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    <title>Global South World Brasil - transporte</title>
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    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>Aluguel, transporte, creche: iniciativa mostra o que isso tem a ver de fato com a economia do país</title>
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      <pubDate>Fri, 25 Sep 2026 13:15:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>A economia brasileira cresceu perto de 3% ao ano, em média, entre 2023 e 2025. A inflação acumulada em 12 meses, que chegou a 12,1% em abril de 2022, estava em 4,2% em agosto passado. E o desemprego recuou para 5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor para esse período desde o início da série histórica, em 2012. Ainda assim, para uma parcela da população, é difícil sentir melhora na vida no país quando chegam as contas do aluguel, do supermercado e do transporte. E também quando faltam dinheiro e tempo para cuidar dos filhos.</p>
<p>É justamente a distância entre os grandes números da economia e o cotidiano das pessoas que a iniciativa Vida em Conta quer colocar em discussão.  Lançada nesta semana por mais de 100 economistas e 60 organizações da sociedade civil, ela propõe que questões como moradia, transporte, cuidados, jornada de trabalho e qualidade do emprego tenham mais peso na formulação das políticas econômicas.</p>
<p>A iniciativa é articulada pela Plataforma Cipó, instituto brasileiro de pesquisa voltado a temas como clima, desenvolvimento sustentável e relações internacionais, e pelo Transforma, grupo ligado ao Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) dedicado à discussão de políticas econômicas e públicas.</p>
<p>Entre as organizações que integram a Vida em Conta estão Amazônia em Pé, Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades - Made/USP, Conselho Federal de Economia, Geledés - Instituto da Mulher Negra, Instituto Sou da Paz, Observatório Interdisciplinar das Mudanças Climáticas (OIMC-UERJ), Oxfam Brasil, Redes da Maré e União Nacional dos Estudantes. </p>
<p>Entre as lideranças da iniciativa estão Maiara Folly, diretora-executiva da Plataforma Cipó e especialista em desenvolvimento internacional, clima e governança global, e o economista Marco Antonio Rocha, diretor-executivo do Transforma e professor do Instituto de Economia da Unicamp.</p>
<p>“O crescimento econômico é fundamental, mas também importa como seus benefícios são distribuídos. Uma economia bem-sucedida é aquela que reduz desigualdades e transforma as capacidades e riquezas do país em avanços tecnológicos, empregos de qualidade e melhores condições de vida para a população”, afirmou Maiara à  Agência Brasil.</p>
<h2>Por que nem todos sentem melhoras?</h2>
<p>Esse é um dos pontos de partida da iniciativa. Crescimento, inflação e emprego têm consequências concretas sobre a vida da população. A questão levantada pela Vida em Conta é que bons indicadores macroeconômicos não se transformam automaticamente em sensação de prosperidade.</p>
<p>Custo de vida, endividamento e dificuldades para melhorar de vida continuam pesando na percepção das famílias.  Em outras palavras, saber quanto uma pessoa ganha ou quanto a economia cresceu não conta toda a história. É preciso observar também quanto custa morar, chegar ao trabalho, cuidar da família e ter acesso a serviços essenciais.</p>
<p>Por isso, a Vida em Conta organizou a discussão em torno de cinco eixos, que constam do documento  "Diretrizes para um projeto de país justo, sustentável e soberano".   O grupo pretende também apresentar medidas para os primeiros cem dias do próximo ciclo de governo. </p>
<h2>1. Desigualdade: saber para quem a economia melhora</h2>
<p>O primeiro eixo propõe que diferenças de renda, riqueza, gênero, raça e território sejam consideradas na elaboração do orçamento e das políticas públicas.</p>
<p>A ideia é não medir uma política apenas pelo volume de dinheiro gasto ou pelo número total de pessoas atendidas. Também seria necessário observar quem recebeu seus benefícios, quem suportou seus custos e se os resultados ajudaram a diminuir ou ampliar desigualdades.</p>
<p>Os números mostram por que isso importa.  Em 2024, os homens recebiam, em média, 27,2% mais que as mulheres. Pessoas brancas recebiam 65,9% mais que pretos ou pardos. E o rendimento médio por pessoa do 1% mais rico era 36,2 vezes o dos 40% mais pobres.</p>
<p>No Nordeste, que representava 26,9% da população brasileira em 2024, estavam 50,3% das pessoas em extrema pobreza e 45,8% das pessoas em situação de pobreza naquele ano.</p>
<p>A proposta da iniciativa é fazer essas diferenças entrarem nas decisões sobre onde e como gastar o dinheiro público.</p>
