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    <title>Global South World Brasil - o futuro da saúde pública</title>
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    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>As bets e a saúde pública: custos para sociedade já estão na casa dos bilhões </title>
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      <pubDate>Mon, 10 Aug 2026 17:55:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>“Apesar de jogar todos os dias escondido e não conseguir dormir por ansiedade, eu não percebi que estava viciado em bets. Pedia adiantamento todo o tempo e trabalhava com a cabeça no jogo. Perdi o emprego por isso. Mentia a todos e quase perdi tudo. Cheguei a pensar em me matar, mas não tive coragem”, diz o motoboy autônomo Jonnattan Samuel Azevedo Silva de Oliveira, 24 anos.</p>
<p>Ele começou a jogar com 18 anos após ver um programa de televisão que prometia ganhos extras aos vencedores. “Depois disso, contratei um curso online por R$ 100 que ensinava a ganhar nas bets. Passei a seguir os influencers que contavam como fazer dinheiro com as bets e não consegui mais parar de apostar. Eu deixei de perceber o valor do dinheiro, R$ 100 dava no mesmo que R$ 1 mil. Já não pensava mais”, conta o motoboy. </p>
<p>Diagnosticado com ludopatia (vício em apostas online), o caso de Jonnattan se soma ao de milhões de brasileiros. São cerca de 12,8 milhões de pessoas em situação de risco com relação a apostas, segundo o dossiê "A saúde dos brasileiros em jogo: análise político-econômica da regulamentação de apostas online e seus impactos para a saúde da população brasileira", do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas da Saúde), que utilizou dados do Lenad III (2025) - Levantamento Nacional de Álcool e Drogas – da Universidade Federal de São Paulo. </p>
<h2>Motivação </h2>
<p>“A expectativa de mudança de vida rápida, o celular no bolso, os influenciadores e os mecanismos digitais propiciam o comportamento compulsivo e geram vícios. Esses são alguns dos componentes da epidemia que estamos vendo no país”, diz Felix Henrique Paim Kessler, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da UFGRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e chefe do serviço de psiquiatria de adições do HCPA (Hospital de Clínicas de Porto Alegre). </p>
<p>O especialista faz questão de ressaltar que não se trata de um termo hiperbólico quando se fala em epidemia. “A quantidade de usuários aumentou muito desde a regulamentação dos jogos. Essa legalização trouxe um aumento exponencial de apostadores. E, o pior, as crianças já têm contato com esses mecanismos digitais viciantes”, afirma Kessler.  </p>
<p>O psiquiatra cita o exemplo do "loot boxes", as chamadas "caixas de recompensa" que concedem vantagens surpresas no meio dos jogos eletrônicos. Segundo Kessler, esse mecanismo leva a hábitos compulsivos, considerados manipulativos, assim como a rolagem infinita e a reprodução automática de vídeos. O ECA Digital (Lei nº 15.211/2025) — popularmente conhecida como “Lei Felca” — proibiu todas as estratégias consideradas manipulativas. </p>
<p>A regulamentação dos jogos de apostas online e de quota fixa no Brasil foi estabelecida pela  L14790 - Planalto , de dezembro de 2023, e define normas de operação, tributação e exigências de sede no país para as empresas autorizadas. Atualmente, existem 188 marcas de bets autorizadas a operar legalmente no Brasil,  confira a lista aqui .</p>
<h2>Aumento expressivo dos casos </h2>
<p>Devido ao crescimento expressivo de casos de pessoas que são encaminhadas pelos postos de saúde da rede pública por problemas relacionados a bets ao Ambulatório de Psiquiatria de Adições, o Hospital das Clínicas de Porto Alegre montou, há três meses, um grupo especializado para atendimento dessas pessoas encaminhadas pela rede pública. “O perfil é claro. Essas pessoas se matam de trabalhar na expectativa de mudar de vida, mas isso não vem. Olham para o Instagram e veem os influencers mostrando a vida que eles querem ter. Então, buscam um atalho nas bets”, explica o psiquiatra.   </p>
<h2>Rede púbica carregada </h2>
<p>O SUS (Sistema Único de Saúde) anunciou, no início de agosto, expansão das medidas de atendimento à população relacionada ao vício em bets. O número de teleatendimentos mensais a pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas online aumentou de 600 para 100 mil atendimentos. </p>
