A nova liderança da ONU está entre cinco latinos e um africano. Até o momento
Principais pontos
- Pela primeira vez, a disputa pelo cargo de secretário-geral reúne apenas candidatos do Sul Global. São seis aspirantes, dos quais quatro mulheres.
- No primeiro debate público, os candidatos defenderam uma ONU mais atuante na mediação de conflitos e menos dependente dos impasses do Conselho de Segurança. Em meio a isso, Trump teria defendido mais um nome: Gianni Infantino, presidente da Fifa.
- Reforma da organização, IA, mudanças climáticas e financiamento dominaram as propostas apresentadas no debate. A definição do novo líder acontecerá no fim deste ano.

Já começou a disputa pela sucessão do português António Guterres, secretário-geral da ONU, cujo mandato se encerra no fim deste ano. Na corrida, estão apenas candidatos do Sul Global. São cinco latino-americanos e um africano na busca pelo posto. Ou quatro mulheres e dois homens. Ao menos, até o momento. Na Carta da ONU, espécie de estatuto da organização, o artigo 97 estabelece que o secretário-geral é nomeado pela Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança. Não há regras sobre inscrições, prazos ou número de candidatos.
Os seis postulantes que já se apresentaram são Michelle Bachelet (ex-presidente do Chile), María Fernanda Espinosa (equatoriana que foi presidente da Assembleia Geral da ONU), Rafael Grossi (argentino é o atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica), Rebeca Grynspan (costa-riquenha que é hoje a secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD), Carolyn Rodrigues-Birkett (ex-chanceler da Guiana) e Macky Sall (ex-presidente do Senegal). Eles participaram, na quinta-feira, 23, do primeiro debate entre candidatos que foi transmitido pela internet.
Dentro de uma semana, os 15 integrantes do Conselho de Segurança devem se reunir a portas fechadas para analisar os nomes postos à mesa. Embora não existam favoritos por enquanto, pelo que se nota hoje nos bastidores da ONU, comenta-se que, em oito décadas de existência da ONU, nenhuma mulher ocupou o cargo de secretário-geral. Algumas entidades da sociedade civil que gravitam em torno da organização vêm defendendo que a sucessão de Guterres represente também esse marco histórico.
Em meio a isso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estaria defendendo a candidatura do ítalo-suíço Gianni Infantino, presidente da Fifa, ao cargo. A informação é do New York Post. Os dois se aproximaram por causa da Copa do Mundo. E vale lembrar que Infantino entregou a Trump o “Prêmio da Paz da Fifa”. Não se sabe quanto disso pode se tornar realidade. Pelas regras da ONU, porém, Infantino poderia entrar na disputa até mesmo nos 45 minutos do segundo tempo dessa disputa.
O novo líder da ONU enfrentará tarefas desafiadoras. Afinal, a organização enfrenta crise financeira e de confiança – com o próprio Trump atuando fortemente nesse sentido. Mas mesmo o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva já questionou o papel hoje da ONU diante dos impasses em relação a conflitos da atualidade, como a destruição que vem ocorrendo na Faixa de Gaza desde que Israel lançou sua ofensiva militar em resposta aos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, que deixaram cerca de 1.200 mortos e 251 reféns no sul do país.
Confira alguns temas do debate:
Como enfrentar guerras e um Conselho de Segurança frequentemente paralisado
O primeiro bloco foi dominado pela discussão sobre o papel do secretário-geral diante de conflitos em que o Conselho de Segurança permanece dividido, como Gaza e a crise no Estreito de Ormuz. Apesar de nuances diferentes, todos concordaram que o ocupante do cargo precisa ser mais ativo politicamente e não pode se limitar às resoluções do Conselho.
Michelle Bachelet (Chile) defendeu que o secretário-geral use todos os instrumentos previstos na Carta da ONU, como mediação, bons ofícios e enviados especiais, insistindo na negociação mesmo quando as chances de sucesso parecem pequenas. Ao ser questionada sobre Gaza, afirmou que a autoridade moral continua sendo indispensável, mas precisa ser acompanhada de presença em campo e da busca permanente por aliados e alternativas diplomáticas, incluindo maior uso da Assembleia Geral quando o Conselho estiver bloqueado.
