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    <title>Global South World Brasil - Saúde mental</title>
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    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>Um dia sem internet: uma proposta pela saúde</title>
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      <pubDate>Sun, 30 Aug 2026 13:04:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Um movimento que começou nos Estados Unidos se prepara para realizar no Brasil seu primeiro grande evento: o Dia do Reset ou Um Dia Sem Internet.  A proposta é passar 24h longe da web – ou parte disso – e refletir sobre o excesso de tempo dedicado às telas . Por aqui, esse dia foi marcado para  26 de setembro.</p>
<p>Nos Estados Unidos, o primeiro Dia do Reset foi em 24 de janeiro deste ano.  Mais de 51 mil pessoas participaram do evento e somaram mais de 328 mil horas sem uso de redes.</p>
<p>Embora o conceito possa ser adotado por qualquer um, há uma atenção especial sobre os jovens. O movimento The Reset, criado pela  Outward Bound EUA  (uma rede de educação focada em experiências ao ar livre), busca ajudar esse público a  viver de forma mais saudável, promovendo mais tempo com a natureza e propondo um uso mais equilibrado da tecnologia.</p>
<p>A Outward Bound Brasil (OBB), que está trazendo o  Dia do Reset  para cá, ressalta que a ideia não é ser contra a tecnologia. É desligar as pessoas do mundo digital por um dia e  criar espaço para que elas se conectem com experiências reais: uma caminhada, um encontro em família, uma tarde ao ar livre, sem tela nenhuma no meio.</p>
<h2>Internet faz parte de 70% do nosso tempo da vida</h2>
<p>Os brasileiros estão entre os povos mais conectados do mundo. Uma pesquisa da  NordVPN, aplicativo de privacidade e segurança digital, realizada em abril deste ano, calculou que passamos, em média, 116 horas e 7 minutos por semana em atividades online . Com base nesse tempo, o estudo estimou que o brasileiro passa  52 anos, nove meses e 16 dias conectado ao longo da vida  —  o maior período entre os 20 países pesquisados.</p>
<p>Considerando a expectativa de vida média no país, de cerca de 76 anos,  esse tempo corresponde a aproximadamente 70% da vida.  Em 2022, a mesma pesquisa havia calculado 41 anos, três meses e 13 dias. A NordVPN ressalta, porém, que a comparação entre as duas edições deve ser feita com cautela, porque o levantamento deste ano passou a considerar 15 tipos de atividades online, ante 11 na pesquisa anterior.</p>
<h2>Menos redes sociais, mais saúde</h2>
<p>E quanto ao público jovem em específico? Neste mês,  o Instituto Alana, de defesa da infância e adolescência, divulgou a pesquisa Adolescência Sem Filtro que revelou que 71% dos jovens entrevistados afirmavam que a internet precisava se tornar melhor. E metade considera que passa mais tempo conectado do que gostaria.</p>
<p>De acordo com esse trabalho, perto de 40% dos adolescentes entrevistados disseram que se sentem mais dependentes do celular e da internet do que se sentiam há dois anos. Entre as consequências estão perder a qualidade do sono e o tempo para estudos.</p>
<p>Outro dado se refere ao tempo diário de uso da internet.  Quase 80% dos jovens passam mais de 3 horas conectados. Para 22%, a atividade online fica entre 5 e 6 horas. E 15% ultrapassam 8 horas.</p>
<p>Como fazer para quebrar uma rotina dessas? Além de participar de um dia de desconexão para incentivar reflexões, uma ajuda pode estar em um aplicativo que desafia o usuário a diminuir esse consumo e que o bonifica diante de resultados positivos. E pode ser feito envolvendo amigos.</p>
<p>O Nomo (No Missing Out) cria desafios em grupo para que todos se motivem.  A aplicação nasceu de um trabalho feito nos Estados Unidos e sob a liderança de um brasileiro, Leonardo Bursztyn. Em outubro de 2024, um experimento-piloto realizado na Universidade de Chicago envolveu 808 estudantes de graduação.  O objetivo principal era reduzir o uso do Instagram e do TikTok por meio de um limite diário combinado de 60 minutos, durante duas semanas.</p>
<p>Os participantes do experimento reduziram significativamente o uso diário dessas redes em 30,6 minutos, cerca de 50% em relação ao período anterior ao projeto. Após as duas semanas,  a incidência de sintomas de depressão caiu quase pela metade, de 38,7% para 20,7%.</p>
<p>Relatos de ansiedade também diminuíram, de 59,1% para 55%, e a proporção de participantes que se sentiam facilmente distraídos caiu de 47,9% para 36,8%. Ao mesmo tempo, a satisfação com a vida subiu de 61,1% para 70,6%.</p>
<p>De acordo com os pesquisadores, esses resultados indicam que reduzir o tempo nas redes sociais contribuiu para que os participantes se sentissem mais saudáveis, felizes e focados.</p>
<p>O Nomo é um aplicativo que aparece nas recomendações dos organizadores do Dia do Reset no Brasil (que coincide com a segunda edição da data nos Estados Unidos).</p>
<h2>O que fazer?</h2>
