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    <title>Global South World Brasil - Pedro Sanchez</title>
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    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>Maricarmen, símbolo da crise mundial de moradia, morre antes de assinar acordo</title>
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      <pubDate>Thu, 08 Oct 2026 14:19:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Maricarmen Abascal queria morrer na casa onde havia vivido praticamente toda a vida, em Madri, capital espanhola. Aos 87 anos, depois de seis anos de disputa judicial com uma imobiliária, foi retirada do apartamento que sua família alugava desde 1956. Sua história já mobilizava vizinhos e movimentos sociais, que tinham conseguido impedir três tentativas anteriores de despejo. Mas as imagens da aposentada sendo levada do imóvel em uma maca, em 23 de setembro, provocaram uma onda de indignação que levou dezenas de milhares de pessoas às ruas e transformou seu caso em símbolo da crise da moradia na Espanha – e também do mundo. Sob pressão popular, a imobiliária aceitou que ela voltasse para casa. Mas para ela a decisão veio tarde. Maricarmen morreu na quarta-feira, 7, no hospital, horas antes de assinar o novo contrato de aluguel.</p>
<p>A história da aposentada espanhola ecoa por muitas outras cidades do mundo. Da América Latina à África e à Ásia, milhões de pessoas enfrentam a ameaça de perder a casa, a dificuldade de pagar aluguéis cada vez mais altos ou a necessidade de se mudar para regiões distantes de onde trabalham ou de seus vínculos familiares. A moradia tornou-se um investimento financeiro cujo valor frequentemente cresce mais rápido do que a renda de quem precisa de um lugar para viver.</p>
<p>A dimensão dessa crise aparece no Relatório Mundial das Cidades 2026, divulgado em maio pela ONU. De acordo com o documento, cerca de 3,4 bilhões de pessoas — mais de 40% da população mundial — não têm acesso a uma moradia segura e adequada. O estudo também estima que aproximadamente 64 milhões de pessoas foram despejadas de suas casas entre 2003 e 2023.</p>
<p>O drama de Maricarmen se transformou um símbolo desse problema na Espanha. Além de provocar manifestações em diferentes cidades e um acampamento na Puerta del Sol, uma das principais praças de Madri, o despejo da aposentada levou a uma mobilização nacional por medidas de proteção aos inquilinos. A crise escalou, chegou ao Congresso e contribuiu para a decisão do primeiro-ministro Pedro Sánchez de antecipar para 29 de novembro de 2026 as eleições gerais, previstas para 2027.</p>
<h2>Sete décadas na mesma casa</h2>
<p>A história de Maricarmen com o apartamento começou quando seu pai alugou o imóvel, de aproximadamente 90 metros quadrados, no bairro de Retiro, em 1956. Depois da morte dele, o contrato passou para sua mãe e, posteriormente, para a filha.</p>
<p>Durante décadas, ela continuou pagando o aluguel, que, somado a outras despesas, chegava a aproximadamente 500 euros mensais. A situação mudou quando o imóvel foi adquirido pela empresa Urbagestión, em 2018.</p>
<p>Dois anos depois, a imobiliária comunicou que Maricarmen deveria deixar a residência. A empresa alegava que a legislação espanhola limitava a transferência de antigos contratos de aluguel entre gerações da mesma família e que o direito da aposentada de permanecer no imóvel havia terminado.</p>
<p>A Justiça de primeira instância deu ganho a Maricarmen, mas a decisão foi revertida em 2022. O Tribunal Supremo não admitiu o recurso apresentado por sua defesa, tornando definitiva a decisão contrária à continuidade do contrato.</p>
<p>A imobiliária chegou a oferecer uma alternativa de aluguel por cerca de 1.600 euros mensais. Maricarmen recebia uma aposentadoria de 1.400 euros. Para continuar vivendo em uma residência alugada nas condições propostas, teria de gastar mais do que toda a sua renda.</p>
<p>Com o apoio do Sindicato de Inquilinas de Madri, ela resistiu a três tentativas de despejo, suspensas após manifestações e mobilizações de vizinhos. A ordem judicial foi cumprida em uma quarta-feira, o dia 23 de setembro.</p>
<p>Debilitada e com dificuldades de locomoção, Maricarmen deixou o apartamento em uma cadeira de rodas e foi transferida para uma maca, na qual foi levada ao hospital Gregorio Marañón. Nunca mais voltou para casa.</p>
<h2>O despejo que levou a Espanha às ruas</h2>
<p>Além da fúria popular, as imagens da aposentada sendo retirada de sua residência ampliaram um movimento que já contestava o encarecimento dos aluguéis e a dificuldade de acesso à moradia na Espanha.</p>
<p>Em 26 de setembro, dezenas de milhares de pessoas participaram de uma manifestação em Madri. Parte dos manifestantes decidiu permanecer na Puerta del Sol, dando início a um acampamento que se transformou em um dos principais pontos de mobilização do movimento por moradia.</p>