<h2>2. Custo de vida: quanto sobra depois das despesas essenciais</h2>
<p>Ganhar R$ 3 mil em uma cidade onde aluguel e transporte consomem uma parcela grande do orçamento não produz a mesma condição de vida que receber os mesmos R$ 3 mil e gastar menos com esses serviços.</p>
<p>É essa conta que o segundo eixo pretende colocar em evidência.</p>
<p>Na Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018, a mais recente realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a habitação correspondia, em média, a 36,6% das despesas de consumo das famílias. Os diferentes tipos de transporte representavam 18,1%.</p>
<p>Por isso, a iniciativa ressalta que a oferta de determinados serviços públicos também interfere na renda disponível.</p>
<p>Uma família que consegue uma vaga gratuita em creche, por exemplo, pode deixar de pagar pelo serviço particular. Isso também permite que o responsável pela criança tenha mais condições de trabalhar.</p>
<p>Um transporte público mais barato reduz diretamente a despesa mensal. Se o serviço também encurtar o deslocamento, o ganho ocorre em duas frentes: dinheiro e tempo.</p>
<p>Entre as propostas estão ampliar creches, cuidotecas e centros-dia para atendimento de pessoas que necessitam de cuidados e criar mecanismos permanentes de financiamento do transporte público entre União, estados e municípios.</p>
<h2>Quando o tempo também vira uma questão econômica</h2>
<p>Tempo pode parecer algo que não cabe na conta bancária. Mas a falta dele pode ter custo.</p>
<p>Uma mãe que não consegue vaga em creche pode precisar reduzir a jornada, recusar um emprego ou deixar o mercado de trabalho. Uma pessoa que passa horas por dia entre ônibus, trens e metrô dispõe de menos tempo para estudar, cuidar da família, descansar ou buscar outra fonte de renda.</p>
<p>É nesse sentido que a iniciativa chama atenção para a chamada pobreza de tempo.</p>
<p>O conceito considera o tempo que resta depois do trabalho remunerado, das tarefas domésticas e do cuidado com outras pessoas. Quando essas obrigações ocupam uma parcela tão grande do dia que sobra menos tempo do que o necessário para descanso, lazer e outras atividades essenciais ao bem-estar, existe pobreza de tempo.</p>
<p>O problema também tem efeito econômico porque não atinge homens e mulheres da mesma maneira. As mulheres dedicam, em média, 21,7 horas por semana ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, quase o dobro das 11 horas dos homens. Entre as mulheres negras, são 22,3 horas. Em 2021, o cuidado foi apontado como motivo para não procurar trabalho por 30% das mulheres em idade ativa e por 32% das mulheres negras, ante apenas 2% dos homens.</p>
<p>É por isso que creche, transporte e jornada de trabalho aparecem juntos numa proposta econômica: todos podem alterar não apenas quanto dinheiro uma família gasta, mas também quanto tempo seus integrantes têm disponível para trabalhar, estudar, cuidar de si e descansar.</p>
<p>A discussão sobre a escala 6x1 entra nesse mesmo eixo. Pesquisa da Nexus, realizada entre janeiro e fevereiro deste ano, mostrou que 73% dos brasileiros apoiavam o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso, desde que não houvesse redução salarial.</p>
<h2>3. Tecnologia: empregos e renda também dependem do que o Brasil produz</h2>
<p>Celulares, computadores, inteligência artificial, equipamentos médicos, baterias e inúmeras tecnologias usadas diariamente carregam conhecimento e componentes que podem ser produzidos em diferentes países. Quem domina as etapas de maior valor dessas cadeias também concentra investimentos, tecnologia e empregos mais qualificados.</p>
<p>Por isso, o terceiro eixo defende que o Brasil desenvolva maior capacidade tecnológica própria em áreas consideradas estratégicas. A proposta inclui inteligência artificial, infraestrutura digital, energia renovável, biocombustíveis e processamento de minerais importantes para novas tecnologias.</p>
<p>O Brasil possui cerca de 94% das reservas mundiais de nióbio, 23% das terras raras, 26% das de grafite e 12% das de níquel. Mas possuir o mineral não significa ficar com a maior parte da riqueza produzida por ele: boa parte do valor está no processamento, na fabricação de componentes e no domínio da tecnologia.</p>
<p>As organizações e os economistas do projeto propõem usar instrumentos como crédito, compras públicas e incentivos para estimular pesquisa, processamento e produção no país.</p>
<p>O Pix aparece como exemplo de tecnologia desenvolvida nacionalmente. Na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), cerca de 2,1 milhões de pessoas estavam empregadas em abril de 2026, com remuneração média superior à nacional.</p>
