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    <title>Global South World Brasil - Livro</title>
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    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>‘Grande Sertão: Veredas’: 70 anos da obra que dá voz ao Brasil profundo</title>
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      <pubDate>Sun, 26 Jul 2026 12:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Obra fundamental da literatura brasileira, o romance “ Grande Sertão: Veredas ”, do escritor mineiro João Guimarães Rosa, completa 70 anos neste mês. Ambientado em uma região que compreende Minas Gerais, Goiás e Bahia, o livro transformou a geografia, a linguagem e os conflitos de um sertão marcado por jagunços e coronéis em uma narrativa de alcance universal.</p>
<p>A história é contada por Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas travessias, batalhas, alianças e perdas. Ao reconstruir sua trajetória e a relação com o personagem Diadorim, o narrador procura compreender a existência do diabo, os limites entre o bem e o mal e a possibilidade de cada pessoa escolher o próprio destino.</p>
<p>Essas indagações estão diretamente ligadas ao território percorrido pelos personagens. O sertão não funciona apenas como cenário: condiciona os deslocamentos, impõe perigos, determina encontros e interfere na formação da consciência de Riobaldo. Rios, veredas, chapadas, fazendas, arraiais e caminhos constituem uma força central do romance.</p>
<p>O reconhecimento foi imediato. Publicado em 16 de julho de 1956 pela Livraria José Olympio Editora, “ Grande Sertão: Veredas ” recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pelo Instituto Nacional do Livro, o Prêmio Carmen Dolores Barbosa, em 1956, e o Prêmio Paula Brito, em 1957. Traduzido para diversos idiomas, o romance consolidou Guimarães Rosa entre os autores centrais da literatura brasileira e ampliou internacionalmente o alcance de uma narrativa profundamente ligada à paisagem e à linguagem do sertão.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/aszbcn9dIoeD1zafE.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="Cena da minissérie 'Grande Sertão', da Rede Globo, exibida originalmente em 1985."/>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asuq3YDrn1LfUfcjr.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="Tony Ramos faz o papel de Riobaldo, que conta a história. Bruna Lombardi interpreta Diadorim."/>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asgAiUBfacqZYKYFM.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="A produção da Globo retratou guerras entre jagunços e a vida nas pequenas cidades de Minas Gerais, Goiás e Bahia."/>
<p>A obra também ganhou uma adaptação memorável da TV Globo em 1985. Com roteiro de Walter George Durst e direção de Walter Avancini, a minissérie teve Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi no papel de Diadorim. Gravada no sertão mineiro, " Grande Sertão"  mobilizou centenas de profissionais e cerca de 1,8 mil figurantes da região para transportar à televisão as guerras entre jagunços, as paisagens e os dilemas do romance. Seus 25 episódios estão atualmente disponíveis no Globoplay.</p>
<h2>Um sertão real e imaginário</h2>
<p>Estudos já identificaram mais de 400 localidades reais citadas em “ Grande Sertão: Veredas ”, entre cidades, povoados, propriedades rurais e acidentes geográficos. Algumas correspondências ainda são discutidas, mas os rios Urucuia e São Francisco são referências incontestáveis.</p>
<p>A cartografia do romance inclui Morro da Garça, Três Marias, Curvelo, Lassance, Pirapora, São Francisco, Januária e Cordisburgo, terra natal de Guimarães Rosa. Também aparecem a Serra das Araras, em Chapada Gaúcha, e Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro associado à batalha final do livro.</p>
<p>Parte dos caminhos percorridos por Guimarães Rosa pode ser conhecido pelos leitores. Criado em 2014, o projeto Caminhos de Rosa promove experiências pelo território que inspirou o escritor, com caminhadas, corridas, trajetos de bicicleta e travessias que incluem encontros com moradores e hospedagens em fazendas da região. Os percursos atravessam paisagens e comunidades do sertão mineiro e uma das rotas de longa distância chega à região do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, criado pelo governo federal em 1989.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asBnIP9qR8ELjWy5N.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="Estação ferroviária Cordisburgo"/>