<p>Os realizadores do movimento no Brasil dizem que ninguém precisa ir a um parque distante. O tempo fora das telas pode ser apreciado como uma caminhada pelo bairro, uma ida à praia, uma visita a um espaço comunitário ou um dia de dedicação a um projeto social. Também pode ser relaxar em um jardim ou mesmo na varanda, com um livro. Ou a ida a uma cafeteria. O fundamental é não se conectar –  a duração desse período desligado quem decide é a própria pessoa .</p>
<h2>Planejamento para o dia</h2>
<p>Como observa a rede OBB,  ficar sem o celular pode parecer estranho no início. Para facilitar a vida, é importante fazer um planejamento para o Dia do Reset.  As dicas são:</p>
<h2>Quer guardar lembranças da experiência?</h2>
<p>Para viver um bom Dia de Reset é importante  aproveitar o tempo offline para brincar, explorar, descansar e descobrir lugares.  Para compartilhar com amigos como foi a experiência, dá para recorrer às redes sociais, sim. Mas no dia seguinte.</p>
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        <media:credit role="provider">Reprodução/ YouTube/ Dia do Reset 2026 </media:credit>
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      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>SUS lança teleatendimento psicológico a vítimas de violência e mães atípicas</title>
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      <pubDate>Tue, 25 Aug 2026 12:38:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>O Sistema Único de Saúde (SUS) implantou um serviço nacional de atendimento psicológico online destinado a mulheres que vivem ou já viveram situações de violência. Também inclui mães atípicas e outras mulheres que cuidam de familiares com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras. A previsão é disponibilizar 100 mil teleatendimentos por mês em todo o país.</p>
<p>Para mulheres em situação de violência, já existia um projeto-piloto, iniciado em março deste ano, no Rio de Janeiro e no Recife. Nesta segunda-feira, 24, o serviço passou a estar disponível em todos os estados. O teleatendimento, porém, recebeu a inclusão de mulheres que exercem o papel de cuidar de algum parente. O Ministério da Saúde menciona, além das mães, tias, avós, irmãs e outras familiares.</p>
<p>Consulta realizada a distância, o teleatendimento é composto de sessões online com psicólogas capacitadas pelo ministério para prestar atendimento em ambiente virtual e identificar possíveis situações de risco.</p>
<h2>Como pedir o atendimento</h2>
<p>O acesso é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital. A pessoa deve entrar com sua conta gov.br, acessar a área “Miniapps” e selecionar “Acolhe Mais + - Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Mulheres”.</p>
<p>Em seguida, ela será direcionada à plataforma da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS), onde deverá fazer o cadastro e informar se vive ou já viveu uma situação de violência ou se cuida de uma pessoa com deficiência, transtorno do neurodesenvolvimento ou doença rara.</p>
<p>Em até 24 horas, a equipe entra em contato para que a usuária escolha o dia e o horário da consulta. Na data marcada, ela recebe o link para entrar no atendimento online.</p>
<p>O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 14h.</p>
<h2>Até dez sessões</h2>
<p>Cada usuária poderá fazer até dez sessões, com possibilidade de iniciar um novo ciclo quando necessário. No caso das mulheres em situação de violência, o primeiro contato inclui a avaliação de possíveis riscos, da rede de apoio disponível e das principais necessidades da paciente.</p>
<p>Ao final das sessões, a mulher poderá ser encaminhada para continuar o acompanhamento em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou em outro serviço da rede do SUS. O CAPS também pode ser procurado diretamente.</p>
<p>Em situações de risco imediato, a usuária será orientada a buscar atendimento de emergência pelos canais adequados, como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou a Polícia Militar, pelo 190. Para casos graves que não exijam intervenção emergencial naquele momento, profissionais do atendimento poderão realizar encaminhamentos para outros serviços, de acordo com as necessidades identificadas.</p>
<h2>Cuidado para quem cuida</h2>
<p>A inclusão das mães atípicas e de outras mulheres cuidadoras procura facilitar o acesso à saúde mental de quem dedica parte significativa da rotina ao cuidado de outra pessoa e pode enfrentar dificuldades para comparecer a consultas presenciais. A modalidade online busca contornar obstáculos como falta de tempo, distância e dificuldade de deslocamento.</p>
<p>Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) citados pelo ministério apontam que, no mundo, 75% desse tipo de cuidado, que não é remunerado, são realizados por mulheres.</p>
<h2>Violência contra mulheres</h2>
<p>A expansão do serviço ocorre em um cenário de aumento das notificações de violência contra mulheres registradas pelos serviços de saúde. Os registros de violência física, psicológica, sexual ou financeira passaram de 167,4 mil, em 2015, para 348,5 mil, em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Os números incluem notificações feitas pelas redes pública e privada.</p>
