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    <title>Global South World Brasil - Misoginia</title>
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    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>Há um movimento para deslegitimar o voto feminino? Sim, para 47% dos brasileiros</title>
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      <pubDate>Thu, 01 Oct 2026 11:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Dois em cada três brasileiros (67%) já ouviram frases como "mulher não sabe votar" ou "mulher vota com o coração". E, a menos de uma semana do primeiro turno, quase metade (47%), acredita que elas não são comentários soltos, mas parte de um movimento que tenta deslegitimar ou desestimular o voto feminino.</p>
<p>A percepção muda bastante a depender do gênero: 59% das mulheres identificam esse movimento, contra apenas 35% deles. Além disso, o trabalho apontou que 44% dos homens dizem que essa tentativa não existe. Foram ouvidos 1.449 eleitores brasileiros, entre 1 e 4 de setembro.</p>
<p>Os dados são de um estudo realizado pela Hibou, empresa de pesquisa e insights de mercado e consumo, para a plataforma Red é de Sangue – iniciativa do braço ESG da Fresh PR, com apoio da HeForShe Brasil (movimento da ONU Mulheres) e do Sindilegis, o Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União, que combate a influência misógina nas redes sociais.</p>
<p>Essa sensação de que estão tentando desqualificar o voto feminino acontece em um ano em que as mulheres somam 52,8% dos 158.745.463 cidadãos aptos a votar em outubro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mesmo assim, elas representam 34,8% das candidaturas registradas para as eleições de 2026, e só duas das 13 candidaturas à Presidência.</p>
<p>Para Ligia Mello, coordenadora da Hibou, o índice alto assusta, mas também tem um lado positivo. "É sinal de que o movimento está acontecendo, mas também de que as pessoas estão atentas", afirma. Segundo ela, o discurso raramente é escancarado. "Ele aparece em pequenas falas, como a de que a mulher é muito emocional".</p>
<h2>Um debate que tomou as redes</h2>
<p>O tema voltou ao debate público em junho, quando o influenciador Paulo Figueiredo, próximo da família Bolsonaro, questionou em uma live a "qualidade" do voto feminino. Depois do episódio, um grupo de deputadas federais pediu à Procuradoria-Geral da República que investigasse se falas desse tipo configuram tentativa de intimidar eleitoras.</p>
<p>Mas esse discurso é antigo, e vem ganhando cada vez mais força na internet. A pesquisa mostra que 47% dos entrevistados já tiveram contato com esse tipo de fala nas redes sociais, mensagens dizendo que mulheres não deveriam votar ou que são manipuláveis. Entre as mulheres, o índice sobe para 62%, quase o dobro do registrado entre os homens, 33%.</p>
<p>"A internet não é o vilão; ela é o meio. Esse discurso sempre existiu. Estamos passando de novo por um movimento dos extremos. Isso é cíclico, não é só o Brasil, é o mundo inteiro", diz Ligia. Para ela, as redes apenas tornaram mais visível algo antigo.</p>
<h2>Homens ouvem, mas não reconhecem</h2>
<p>Fora das redes, os homens são os que mais dizem já ter ouvido comentários misóginos, 69%, contra 66% das mulheres. Ainda assim, só um terço deles diz ter visto esse tipo de conteúdo na internet.</p>
<p>O estudo mostra ainda que 72% das mulheres sentem serem tratadas de forma diferente quando expressam suas opiniões políticas. Entre os homens, esse índice cai para 44%. "As pessoas simplesmente não percebem. Eles não acham que o comentário é misógino, não acham errado dizer que mulher faz drama para tudo. Acham que isso é só a realidade", comenta Ligia.</p>
<p>Embora a lei obrigue os partidos a destinar às candidatas ao menos 30% do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda, cerca de dois terços dos recursos seguem indo para campanhas de homens, que são a maioria dos candidatos, o que reforça o seu peso na política.</p>
<h2>A ideia do "voto emocional"</h2>