<p>Essa unidade de conservação é a única no país a homenagear uma obra literária. O parque nacional preserva parte da paisagem das Gerais retratada no livro, além de proteger a biodiversidade e os recursos hídricos do Cerrado. Ampliado em 2004, ele ocupa cerca de 230 mil hectares entre Minas Gerais e a Bahia.</p>
<p>Vale explicar que as veredas são áreas úmidas que se formam em terrenos onde a água aflora, geralmente marcadas pela presença do buriti, uma palmeira de tronco alto que, na região, costuma ter entre 12 e 15 metros. No romance, essas formações orientam as travessias, oferecem abrigo e participam diretamente da experiência dos personagens.</p>
<h2>A linguagem como centro da obra</h2>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asBrYpX5TF8cAYaXf.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="A editora Companhia das Letras lançou a edição comemorativa de 70 anos"/>
<p>Se a paisagem oferece o chão do romance, é a linguagem que lhe dá existência. Guimarães Rosa combinou expressões populares, regionalismos, palavras antigas, alterações de sentido, construções sintáticas incomuns e vocábulos inventados.</p>
<p>Quando o livro foi lançado, parte da crítica reagiu com estranhamento. A fala dos personagens chegou a ser descrita como uma língua “de outro planeta”. Para o biógrafo de Guimarães Rosa, o jornalista Leonêncio Nossa, essa avaliação revelava principalmente o desconhecimento de setores da intelectualidade sobre a maneira de falar das populações do interior brasileiro.</p>
<p>Segundo o biógrafo, em entrevista dada à Agência Brasil, Rosa rejeitava a ideia de ter inventado sozinho uma língua. Ele afirmava que os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia e de Goiás já utilizavam muitas daquelas formas de expressão.</p>
<p>A linguagem do romance, portanto, não é uma simples transcrição da oralidade. Rosa reorganizou sons, ritmos e expressões para criar a fala de Riobaldo. O narrador hesita, repete ideias, corrige lembranças, interrompe raciocínios e muda de direção enquanto tenta atribuir sentido ao passado.</p>
<p>Nossa também observa que “nonada”, palavra que abre o livro e costuma ser tratada como criação do escritor, aparecia anteriormente em jornais brasileiros. Embora tenha produzido neologismos, Rosa também recuperou palavras que tinham deixado de circular amplamente.</p>
<p>A abertura com “nonada” antecipa um dos movimentos essenciais do romance. Uma palavra aparentemente estranha conduz o leitor a uma língua que, embora profundamente trabalhada pelo escritor, tem raízes na história e na fala do país. Rosa não apenas inventou formas de expressão: preservou e renovou uma parte do português brasileiro.</p>
<p>O escritor mineiro levou aproximadamente dez anos para concluir “Grande Sertão: Veredas”. No mesmo período, trabalhou em “Corpo de Baile”, ciclo de novelas também publicado em 1956. De acordo com Leonêncio Nossa, o romance teria surgido inicialmente como uma das histórias desse conjunto, mas ganhou dimensão suficiente para se tornar uma obra independente.</p>
<h2>Edição comemorativa</h2>
<p>A Companhia das Letras lançou uma edição especial comemorando os 70 anos, com 608 páginas. O livro tem novo projeto gráfico e capa elaborada a partir de uma obra da artista mineira Sonia Gomes. Ele traz também um ensaio inédito do pesquisador Érico Melo sobre os caminhos dos rascunhos até a forma final do romance.</p>
<p> A edição comemorativa conta ainda com depoimentos de leitores ilustres que foram fortemente influenciados pela obra: Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. Os preços da obra ficam em R$ 209,90 (livro físico) e R$ 44,90 (e-book).</p>
<p>
A celebração dos 70 anos de “ Grande Sertão: Veredas ” na Companhia das Letras inclui um audiolivro narrado pelo ator Caio Blat, com trilha sonora e entradas de viola de Ivan Vilela, já disponível nas principais plataformas de áudio.</p>
<p>
Em agosto, será realizado, em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, um ciclo de debates sobre o livro. Uma biografia de João Guimarães Rosa escrita por Gustavo de Castro, poeta, escritor e professor da Universidade de Brasília (UnB), também deve ser publicada no fim do ano. O livro narra em detalhes a vida do escritor, médico e diplomata que viria a se tornar um dos nomes mais fascinantes da literatura brasileira.
