<rss xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0">
  <channel>
    <atom:link href="https://www.globalsouthworld.com.br/rss/tag/Hist%C3%B3ria" rel="self" type="application/rss+xml" />
    <title>Global South World Brasil - História</title>
    <link>https://www.globalsouthworld.com.br</link>
    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
    <item>
      <title>O que a arqueologia revela sobre a origem dos tiranos e autocracias</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/o-que-a-arqueologia-revela-sobre-a-origem-dos-tiranos-e-autocracias</link>
      <guid isPermaLink="true">https://www.globalsouthworld.com.br/article/o-que-a-arqueologia-revela-sobre-a-origem-dos-tiranos-e-autocracias?feed=Hist%C3%B3ria</guid>
      <pubDate>Sun, 27 Sep 2026 12:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>A ideia de que o crescimento das sociedades humanas levou inevitavelmente à concentração de poder nas mãos de reis, déspotas e outros governantes autoritários está sendo questionada por novas pesquisas arqueológicas. Evidências encontradas em diferentes partes do mundo indicam que sociedades numerosas e complexas desenvolveram, em vários momentos da história, formas coletivas e relativamente inclusivas de governo — e que o surgimento de autocracias pode estar mais relacionado ao controle da riqueza e de recursos estratégicos do que simplesmente ao tamanho da população.</p>
<p>Essa é uma das principais conclusões dos trabalhos conduzidos pelo arqueólogo Gary Feinman, do Field Museum, em Chicago. Especialista em sociedades pré-modernas, com décadas de pesquisas de campo no México e na China, Feinman argumenta que descobertas arqueológicas das últimas décadas desafiam uma narrativa profundamente enraizada nas ciências sociais: a de que pequenas comunidades de caçadores e coletores tomavam decisões coletivamente, mas que a agricultura, a sedentarização e o crescimento populacional teriam produzido desigualdades e tornado inevitável o aparecimento de governantes fortes.</p>
<p>Segundo essa interpretação tradicional, a expansão das aldeias e sua transformação em cidades teriam exigido estruturas cada vez mais centralizadas para manter a ordem. A democracia surgiria muito mais tarde como uma inovação associada principalmente à Grécia Antiga e à Roma republicana. Os dados arqueológicos, porém, mostram uma história muito menos linear.</p>
<p>Feinman afirma que formas menos autocráticas de organização política existiram em diferentes partes do mundo e não eram exclusividade da Europa. Os exemplos vão de Teotihuacan, no atual México, a Mohenjo-daro, no atual Paquistão. Em alguns casos, grandes centros urbanos apresentam indícios de decisões coletivas, espaços públicos acessíveis e uma distribuição de poder muito diferente daquela encontrada em sociedades claramente dominadas por reis e elites hereditárias.</p>
<h2>Casas ajudaram a mudar a interpretação do passado</h2>
<p>Parte dessa mudança de perspectiva começou a surgir nas próprias escavações arqueológicas. Feinman iniciou sua carreira estudando a Mesoamérica nos anos 1970, período em que predominava entre pesquisadores a interpretação de que as antigas sociedades da região eram governadas de cima para baixo por Estados coercitivos, capazes de controlar a economia, monopolizar recursos importantes e determinar a distribuição de mercadorias.</p>
<p>As escavações de residências, no entanto, começaram a revelar uma realidade diferente. Em muitas casas, os arqueólogos encontraram evidências de que os moradores produziam ferramentas, cerâmicas e outros objetos destinados à troca. Ao mesmo tempo, utilizavam produtos fabricados em outros lugares.</p>
<p>Se a produção e o comércio estavam espalhados por inúmeras residências, seria muito difícil para uma autoridade central controlar toda a atividade econômica. Os pesquisadores também não encontraram os grandes armazéns que seriam esperados caso governantes concentrassem e estocassem parte substancial dos recursos disponíveis.</p>
<p>A conclusão foi que não existia um único modelo político para a Mesoamérica pré-hispânica. Algumas sociedades eram fortemente hierarquizadas, enquanto outras apresentavam características muito mais coletivas.</p>
