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    <title>Global South World Brasil - calor</title>
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    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>Seca extrema na Amazônia pode se tornar nove vezes mais frequente até 2100</title>
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      <pubDate>Sun, 11 Oct 2026 12:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>A seca histórica que atingiu a Amazônia em 2023 e 2024 deixou rios em níveis excepcionalmente baixos, comunidades isoladas, florestas sob estresse e centenas de botos mortos pelo aquecimento das águas. Naquele momento, os efeitos foram associados a um episódio do El Niño, fenômeno natural que altera as temperaturas e as chuvas em diferentes partes do planeta. Agora, uma pesquisa internacional indica que condições climáticas semelhantes poderão ocorrer com frequência crescente nas próximas décadas, mesmo em anos sem El Niño.</p>
<p>O alerta é especialmente preocupante para a Amazônia.  Se as emissões globais de gases de efeito estufa permanecerem elevadas, a probabilidade de secas tão severas quanto as registradas em 2023 e 2024 poderá aumentar até nove vezes até o fim do século. No Nordeste brasileiro, a ocorrência de períodos com chuvas tão escassas quanto as daquele biênio poderá se tornar duas vezes mais provável.</p>
<p>As conclusões fazem parte de um estudo publicado na revista científica  Earth's Future , da União Geofísica Americana (AGU). A pesquisa reuniu cientistas de instituições de diferentes países e teve como autora principal Johanna Van Passel, da Universidade de Ghent, na Bélgica, pesquisadora visitante do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entre os coautores está o biólogo Peter Groenendijk, professor do mesmo instituto.</p>
<p>A equipe investigou como o El Niño de 2023 e 2024 afetou as florestas tropicais da América, África e Ásia. Depois, comparou as condições daquele período com projeções climáticas até 2100, considerando quatro cenários de emissões de gases de efeito estufa.</p>
<p>O resultado revela que um evento considerado excepcional pode oferecer uma prévia do clima futuro das florestas tropicais. Em alguns cenários, temperaturas semelhantes às registradas em 2023 e 2024 poderão ocorrer praticamente todos os anos em grande parte dessas regiões, em menos de duas décadas.</p>
<h2>Um El Niño moderado, mas com consequências extremas</h2>
<p>O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico tropical. Esse aquecimento modifica a circulação dos ventos e a distribuição das chuvas, provocando efeitos em diferentes continentes.</p>
<p>No Brasil, costuma favorecer chuvas acima da média no Sul, reduzir as precipitações em partes do Norte e do Nordeste e elevar as temperaturas em diversas regiões.</p>
<p>Nem todos os episódios têm a mesma intensidade. Os de 1982–1983, 1997–1998 e 2015–2016 estão entre os mais fortes já registrados. O fenômeno de 2023–2024, porém, foi considerado moderado segundo um dos indicadores utilizados pelos pesquisadores. Isso não impediu que seus efeitos fossem excepcionalmente graves.</p>
<p>“Durante o El Niño de 2023-2024, a área e a duração dos eventos de seca e de ondas de calor foram as maiores e mais extensas dos últimos 25 anos”, afirmou Johanna Van Passel em entrevista à  Agência Fapesp .</p>
<p>O estudo identificou temperaturas excepcionalmente elevadas em praticamente toda a extensão das florestas tropicais da América, África e Ásia. A seca também foi generalizada: atingiu cerca de 80% dessas áreas. </p>
<p>O dado mais preocupante, porém, está na combinação dos dois fenômenos.  Em 77% das florestas tropicais do planeta, o calor extremo e a falta de chuvas ocorreram simultaneamente durante o El Niño de 2023 e 2024.</p>
<p>Nas áreas afetadas por essa combinação, os pesquisadores identificaram, em média, 6,4 meses de seca e calor extremos ao longo dos dois anos. Isso não significa que as florestas tenham enfrentado mais de seis meses consecutivos nessas condições. </p>
<p>Os cientistas somaram os meses em que os dois fenômenos coincidiram, mesmo quando houve intervalos entre eles.  Os resultados mostram, portanto, não apenas a extensão geográfica do problema, mas também por quanto tempo as florestas ficaram expostas a condições climáticas adversas.</p>
<p>Nas áreas atingidas nas florestas tropicais americanas, os períodos extremos foram mais prolongados. A duração média acumulada chegou a 10,3 meses de seca e a 9,2 meses de seca e calor simultâneos, ao longo dos dois anos. Em partes do centro e do oeste da Amazônia, os registros indicaram condições anormalmente secas durante quase todo o período analisado.</p>
<p>Na comparação com o El Niño de 2015–2016, a seca de 2023–2024 atingiu uma área maior das florestas tropicais americanas e africanas. Nas florestas asiáticas, ocorreu o contrário: a extensão afetada foi menor.</p>