</p>
<p>Outra novidade é que o livro ganhará novas traduções em 2027. Em inglês, a australiana Alison Entrekin responde pelo trabalho de “ Vastlands: The crossing ”, título que substituirá a da versão de 1963, “ The devil to pay in the backlands ”. O alemão Berthold Zilly responde por “ Großer Sertão: Querungen ”.   </p>
<h2>Quem foi Guimarães Rosa</h2>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asMBBtEsMiV2NISeE.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="Guimarães Rosa em fotos de um acervo digital"/>
<p>João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa, mudou-se aos 10 anos para Belo Horizonte. Formou-se em medicina em 1930 e trabalhou como médico antes de ingressar na carreira diplomática.</p>
<p>Sua estreia literária ocorreu em 1929, com a publicação do conto “ O mistério de Highmore Hall ” na revista O Cruzeiro. Em 1936, a coletânea de poemas “ Magma ”, que permaneceria inédita durante sua vida, recebeu o Prêmio Academia Brasileira de Letras.</p>
<p>Como diplomata, trabalhou em Hamburgo, Bogotá e Paris e representou o Brasil em conferências internacionais. Posteriormente, ocupou diferentes funções no Ministério das Relações Exteriores e assumiu, em 1962, a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.</p>
<p>A consagração literária começou com “ Sagarana ”, publicado em 1946. A coletânea renovou o regionalismo brasileiro ao trabalhar com paisagens e materiais de origem local por meio de uma linguagem experimental e de temas universais.</p>
<p>Em 1956, Rosa publicou “ Corpo de Baile ” e “ Grande Sertão: Veredas ”.  Com “ Primeiras estórias ”, de 1962, recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil.</p>
<p>Guimarães Rosa foi eleito para a Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras em 8 de agosto de 1963, na sucessão de João Neves da Fontoura. Adiou a posse por quatro anos e foi recebido por Afonso Arinos de Melo Franco em 16 de novembro de 1967. Morreu três dias depois, aos 59 anos.</p>
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      <source url="https://www.globalsouthworld.com.br">Global South World Brasil</source>
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        <media:credit role="provider">Parque Nacional Grande Sertão Veredas</media:credit>
        <media:title>parque nacional grande sertao</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
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      <title>Livro aborda a maternidade de mulheres negras escravizadas do Rio de Janeiro do século XIX</title>
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      <pubDate>Mon, 06 Jul 2026 19:11:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>O que acontecia com os bebês das mulheres negras escravizadas obrigadas a serem amas de leite das crianças nas casas senhoriais nos tempos do Brasil imperial? Como a Lei do Ventre Livre, promulgada no país em 1871, impactou a relação das mães e seus filhos, muitas vezes separados de modo ilegal? De que forma conhecimentos africanos sobre gravidez e parto resistiram à violência da escravidão? Essas são algumas das questões investigadas pela historiadora Lorena Féres da Silva Telles, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em sua pesquisa sobre mulheres africanas e afrodescendentes escravizadas no Rio de Janeiro do século XIX, baseada em milhares de documentos históricos, como teses de medicina, anúncios de jornais, registros de batismo, processos judiciais e até relatos de viajantes.</p>
<p>O estudo deu origem ao livro “ Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas: maternidade e escravidão no Rio de Janeiro (1830-1888)” , lançado em português em 2022 pela Editora Unifesp e agora publicado nos Estados Unidos pela University of Georgia Press com o título “ Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant: Motherhood and Slavery in Nineteenth-Century Rio de Janeiro” . O livro pode ser encontrado na Amazon. A edição original também está disponível no site da editora da Unifesp.</p>
<p>Mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado pela Universidade de Campinas (Unicamp) e pela University of Pittsburgh (EUA) e pesquisadora no Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Social do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Lorena traça um forte e sensível retrato das mulheres escravizadas, que lutaram para manter suas culturas e visões de mundo com a ajuda de uma rede de parentes, entre elas suas próprias mães, comadres e parteiras africanas e afrodescendentes. Para dar a dimensão do tamanho dessa população, em 1849, o censo do Rio de Janeiro apontava que viviam na cidade 40 mil mulheres, metade delas eram africanas.</p>