<h2>Teotihuacan e os maias mostram dois modelos diferentes</h2>
<p>A comparação entre Teotihuacan e as cidades maias do período Clássico tornou-se um dos exemplos mais interessantes dessa diferença.</p>
<p>Entre os maias, os governantes eram explicitamente glorificados. Reis apareciam em obras de arte, viviam em palácios muito maiores que as demais residências e eram sepultados em túmulos monumentais. A arquitetura e a iconografia deixavam clara a existência de uma estrutura hierárquica.</p>
<p>Teotihuacan apresenta um cenário diferente. A enorme cidade localizada próxima à atual Cidade do México também construiu pirâmides e edifícios monumentais, o que durante muito tempo levou pesquisadores a supor que um governante poderoso deveria estar por trás dessas obras.</p>
<p>Mas as evidências de um rei nunca apareceram.</p>
<p>Arqueólogos chegaram a escavar túneis sob as três maiores pirâmides da cidade procurando uma possível sepultura real. Encontraram oferendas e, em alguns casos, vítimas de sacrifícios, mas nenhum túmulo de rei. O contraste é significativo em relação aos grandes templos maias, muitos dos quais também serviam como mausoléus de governantes.</p>
<p>Até o desenho das construções sugere modelos políticos diferentes. Os topos das pirâmides de Teotihuacan tinham espaço para grupos de dez ou 12 pessoas. Nos templos maias de cidades como Tikal, o espaço podia comportar apenas uma, duas ou três pessoas — uma configuração mais compatível com a exibição de uma autoridade individual.</p>
<p>A própria organização urbana reforça essa interpretação. Teotihuacan possuía largas avenidas e grandes praças onde multidões podiam se reunir. Seus murais frequentemente mostram personagens importantes em grupos ou procissões, sem um rei ocupando a posição central. Em algumas representações, figuras de destaque distribuem água, sementes e outros bens.</p>
<p>Na arte maia do período Clássico, por outro lado, reis aparecem em cenas nas quais pisoteiam prisioneiros ou se apropriam de bens. Para os pesquisadores, essas diferenças fornecem pistas sobre como cada sociedade entendia e representava o exercício do poder.</p>
<h2>Crescimento populacional explica apenas parte da autocracia</h2>
<p>Nos últimos anos, Feinman e outros pesquisadores tentaram transformar essas observações arqueológicas em análises comparativas mais amplas.</p>
<p>Um estudo publicado em 2025 na revista  Proceedings of the National Academy of Sciences  (PNAS) analisou a relação entre desigualdade e tamanho das sociedades utilizando como indicador as diferenças entre as maiores e as menores residências encontradas em mais de mil sítios arqueológicos.</p>
<p>Outro trabalho, liderado por Feinman e publicado em março de 2026 na  Science Advances , examinou a relação entre formas de governo e escala populacional em 40 contextos arqueológicos e históricos.</p>
<p>Os resultados indicam que populações maiores podem favorecer a concentração do poder, mas estão longe de determinar o resultado. Nos dois estudos, o tamanho da população explicou aproximadamente um quarto das diferenças observadas no nível de desigualdade ou de autocracia.</p>
<p>As pesquisas também identificaram indícios de práticas consideradas mais democráticas em regiões fora da Grécia e de Roma aproximadamente na mesma época — e, em alguns casos, até antes. Isso não reduz a influência das civilizações grega e romana sobre as democracias modernas, mas sugere que experiências de governança coletiva ocorreram de maneira mais ampla na história humana.</p>
<h2>O que importa é quem controla os recursos</h2>
<p>Para Feinman, uma das principais chaves para compreender por que algumas sociedades se tornam autocráticas está na maneira como o governo obtém os recursos necessários para funcionar.</p>
<p>Quando o Estado depende de pequenas contribuições de um grande número de agricultores, artesãos ou outros cidadãos, precisa manter algum grau de cooperação com essa população. Os pesquisadores classificam esse tipo de financiamento como baseado em “recursos internos”.</p>