<p>A pesquisa revela que 98% dos homens dizem que todos têm a mesma capacidade de avaliar candidatos e propostas. Mas 25% deles concordam, total ou parcialmente, que as mulheres são mais emocionais e que isso pode atrapalhar suas decisões políticas. E um em cada cinco concorda que os homens são mais centrados e votam melhor. Entre as mulheres, esses índices são de 12% e 8%.</p>
<p>Ao mesmo tempo, questionados sobre quem pesquisa mais antes de votar, só 8% dos entrevistados apontam os homens, contra 22% que apontam as mulheres. A maioria (54%) acha que pesquisam igualmente. Para Ligia, essa contradição tem uma raiz cultural. Ela cita o efeito Dunning-Kruger, em que pessoas com pouco conhecimento sobre um tema superestimam a própria competência.</p>
<p>Segundo ela, os homens tendem a escolher uma bandeira única, como segurança ou redução da maioridade penal, enquanto as mulheres avaliam o conjunto das propostas. "O homem não pesquisa tanto porque acha que já sabe. Ele recebe uma informação sobre o candidato e aquilo basta", diz.</p>
<p>Sobre as 12% de mulheres que concordam com o estereótipo, Ligia acredita que a influência vem menos da internet e mais do círculo próximo: família, amigos, trabalho e parceiro. "Chega uma hora que você acredita e fala: 'é verdade mesmo, eu acho que eu faço drama, não sei se eu sei votar'", acrescenta.</p>
<h2>Silêncio em casa para evitar conflito</h2>
<p>Com a polarização, deixar a política de lado virou estratégia para quase metade dos brasileiros. De acordo com a pesquisa, 47% já deixaram de comentar sobre o assunto ou de declarar o voto para evitar conflito, e isso vale tanto para homens quanto para mulheres.</p>
<p>Ligia relaciona o silêncio delas ao medo. "Existe uma preocupação das mulheres em não gerar conflito, até pelo aumento da violência contra a mulher e do feminicídio", diz. Na prática, segundo ela, muitas preferem não discutir e decidir sozinhas, na cabine de votação.</p>
<p>Entre os entrevistados, 67% dizem já terem votado em um candidato diferente daquele que o parceiro queria. Diante de um pedido do parceiro para votar em alguém, 65% das mulheres dizem que considerariam a opinião, mas decidiriam sozinhas, e 21% afirmam que não mudariam o voto de jeito nenhum.</p>
<p>Entre os homens, esse número é menor, 14%. E 5% deles afirmam que mentiriam sobre o voto para evitar briga. O percentual entre as mulheres é de 1%.</p>
<h2>Pressão psicológica</h2>
<p>Em tese, quase ninguém defende o controle de voto. Nenhum entrevistado, literalmente 0%, acha que o homem deve ter a palavra final nas decisões políticas do casal. Mas, enquanto 87% das mulheres concordam totalmente que o voto de uma mulher pertence só a ela, entre os homens esse índice cai para 78%.</p>
<p>Além disso, só 43% dos homens consideram inaceitável pressionar incessantemente a parceira para que ela mude o voto. Os demais dizem que "depende" (35%) ou que é aceitável (22%). Para Ligia, essa pressão é uma forma de violência psicológica, e o "depende" coloca o homem em uma posição confortável. "É tipo: se ela concordar comigo, tudo bem. Se não concordar, não está tudo bem", diz.</p>
<p>A diferença de tratamento no debate político reforça esse pensamento. Para 70% das entrevistadas, uma mulher que expressa opinião política é chamada de histérica ou emocional, percepção compartilhada por apenas 28% dos homens. A consequência, muitas vezes, é que elas se afastam tanto das discussões quanto das candidaturas.</p>
<h2>Diferentes prioridades na hora de votar</h2>
<p>Questionados sobre o que levam em consideração na hora de votar, 98% dos homens citaram histórico de corrupção do candidato. O índice cai para 83% quando o critério é violência contra a mulher, 74% para nepotismo e 63% no caso de falas machistas.</p>
<p>Entre as mulheres, a prioridade é outra. A grande maioria, 95%, rejeitariam um candidato com histórico de violência contra a mulher e 93% recusariam alguém corrupto, seguido por 82% nepotismo. As falas machistas também aparecem por último, com 80%.</p>