<p>A autora também traz à luz histórias de mulheres como Teresa Benguela e Felipa Crioula sob a ótica da maternidade. Histórias de Teresas e Felipas, como consta no prefácio no livro, mostram que essas mulheres, além de cumprirem uma extensa e dolorosa jornada de trabalho doméstico ou no comércio, “atravessaram todas as desventuras da vida sob escravidão, da menarca à menopausa, como corpos e ventres que proviam a continuidade da escravidão”. O prefácio é assinado pela historiadora Maria Helena Pereira Toledo Machado, professora titular do departamento de história da USP, orientadora de Lorena no doutorado.</p>
<p>“ Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant: Motherhood and Slavery in Nineteenth-Century Rio de Janeiro”  amplia o acesso internacional a uma pesquisa que dialoga com estudos sobre escravidão, gênero e diáspora africana nas Américas e ajuda a inserir a experiência brasileira em um debate em que prevalecem estudos sobre o sul dos Estados Unidos e o Caribe. Em entrevista ao  Global South World Brasil,  Lorena detalha as principais descobertas do trabalho e demonstra como as histórias dessas mulheres permitem compreender dimensões da escravidão que ainda hoje permanecem invisíveis.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asESFZe6ZfoljolgR.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="A historiadora Lorena Féres da Silva Telles mostra as edições em português e inglês de "Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas"."/>
<p>Como surgiu seu interesse por esse tema? De que forma o assunto das mulheres africanas escravizadas no Rio de Janeiro chamou sua atenção pela maternidade e suas implicações?</p>
<p>A questão da maternidade entre mulheres escravizadas surgiu depois do meu mestrado. O livro é resultado da minha pesquisa de doutorado, com contribuições da minha pesquisa de pós-doutorado. Tenho estudado relações raciais, histórias de mulheres negras e trabalho doméstico em São Paulo, que foi o tema do meu mestrado. No doutorado, houve um interesse meu. Ao mesmo tempo, é campo de estudo do momento da minha orientadora, Maria Helena Pereira Toledo Machado. Quando fui procurá-la, pensava em um projeto sobre século XIX, sobre as mulheres na escravidão. Estava com a vontade de entender melhor as experiências das mulheres escravizadas. No meu mestrado, tratei das mulheres livres e libertas. Minha orientadora estava pesquisando amas de leite. Ela tinha escrito um artigo sobre mulheres ocupadas como amas de leite. Aí, comecei a minha tese, a minha pesquisa de doutorado falando sobre amas de leite e com foco na maternidade da mulher negra. Toda mulher que foi ama de leite teve seu filho. Engravidou, deu à luz e teve seu bebê. Comecei a pensar o destino desses filhos e como era se ocupar de duas crianças, sendo que uma delas era a criança negra dela e a outra era o bebê senhorial, isso dentro das relações escravistas. Fui atrás de muitas fontes. Pesquisei, sobretudo, teses de medicina, revistas médicas, casos clínicos, muitos anúncios de jornal envolvendo aluguel, fuga e venda de mulheres escravizadas. Fui juntando muito material, assentos (registros) de batismo – era o momento dos batizados; as mães escravizadas tinham também as madrinhas e os padrinhos dos filhos, que eram redes sociais e de parentesco muito importantes. Quando eu vi, tinha fôlego para pensar a maternidade de uma maneira mais ampla. E também, na historiografia que eu estava pesquisando – sobre mulheres negras e maternidade e escravidão no sul dos Estados Unidos e na Jamaica – estavam questões sobre os partos, as parteiras negras e as práticas dos médicos. Aí, minha tese acabou se debruçando sobre a gravidez dessas mulheres no Rio de Janeiro. Então, passei a pensar relações afetivas, relações sexuais, autonomia e estupro e coerção sexual. Pensando na relação com os senhores, quem era o pai desses bebês, como foi o processo da gravidez, que conhecimentos elas tinham sobre gravidez, como contavam as luas para saber o tempo da menstruação. Tudo isso eu fui encontrando indícios nos casos clínicos dos médicos, quando eles atendiam as mulheres africanas e afrodescendentes. Depois, parti para a análise dos partos, onde elas davam à luz, quais eram as