<p>Em sociedades antigas nas quais as pessoas tinham maior possibilidade de migrar, ignorar completamente esses cidadãos poderia significar perdê-los — e, consequentemente, perder também a riqueza e os impostos que produziam. Governantes tinham, portanto, incentivos para oferecer infraestrutura, segurança e outros benefícios em troca de suas contribuições.</p>
<p>A situação muda quando uma elite consegue monopolizar fontes de riqueza como minas, grandes plantações, rotas comerciais, espólios de guerra ou trabalho escravo. Esses são classificados pelos pesquisadores como “recursos externos”.</p>
<p>Nesse modelo, o governante deixa de depender economicamente de milhares de cidadãos. Uma fonte concentrada de riqueza pode ser protegida e administrada por um grupo relativamente pequeno, reduzindo a necessidade de negociar com o restante da população.</p>
<p>Essa interpretação leva Feinman a fazer uma distinção importante sobre o funcionamento das autocracias. Governantes autoritários não precisam necessariamente explorar diretamente todos os seus cidadãos. Em determinadas circunstâncias, podem simplesmente ignorá-los porque sua principal fonte de riqueza está em outro lugar.</p>
<h2>Como medir uma autocracia de milhares de anos atrás?</h2>
<p>Determinar se uma sociedade sem registros políticos detalhados era mais ou menos autocrática representa outro desafio. Para tentar resolver o problema, Feinman e seus colegas desenvolveram um conjunto de 27 indicadores arqueológicos e históricos.</p>
<p>Os pesquisadores observaram, por exemplo, onde as decisões políticas aparentemente eram tomadas: em fortalezas de acesso restrito ou em espaços públicos? Analisaram também se a arte oficial glorificava um único governante ou privilegiava representações de deuses, da natureza e da comunidade.</p>
<p>A arquitetura também entrou na análise. Grandes praças onde milhares de pessoas podiam se reunir foram interpretadas de maneira diferente de espaços deliberadamente restritivos.</p>
<p>Os indicadores foram aplicados a 31 localidades em diferentes regiões do mundo. Como alguns lugares foram analisados em mais de um período histórico, o conjunto final chegou a 40 casos. Os pesquisadores então combinaram os resultados para criar um índice destinado a comparar o grau de concentração de poder e de participação existente em cada sociedade.</p>
<p>O uso de dezenas de indicadores procura reduzir o peso de qualquer evidência isolada: mesmo que a interpretação de um determinado elemento arqueológico seja contestada, seu impacto sobre o resultado geral tende a ser limitado.</p>
<h2>Impostos também contam uma história</h2>
<p>A análise produz ainda uma conclusão que pode parecer contraintuitiva: a cobrança de impostos não seria necessariamente um sinal de autoritarismo.</p>
<p>Em sociedades nas quais governos dependiam economicamente de agricultores e pequenos produtores, a tributação podia criar uma relação de interdependência. Os recursos arrecadados permitiam construir sistemas de abastecimento de água, grandes vias, espaços públicos e estruturas de defesa.</p>
<p>Esses investimentos, por sua vez, podiam melhorar as condições de vida, estimular a produção e atrair mais habitantes para determinada região — ampliando também a base de arrecadação.</p>
<p>Os pesquisadores encontraram ainda sinais de que sociedades consideradas mais coletivas realizavam rituais igualmente participativos, como grandes festas, danças e procissões. Essas atividades ajudariam a produzir confiança, cooperação e coesão social.</p>
<h2>Democracias também podem se deteriorar</h2>
<p>Nada disso significa, porém, que sociedades com sistemas mais coletivos permaneçam assim indefinidamente. Feinman argumenta que a concentração progressiva da riqueza pode alterar o equilíbrio político e favorecer também uma concentração de poder.</p>
<p>Monte Albán, no atual México, oferece um exemplo. A cidade existiu por mais de mil anos e é considerada por Feinman uma das experiências de organização coletiva mais duradouras conhecidas pela arqueologia. Em períodos posteriores, porém, começaram a aparecer estátuas glorificando governantes e evidências de que determinadas posições de poder haviam se tornado hereditárias.</p>
<p>A transformação precedeu o colapso da cidade.</p>