<p>A pressão chegou a Pedro Sánchez, que apresentou dois decretos emergenciais com medidas relacionadas à habitação. As propostas foram rejeitadas no Congresso, com votos contrários de partidos como PP, Vox e Junts. A derrota parlamentar aprofundou a crise política, e Sánchez anunciou, em 5 de outubro, a antecipação das eleições gerais para 29 de novembro.</p>
<p>As centrais sindicais UGT e Comisiones Obreras também aderiram à convocação de uma greve geral por moradia, prevista para 11 de novembro.</p>
<p>Enquanto isso, a defesa de Maricarmen conseguiu negociar seu retorno ao apartamento. Em 28 de setembro, a imobiliária aceitou um contrato de oito anos, com aluguel próximo ao valor que ela pagava anteriormente. A empresa assinou o documento e entregou as chaves em 2 de outubro.</p>
<p>Maricarmen deveria assinar sua parte do contrato nesta quinta-feira, 8, mas seu estado de saúde piorou inesperadamente na manhã de quarta-feira, 7. Ela morreu às 19h30, acompanhada de familiares e pessoas próximas do sindicato.</p>
<p>Naquela noite, moradores deixaram flores, velas e mensagens diante do prédio onde ela havia vivido. Outros manifestantes se reuniram na Puerta del Sol e caminharam até o Congresso.</p>
<p>Maricarmen completaria 88 anos em 2 de novembro. Os amigos planejavam uma festa para comemorar seu retorno ao apartamento. Agora, a data será dedicada a uma homenagem.</p>
<h2>Moradia como negócio: o que está por trás da crise espanhola</h2>
<p>A situação de Maricarmen expôs um conflito que se intensificou em Madri e em outras cidades espanholas: a disputa entre a moradia como lugar para viver e o imóvel como fonte de rendimento financeiro.</p>
<p>O crescimento dos investimentos imobiliários, a valorização das propriedades e a expansão dos aluguéis de curta duração, oferecidos em plataformas como o Airbnb, fazem parte dessa transformação. Em áreas turísticas, apartamentos antes destinados a moradores permanentes podem ser convertidos em hospedagens temporárias, potencialmente mais rentáveis.</p>
<p>Mas o turismo não explica sozinho o encarecimento da habitação. O mercado espanhol também enfrenta problemas relacionados à oferta de imóveis acessíveis, à distribuição das propriedades, à evolução dos salários e à atuação de investidores. A combinação desses fatores varia entre bairros e cidades.</p>
<p>No caso de Maricarmen, não há evidências de que seu apartamento seria transformado em hospedagem turística. O conflito envolveu a validade de um contrato antigo e o interesse da empresa proprietária em estabelecer novas condições de aluguel.</p>
<p>A questão central, porém, é semelhante à enfrentada por outros inquilinos: quando o valor de mercado de um imóvel aumenta muito mais do que a renda de seus moradores, permanecer na mesma casa pode se tornar economicamente inviável, mesmo para quem paga aluguel regularmente há décadas.</p>
<h2>ONU: 64 milhões de pessoas foram despejadas  entre 2003 e 2023</h2>
<p>A história de Maricarmen revela uma das faces de um problema muito maior. Segundo o Relatório Mundial das Cidades 2026, elaborado pela ONU-Habitat, a agência das Nações Unidas dedicada à habitação e ao desenvolvimento urbano, a crise mundial da moradia atinge até 3,4 bilhões de pessoas.</p>
<p>O número inclui diferentes situações: famílias que não conseguem pagar por uma residência adequada, pessoas que vivem em habitações precárias, moradores de assentamentos informais e populações expostas à insegurança da posse ou à ameaça de remoção.</p>
<p>Os dados mostram que a crise não se limita à falta de imóveis. O custo da habitação também se tornou um obstáculo para quem já tem onde morar. Em escala mundial, 44% dos moradores em domicílios alugados comprometem mais de 30% da renda com essa despesa, percentual frequentemente utilizado como referência para identificar dificuldades de acesso à moradia.</p>
<p>O relatório também estima que aproximadamente 64 milhões de pessoas foram despejadas no mundo entre 2003 e 2023. Já o déficit global de moradias passou de 251 milhões de unidades em 2010 para 288 milhões em 2023.</p>
<p>Outro indicador ajuda a dimensionar o encarecimento da habitação. Em 2010, o preço de uma moradia equivalia, em média, a 9,3 anos de renda familiar. Em 2023, essa relação havia subido para 11,2 anos, segundo a ONU-Habitat. Isso significa que os imóveis ficaram mais caros em relação ao rendimento das famílias.</p>
<p>O encarecimento da propriedade também pode aumentar a dependência do aluguel, especialmente entre pessoas que não conseguem obter financiamento ou reunir dinheiro para comprar um imóvel.</p>
<h2>No Brasil, 3,6 milhões de famílias comprometem renda excessiva com aluguel</h2>
<p>Por aqui, 3,6 milhões de domicílios urbanos tinham gastos excessivos com aluguel em 2024, segundo levantamento da Fundação João Pinheiro divulgado em junho de 2026. O indicador considera famílias com renda de até três salários mínimos que destinam mais de 30% de seus rendimentos ao pagamento do aluguel. Esse foi o principal componente do déficit habitacional brasileiro, estimado em 5,77 milhões de domicílios.</p>