práticas. Pesquisei as diferentes parteiras, os diferentes perfis de parteiras no Rio de Janeiro: havia parteiras brancas francesas, brancas brasileiras, portuguesas, mulheres africanas, mulheres negras nascidas no Brasil – chamadas de criolas –, afrodescendentes. E aí eu pesquisei as práticas e as especificidades das parteiras africanas e afrodescendentes. Em outro capítulo, enfoquei as práticas dos médicos. A faculdade de medicina surge nesse formato, de faculdade, em 1832 na cidade do Rio de Janeiro e em Salvador. Ali, havia muitas teses no final do século XIX, na década de 80, que trazia ideias racistas sobre os corpos e os partos das mulheres negras, dentro também de uma linha do racismo científico do período na Europa e nos Estados Unidos. Pesquisei as práticas dos médicos, o uso de instrumentos obstétricos e a violência obstétrica. Existem alguns casos clínicos de jovens mulheres afrodescendentes, escravizadas que tinham a participação de vários médicos no momento do parto. Havia diversas situações opressivas para essas mulheres. Depois, pesquisei a amamentação. Enfoquei as amas de leite e os impactos da ocupação de ama de leite no Rio de Janeiro. Existia um mercado de aluguel de amas de leite muito amplo no século XIX inteiro. E também dei foco à questão da separação dos bebês e as famílias locatárias, que alugavam. As mulheres brancas não amamentavam seus próprios filhos. As que não tinham escravizadas nutrizes como suas propriedades alugavam mulheres de outros senhores. Cobrava-se mais caro pela mulher sem o próprio filho, pela mulher negra cativa sem o filho. Então, havia situações de separações, de abandonos de bebês. E tensões também dessas mulheres em ter de cuidar do bebê da senhora, se ela amamentasse a criança senhorial e não da locatária. Eram tensões de ter dois bebês. Muitas vezes o próprio filho era preterido. E tinha uma alta mortalidade das crianças negras. Também tratei das práticas da amamentação, a amamentação estendida de muitas mulheres africanas, centro-africanas, principalmente da região de Congo, Angola e Moçambique. Elas amarravam os bebês às costas. Davam de mamar, sobretudo, as lavadeiras, as quitandeiras que ficavam mais tempo distantes dos senhores. Elas podiam amamentar os filhos com mais frequência do que as amas de leite, do que as mucamas ou do que as mulheres que trabalhavam muito próximas dos senhores. No capítulo sobre a criação dos filhos, abordo a relação delas com as crianças pequenas. A criação era comunitária. Tinha a participação das suas comadres, das redes de parentesco, muitas vezes das mães delas, das avós. Muitas vezes, elas também participavam dos partos e das dificuldades, até a Lei do Ventre Livre, em que as mães e as crianças poderiam ser separadas até 1869. Tem uma lei de 1869 que proíbe separação de famílias e de mãe e filho até 15 anos. Havia as práticas de separações das crianças e a das vendas conjuntas. Muitas vezes essas mulheres eram vendidas com os filhos pequenos. Também há a questão dos infanticídios, quando, em situações de muita tensão, de ameaças senhoriais, de muita violência senhorial, elas tiravam a vida de seus filhos, das crianças pequenas. Elas tentavam também o suicídio e muitas delas sobreviveram. Enfim, são situações muito dramáticas e muito trágicas. Uma questão importante é que o Rio de Janeiro foi um porto que recebia até 1831, no Valongo, muitas africanas e africanos. A escravidão urbana nas grandes cidades sempre precisou muito dessas mulheres no trabalho doméstico ou no ganho de rua, como quitandeiras. Então, as mulheres eram muito numerosas no Rio de Janeiro, que era corte imperial também. Só para se ter noção, em 1849, o censo, apesar de seus problemas de imprecisões, registrou na cidade e nas franjas suburbanas aproximadamente 40 mil mulheres. Metade delas eram africanas. Essa demografia do tráfico contava com mulheres de Congo-Angola, dos portos de Benguela, de Luanda, de Cabinda, de Ambris, que eram mulheres também falantes das línguas Congo, ambundo, quicongo. Tive interesse em compreender as visões de mundo, a cultura e as reelaborações dessas mulheres na diáspora. Elas chegavam meninas, jovenzinhas, e reelaboraram, dentro das circunstâncias e das limitações da escravização, em diferentes momentos históricos, as suas práticas culturais de criação de filhos, o uso de amuletos para proteger os bebês, as redes de parentesco para evitar que os filhos fossem separados delas.</p>