<p>O teleatendimento funcionará como uma primeira forma de acolhimento e início do acompanhamento em saúde mental. Quando necessário, o cuidado será articulado posteriormente com os serviços do SUS nos estados e municípios.</p>
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        <media:title>mulher-janela</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Apagões em Cuba agravam saúde mental e colapsam sistema hospitalar</title>
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      <pubDate>Mon, 10 Aug 2026 20:09:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Em meio ao sétimo apagão nacional só em 2026, a estatal cubana Unión Eléctrica projetou neste domingo, 9, blecautes que deixariam até 70% do país sem energia no horário de pico. Em algumas províncias, moradores passaram mais de dois dias seguidos sem luz.</p>
<p>Cuba enfrenta problemas estruturais na rede elétrica desde 2024 por conta de seu sistema de usinas termelétricas obsoletas, falta de manutenção e escassez crônica de combustível. Mas o quadro piorou depois que o governo Donald Trump apertou o cerco energético à ilha a partir de janeiro, impondo tarifas a qualquer país que venda petróleo a Cuba. O resultado foi a quase paralisação das importações de combustível e uma sequência inédita de apagões nacionais.</p>
<p>A pressão americana não se limita ao campo energético. Segundo reportagem do New York Times, a CIA montou uma força-tarefa dedicada a Cuba, com recrutamento de oficiais de operações secretas e de inteligência para atuar na ilha. Ao jornal americano, o vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío classificou a iniciativa como mais um capítulo histórico de tentativas de desestabilização do governo por Washington.</p>
<p>O sistema de saúde do país, outrora muito elogiado, é o primeiro a sentir os efeitos da crise. Segundo dados do Ministério da Saúde Pública cubano, há hoje uma fila de espera em hospitais de 96 mil pacientes, entre eles mais de 11 mil crianças aguardando cirurgia. O bloqueio energético dificulta tanto a importação de medicamentos quanto o acesso a matérias-primas para a indústria farmacêutica local, o que forçou hospitais a concentrar a capacidade operacional quase exclusivamente no atendimento de emergências.</p>
<p>Um levantamento da mídia estatal Cubadebate, divulgado em junho, mostrou queda na taxa de sobrevivência de crianças com câncer, de 85% para 65% desde o início das restrições energéticas em janeiro. Há também quase 3 mil pacientes em diálise afetados pela crise energética, segundo o mesmo levantamento.</p>
<p>Em março, o sistema da ONU em Cuba lançou um apelo emergencial de US$ 94,1 milhões, alertando para risco de perdas de vidas com o agravamento da escassez de combustível. Na ocasião, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chamou a situação sanitária cubana de "profundamente preocupante" e defendeu que a saúde não deveria ficar refém de geopolítica.</p>
<h2>Impacto psicológico</h2>
<p>O colapso também afeta a saúde mental. A relação começou a ser medida em 2025, antes mesmo do agravamento mais recente da crise. Um estudo dos psicólogos Yunier Broche-Pérez e Zoylen Fernández-Fleites, publicado na revista científica Social Science & Medicine, ouviu 415 adultos cubanos entre julho e novembro daquele ano e encontrou 55,4% com depressão "extremamente severa", 65,8% com estresse extremo e 66% com ansiedade severa. Outros 79% relataram irritabilidade alta. Os autores encontraram relação direta entre a duração dos apagões e a piora dos sintomas.</p>
<p>Em entrevista à DW, Broche-Pérez, que dirige um centro terapêutico na Flórida, apontou a imprevisibilidade como o fator mais desgastante. Sem saber quando a energia falta nem quanto tempo o corte vai durar, a pessoa permanece em estado constante de vigilância e antecipação, o que impede qualquer rotina estável de sono, trabalho, alimentação ou cuidado com filhos e idosos. O psicólogo defendeu que a instabilidade energética seja tratada como problema de saúde pública, não apenas como inconveniente técnico.</p>
<p>Em Centro Habana, Mayumis Núñez, de 44 anos, dorme numa cama improvisada na rua desde que o prédio onde morava desabou parcialmente e foi interditado. O que mais pesa, contou à AFP, não é o desconforto físico, mas não saber quando a situação vai terminar. Já o guia turístico Leandro Wanton, desempregado após o colapso do setor, disse à reportagem que a frustração, em muitos dias, é difícil de conter.</p>
<p>A mesma reportagem ouviu Tania Peón, diretora de Saúde Mental de Havana, para quem grande parte da população cubana vive hoje em estado de alerta permanente, gasta tentando resolver necessidades básicas do dia a dia. Segundo ela, esse esforço contínuo se acumula num quadro que descreve como estresse sobre estresse. Peón também alerta para o aumento de comportamento suicida entre adolescentes no primeiro semestre de 2026, embora faça a ressalva de que o fenômeno não pode ser atribuído apenas à crise energética.</p>
<p>Dados apresentados pela ONU em maio reforçam o quadro material por trás dos números de saúde mental. Segundo a organização, 33,9% dos lares cubanos relataram fome recente, e 79,4% das famílias destinam mais de 80% da renda à compra de alimentos.</p>