<p>“O serviço começou a ser ofertado em março, com uma média de 600 teleatendimentos mensais. A expansão se fez necessária em razão da alta procura”, informa o Ministério da Saúde.  </p>
<p>A ferramenta é oferecida por meio do aplicativo Meu SUS Digital, em parceria com o Ministério da Fazenda e a AgSUS (Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS). </p>
<h2>Conta para todos </h2>
<p>A estimativa de custo para tratar os danos de saúde gerados às pessoas por problemas associados a apostas e jogos de azar chega à cifra de R$ 30,6 bilhões por ano para a sociedade, de acordo com o Ieps.  </p>
<p>No levantamento “A saúde dos brasileiros em jogo”, o instituto detalha os valores: os custos dos danos à saúde associados ao jogo são de R$ 17 bilhões relativos a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões relativos à depressão, sendo R$ 10,4 bilhões pela perda de qualidade de vida e R$ 3 bilhões em tratamentos médicos. </p>
<p>“As estimativas envolvem custos diretos para o Estado, mas também custos sociais indiretos, mais amplos, associados à perda de qualidade e duração de vida”, explica o Ieps. </p>
<h2>Empresas alertam para o problema </h2>
<p>Os problemas gerados pelas pessoas com vício em bets chegou aos departamentos de Recursos Humanos das empresas. De acordo com Inês Restier, diretora financeira da ABRH-SP (Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo), o vício em apostas não deve ficar circunscrito à esfera particular, como um problema pessoal do funcionário. Há um impacto silencioso que afeta todo o clima organizacional”, diz Inês, em publicação da associação. Ela cita os riscos associados à queda de produtividade, saúde mental, ética dos colaboradores. </p>
<p>Na saúde mental dos profissionais, os jogos podem gerar ansiedade, depressão diante do endividamento, insônia e isolamento social. “Também há conflitos entre colegas, desmotivação e aumento da rotatividade por demissões. Temos visto casos de desvio de recursos nas empresas”, completa a diretora financeira na publicação da entidade. </p>
<h2>Influenciador </h2>
<p>Kelvin dos Santos Araújo, 23 anos, é o melhor amigo de Jonnattan, que relatou sua história no começo desta reportagem. Ele conta que começou a jogar por influência da amizade.</p>
<p>“Eu entrei nisso por diversão. Jogava com regularidade, mas valores baixos, tipo R$ 20. Percebi que perdia mais do que ganhava. Entendi que tanto os influenciadores como as plataformas só fazem dinheiro com a gente. Quanto mais a gente perde, mais eles ganham. Não vale a pena”, afirma.  </p>
<p>Kelvin se refere ao caso do influenciador Felipe Prior, que se tornou réu por publicidade enganosa, por receber comissão sobre o prejuízo dos apostadores que se cadastravam por meio de sua indicação. </p>
<p>“Eu só não me viciei por causa da minha mãe. Ela é ex-jogadora viciada em maquininhas de bar. Eu tive muitas experiências ruins na infância e o exemplo dela não me deixou entrar nesse problema das bets”, relata. Ele trabalha atualmente como líder de portaria numa empresa do setor de segurança. Começou com o jogo do tigrinho aos 18 anos e em plataformas não reguladas.  </p>
<p>“Muitas dessas plataformas retêm o dinheiro. Você não consegue sacar em menos de 24 horas. Nesse tempo, você acaba voltando a jogar por compulsão e perde tudo. Não importa se agora existem plataformas legalizadas. As bets deveriam ser proibidas”, defende. </p>
<h2>Problema ainda maior</h2>
<p>“O combate às bets ilegais foi um passo importante dado pelo governo. Mas seria importante a questão ser transversal, envolvendo outros órgãos do governo e não somente o Ministério da Fazenda. Afinal, trata-se de um problema que não está relacionado apenas à economia e ao nível de endividamento das pessoas, mas especialmente à saúde”, afirma o presidente do Procon de São Paulo, Luiz Orsatti Filho.  </p>
<p>Em sua opinião, seria importante estabelecer uma coordenação conjunta entre os ministérios da Fazenda, Saúde e Justiça. Vinculado à Secretaria da Justiça e Cidadania do Governo de São Paulo, o Procon lançou em junho a campanha #ApostadorÉConsumidor para alertar a população sobre os direitos de quem faz apostas e jogos online. </p>