<p>Havia boas fontes por aqui ou foi necessário fazer uma pesquisa fora do Brasil para completar seu trabalho?</p>
<p>Trabalhei com muitas teses de medicina. No século XIX, os estudantes de medicina tinham de fazer um trabalho de conclusão de curso, que chamavam tese de doutorado – mas não era o nosso doutorado. Um dos principais temas abordados era a questão da amamentação e da higiene infantil, dentro de um discurso que colocava as mulheres brancas em um novo papel social voltado para a função de mãe, como as responsáveis pelos cuidados dos filhos e pelo futuro da nação. Ao mesmo tempo, eram trabalhos que faziam críticas às amas de leite negras africanas e descendentes. Eram trabalhos que acabavam justificando, de alguma maneira, o uso de amas de leite, dizendo que as mulheres brancas eram frágeis, fracas, que o leite delas era pouco nutritivo. Então, eles justificavam, de algum modo, a prática escravista de alugar ou de usar mulheres mães escravizadas como amas de leite. Também pesquisei teses sobre menstruação e sobre aborto. Usei muitas fontes da medicina de casos clínicos, de atendimento dos médicos, geralmente da classe senhorial mais abastada – eles chamavam os médicos em último caso, diante de complicações na gestação ou no parto das mulheres cativas. Eles nem sempre conseguiam dar conta dos problemas no parto porque a cesariana só vai ser uma cirurgia segura no comecinho do século XX. Então, eles iam com fórceps e, muitas vezes, causavam lacerações nas mulheres e nas crianças. A gente vê, por meio dessas teses e dos casos clínicos, as práticas das parteiras a partir de uma análise das entrelinhas, das críticas que faziam a elas. Também usei muito jornais através da hemeroteca digital, que é uma base de dados da Biblioteca Nacional, com muitos jornais do século XIX digitalizados. Ali, encontrei muitos anúncios de fuga, de venda, de aluguel de mulheres grávidas ou com bebês e crianças pequenas. Também pesquisei literatura de viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil, literatura de memórias de fazendeiras, de mulheres brancas escravistas, que escreviam sobre o cotidiano dentro de um discurso de paternalismo, de uma escravidão benigna, cheio de distorções, e também por meio de fotografias e pinturas. Eu investi num conjunto de fontes bem amplo para conseguir encontrar indícios desses aspectos das vidas das mulheres escravizadas, que não ficaram nos registros ou que eram pouco registrados nas fontes ligadas às instituições ou aos interesses das classes senhoriais brancas. Com relação a fontes estrangeiras, usei alguns manuais de medicina franceses. Pesquisei tudo isso através de buscas em bibliotecas digitais. Também em alguns livros de viajantes ingleses que estiveram na África Central e na África Ocidental. Fiz uma viagem durante o doutorado para Edimburgo, na Escócia, onde havia uma professora que pesquisava sobre mulheres escravizadas no Caribe britânico, na Jamaica. Ali, na biblioteca, foi muito importante o acesso que tive à bibliografia sobre parteiras e partos em algumas regiões da África. Então, a maior parte das pesquisas eu fiz no Brasil mesmo.</p>
<p>Que aspectos podem ser ressaltados das mulheres escravizadas no Rio de Janeiro antes e depois da Lei do Ventre Livre, em relação à sexualidade, maternidade, criação de filhos, morte de mães e filhos?</p>
<p>A Lei do Ventre Livre foi promulgada em 1871, no final do século XIX. Teve um impacto importante do ponto de vista do direito das mulheres escravizadas se manterem junto a seus filhos até os 8 anos, pelo menos. Porém, também foi muito conservadora porque a lei obrigava os “ingênuos”, como eram chamadas as crianças nascidas de ventre livre, a 21 anos de trabalho para os senhores. Aí, eles seriam libertos. Então, do ponto de vista do direito à maternidade, essas mulheres disputaram muito a lei, sobretudo quando a classe senhorial praticava escravização ilegal, ao tentar vender em separado mãe e crianças, principalmente na Bahia e no Nordeste. Algumas delas foram vendidas com os filhos, ou seja, respeitando a Lei do Ventre Livre. Muitas vezes, ela foi burlada, separando mães e crianças. Então, um dos impactos mais importantes foi a questão da manutenção dos vínculos maternos com as crianças. A Lei do Ventre Livre vai retroceder uma lei de 1869. Nessa, ficava estabelecida a proibição da venda em separado de mães e filhos de até 15 anos de idade. A do Ventre Livre, baixou essa idade para 12 anos. Ou seja, ela protegeu também a relação