<p>A exaustão da população acompanha um quadro migratório que já vinha se agravando antes mesmo do atual ciclo de apagões. Segundo dado divulgado em julho pela Oficina Nacional de Estatística e Informação (ONEI), Cuba fechou 2025 com 9.434.593 habitantes, 313.414 a menos que no ano anterior 
–
 pelo menos 245.264 dessas pessoas emigraram. Desde 2020, a população da ilha caiu quase 1,8 milhão de pessoas.</p>
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        <media:credit role="provider">YAMIL LAGE / AFP)</media:credit>
        <media:title>cubae</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Global South World]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Artigo | O verdadeiro antídoto para o estresse</title>
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      <pubDate>Thu, 06 Aug 2026 11:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Como anda o seu nível de estresse? Provavelmente você não precisou pensar muito para responder. E não está sozinho. Vivemos uma epidemia silenciosa. Segundo a Organização Mundial da Saúde, ansiedade e depressão fazem com que cerca de 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos todos os anos, gerando um prejuízo estimado em US$ 1 trilhão para a economia mundial. A própria OMS reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho. A Gallup, em seu relatório  State of the Global Workplace 2026 , revelou que quatro em cada dez trabalhadores afirmaram ter vivido um dia de intenso estresse.</p>
<p>Estamos todos cansados, mas o verdadeiro problema não é apenas o estresse. É a ausência de recuperação. Durante décadas acreditamos que o burnout era consequência de trabalhar demais. Hoje sabemos que essa explicação é incompleta. O cérebro humano evoluiu para alternar períodos de esforço e recuperação. Nós fizemos exatamente o contrário: transformamos a atenção contínua em um modo de viver. Respondemos mensagens durante reuniões. Interrompemos uma tarefa para começar outra. Trocamos de contexto dezenas de vezes ao dia. Encerramos o expediente, mas não encerramos o trabalho. O celular continua ao nosso lado. As notificações continuam chegando. E o cérebro permanece em estado de alerta, como se a próxima urgência pudesse surgir a qualquer instante. O corpo chega em casa. O cérebro, muitas vezes, não.</p>
<p>É justamente nessa dificuldade de recuperar a atenção, regular as emoções e interromper o estado permanente de vigilância que o estresse deixa de ser uma resposta adaptativa do organismo e passa a produzir desgaste físico e mental. O burnout não nasce apenas do excesso de trabalho. Ele também floresce quando perdemos a capacidade de recuperação. Essa diferença é fundamental. A boa notícia é que isso não depende apenas de férias, mudanças radicais ou longos períodos de descanso. Ela pode começar em poucos minutos, várias vezes ao dia.</p>
<p>A ciência tem um nome para isso: microbreaks. São pausas curtas e intencionais inseridas ao longo da jornada de trabalho. Uma ampla revisão científica, reunindo mais de 2.300 participantes, mostrou que esses pequenos intervalos reduzem a fadiga e aumentam a sensação de energia e bem-estar. Não se trata de trabalhar menos, mas de respeitar a biologia do cérebro. Porém, vale o alerta: nem toda pausa, porém, produz o descanso cerebral necessário. Parar para abrir outra rede social, responder mais mensagens ou consumir novos estímulos dificilmente muda o estado mental. O corpo interrompe a atividade, mas o cérebro continua acelerado.</p>
<p>Uma pausa restauradora precisa mudar a qualidade da atenção. É nesse ponto que a arte ganha um papel surpreendente. Não porque uma pintura, uma fotografia ou uma escultura curem o estresse. Essa afirmação seria simplista, mas porque experiências estéticas mobilizam sistemas cerebrais ligados à atenção, à emoção, à memória e à construção de significado.</p>
<p>Nas últimas décadas, alguns dos maiores neurocientistas do mundo vêm demonstrando que a experiência estética produz efeitos mensuráveis sobre o cérebro. O neurologista Anjan Chatterjee, professor da Universidade da Pensilvânia e um dos maiores especialistas mundiais em neuroestética, está verificando como a contemplação artística ativa diferentes redes cerebrais simultaneamente. O neurocientista Semir Zeki, da University College London, investiga como experiências estéticas estimulam circuitos relacionados ao prazer e à recompensa. Susan Magsamen, diretora do International Arts + Mind Lab da Universidade Johns Hopkins, está reunindo evidências de que a arte contribui para o bem-estar, a criatividade, a aprendizagem e a regulação emocional.</p>
<p>Esses levantamentos apontam para uma ideia poderosa: a arte não é apenas entretenimento. Ela também pode ser a ferramenta poderosa para treinamento da atenção e isso é a porta de entrada da neuroplasticidade, que, por sua vez, é a capacidade que o cérebro possui de se reorganizar ao longo da vida em resposta às experiências repetidas. Cada hábito fortalece determinados circuitos neurais. Quanto mais repetimos uma forma de perceber o mundo, mais eficiente o cérebro se torna nessa tarefa. Isso significa que um cérebro treinado para a pressa também pode ser treinado para a presença não por meio de grandes revoluções, mas pela repetição de pequenos hábitos.</p>