<p>Para Ligia, a baixa rejeição a falas machistas mostra que muitos só reconhecem o machismo mais explícito. "’Seis meses de licença-maternidade é um absurdo’. Eu não sei até que ponto a gente consegue enxergar nos homens brasileiros se eles acham que isso é uma fala machista", comenta.</p>
<p>Nessa mesma lógica, 23% dos homens dizem ignorar falas machistas de candidatos, e outros 14% afirmam ignorá-las às vezes, o que soma pouco mais de um terço do eleitorado masculino. De acordo com Ligia, há candidatos que disputam justamente esse eleitor. "Existe essa população, e existe candidato para esse grupo", comenta.</p>
<h2>Mulheres pesquisam mais</h2>
<p>Apesar do cenário, Ligia diz que a pesquisa trouxe um dado importante: a percepção é de que as mulheres pesquisam mais sobre os candidatos antes de votar, o que o instituto também observa em pesquisas de mercado, seja na compra de um sapato, seja na troca de escola dos filhos. Esse comportamento também se nota na política.</p>
<p>Na avaliação de Lígia, essa autonomia se manifesta sobretudo nas escolhas para deputado e senador, em que há mais opções alinhadas a pautas específicas, como meio ambiente, educação ou combate à violência de gênero. Já nas disputas para presidente e governador, o voto tende a acompanhar o da casa, por falta de alternativas.</p>
<p>O instituto pretende repetir parte das perguntas entre o primeiro e o segundo turno, para comparar a intenção declarada com o voto efetivo.</p>
<h2>Enquete nas comunidades do GSW Brasil no WhatsApp</h2>
<p>Uma enquete enviada às comunidades de mulheres do  Global South World Brasil  perguntou às participantes o que é mais decisivo na escolha de um representante político. </p>
<p>Foram recebidas 113 respostas. Dentre elas, a opção mais votada foi a maior presença de mulheres em cargos de decisão política (28%), quase empatada com escolha pelo item “histórico e posicionamentos anteriores do candidato” (27%). Projetos voltados à autonomia econômica e social da mulher somaram 25% dos votos, e propostas práticas contra a violência e de fortalecimento da rede de apoio, 19%.</p>
<p>"Acho importante olhar o histórico e as propostas para prevenção e proteção de mulheres que sofrem violência doméstica das candidatas", escreveu Ana Lúcia, integrante de uma comunidade. </p>
<p>Para Chelesam, outra participante, o discurso precisa encontrar a prática. “Hoje, para mim, quem quiser subir em púlpito para falar de causas sociais a respeito da mulher, deveria ao menos sentar um dia na porta da delegacia e acompanhar uma mulher agredida para ver a realidade e sair da teoria e da filosofia. Palavras bonitas todos querem ouvir, mas acolher de verdade a vítima de agressão física está faltando muito para isso ser algo admirável”.</p>
<p>“Eu sempre voto em mulher quando está alinhada à minha ideologia. Essa minha postura tem a filosofia de que só uma mulher entende outra mulher”, comentou Maria Werneck, também integrante de comunidade. </p>
<p>Este texto foi atualizado em 01/10/2026 às 16h04.</p>
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        <media:credit role="provider">Imagem criada por IA sobre foto de Fernando Frazão/ Agência Brasil</media:credit>
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      <dc:creator><![CDATA[Carolyna Bazanini]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Artigo | Misoginia viraliza: qual a resposta da Câmara?</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/artigo-misoginia-viraliza-qual-a-resposta-da-camara</link>
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      <pubDate>Wed, 16 Sep 2026 13:10:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Uma pergunta me acompanha quando olho o nosso Congresso Nacional: qual é, afinal, a função da Casa do Povo?</p>
<p>Ali estão servidores e parlamentares sustentados pelo dinheiro da sociedade, com o dever de zelar por quem trabalha no país. Logo, existe uma responsabilidade que ultrapassa mandatos: cuidar do presente e assumir compromisso com as futuras gerações.</p>