das mães com filhos nascidos antes da Lei do Ventre Livre, ou seja, para os filhos a quem legavam a sua condição escravizada. A Lei do Ventre Livre também teve impactos muito específicos com relação aos contextos, se era urbano ou se era rural. No caso da cidade do Rio de Janeiro, em que havia um mercado de aluguel de amas de leite bastante importante, muitos dos bebês ingênuos foram abandonados para que a mãe fosse alugada como ama de leite por um preço mais alto. Muitos desses senhores, sobretudo os das elites e das classes médias, não tinham interesse em criar essas crianças porque elas não seriam escravizadas. Então, a lei teve um impacto no mercado de amas de leite, principalmente no Rio de Janeiro. E houve um impacto com relação à sobrevivência dessas crianças. Muitas foram mortas, abandonadas nas ruas e nas rodas dos expostos, em que a Igreja Católica acolhia bebês abandonados. Havia projetos de lei que eram mais arrojados, vamos dizer assim. Eles previam uma libertação imediata, mas o que acabou vencendo foram os interesses senhoriais de postergar ao máximo a exploração dos filhos das mulheres escravizadas.</p>
<p>No livro, você destacou alguns nomes. Que material encontrou para falar delas? Como foi o resgate das histórias dessas mulheres?</p>
<p>Essa escolha dependeu muito da disponibilidade das fontes históricas. Por exemplo, um anúncio de fuga muitas vezes é um texto curto de um senhor ou de uma senhora que descreve os laços sociais, as roupas, o olhar senhorial sobre o físico, sobre o jeito [da pessoa escravizada]. No anúncio de busca dessas mulheres aparecem muitos detalhes das vidas delas. Alguns foram muito ricos nesse sentido, ao mostrar as relações que estavam indo encontrar com a mãe. Muitas dessas mulheres escravizadas tinham relações com mães que eram libertas ou escravizadas, fugindo junto com companheiros. Teresa Benguela era uma mulher comum, africana, embarcada no porto angolano de Benguela. Eu a escolhi, por exemplo, porque tem indícios muito interessantes em muitos desses anúncios que falam de traços da maternidade. A que eu pude aprofundar mais foi a Geralda, que era uma mulher ocupada como mucama. Ela foi vendida do Rio Grande do Sul. Pesquisei através da Gazeta dos Tribunais, que era uma revista que transcrevia partes de processo criminal. Os processos adentram mais na vida das pessoas envolvidas. Trabalhei também com a Marcelina, uma mulher que foi presa acusada de ter matado a locatária. Pelos testemunhos do processo é possível ver as tensões cotidianas, as relações de opressão e também os limites dessa mulher. Foi uma situação de luta corporal, em que ela é acusada de ter sufocado a senhora, a locatária, na verdade. A Ângela Maria é uma mulher que matou os filhos em um contexto de muitas ameaças da classe senhorial. Ela tentou se matar depois. Foi um infanticídio seguido de tentativa de suicídio. Ela tenta se matar afogada na praia do Flamengo. E assim, um envolvimento muito afetivo com essas pessoas, com essas mulheres do passado. Eu me esforcei em escrever [sobre elas]. O texto é historiográfico. Foi escrito dentro de uma pesquisa acadêmica, mas escrevi de maneira a respeitá-las, a tratá-las com dignidade e olhá-las com delicadeza dentro das relações sociais em que elas foram tão objetificadas, como foi a escravidão negra nas Américas. Tive um envolvimento profundo, tive momentos de tristeza, de identificação também com os indícios do que elas viveram, do que elas passaram. Como falar sobre temas delicados também, como falar sobre estupros, abusos sexuais de meninas de 12 anos, 11 anos, 10 anos? Isso aparecia também em algumas fontes da medicina. São casos de muito sofrimento. Então, foi desafiador falar sobre temas que são delicados e que tocam mulheres negras e as descendentes dessas africanas e afrodescendentes do século XIX. Essas são realidades, legados ainda da sociedade escravista.</p>
<p>Que indícios encontrou de Teresa Benguela [líder quilombola] e de Felipa Crioula [mulher escravizada que vivia no Rio de Janeiro no fim do século XIX]?</p>