<p>Da mesma forma que ninguém desenvolve condicionamento físico com um único treino na semana, o cérebro também precisa de prática contínua para fortalecer circuitos ligados à atenção, à percepção e à autorregulação. É por isso que proponho um exercício extremamente simples. No meio da manhã ou da tarde, interrompa o trabalho durante três minutos. Sim, três minutos. Escolha algumas fotografias de quadros abstratos, da natureza ou de qualquer cena que desperte curiosidade. Observe. Não passe rapidamente para a próxima imagem. Permaneça, perceba a luz, as sombras, as texturas e os detalhes. Depois faça apenas uma pergunta: O que estou vendo agora que não percebi no primeiro olhar?</p>
<p>Esse pequeno exercício desloca o cérebro do modo automático para a observação deliberada. Pode parecer pouco, mas é exatamente assim que novos hábitos começam. Um dia de cada vez. O maior erro quando falamos sobre estresse é imaginar que tudo precisa mudar ao mesmo tempo. Dormir melhor. Comer melhor. Fazer atividade física. Meditar. Organizar a agenda. Trocar de emprego. </p>
<p>Claro que mudanças estruturais são importantes e, em muitos casos, acompanhamento médico e psicológico é indispensável. Mas o cérebro também aprende pelas pequenas experiências repetidas diariamente: um minuto, três minutos e cinco minutos. Uma pausa antes da próxima reunião. Uma respiração profunda antes de responder a um e-mail difícil. Uma fotografia da família observada sem pressa.  Esses gestos não eliminam a pressão do mundo, porém mudam a maneira como o cérebro reage ao estresse.</p>
<p>Em uma época que recompensa velocidade, contemplar parece improdutivo. Na realidade, as pesquisas comprovam que pode ser uma das formas mais inteligentes de preservar atenção, equilíbrio emocional e capacidade de decisão.</p>
<p>Enquanto investimos bilhões em inteligência artificial, ainda dedicamos pouco tempo ao desenvolvimento da inteligência humana. Aprendemos a medir produtividade, velocidade e desempenho, mas negligenciamos uma habilidade fundamental: a capacidade de recuperar a atenção.</p>
<p>A contemplação não elimina os desafios da vida nem substitui tratamentos médicos ou psicológicos. Mas oferece ao cérebro algo cada vez mais raro: alguns minutos livres da urgência, da interrupção e da sobrecarga de estímulos. Três minutos dificilmente mudarão uma vida, mas podem inaugurar um novo hábito. E são os hábitos, muito mais do que as grandes decisões, que remodelam o cérebro ao longo do tempo.</p>
<p>A neuroplasticidade nos lembra que cada experiência repetida deixa uma marca. Cada pausa intencional fortalece circuitos ligados à atenção, à percepção e à autorregulação. A recuperação não surje quando sobra tempo. Acontece quando decidimos que ela é importante. Cuidar do cérebro não começa nas grandes mudanças, mas no próximo minuto de atenção que escolhemos dedicar a nós mesmos.</p>
<p>*Angélica Consiglio e especialista em neurociência aplicada à liderança e à tomada de decisão.</p>
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        <media:title>Saúde menatl</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Angélica Consiglio]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Pode Falar, plataforma de saúde mental para jovens, chega ao Meu SUS Digital</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/pode-falar-plataforma-de-saude-mental-para-jovens-chega-ao-meu-sus-digital</link>
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      <pubDate>Thu, 06 Aug 2026 10:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Adolescentes e jovens de  13 a 24 anos  ganharam uma nova forma de acessar atendimento gratuito em saúde mental pelo SUS (Sistema Único de Saúde). A plataforma  Pode Falar , criada em  2021  pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Núcleo do Cuidado Humano da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), passou a integrar o aplicativo  Meu SUS Digital , ampliando o acesso ao serviço em todo o país.</p>
<p>Antes, a plataforma era acessada pelo site www.podefalar.org.br. Com essa integração, cresce seu potencial de atendimento. A expectativa do Ministério da Saúde é aumentar significativamente o alcance, saindo dos atuais  1,1 mil acolhimentos por mês  (média) para  11 mil , segundo estimativa da pasta, que anunciou a novidade na semana passada.</p>
<p>O Pode Falar oferece acolhimento emocional, orientação em saúde mental e atendimento humanizado, com opção de anonimato. A iniciativa busca reduzir as barreiras para que adolescentes e jovens procurem ajuda diante de situações como ansiedade, tristeza persistente, conflitos familiares, dificuldades escolares, solidão e outros tipos de sofrimento psíquico.</p>
<h2>O que é o Pode Falar?</h2>