<p>Diante de grandes nomes que já passaram por lá, como Ulisses Guimarães, questiona-se se eles reconheceriam a casa do povo, ou se veriam apenas um “sabor povo”, distante das violências da vida real.</p>
<p>Estivemos nas ruas, mobilizamos redes e construímos um manifesto apoiado por figuras como Luiza Trajano, Gabriel Braga Nunes, Luís Roberto Barroso e Gabriela Prioli. Diversos setores reconheceram que estamos diante de uma era de monetização do desprezo contra a mulher. O Senado aprovou por unanimidade o PL 896/2023, e o governo apoiou. Ainda assim, a Câmara rompe com esse pacto democrático e permanece no discurso vazio?</p>
<p>Enquanto se fala em proteção, a pedagogia do desprezo continua viralizando. Influenciadores transformam misoginia em conteúdo, lucram moldando comportamentos e ensinam como dominar mulheres. E o resultado chega à escola.</p>
<p>A escola, que deveria ser segura, tornou-se palco de hostilidades. A “lousa da misoginia” (Costa, 2026) mostra que a violência online ultrapassou as telas: vai à sala de aula, às ruas, às casas e ao IML. Passamos de listas de “estupráveis” a episódios extremos, como suicídios transmitidos ao vivo no Discord.</p>
<p>Professores adoecem junto. Sem formação, condições ou políticas públicas, viram alvos. Com a escola sucateada, que sociedade estamos formando? Isso não é apenas sobre quando a Câmara vai votar o PL 896/2023.</p>
<p>Cada adiamento educa, cada silêncio comunica e cada discurso sem ação nos ignora. Que legado a Casa do Povo pretende deixar? O futuro está sentado nas salas de aula, olhando para nós.</p>
<p>As opiniões expressas neste artigo refletem exclusivamente a opinião do autor.</p>
<p>Vera Cambiatti  é bacharel em Tradução e Interpretação pela Universidade Metodista de São Paulo, licenciada em Letras Português/Inglês pela Fundação Santo André e Pedagoga pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Possui pós-graduação em Ensino de Língua Inglesa, MBA em Gestão Escolar pela USP, certificações internacionais pela Cambridge e Bridge Education, além de extensões em Blended Learning e Educação Antirracista. Atualmente é pós-graduanda em Políticas e Relações Internacionais pela FAAP.</p>
<p>A professora  faz parte da comunidade Segurança para as Mulheres, que você  acessa  aqui , pelo GSW Brasil.</p>
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      <dc:creator><![CDATA[Vera Cambiatti]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Um mês após regime de urgência, PL da Misoginia segue travado</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/um-mes-apos-regime-de-urgencia-pl-da-misoginia-segue-travado</link>
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      <pubDate>Mon, 03 Aug 2026 18:50:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, o maior índice desde que a série histórica começou a ser medida, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. No mesmo período, o projeto que criminaliza a misoginia teve seu regime de urgência aprovado na Câmara dos Deputados, em 1º de julho, por 293 votos a 158. Porém, passado pouco mais de um mês, ainda não há data para a votação de mérito.</p>
<p>O Projeto de Lei 896/2023, apelidado de "PL da Misoginia", é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) e foi relatado na Câmara pela deputada Tábata Amaral (PSB-SP). O texto altera a Lei do Racismo (7.716/1989) e o Código Penal para tipificar como crime a prática, indução ou incitação de violência, restrição de direitos ou ofensa à dignidade da mulher em razão do gênero. Essa é a definição legal que o projeto dá à palavra misoginia.</p>
<p>A pena prevista é de reclusão de dois a cinco anos, além de multa, e o crime passaria a ser inafiançável e imprescritível, no mesmo patamar do racismo. Os defensores do projeto citam como precedente a decisão do STF de 2019, que equiparou a homotransfobia ao crime de racismo.</p>