<p>Para o arqueólogo, sistemas políticos mais participativos podem ser particularmente frágeis justamente porque dependem de estruturas institucionais complexas. Essa complexidade ajuda a explicar a presença de grandes burocracias em sociedades com formas mais coletivas de governo.</p>
<p>Teotihuacan e Monte Albán, por exemplo, possuíam numerosos edifícios públicos aparentemente destinados a funções administrativas, e não a servir como palácios ou residências de governantes.</p>
<p>A burocracia, nessa interpretação, pode funcionar também como um limite à concentração de poder. Feinman cita a China antiga, onde um complexo sistema administrativo chegou, em determinados períodos, a impor restrições aos governantes. O acesso a cargos públicos por exames introduzia critérios de mérito, enquanto funcionários podiam desenvolver interesses distintos dos soberanos e defender suas próprias comunidades.</p>
<h2>Experiências coletivas não foram exceção</h2>
<p>Outros exemplos aparecem na América do Norte. Feinman menciona os iroqueses, os zunis e os povos de Chaco Canyon como sociedades que, apesar de controlarem territórios suficientemente grandes para permitir níveis mais elevados de desigualdade, desenvolveram formas coletivas de governança e mantiveram o poder distribuído entre diferentes comunidades.</p>
<p>Há pesquisadores que defendem inclusive a possibilidade de algumas práticas políticas dos povos indígenas norte-americanos terem influenciado os primeiros formuladores do sistema político dos Estados Unidos.</p>
<p>Para Feinman, a principal contribuição dessas descobertas é mostrar que a história política humana não seguiu uma trajetória inevitável, partindo de pequenas sociedades igualitárias para grandes Estados autocráticos e, somente muito mais tarde, para democracias.</p>
<p>Agricultura, crescimento populacional e urbanização criaram condições que poderiam favorecer a concentração do poder, mas não determinaram o resultado. Ao longo da história, sociedades semelhantes em tamanho e complexidade desenvolveram modelos políticos muito diferentes.</p>
<p>As evidências arqueológicas sugerem que uma variável decisiva pode estar em outro lugar: na forma como riqueza e recursos são distribuídos — e, principalmente, em quem consegue controlá-los.</p>
]]></description>
      <source url="https://www.globalsouthworld.com.br">Global South World Brasil</source>
      <media:content url="https://gsw.codexcdn.net/assets/asZFkSUO9glvIp4CI.jpg?width=1280&amp;height=720&amp;quality=75&amp;r=fill&amp;g=no" medium="image" type="image/jpeg">
        <media:credit role="photographer">ZINA DESMAZES</media:credit>
        <media:credit role="provider">AFP</media:credit>
        <media:title>AFP__20260422__A8NL2RK__v2__HighRes__TopshotMexicoCrimeShootingTourism</media:title>
      </media:content>
      <dc:creator><![CDATA[Atlantico.fr]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Livro aborda a maternidade de mulheres negras escravizadas do Rio de Janeiro do século XIX</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/livro-resgata-a-maternidade-de-mulheres-negras-escravizadas-do-rio-de-janeiro-do-seculo-xix</link>
      <guid isPermaLink="true">https://www.globalsouthworld.com.br/article/livro-resgata-a-maternidade-de-mulheres-negras-escravizadas-do-rio-de-janeiro-do-seculo-xix?feed=Hist%C3%B3ria</guid>
      <pubDate>Mon, 06 Jul 2026 19:11:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>O que acontecia com os bebês das mulheres negras escravizadas obrigadas a serem amas de leite das crianças nas casas senhoriais nos tempos do Brasil imperial? Como a Lei do Ventre Livre, promulgada no país em 1871, impactou a relação das mães e seus filhos, muitas vezes separados de modo ilegal? De que forma conhecimentos africanos sobre gravidez e parto resistiram à violência da escravidão? Essas são algumas das questões investigadas pela historiadora Lorena Féres da Silva Telles, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em sua pesquisa sobre mulheres africanas e afrodescendentes escravizadas no Rio de Janeiro do século XIX, baseada em milhares de documentos históricos, como teses de medicina, anúncios de jornais, registros de batismo, processos judiciais e até relatos de viajantes.</p>