<p>A pressão sobre o orçamento ocorre em um país onde cresce a proporção de pessoas que vivem em imóveis alugados. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a parcela de domicílios nessa condição passou de 18,4% em 2016 para 23% em 2024. No mesmo período, o número de moradores em residências alugadas aumentou de 35 milhões para 46,5 milhões.</p>
<p>Os preços também continuam subindo acima da inflação. De acordo com o Índice FipeZAP, os valores anunciados para novos aluguéis residenciais acumularam alta de 9,16% nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, diante de uma inflação oficial de 4,22% no período. O indicador acompanha preços de anúncios imobiliários, que não correspondem necessariamente aos valores efetivamente pagos pelos inquilinos.</p>
<p>Os dados mostram que, também no Brasil, o custo de permanecer em uma residência alugada pode consumir uma parcela significativa da renda familiar, restringindo os recursos disponíveis para outras necessidades essenciais.</p>
<h2>África e América Latina enfrentam forte pressão dos aluguéis</h2>
<p>A crise é especialmente grave em partes do Sul Global, onde o custo da moradia se combina com salários baixos, informalidade no mercado de trabalho e dificuldades de acesso a financiamentos.</p>
<p>Na África Subsaariana, 55% das pessoas que vivem em domicílios alugados gastam mais de 30% de sua renda com essa despesa, de acordo com a ONU-Habitat. Na América Latina e no Caribe, a proporção chega a 48%, acima da média global de 44%.</p>
<p>A situação africana é agravada pelo crescimento acelerado das cidades. Milhões de pessoas se deslocam para centros urbanos em busca de trabalho, mas a construção de moradias acessíveis e a expansão dos serviços públicos não acompanham esse movimento.</p>
<p>Na América Latina, o relatório destaca a combinação de preços elevados dos terrenos, custos de construção, informalidade e oferta insuficiente de imóveis acessíveis. Em várias cidades, famílias de baixa renda acabam recorrendo a aluguéis informais, frequentemente em habitações de qualidade inferior e sem garantias contratuais.</p>
<p>A Ásia também enfrenta pressões significativas. Na Ásia Central e Meridional, a relação entre o preço da moradia e a renda chegou a 16,8 em 2023, acima do índice mundial de 11,2. O indicador ajuda a explicar por que a compra de um imóvel permanece fora do alcance de tantas famílias, mesmo em economias que passaram por períodos de crescimento.</p>
<h2>O problema não se limita às cidades turísticas</h2>
<p>A expansão dos aluguéis turísticos é uma das pressões sobre a habitação em cidades como Madri, Barcelona e outros destinos internacionais. Mas o encarecimento da moradia também atinge centros urbanos cuja economia depende principalmente de comércio, indústria e serviços.</p>
<p>A ONU-Habitat identifica diferentes fatores por trás da crise: crescimento populacional, desigualdade de renda, elevação do preço dos terrenos, investimentos insuficientes em habitação acessível e deslocamentos provocados por conflitos e desastres climáticos.</p>
<p>Em determinadas cidades, a compra de imóveis para investimento e a expectativa de valorização podem aumentar a distância entre os preços praticados no mercado e a capacidade de pagamento dos moradores. Em outras, a informalidade e a ausência de proteção aos inquilinos tornam a permanência na residência particularmente insegura.</p>
<p>O problema é que, embora as causas variem, as consequências podem ser semelhantes: famílias obrigadas a comprometer grande parte da renda com aluguel, mudar para bairros distantes ou abandonar a casa onde viveram durante anos.</p>
<h2>A moradia entre o direito e o investimento</h2>
<p>Para a ONU-Habitat, enfrentar a crise exige reconhecer que a habitação não pode ser tratada apenas como uma mercadoria. O relatório defende o fortalecimento das políticas públicas, a ampliação da oferta de moradias sociais, mecanismos de financiamento acessíveis e maior participação das comunidades nas decisões sobre o desenvolvimento das cidades.</p>
<p>A organização também recomenda políticas que permitam melhorar os assentamentos informais, em vez de simplesmente removê-los, e medidas capazes de proteger populações vulneráveis diante da valorização imobiliária.</p>
<p>A diretora-executiva da ONU-Habitat, Anacláudia Rossbach, defende um novo compromisso entre governos, empresas e comunidades para conciliar as funções sociais e econômicas da habitação.</p>
<p>Em Madri, a mobilização de vizinhos, ativistas e sindicatos conseguiu garantir a Maricarmen um novo contrato de aluguel. O acordo permitiria que ela permanecesse por mais oito anos na casa onde seus pais viveram e morreram. Agora, ela não irá usufruir dessa conquista.</p>
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      <source url="https://www.globalsouthworld.com.br">Global South World Brasil</source>
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        <media:title>Maricarmen Abascal-moradia</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
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