<p>A plataforma nasceu como um canal digital de escuta acolhedora voltado à saúde mental de adolescentes e jovens, semelhante ao CVV. A iniciativa reúne instituições parceiras que desenvolvem pesquisas, produzem conhecimento e ajudam a aperfeiçoar políticas públicas voltadas a essa faixa etária.</p>
<p>Em  junho deste ano , o Ministério da Saúde passou a integrar o projeto para ampliar a capacidade de atendimento e fortalecer a oferta de cuidado em saúde mental dentro do SUS.</p>
<h2>Como funciona</h2>
<p>O acesso agora pode ser feito diretamente pelo aplicativo  Meu SUS Digital . É preciso entrar na área de  miniaplicativos  e selecionar a opção  Pode Falar . O serviço também continua disponível pelo site oficial da plataforma.</p>
<p>O atendimento funciona  de segunda a sábado, das 8h às 22h (horário de Brasília) .</p>
<p>O primeiro contato é feito por  Ariel , chatbot criado pela plataforma para realizar uma escuta inicial. O nome foi sugerido pelos primeiros usuários do serviço por ser não-binário. Com o tempo, Ariel ganhou contornos, formas, cores e expressões pelas mãos de uma ilustradora.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asjVXYEdEMHmb84lO.png?width=800&height=600&quality=75" alt="O chatbot Ariel faz o primeiro atendimento aos usuários."/>
<p>O sistema também oferece conteúdos educativos sobre saúde mental para ajudar o jovem a compreender melhor suas emoções.</p>
<p>Quando o usuário manifesta interesse ou o sistema identifica necessidade de apoio mais direto, a conversa é encaminhada para um atendimento humano.</p>
<p>Os acolhimentos são realizados por estudantes de graduação e pós-graduação de áreas como psicologia, medicina e educação, sempre supervisionados por professores e profissionais experientes, que recebem formação contínua e seguem protocolos específicos para cada situação.</p>
<h2>Inteligência artificial identifica casos prioritários</h2>
<p>A plataforma utiliza recursos de inteligência artificial para ajudar a identificar usuários que possam estar em situação de maior risco emocional.</p>
<p>Enquanto aguardam atendimento, as mensagens são analisadas pela ferramenta. Caso sejam detectados indícios de uma possível crise, um alerta é enviado imediatamente à equipe responsável para que aquele atendimento receba prioridade na fila.</p>
<p>De acordo o Ministério da Saúde, o objetivo é agilizar o acolhimento das situações mais urgentes.</p>
<h2>Quando procurar atendimento presencial</h2>
<p>Embora funcione como uma importante porta de entrada para o cuidado, o Pode Falar não substitui o atendimento presencial quando o sofrimento psíquico é intenso ou persistente.</p>
<p>Se os sintomas comprometem a rotina, os estudos, o trabalho ou as relações pessoais, a orientação é procurar uma  Unidade Básica de Saúde (UBS) . A partir daí, quando necessário, o paciente é encaminhado para serviços especializados da rede pública, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).</p>
<p>Além de prestar atendimento, a Rede Pode Falar atua na formação de futuros profissionais da saúde e desenvolve pesquisas sobre a saúde mental de adolescentes e jovens para subsidiar políticas públicas no país.</p>
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      <dc:creator><![CDATA[GSW Brasil]]></dc:creator>
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      <title>Governo faz campanha de saúde mental para os riscos das apostas online</title>
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      <pubDate>Thu, 30 Jul 2026 19:29:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>O Ministério da Saúde lançou uma ação dirigida a quem está enfrentando problemas por causa das apostas online, as chamadas bets. A estratégia está calcada em uma campanha nacional de prevenção aos danos à saúde mental provocados por esses jogos. Ela entrou no ar, na TV, no rádio e nas redes sociais, em pleno domingo, 26, dia em que acontecem muitos jogos e eventos esportivos. Esse mercado é um dos principais patrocinadores do universo do futebol e a comunicação visa impactar exatamente o público que acompanha as partidas.</p>
<p>A campanha divulga os serviços de saúde mental oferecidos pelo SUS para o acolhimento e o tratamento de apostadores e familiares afetados. O sistema público dispõe de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos. O serviço é sigiloso e permite o acesso à assistência especializada a distância.</p>
<p>Quem precisar de ajuda, pode entrar no “Meu SUS Digital” (no aplicativo ou na web) e fazer login com a conta gov.br. Na página inicial, é necessário selecionar “ miniapps ”. Em seguida, “Problemas com jogos de apostas?”.</p>
<p>Há um autoteste para ser feito na plataforma. As perguntas ajudam a avaliar a relação da pessoa com as apostas e a identificar o cuidado mais adequado. Quando o resultado indica risco moderado ou elevado, o encaminhamento para o teleatendimento é feito automaticamente.</p>
<p>Em outros casos, o aplicativo orienta sobre os serviços da  Rede de Atenção Psicossocial  (RAPS), que atende, dentro do SUS, pacientes com sofrimento mental ou que enfrentam problemas com uso prejudicial de álcool, drogas e apostas.</p>