<p>O estudo deu origem ao livro “ Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas: maternidade e escravidão no Rio de Janeiro (1830-1888)” , lançado em português em 2022 pela Editora Unifesp e agora publicado nos Estados Unidos pela University of Georgia Press com o título “ Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant: Motherhood and Slavery in Nineteenth-Century Rio de Janeiro” . O livro pode ser encontrado na Amazon. A edição original também está disponível no site da editora da Unifesp.</p>
<p>Mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado pela Universidade de Campinas (Unicamp) e pela University of Pittsburgh (EUA) e pesquisadora no Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Social do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Lorena traça um forte e sensível retrato das mulheres escravizadas, que lutaram para manter suas culturas e visões de mundo com a ajuda de uma rede de parentes, entre elas suas próprias mães, comadres e parteiras africanas e afrodescendentes. Para dar a dimensão do tamanho dessa população, em 1849, o censo do Rio de Janeiro apontava que viviam na cidade 40 mil mulheres, metade delas eram africanas.</p>
<p>A autora também traz à luz histórias de mulheres como Teresa Benguela e Felipa Crioula sob a ótica da maternidade. Histórias de Teresas e Felipas, como consta no prefácio no livro, mostram que essas mulheres, além de cumprirem uma extensa e dolorosa jornada de trabalho doméstico ou no comércio, “atravessaram todas as desventuras da vida sob escravidão, da menarca à menopausa, como corpos e ventres que proviam a continuidade da escravidão”. O prefácio é assinado pela historiadora Maria Helena Pereira Toledo Machado, professora titular do departamento de história da USP, orientadora de Lorena no doutorado.</p>
<p>“ Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant: Motherhood and Slavery in Nineteenth-Century Rio de Janeiro”  amplia o acesso internacional a uma pesquisa que dialoga com estudos sobre escravidão, gênero e diáspora africana nas Américas e ajuda a inserir a experiência brasileira em um debate em que prevalecem estudos sobre o sul dos Estados Unidos e o Caribe. Em entrevista ao  Global South World Brasil,  Lorena detalha as principais descobertas do trabalho e demonstra como as histórias dessas mulheres permitem compreender dimensões da escravidão que ainda hoje permanecem invisíveis.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asESFZe6ZfoljolgR.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="A historiadora Lorena Féres da Silva Telles mostra as edições em português e inglês de "Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas"."/>
<p>Como surgiu seu interesse por esse tema? De que forma o assunto das mulheres africanas escravizadas no Rio de Janeiro chamou sua atenção pela maternidade e suas implicações?</p>
<p>A questão da maternidade entre mulheres escravizadas surgiu depois do meu mestrado. O livro é resultado da minha pesquisa de doutorado, com contribuições da minha pesquisa de pós-doutorado. Tenho estudado relações raciais, histórias de mulheres negras e trabalho doméstico em São Paulo, que foi o tema do meu mestrado. No doutorado, houve um interesse meu. Ao mesmo tempo, é campo de estudo do momento da minha orientadora, Maria Helena Pereira Toledo Machado. Quando fui procurá-la, pensava em um projeto sobre século XIX, sobre as mulheres na escravidão. Estava com a vontade de entender melhor as experiências das mulheres escravizadas. No meu mestrado, tratei das mulheres livres e libertas. Minha orientadora estava pesquisando amas de leite. Ela tinha escrito um artigo sobre mulheres ocupadas como amas de leite. Aí, comecei a minha tese, a minha pesquisa de doutorado falando sobre amas de leite e com foco na maternidade da mulher negra. Toda mulher que foi ama de leite teve seu filho. Engravidou, deu à luz e teve seu bebê. Comecei a pensar o destino desses filhos e como era se ocupar de duas crianças, sendo que uma delas era a criança negra dela e a outra era o bebê senhorial, isso dentro das relações escravistas. Fui atrás de muitas fontes. Pesquisei, sobretudo, teses de medicina, revistas médicas, casos clínicos, muitos anúncios de jornal