<p>Os pesquisadores relacionam a gravidade do episódio recente à combinação de fatores naturais com o aquecimento global provocado pelas atividades humanas. O El Niño de 2023–2024 ocorreu em um planeta mais quente do que aquele que enfrentou episódios anteriores do fenômeno.</p>
<h2>A Amazônia diante de um novo padrão climático</h2>
<p>A principal preocupação para o Brasil está na combinação entre temperaturas cada vez mais elevadas e a possibilidade de secas mais frequentes.</p>
<p>Os pesquisadores verificaram que o aumento do calor é uma tendência comum às florestas tropicais dos três continentes. As projeções de chuva, entretanto, apresentam diferenças regionais importantes.</p>
<p>Na Bacia do Congo, na África, por exemplo, o risco futuro está associado sobretudo às temperaturas mais altas. Em algumas regiões asiáticas, a probabilidade de secas comparáveis às de 2023–2024 pode até diminuir.</p>
<p>Na Amazônia, o cenário é diferente.  Os modelos indicam aumento tanto da frequência do calor extremo quanto da probabilidade de períodos de chuva excepcionalmente escassa.</p>
<p>Nos dois cenários de emissões mais elevadas, a ocorrência de secas comparáveis às de 2023–2024 poderá se tornar até nove vezes mais provável até 2100.</p>
<p>É importante distinguir essa projeção de uma previsão de que haverá nove secas por década ou de que a floresta ficará permanentemente seca. O cálculo compara a probabilidade futura dessas condições com a frequência estimada para o período de referência, de 2000 a 2024.</p>
<p>O Nordeste brasileiro também aparece nas projeções. Na região, períodos com volumes de chuva tão baixos quanto os registrados durante o último El Niño poderão se tornar duas vezes mais prováveis até o fim do século, nos cenários de emissões mais altas.</p>
<p>Há incertezas importantes. Os próprios autores reconhecem que os modelos climáticos apresentam limitações para representar a disponibilidade de água em algumas regiões, incluindo a Amazônia. Por isso, os números devem ser interpretados como projeções condicionadas aos cenários de emissões, e não como previsões inevitáveis.</p>
<p>Ainda assim, a direção do alerta é clara: quanto maior o aquecimento global, maior tende a ser a exposição da floresta amazônica a condições climáticas capazes de comprometer seu funcionamento.</p>
<h2>O que acontece com uma floresta quando falta água e sobra calor</h2>
<p>As florestas tropicais dependem de um equilíbrio delicado entre chuva, temperatura, umidade do solo e disponibilidade de água para as árvores.</p>
<p>Durante a fotossíntese, as plantas absorvem dióxido de carbono da atmosfera e utilizam a energia da luz solar para produzir substâncias necessárias ao seu crescimento. Nesse processo, também liberam vapor de água pelas folhas, ajudando a regular sua temperatura e a umidade do ambiente.</p>
<p>Quando a temperatura aumenta, a atmosfera passa a demandar mais umidade. A água pode evaporar mais rapidamente do solo e ser perdida em maior quantidade pelas folhas, mesmo que o volume de chuva não diminua na mesma proporção.</p>
<p>Se houver água suficiente, as árvores conseguem compensar parte desse efeito. Em períodos prolongados de seca, porém, precisam reduzir a perda de água para sobreviver.</p>
<p>Uma das respostas é fechar pequenas aberturas nas folhas, chamadas estômatos. Isso diminui a transpiração, mas também limita a entrada do dióxido de carbono necessário à fotossíntese.</p>
<p>A árvore passa, então, a produzir menos energia para crescer e manter suas funções.</p>
<p>Em situações extremas, a falta de água compromete o sistema que a transporta das raízes até as folhas. Esse transporte ocorre por estruturas internas chamadas xilema. Quando ele falha, partes da copa podem morrer e, dependendo da intensidade e da duração do estresse, a própria árvore pode não sobreviver.</p>
<p>“O El Niño é um dos grandes moduladores do clima global. Ao procurarmos entender seus impactos, podemos ter diversos outros desdobramentos para as florestas, como compreender mecanismos que levam à mortalidade das árvores”, afirmou Peter Groenendijk à Agência Fapesp.</p>
<p>O estudo chama atenção para outro aspecto: cerca de 80% dos meses de calor extremo identificados ocorreram durante a estação chuvosa.</p>
<p>Isso é relevante porque as chuvas dessa época ajudam a abastecer as reservas de água no solo utilizadas pelas árvores durante os meses mais secos. Se a estação chuvosa também apresentar deficiência de precipitação, a floresta pode começar o período seco seguinte com menos água disponível.</p>
<p>Assim, os efeitos de uma seca não necessariamente terminam quando as chuvas retornam.</p>
<p>A equipe ressalta que ainda há lacunas importantes na compreensão dos mecanismos que levam à mortalidade das árvores sob calor e seca prolongados.</p>
<h2>O risco de a floresta deixar de absorver carbono</h2>
<p>A ameaça não se restringe à sobrevivência das árvores.</p>