<p>O atendimento presencial pode começar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para orientação e avaliação inicial. Quando houver necessidade de cuidado especializado em saúde mental, o paciente é encaminhado a um  Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) .</p>
<h2>Como bloquear o acesso às plataformas de apostas</h2>
<p>Outra ferramenta disponível é a  Plataforma Centralizada de Autoexclusão , do Ministério da Fazenda. A pessoa pode solicitar o bloqueio do acesso aos sites de apostas legalizados. Também nesse caso é preciso entrar com a conta gov.br.</p>
<h2>Bets, um transtorno no Brasil e no mundo</h2>
<p>O Transtorno do Jogo é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno de comportamento aditivo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição afeta cerca de 1,2% da população adulta mundial.</p>
<p>Dados do Ministério da Fazenda, divulgados em junho passado, indicam que cerca de 25,2 milhões de brasileiros realizam apostas em plataformas ilegais. A pasta informou ainda que uma em cada quatro dessas pessoas aposta diariamente.</p>
<p>Disponíveis 24 horas por dia, as bets utilizam recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis, que podem estimular a permanência e a repetição dos jogos.</p>
<p>Segundo o Ministério da Saúde, o uso problemático dessas plataformas pode levar a pessoa a apostar por mais tempo ou gastar mais do que havia planejado. Os efeitos podem ser devastadores para o indivíduo como para a família.</p>
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        <media:credit role="provider">Reprodução/ YouTube / Ministério da Saúde</media:credit>
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      <dc:creator><![CDATA[GSW Brasil]]></dc:creator>
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      <title>Hábitos saudáveis podem prevenir até 45% do risco de demência, aponta OMS</title>
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      <pubDate>Fri, 17 Jul 2026 15:55:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Praticar atividade física, manter uma alimentação equilibrada, controlar a pressão arterial e estimular o cérebro podem ajudar a prevenir ou adiar até 45% do risco de demência, segundo novas diretrizes divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta quarta-feira, 15. A recomendação ganha importância diante do avanço da doença, que afeta mais de 57 milhões de pessoas no mundo. O Alzheimer é a forma mais comum do problema e responde por aproximadamente 60% a 70% dos diagnósticos.</p>
<p>"Hoje sabemos muito mais do que antes sobre os fatores que aumentam o risco de demência, e estas diretrizes transformam esse conhecimento em ação", afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Segundo ele, os países passam a contar com recomendações baseadas em evidências que podem ser implementadas imediatamente para proteger a saúde cognitiva da população.</p>
<p>A atualização amplia e consolida orientações publicadas pela primeira vez em 2019. Além de reforçar recomendações já conhecidas, como parar de fumar, reduzir o consumo de álcool, praticar atividade física regularmente e manter uma alimentação saudável, a OMS passou a incluir a redução da exposição à poluição do ar como estratégia de prevenção.</p>
<p>O documento também destaca a importância do controle de hipertensão, diabetes e colesterol elevado, da estimulação cognitiva, da participação em atividades sociais e, quando indicado, do uso de aparelhos auditivos.</p>
<p>Em contrapartida, não recomenda o uso de suplementos vitamínicos ou de ômega-3 para prevenir a doença quando não houver deficiência comprovada, por falta de evidências científicas a respeito desse efeito.</p>
<h2>Evidência prática</h2>
<p>Uma pesquisa recente reforça as novas orientações da OMS. Publicado neste mês na revista científica  The Lancet , uma das mais prestigiadas do mundo na área médica, o estudo Latam-Fingers acompanhou durante dois anos 1.065 pessoas entre 60 e 77 anos, em 11 países da América Latina, entre eles o Brasil, para avaliar se mudanças simultâneas no estilo de vida poderiam reduzir o declínio cognitivo. O trabalho contou com especialistas brasileiros, ligados à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).</p>
<p>Os participantes tinham fatores de risco cardiovasculares e desempenho cognitivo abaixo do esperado para a idade, mas ainda não apresentavam diagnóstico de demência. Eles foram divididos em dois grupos. Um recebeu apenas orientações gerais sobre saúde. O outro participou de um programa estruturado que combinava quatro frentes de intervenção.</p>
<p>A primeira envolvia atividade física supervisionada, com exercícios aeróbicos, musculação, treino de equilíbrio e coordenação realizados quatro vezes por semana. A segunda consistia em orientação nutricional baseada em uma dieta chamada Mind, que prioriza vegetais folhosos verdes, frutas vermelhas, grãos integrais, azeite de oliva, peixes, aves, feijões e oleaginosas, enquanto recomenda limitar carne vermelha, manteiga, queijo, frituras e doces.</p>