<p>A conexão com a vida cotidiana está principalmente no emprego e na renda: quanto maior a participação brasileira nas etapas mais sofisticadas da produção, maior pode ser a capacidade de gerar vagas qualificadas e mais bem remuneradas.</p>
<p>“O Brasil precisa ter a ambição de definir uma agenda de transformação social diante do novo cenário global. Não podemos ficar presos apenas às discussões fiscais de curto prazo frente às mudanças climáticas, tecnológicas e nos processos de trabalho”, afirmou Marco Antonio Rocha à Agência Brasil.</p>
<h2>4. Mais gente estudou, mas faltam empregos à altura da formação</h2>
<p>Nas últimas décadas, o Brasil ampliou fortemente o acesso ao ensino superior. O mercado de trabalho, porém, não criou ocupações qualificadas na mesma velocidade.</p>
<p>Um estudo publicado em 2024 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) analisou dados de 2012 a 2023 e mostrou o crescimento da chamada “sobre-educação”: pessoas com escolaridade superior à necessária para o trabalho que exercem.</p>
<p>A proporção passou de cerca de 26% dos trabalhadores em 2012 para 38% em 2020 e permaneceu nesse patamar até 2023.</p>
<p>Isso não quer dizer que fazer faculdade deixou de compensar. Trabalhadores com ensino superior completo continuam apresentando menor desemprego e salários maiores. No segundo trimestre de 2024, a diferença salarial em relação aos trabalhadores com ensino médio completo ou superior incompleto ainda era de 126%.</p>
<p>O problema é o desperdício de qualificação: pessoas que estudaram para exercer determinadas funções acabam em postos que exigem menos formação e, em geral, oferecem menor remuneração.</p>
<p>O quarto eixo propõe aproximar as políticas de educação, indústria, inovação e qualificação profissional para aumentar a oferta de empregos capazes de aproveitar a formação que os trabalhadores já têm.</p>
<h2>5. Impostos: não importa apenas quanto o governo arrecada</h2>
<p>O quinto eixo olha para as duas pontas do dinheiro público: quem paga e quem recebe benefícios.</p>
<p>A proposta é tornar a tributação mais progressiva — ou seja, fazer com que quem tem maior capacidade econômica contribua proporcionalmente mais — e avaliar de forma mais sistemática quem se beneficia de isenções, deduções e subsídios concedidos pelo Estado.</p>
<p>Em 2024, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) custaram juntos cerca de R$ 280 bilhões. No mesmo ano, os subsídios da União — que incluem benefícios tributários, financeiros e creditícios concedidos a diferentes setores e grupos de empresas — chegaram a R$ 678 bilhões, mais que o dobro.</p>
<p>A comparação mostra que a discussão sobre o uso do dinheiro público não se limita aos programas sociais. A proposta da Vida em Conta é avaliar também quem se beneficia dos subsídios, quais resultados eles produzem e se esses recursos continuam justificáveis diante de outras prioridades do orçamento.</p>
<p>Parte desses benefícios nem sempre é percebida como gasto público porque ocorre quando o governo deixa de arrecadar determinados impostos. É o caso, por exemplo, das deduções de despesas privadas com saúde e educação no Imposto de Renda.</p>
<p>Essas deduções praticamente não alcançam os 78% da população de menor renda. Entre os demais, excluído o 1% mais rico, mais de 73% do benefício fica concentrado nos 10% de maior renda. O 1% do topo recebe outros 18,6% do benefício.</p>
<p>A Vida em Conta entende que é preciso revisar esse tipo de benefício e avaliar se parte dos recursos poderia ser direcionada para serviços públicos de saúde e educação. A estimativa apresentada pela iniciativa é que a eliminação das deduções dessas despesas no Imposto de Renda poderia elevar a arrecadação em cerca de R$ 34 bilhões.</p>
<h2>O que acontece agora</h2>
<p>A apresentação das diretrizes é a primeira etapa da Vida em Conta.  Em dezembro de 2026, durante o Fórum Nova Economia, em Brasília, está previsto o lançamento de um Banco de Iniciativas que reunirá propostas mais específicas de políticas públicas.</p>
<p>Ao apresentar suas diretrizes, o grupo já coloca uma questão mais básica sobre como medir o desempenho da economia. Inflação, emprego e crescimento continuam importando. A Vida em Conta defende que a análise não termine nesses indicadores: é preciso observar também quanto do salário sobra depois das despesas essenciais, quanto tempo as pessoas gastam para trabalhar e cuidar da família e que tipo de emprego a economia está conseguindo gerar.</p>
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      <source url="https://www.globalsouthworld.com.br">Global South World Brasil</source>
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      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
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