<p>As florestas tropicais exercem um papel importante na regulação do clima porque retiram dióxido de carbono da atmosfera e armazenam carbono na vegetação e nos solos.</p>
<p>Enquanto absorvem mais carbono do que liberam, funcionam como sumidouros de carbono, ajudando a reduzir a quantidade desse gás de efeito estufa na atmosfera.</p>
<p>O equilíbrio pode mudar quando as árvores crescem menos, perdem folhas ou morrem em grande quantidade. A decomposição da vegetação morta libera parte do carbono armazenado, e os incêndios podem acelerar esse processo.</p>
<p>Nessas condições, determinadas áreas florestais podem passar temporariamente de absorvedoras a emissoras líquidas de carbono.</p>
<p>Os pesquisadores consideram provável que o calor e a seca de 2023–2024 tenham levado muitas florestas tropicais, ao menos temporariamente, nessa direção. O estudo, entretanto, não mediu diretamente o balanço de carbono de todas as áreas analisadas.</p>
<p>O problema pode se agravar porque a própria floresta participa da manutenção das chuvas.</p>
<p>Ao retirar água do solo e liberá-la na atmosfera, as árvores contribuem para a formação de umidade que poderá retornar em forma de precipitação. A perda de vegetação reduz essa contribuição e pode favorecer condições ainda mais secas.</p>
<p>Forma-se, assim, um mecanismo de retroalimentação:  a seca enfraquece a floresta, a perda de vegetação prejudica a reciclagem de umidade e a redução das chuvas pode intensificar novas secas.</p>
<p>Esse processo preocupa os cientistas porque, se persistir por tempo suficiente, poderá levar à degradação de áreas florestais e comprometer sua capacidade de recuperação.</p>
<h2>O que pode acontecer nas próximas décadas</h2>
<p>Para investigar o futuro, os cientistas combinaram informações de satélites, registros climáticos e projeções de 24 modelos utilizados em pesquisas internacionais sobre mudanças climáticas.</p>
<p>A análise considerou o período de 2000 a 2024 como referência e avaliou diferentes trajetórias possíveis entre 2025 e 2100.</p>
<p>Os quatro cenários utilizados representam desde uma trajetória de emissões relativamente baixas, com reduções importantes dos gases de efeito estufa, até situações em que essas emissões continuam elevadas.</p>
<p>Em todos eles, a probabilidade de temperaturas semelhantes às de 2023–2024 aumenta nas florestas tropicais.</p>
<p>Mesmo no cenário de menores emissões considerado pela pesquisa, os episódios de calor comparáveis aos daquele biênio poderão se tornar pelo menos seis vezes mais prováveis até 2100.</p>
<p>Nos cenários com reduções menos rigorosas, muitas regiões poderão atingir, já a partir da década de 2040, temperaturas médias anuais tão altas quanto as de 2023–2024 praticamente todos os anos.</p>
<p>Isso não significa que haverá um El Niño permanente. A pesquisa procurou justamente identificar a possibilidade de condições climáticas semelhantes ocorrerem independentemente da presença do fenômeno.</p>
<p>Também não significa que as secas acompanharão automaticamente o mesmo ritmo do aumento das temperaturas. Os autores analisaram separadamente as probabilidades futuras de calor e de falta de chuvas, pois a coincidência entre esses extremos envolve incertezas adicionais.</p>
<p>A diferença entre os cenários, entretanto, mostra que a intensidade do aquecimento futuro depende das decisões tomadas em relação às emissões globais.</p>
<h2>Ainda é possível evitar os cenários mais graves?</h2>
<p>A trajetória futura não está definida. Os modelos indicam que o aumento das temperaturas continuará representando um desafio para as florestas tropicais mesmo em um cenário de emissões mais baixas. Mas também mostram diferenças expressivas entre um mundo que reduz rapidamente a liberação de gases de efeito estufa e outro que mantém níveis elevados de emissões.</p>
<p>Na avaliação dos pesquisadores, cortes rápidos e profundos são necessários para impedir que as condições excepcionais de 2023–2024 se tornem cada vez mais frequentes.</p>
<p>A mensagem é especialmente relevante para a Amazônia, onde a elevação das temperaturas se soma ao risco de secas mais intensas, incêndios e perda de vegetação.</p>
<p>O estudo não prevê o desaparecimento da floresta nem estabelece uma data para um eventual colapso do ecossistema. O que demonstra é que as condições climáticas que colocam sua capacidade de recuperação sob pressão poderão se repetir com frequência muito maior.</p>
<p>A seca de 2023–2024, portanto, pode deixar de ser lembrada apenas como um acontecimento excepcional e passar a ser vista como um alerta sobre o clima que as florestas tropicais terão de enfrentar ao longo deste século.</p>
<p>Com Agência Fapesp/ Luciana Constantino</p>
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      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
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