<p>Encontrei indícios de Teresa Benguela em um anúncio de fuga. Dizia que ela fugia grávida e com uma criança pequena, um filho dela. Essa fuga falava da fuga dela da casa da senhora e do senhor e buscando dar à luz longe deles, indo para uma casa de uma comadre, de uma pessoa da comunidade afrodescendente, que era muito populosa na época em que ela viveu. Felipa Crioula também aparece em um anúncio de fuga, mas já no final do século XIX, em torno de 1872. É no contexto do Ventre Livre, em que as relações escravistas estão sendo colocadas em xeque pelos próprios escravizados. Nesse anúncio de fuga, parece que ela está grávida, quase a ponto de dar à luz. Ela é vista por pessoas conhecidas da casa senhorial, trocando de roupa e de nome. E com pessoas que conhecia. Ou seja, ela mobilizou uma rede de solidariedade. Ela tinha outros filhos também. Achei em um jornal que ela entrou com uma ação de liberdade, um processo em que os escravizados acionavam a Justiça para se alforriarem, para fazer a auto compra.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asAuPyC7lzoHHyHyN.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="A fotografia "Partida para a Colheita do Café, Vale do Paraíba, c. 1882", de Marc Ferrez, está no livro."/>
<p>De que modo sua pesquisa se conecta a outros trabalhos relativos às populações escravizadas que saíram da África e foram levadas às Américas?</p>
<p>Minha pesquisa se insere dentro da tradição da história social, mais especificamente da história social das mulheres e da história social da escravidão. É uma linha historiográfica que tenta recuperar, analisar e compreender o mundo social, econômico e político a partir das perspectivas desses grupos sociais; no caso, de subalternizados como foram as africanas, africanos e seus descendentes que foram atravessados pela escravização. Acredito que o meu trabalho dialoga muito com trabalhos sobre mulheres negras e maternidade no sul dos Estados Unidos e no Caribe. A gente poderia falar de uma perspectiva Atlântica. Busquei também o que havia de comum, o que aproximou as vivências dessas mulheres nesses diferentes países – alguns eram independentes, outros eram colônias. Entendo meu trabalho como diálogo com estudos da diáspora africana e das reelaborações das culturas, dos modos de viver e de se relacionar, e dos cultos e da espiritualidade dessas pessoas, sobretudo meninas e mulheres africanas. É também uma história de sobrevivência, de muita luta, e dores e lamentos, mas também de vitórias. Eu tive um mestre, Flávio dos Santos Gomes, professor na UFRJ, que foi muito importante na minha pesquisa de doutorado. Ele é um grande historiador da escravidão, dos quilombos e é um homem negro. Ele me dizia: as pessoas escravizadas são pressionadas pela escravidão, mas não são reduzidas a ela. Então, esse olhar da história social e o olhar que eu dirigi para essas mulheres, quando interpretei as fontes históricas, foi para inserir num contexto maior as suas vivências, as suas relações sociais. Escrevi com esse objetivo de olhá-las para além da condição de escravidão. Olhei também suas outras identidades, os seus outros pertencimentos, as suas relações familiares, suas relações amorosas e sexuais, suas relações com seus filhos, com a comadre, e, enfim, com os senhores, que eram muito tensas.</p>
<p>O interesse por uma edição em inglês foi atendendo a pedidos de outros pesquisadores e universidades?</p>
<p>O caminho para a publicação desse livro se deu sobretudo quando eu recebi um prêmio pela minha tese de doutorado, como a melhor tese pela Lasa, a Latin American Studies Association. É um prêmio considerado nas universidades norte-americanas. Uma colega me sugeriu que eu entrasse em contato com essa editora. Daí teve todo um processo de pareceristas, de pessoas que leram a obra em português, que avaliaram e fizeram sugestões. Fiz algumas mudanças e aí o livro foi traduzido. De uns anos para cá, tem sido criadas redes de pesquisadoras e pesquisadores, de historiadoras e historiadores que abordam mulheres africanas e afrodescendentes numa perspectiva atlântica. Então, tem vários grupos de pesquisa que estão se conectando, como historiadores que trabalham com gênero e escravidão nas Américas. Por uma questão linguística, o português não é lido pelos pesquisadores anglófonos. Acho que há interesse pelas universidades do sul dos Estados Unidos, como a da Geórgia. Essa universidade tem uma série de publicações que se chama “Gender and Slavery”, sobre gênero e escravidão. A edição é uma possibilidade para o público anglófono, sobretudo para se aproximarem dos estudos sobre a escravidão no Brasil, é muito pouco conhecida por eles – apesar de a nossa escravidão ter sido a mais longa e nós termos sido o país que mais recebeu africanas e africanos entre todas as Américas.</p>
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