<p>O texto também propõe criar a Política Nacional de Combate à Misoginia e passa a integrar o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asUyiiiwJbQnUuuUl.webp?width=800&height=600&quality=75" alt="Plenário da Câmara aprovou regime de urgência do PL da Misoginia em 1º de julho."/>
<h2>A ligação entre a internet e os crimes</h2>
<p>Para a perita criminal Beatriz Figueiredo, que estuda o uso da perícia como ferramenta de prevenção ao feminicídio, esse debate sobre limites ignora que o discurso que antecede um assassinato é, segundo ela, o mesmo que circula livremente nas redes sociais.</p>
<p>"A internet não criou a misoginia, mas vimos como ela se propagou. Virou um ambiente fértil no qual as pessoas se sentem confortáveis. O discurso dos autores de crimes é exatamente o mesmo que vemos nas redes", relata, citando o crescimento de comunidades online ligadas ao movimento redpill, composto por grupos que afirmam revelar a "verdade" sobre as relações entre homens e mulheres, defendendo que eles estariam em desvantagem na sociedade e nos relacionamentos.</p>
<p>Na leitura de Beatriz, quem chega a cometer um feminicídio provavelmente já havia manifestado esse tipo de discurso antes, online ou não. É esse mesmo raciocínio que sustenta a urgência do PL 896: hoje, o discurso de ódio pelo ódio, aquele que não chega a configurar ameaça direta nem divulgação de imagem íntima, simplesmente não tem enquadramento penal específico.</p>
<p>"Temos outras ferramentas jurídicas, mas não específicas para o gênero. Esse ódio que incentiva o cometimento de outros tipos de crime nós não temos. Por isso, o PL é tão importante”, argumenta.</p>
<h2>A fronteira entre opinião e crime</h2>
<p>O que trava o avanço do projeto, porém, não é técnico, mas político. Parlamentares contrários argumentam que o texto contém "conceitos subjetivos" e temem que ele acabe punindo opiniões ou posicionamentos religiosos, o que mantém a proposta sem acordo entre os partidos.</p>
<p>Falar que a mulher dirige mal é um comentário machista, tem um viés de gênero, mas não é um crime. Já recusar contratar mulheres com a justificativa de que "engravidam e tiram licença-maternidade" configura incitação ao ódio de gênero, por exemplo.</p>
<p>Essa fronteira abre espaços para comentários como o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que acusou o governo de distorcer críticas como ataques às mulheres em discurso no Plenário no último dia 14. Além dele, os deputados Bia Kicis (PL-DF), Mario Frias (PL-SP) e Julia Zanatta (PL-SC) já se manifestaram contrários à proposta.</p>
<h2>Um projeto entre outros 36</h2>
<p>O PL 896 não nasce sozinho. Ele integra um conjunto de ao menos 36 proposições que tramitam na Câmara com o mesmo objetivo de punir o discurso de ódio contra mulheres e meninas. Sete delas foram apresentadas somente em 2026.</p>
<p>Sob uma percepção de que a legislação em vigor, incluindo a Lei Maria da Penha, não alcança o discurso de ódio praticado fora do ambiente doméstico, entre as principais propostas está o PL 890/2023, da deputada Silvye Alves (União-GO). O projeto cria uma lei específica para crimes motivados por práticas misóginas, com pena aumentada se o crime for cometido pela internet.</p>
<p>Há também o PL 6075/2025, apelidado de "PL Anti Red Pill", de autoria da deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que criminaliza a promoção e divulgação desse tipo de conteúdo nas redes, diante do aumento desses grupos online.</p>
<p>E o PL 5695/2023, do deputado Fred Linhares (Republicanos-DF), que foca no uso de inteligência artificial para alterar fotos, vídeos e áudios com o objetivo de praticar violência contra a mulher.</p>
<h2>Os números que sustentam a pressão</h2>
<p>Se a urgência política ainda não venceu a resistência do Congresso, os números seguem alimentando a pressão pela aprovação. Hoje, o Brasil ocupa o posto de quinto país que mais mata mulheres no mundo, segundo a Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres.</p>
<p>O Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL) contabilizou 6.904 vítimas de feminicídio em 2025, somando casos consumados e tentados, um crescimento de 34% em relação a 2024 e uma média de 5,89 mulheres mortas por dia no país.</p>