Rafael Grossi (Argentina) afirmou que o problema não é a falta de instrumentos, mas a capacidade do secretário-geral de utilizá-los com credibilidade. Defendeu uma postura imparcial — que, segundo ele, não significa neutralidade passiva — e disse que o líder da ONU precisa ouvir todas as partes, compreender as causas dos conflitos e apresentar soluções concretas. Citou sua experiência à frente da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que conseguiu manter inspetores em uma usina nuclear em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia.
Rebeca Grynspan (Costa Rica) argumentou que o trabalho do secretário-geral começa justamente quando o Conselho de Segurança entra em impasse. Como exemplo, lembrou sua participação no acordo que permitiu a exportação de grãos pelo Mar Negro durante a guerra na Ucrânia e defendeu atuação precoce para evitar que conflitos regionais provoquem crises globais, como alta dos alimentos e da energia.
Como reformar uma ONU criticada por ser lenta, cara e pouco eficiente
Este bloco revelou consenso sobre a necessidade de reformas, mas diferenças quanto às prioridades.
María Fernanda Espinosa (Equador) propôs uma transformação estrutural da organização. Defendeu uma ONU mais enxuta, moderna e orientada por resultados, mas afirmou que a reforma precisa ir além de cortes orçamentários. Segundo ela, o desafio é criar um novo modelo de gestão que integre paz, desenvolvimento e direitos humanos, reduzindo a fragmentação entre áreas que hoje trabalham de forma isolada.
Macky Sall (Senegal) concentrou sua fala na governança interna. Disse que a organização acumula cerca de 40 mil mandatos e 27 mil reuniões anuais, o que exige revisão profunda dos métodos de trabalho. Para ele, a ONU precisa provar seu impacto e recuperar a confiança dos Estados-membros por meio de maior transparência e prestação de contas.
Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana) destacou a necessidade de fortalecer a Secretaria da ONU com mais tecnologia, melhor gestão e maior representatividade geográfica entre os funcionários. Também defendeu dar continuidade às reformas já iniciadas e aproximar a administração das necessidades dos países.
Já Michelle Bachelet, Rebeca Grynspan e Rafael Grossi convergiram na defesa de uma ONU mais ágil e eficiente, mas alertaram que a busca por economia não pode enfraquecer a capacidade operacional da organização.
Os novos desafios da ONU
Os candidatos discutiram inteligência artificial, mudanças climáticas, pandemias, financiamento e o crescente peso do setor privado nas decisões globais.
Rafael Grossi chamou atenção para a inteligência artificial. Ele afirmou que seria um erro copiar para a IA o modelo de fiscalização usado pela AIEA para a energia nuclear. Como os sistemas de IA são desenvolvidos por empresas e distribuídos em diversas jurisdições, defendeu uma plataforma internacional de cooperação para estabelecer regras comuns sem frear a inovação.
María Fernanda Espinosa afirmou que a mudança climática deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a influenciar conflitos, migrações, insegurança alimentar e crises humanitárias. Para ela, a principal falha não está na falta de conhecimento ou acordos internacionais, mas na implementação das medidas já aprovadas e no financiamento da adaptação climática.
Rebeca Grynspan defendeu que a ONU passe a trabalhar de forma mais integrada com governos locais, organizações da sociedade civil, universidades e empresas. Disse que a instituição precisa deixar de ser "orientada pela oferta" e passar a responder às demandas dos países, fortalecendo a atuação no terreno e ampliando o uso da inteligência artificial em áreas como prevenção de crises e proteção de populações vulneráveis.
Michelle Bachelet e Macky Sall também destacaram que o secretário-geral deve atuar como articulador entre governos, setor privado e comunidade científica para enfrentar desafios globais que nenhum país consegue resolver sozinho, enquanto Rodrigues-Birkett defendeu regras internacionais para garantir que a IA estimule a inovação sem comprometer direitos e empregos.
Quem já comandou a ONU antes
Veja secretários-gerais desde 1946
- Trygve Lie (Noruega) — 1946–1952
- Dag Hammarskjöld (Suécia) — 1953–1961
- U Thant (Myanmar, então Birmânia) — 1961–1971
- Kurt Waldheim (Áustria) — 1972–1981
- Javier Pérez de Cuéllar (Peru) — 1982–1991
- Boutros Boutros-Ghali (Egito) — 1992–1996
- Kofi Annan (Gana) — 1997–2006
- Ban Ki-moon (Coreia do Sul) — 2007–2016
- António Guterres (Portugal) — 2017–2026 (mandato termina em 31 de dezembro de 2026).
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.