado", em que eleitores não declaram sua pretensão em entrevistas, apenas na hora de votar; outros analistas consideraram que a metodologia dos institutos falhou em captar a expressão do eleitorado conservador.

Na prática, os números ampliaram a descrença do campo da direita nos institutos de pesquisa. Políticos da família Bolsonaro e outros associados ao discurso radicalizado especializaram-se em questionar os números divulgados pelos institutos ao comparará-los com resultados das urnas.

Presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o ministro Kassio Nunes Marques chegou a propor a criação de um "selo de acurácia" para institutos com base na comparação. A ideia, amplamente questionada por especialistas, não foi adiante.

E em 2026?

Na última semana, os principais institutos registraram Lula em vantagem numérica sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas sem superar a margem de erro. Foi o caso de pesquisas divulgadas por Quaest e Datafolha no sábado, 3, véspera do pleito, em que o petista teve 46% e 42%, respectivamente, ante 45% e 40% do opositor.

Nas urnas, 1,87 pontos separaram os adversários, com o bolsonarista em vantagem (veja os resultados no gráfico abaixo).

Nas disputas por outros cargos, no entanto, a dinâmica do pleito passado se reproduziu. Em São Paulo, o cenário de empate técnico apontado pelos institutos entre Guilherme Derrite (PP), André do Prado (PL), Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) por duas vagas no Senado resultou, nas urnas, em larga vantagem a favor dos dois primeiros, ambos eleitos com mais de 10 pontos percentuais de vantagem sobre a dupla de ex-ministras de Lula.

No Rio de Janeiro, a disparidade foi mais evidente. Na véspera da votação, o Datafolha mostrou o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) com 46% das intenções de voto e possibilidade de se eleger governador ainda em primeiro turno. As urnas, no entanto, deram 49,27% dos votos a Douglas Ruas (PL), aliado de Flávio Bolsonaro.

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Com o objetivo de compreender este cenário, o GSW Brasil buscou as análises de Mauro Paulino, que dirigiu o Datafolha por 35 anos e atualmente está à frente do instituto Brazil Pulse, e Renato Dorgan, que realiza pesquisas qualitativas em todas as regiões do país como CEO do Instituto Travessia.

Mauro Paulino

As pesquisas são retratos do momento em que são realizadas. Não fazem predições, mas diagnosticam o presente de acordo com as respostas emitidas pelos entrevistados, dentro de limites impostos pelas estatísticas. Não e possível captar o que ainda não se concretizou ou desvendar o que determinados indivíduos não estão dispostos a revelar. Esses limites devem ser considerados tanto por quem divulga quanto por quem interpreta os resultados.

Em todo o mundo, tem sido mais comum que o desempenho de candidaturas de direita surpreenda nas urnas. Isso pode se dar por diversos fatores que fogem do controle dos métodos de amostragem. Decisões de última hora são cada vez mais numerosas; a resistência de determinados grupos a responder aos institutos aumenta especialmente quando os líderes desses grupos disseminam essa desconfiança. São alguns fatores que podem explicar essas divergências.

Novos métodos -- em especial aqueles que usam a internet para coletar entrevistas -- têm sido desenvolvidos e testados como uma alternativa para captar de forma mais eficaz o comportamento desses grupos.

As próprias campanhas políticas utilizam comumente pesquisas qualitativas em associação aos trackings quantitativos. São formas eficazes de buscar as melhores estratégias de comunicação; mas essas análises são adequadas em discussões internas, pois geram conclusões a partir da subjetividade.

Renato Dorgan

Em primeiro lugar, há um abuso de publicação, em especial nos últimos dias de campanha, que conduz o eleitor em direção ao 'voto útil' e contribui para a aceleração de processos que não necessariamente ocorreriam no primeiro turno. 

No caso do Rio de Janeiro, a vinculação de Douglas Ruas com Flávio Bolsonaro se deu especialmente na reta final, o que afastou eleitores bolsonaristas que pretendiam votar em Eduardo Paes -- o candidato do PL era pouco conhecido -- e desidratou a candidatura do ex-prefeito da capital. Em resumo, o clássico "voto casado".

Em São Paulo, houve um efeito crucial da desistência de Ricardo Salles (Novo), definida dias antes do primeiro turno e que concentrou o eleitorado de Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito em primeiro turno com ampla vantagem, em Derrite e Prado. Ao mesmo tempo, assim como no Rio, o estado registrou um avanço muito relevante de Flávio Bolsonaro nos últimos dias de campanha, o que provocou um "efeito cascata" que beneficiou seus aliados na disputa por outros cargos.

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Não é possível afirmar que algum dos espectros ou grupos políticos majoritários explorou melhor os números que as pesquisas apresentavam. O PT tem uma dificuldade histórica em compreender ou dialogar outros setores ideológicos da sociedade, enquanto a direita radical se baseia especialmente em métricas das redes sociais, investindo menos em levantamentos qualitativos.

Na prática, o que as urnas produziram foi uma espécie de retorno ao cenário eleitoral de 2018, com a expressão de um anseio de ruptura do sistema e questionamento das instituições. Isso não estava projetado de forma tão fragorosa; os resultados das eleições para o Senado, por exemplo, revelam o desejo de enfrentamento ao Supremo, enquanto a eleição presidencial evidencia a busca pela derrota do Lula -- o que seria verificado mesmo com outro candidato que não Flávio.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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