<p>A ação faz parte de um conjunto de iniciativas do órgão que já atende e direciona consumidores superendividados pelas bets. “Ajudamos no processo de renegociação de dívida. Jogo online não é investimento”, destaca Orsatti.  </p>
<h2>CPF</h2>
<p>Perda de controle sobre o ato de jogar está entre os casos mais citados daqueles que acionaram a autoexclusão do CPF de sites e aplicativos de apostas. Dados do Ministério da Fazenda mostram que um milhão de pessoas fizeram esse pedido por meio da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta do Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas. Desse total, 35% dizem ter perdido o controle sobre as apostas. </p>
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      <dc:creator><![CDATA[Tatiana Schnoor]]></dc:creator>
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      <title>Artigo | O verdadeiro antídoto para o estresse</title>
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      <pubDate>Thu, 06 Aug 2026 11:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Como anda o seu nível de estresse? Provavelmente você não precisou pensar muito para responder. E não está sozinho. Vivemos uma epidemia silenciosa. Segundo a Organização Mundial da Saúde, ansiedade e depressão fazem com que cerca de 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos todos os anos, gerando um prejuízo estimado em US$ 1 trilhão para a economia mundial. A própria OMS reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho. A Gallup, em seu relatório  State of the Global Workplace 2026 , revelou que quatro em cada dez trabalhadores afirmaram ter vivido um dia de intenso estresse.</p>
<p>Estamos todos cansados, mas o verdadeiro problema não é apenas o estresse. É a ausência de recuperação. Durante décadas acreditamos que o burnout era consequência de trabalhar demais. Hoje sabemos que essa explicação é incompleta. O cérebro humano evoluiu para alternar períodos de esforço e recuperação. Nós fizemos exatamente o contrário: transformamos a atenção contínua em um modo de viver. Respondemos mensagens durante reuniões. Interrompemos uma tarefa para começar outra. Trocamos de contexto dezenas de vezes ao dia. Encerramos o expediente, mas não encerramos o trabalho. O celular continua ao nosso lado. As notificações continuam chegando. E o cérebro permanece em estado de alerta, como se a próxima urgência pudesse surgir a qualquer instante. O corpo chega em casa. O cérebro, muitas vezes, não.</p>
<p>É justamente nessa dificuldade de recuperar a atenção, regular as emoções e interromper o estado permanente de vigilância que o estresse deixa de ser uma resposta adaptativa do organismo e passa a produzir desgaste físico e mental. O burnout não nasce apenas do excesso de trabalho. Ele também floresce quando perdemos a capacidade de recuperação. Essa diferença é fundamental. A boa notícia é que isso não depende apenas de férias, mudanças radicais ou longos períodos de descanso. Ela pode começar em poucos minutos, várias vezes ao dia.</p>
<p>A ciência tem um nome para isso: microbreaks. São pausas curtas e intencionais inseridas ao longo da jornada de trabalho. Uma ampla revisão científica, reunindo mais de 2.300 participantes, mostrou que esses pequenos intervalos reduzem a fadiga e aumentam a sensação de energia e bem-estar. Não se trata de trabalhar menos, mas de respeitar a biologia do cérebro. Porém, vale o alerta: nem toda pausa, porém, produz o descanso cerebral necessário. Parar para abrir outra rede social, responder mais mensagens ou consumir novos estímulos dificilmente muda o estado mental. O corpo interrompe a atividade, mas o cérebro continua acelerado.</p>
<p>Uma pausa restauradora precisa mudar a qualidade da atenção. É nesse ponto que a arte ganha um papel surpreendente. Não porque uma pintura, uma fotografia ou uma escultura curem o estresse. Essa afirmação seria simplista, mas porque experiências estéticas mobilizam sistemas cerebrais ligados à atenção, à emoção, à memória e à construção de significado.</p>