<p>É importante esclarecer que a dieta Mind (sigla em inglês para Intervenção Mediterrânea-DASH para Retardo Neurodegenerativo) é um padrão alimentar que combina elementos da dieta mediterrânea com os da dieta DASH, tradicionalmente usada para controlar a pressão arterial, mas voltado especificamente para a saúde do cérebro. O diferencial em relação a outras dietas saudáveis é o foco: ela foi criada e estudada com o objetivo específico de reduzir o risco de declínio cognitivo e Alzheimer, e não apenas para emagrecimento ou saúde cardiovascular em geral.</p>
<p>A terceira frente era formada por treinamento cognitivo computadorizado, com exercícios voltados para memória, atenção e raciocínio. Por fim, os participantes passaram por monitoramento contínuo dos fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e excesso de peso.</p>
<p>Ao final dos dois anos, os participantes do programa estruturado apresentaram desempenho cognitivo global cerca de 55% melhor do que o observado entre aqueles que receberam apenas orientações gerais.</p>
<p>Os ganhos mais expressivos ocorreram na memória episódica — responsável por recordar acontecimentos e experiências pessoais —, seguidos pela função executiva, relacionada ao planejamento e à tomada de decisões, e pela velocidade de processamento das informações.</p>
<p>Outro resultado relevante foi a boa adesão ao programa. Cerca de 72% dos participantes conseguiram manter as mudanças propostas durante todo o estudo, e a taxa de abandono foi menor entre aqueles que receberam acompanhamento intensivo. Os pesquisadores também observaram que a intervenção foi segura: os eventos adversos mais comuns foram dores musculares e articulares associadas ao aumento da atividade física, sem registro de efeitos graves relacionados ao programa.</p>
<h2>Prevenção ganha protagonismo</h2>
<p>Para os pesquisadores, o principal mérito do Latam-Fingers foi demonstrar que um programa multidisciplinar de prevenção pode ser implementado com sucesso em diferentes contextos sociais e culturais da América Latina, região que reúne alta prevalência de fatores de risco para demência, como hipertensão, diabetes, obesidade e menor escolaridade. Os autores ressaltam que a estratégia não depende de medicamentos, mas da combinação coordenada de mudanças no estilo de vida e do acompanhamento contínuo dos participantes.</p>
<p>Os resultados dialogam diretamente com a nova estratégia da OMS. Sem uma cura amplamente disponível para a demência, a prevenção passa a ocupar papel central nas políticas de saúde pública. Segundo a organização, compreender os fatores de risco e agir precocemente pode ajudar as pessoas a preservar a autonomia, a qualidade de vida e a saúde cognitiva por mais tempo, além de reduzir o impacto econômico da doença, estimado em US$ 1,3 trilhão por ano em todo o mundo.</p>
<h2>Avanço na América Latina</h2>
<p>Outro estudo recente indicou um importante avanço da doença na América Latina e no Caribe. Publicada na segunda-feira, 13, na JAMA Neurology, uma das principais revistas científicas internacionais da área de neurologia, a pesquisa identificou que a prevalência de demência aumentou na região ao longo de duas décadas, na contramão da tendência observada nos Estados Unidos e em boa parte da Europa.</p>
<p>O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade Washington em St. Louis (EUA) e da Universidade de Newcastle (Reino Unido) e comparou duas grandes pesquisas domiciliares realizadas entre 2003 e 2006 e entre 2016 e 2020, nas quais foram avaliados 16.950 idosos com 65 anos ou mais. Cinco países e territórios foram escolhidos para esse estudo: México, Peru, Porto Rico, Cuba e República Dominicana.</p>
<p>Em vez de acompanhar continuamente o mesmo grupo por 20 anos, os cientistas repetiram o levantamento com a mesma metodologia, visitando as casas dos participantes para medir a prevalência da enfermidade. No conjunto dos cinco lugares analisados, a proporção de idosos com demência passou de 10,6% para 16,9%, o equivalente a um salto de um em cada dez para quase um em cada seis.</p>
<p>O aumento foi observado principalmente no México (de 9,6% para 14,5%), Peru (de 7,6% para 11,7%) e Porto Rico (de 10,7% para 15,7%), enquanto Cuba e República Dominicana mantiveram índices estáveis. Os autores apontam a necessidade de pesquisas semelhantes em países como Brasil, Argentina e Chile para verificar se a mesma tendência também ocorre nessas populações.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asz5qHbBaSOz5tDst.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="Mulher treina, médica faz avaliação em paciente, mulheres preparam alimentos, homem e criança jogam xadrez e duas mulheres mais velhas conversam."/>
<h1>Cinco pilares para reduzir o risco de declínio cognitivo</h1>
<p>Confira os hábitos adotados no estudo Latam-Fingers, que acompanhou  1.065 pessoas de 11 países, entre 60 e 77 anos, durante dois anos. Em conjunto, essas estratégias melhoraram o desempenho das funções mentais dos participantes.</p>
<p>1. Exercício físico regular</p>
<p>2. Alimentação no padrão Mind</p>
<p>3. Treino cognitivo ativo</p>
<p>4. Controle dos fatores de risco cardiovascular</p>
<p>5. Engajamento social</p>
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