<p>Com um número 38,8% superior ao registro oficial do governo federal, o levantamento pontua que muitas tentativas de assassinato acabam registradas pelas autoridades como lesões corporais ou homicídios comuns.</p>
<p>A ocultação da motivação de gênero por trás do crime reforça ainda mais a importância de qualificar juridicamente o que motiva essa violência desde o início.</p>
<p>Com o avanço do PL, Beatriz projeta um efeito imediato, pois prints, publicações e mensagens passarão a ser material de prova para embasar investigações hoje sustentadas apenas em leis correlatas, como as de ameaça, injúria ou a chamada "lei da revenge porn".</p>
<p>"Com a misoginia junto à ameaça, difamação, calúnia e divulgação de fotos íntimas, os crimes vão se sobrepondo", diz. Mas ela faz questão de frisar que a lei, sozinha, não resolve o problema. É preciso capacitar peritos, policiais e o legislativo a olhar a cena do crime "com uma lente de gênero".</p>
<h2>A legislação ao redor do mundo</h2>
<p>O Brasil não é pioneiro nessa discussão. Na Bélgica, tratar alguém como inferior por sua condição de gênero já é crime, com pena de até 12 meses de prisão e multas que variam de 50 a 1000 euros, e já houve condenações com base na lei.</p>
<p>A França avança na tipificação do "ultraje sexista", aplicada a casos de assédio de rua, enquanto a Argentina, desde 2019, trata o assédio de rua como uma forma de violência de gênero, com multas para quem pratica comentários sexuais ou perseguição.</p>
<p>Já no Reino Unido, a polícia de Nottinghamshire foi pioneira em registrar a misoginia como categoria de crime de ódio em nível local, em 2016. Porém, com a oposição do governo britânico em 2021, ela nunca se tornou obrigatória em nível nacional.</p>
<p>Na época, organizações feministas inglesas, como a Rape Crisis England & Wales, criticaram esse enquadramento por considerar que o modelo de "crime de ódio" foca em incidentes isolados, quando a violência contra a mulher costuma ser um padrão contínuo de controle.</p>
<p>Muitas vezes exercido por parceiros ou conhecidos, esse é justamente o tipo de violência que a Lei Maria da Penha já cobre no Brasil, não entrando na discussão do PL 896.</p>
<h2>Uma corrida contra o calendário eleitoral</h2>
<p>Com a retomada das sessões pelo Congresso (que definiu semanas de esforço concentrado em dois períodos, entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro) e com o pleito de outubro se aproximando, movimentos de mulheres e deputadas pressionam para que o texto seja votado ainda neste semestre, temendo que o projeto seja arquivado ou esvaziado depois das eleições.</p>
<p>Para Beatriz, essa urgência não é apenas política, mas técnica, e resume o que, para ela, está por trás da resistência de parte do Congresso. "Estamos falando de um crime que é completamente possível de ser identificado, comprovado materialmente. O medo das pessoas é: 'agora tudo vai virar misoginia'. Não vai. E no íntimo, todo mundo sabe a diferença entre opinião e crime", pontua.</p>
<p>Neste domingo, 2, o Levante Mulheres Vivas, movimento feminista criado em 2025 como resposta ao aumento dos casos de feminicídio, organizou manifestações em diversas cidades, como Belo Horizonte, Brasília, Campo Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. A intenção é pressionar a Câmara a votar e aprovar o PL.</p>
<p>“É a nossa última chance antes das eleições, para entender se a gente consegue, de fato, sensibilizar com as ruas esses líderes que estão bloqueando que o PL seja pautado. Que seja ouvida a opinião deles publicamente, para que o Brasil saiba de que lado estão os nossos deputados que estão buscando reeleição este ano", afirmou para a  Agência Brasil  Rachel Ripani, cofundadora do Levante.</p>
<p>Com Agência Brasil.</p>
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      <dc:creator><![CDATA[Carolyna Bazanini]]></dc:creator>
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