<p>Nas últimas décadas, alguns dos maiores neurocientistas do mundo vêm demonstrando que a experiência estética produz efeitos mensuráveis sobre o cérebro. O neurologista Anjan Chatterjee, professor da Universidade da Pensilvânia e um dos maiores especialistas mundiais em neuroestética, está verificando como a contemplação artística ativa diferentes redes cerebrais simultaneamente. O neurocientista Semir Zeki, da University College London, investiga como experiências estéticas estimulam circuitos relacionados ao prazer e à recompensa. Susan Magsamen, diretora do International Arts + Mind Lab da Universidade Johns Hopkins, está reunindo evidências de que a arte contribui para o bem-estar, a criatividade, a aprendizagem e a regulação emocional.</p>
<p>Esses levantamentos apontam para uma ideia poderosa: a arte não é apenas entretenimento. Ela também pode ser a ferramenta poderosa para treinamento da atenção e isso é a porta de entrada da neuroplasticidade, que, por sua vez, é a capacidade que o cérebro possui de se reorganizar ao longo da vida em resposta às experiências repetidas. Cada hábito fortalece determinados circuitos neurais. Quanto mais repetimos uma forma de perceber o mundo, mais eficiente o cérebro se torna nessa tarefa. Isso significa que um cérebro treinado para a pressa também pode ser treinado para a presença não por meio de grandes revoluções, mas pela repetição de pequenos hábitos.</p>
<p>Da mesma forma que ninguém desenvolve condicionamento físico com um único treino na semana, o cérebro também precisa de prática contínua para fortalecer circuitos ligados à atenção, à percepção e à autorregulação. É por isso que proponho um exercício extremamente simples. No meio da manhã ou da tarde, interrompa o trabalho durante três minutos. Sim, três minutos. Escolha algumas fotografias de quadros abstratos, da natureza ou de qualquer cena que desperte curiosidade. Observe. Não passe rapidamente para a próxima imagem. Permaneça, perceba a luz, as sombras, as texturas e os detalhes. Depois faça apenas uma pergunta: O que estou vendo agora que não percebi no primeiro olhar?</p>
<p>Esse pequeno exercício desloca o cérebro do modo automático para a observação deliberada. Pode parecer pouco, mas é exatamente assim que novos hábitos começam. Um dia de cada vez. O maior erro quando falamos sobre estresse é imaginar que tudo precisa mudar ao mesmo tempo. Dormir melhor. Comer melhor. Fazer atividade física. Meditar. Organizar a agenda. Trocar de emprego. </p>
<p>Claro que mudanças estruturais são importantes e, em muitos casos, acompanhamento médico e psicológico é indispensável. Mas o cérebro também aprende pelas pequenas experiências repetidas diariamente: um minuto, três minutos e cinco minutos. Uma pausa antes da próxima reunião. Uma respiração profunda antes de responder a um e-mail difícil. Uma fotografia da família observada sem pressa.  Esses gestos não eliminam a pressão do mundo, porém mudam a maneira como o cérebro reage ao estresse.</p>
<p>Em uma época que recompensa velocidade, contemplar parece improdutivo. Na realidade, as pesquisas comprovam que pode ser uma das formas mais inteligentes de preservar atenção, equilíbrio emocional e capacidade de decisão.</p>
<p>Enquanto investimos bilhões em inteligência artificial, ainda dedicamos pouco tempo ao desenvolvimento da inteligência humana. Aprendemos a medir produtividade, velocidade e desempenho, mas negligenciamos uma habilidade fundamental: a capacidade de recuperar a atenção.</p>
<p>A contemplação não elimina os desafios da vida nem substitui tratamentos médicos ou psicológicos. Mas oferece ao cérebro algo cada vez mais raro: alguns minutos livres da urgência, da interrupção e da sobrecarga de estímulos. Três minutos dificilmente mudarão uma vida, mas podem inaugurar um novo hábito. E são os hábitos, muito mais do que as grandes decisões, que remodelam o cérebro ao longo do tempo.</p>
<p>A neuroplasticidade nos lembra que cada experiência repetida deixa uma marca. Cada pausa intencional fortalece circuitos ligados à atenção, à percepção e à autorregulação. A recuperação não surje quando sobra tempo. Acontece quando decidimos que ela é importante. Cuidar do cérebro não começa nas grandes mudanças, mas no próximo minuto de atenção que escolhemos dedicar a nós mesmos.</p>
<p>*Angélica Consiglio e especialista em neurociência aplicada à liderança e à tomada de decisão.</p>
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      <dc:creator><![CDATA[Angélica Consiglio]]></dc:creator>
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