envolvendo aluguel, fuga e venda de mulheres escravizadas. Fui juntando muito material, assentos (registros) de batismo – era o momento dos batizados; as mães escravizadas tinham também as madrinhas e os padrinhos dos filhos, que eram redes sociais e de parentesco muito importantes. Quando eu vi, tinha fôlego para pensar a maternidade de uma maneira mais ampla. E também, na historiografia que eu estava pesquisando – sobre mulheres negras e maternidade e escravidão no sul dos Estados Unidos e na Jamaica – estavam questões sobre os partos, as parteiras negras e as práticas dos médicos. Aí, minha tese acabou se debruçando sobre a gravidez dessas mulheres no Rio de Janeiro. Então, passei a pensar relações afetivas, relações sexuais, autonomia e estupro e coerção sexual. Pensando na relação com os senhores, quem era o pai desses bebês, como foi o processo da gravidez, que conhecimentos elas tinham sobre gravidez, como contavam as luas para saber o tempo da menstruação. Tudo isso eu fui encontrando indícios nos casos clínicos dos médicos, quando eles atendiam as mulheres africanas e afrodescendentes. Depois, parti para a análise dos partos, onde elas davam à luz, quais eram as práticas. Pesquisei as diferentes parteiras, os diferentes perfis de parteiras no Rio de Janeiro: havia parteiras brancas francesas, brancas brasileiras, portuguesas, mulheres africanas, mulheres negras nascidas no Brasil – chamadas de criolas –, afrodescendentes. E aí eu pesquisei as práticas e as especificidades das parteiras africanas e afrodescendentes. Em outro capítulo, enfoquei as práticas dos médicos. A faculdade de medicina surge nesse formato, de faculdade, em 1832 na cidade do Rio de Janeiro e em Salvador. Ali, havia muitas teses no final do século XIX, na década de 80, que trazia ideias racistas sobre os corpos e os partos das mulheres negras, dentro também de uma linha do racismo científico do período na Europa e nos Estados Unidos. Pesquisei as práticas dos médicos, o uso de instrumentos obstétricos e a violência obstétrica. Existem alguns casos clínicos de jovens mulheres afrodescendentes, escravizadas que tinham a participação de vários médicos no momento do parto. Havia diversas situações opressivas para essas mulheres. Depois, pesquisei a amamentação. Enfoquei as amas de leite e os impactos da ocupação de ama de leite no Rio de Janeiro. Existia um mercado de aluguel de amas de leite muito amplo no século XIX inteiro. E também dei foco à questão da separação dos bebês e as famílias locatárias, que alugavam. As mulheres brancas não amamentavam seus próprios filhos. As que não tinham escravizadas nutrizes como suas propriedades alugavam mulheres de outros senhores. Cobrava-se mais caro pela mulher sem o próprio filho, pela mulher negra cativa sem o filho. Então, havia situações de separações, de abandonos de bebês. E tensões também dessas mulheres em ter de cuidar do bebê da senhora, se ela amamentasse a criança senhorial e não da locatária. Eram tensões de ter dois bebês. Muitas vezes o próprio filho era preterido. E tinha uma alta mortalidade das crianças negras. Também tratei das práticas da amamentação, a amamentação estendida de muitas mulheres africanas, centro-africanas, principalmente da região de Congo, Angola e Moçambique. Elas amarravam os bebês às costas. Davam de mamar, sobretudo, as lavadeiras, as quitandeiras que ficavam mais tempo distantes dos senhores. Elas podiam amamentar os filhos com mais frequência do que as amas de leite, do que as mucamas ou do que as mulheres que trabalhavam muito próximas dos senhores. No capítulo sobre a criação dos filhos, abordo a relação delas com as crianças pequenas. A criação era comunitária. Tinha a participação das suas comadres, das redes de parentesco, muitas vezes das mães delas, das avós. Muitas vezes, elas também participavam dos partos e das dificuldades, até a Lei do Ventre Livre, em que as mães e as crianças poderiam ser separadas até 1869. Tem uma lei de 1869 que proíbe separação de famílias e de mãe e filho até 15 anos. Havia as práticas de separações das crianças e a das vendas conjuntas. Muitas vezes essas mulheres eram vendidas com os filhos pequenos. Também há a questão dos infanticídios, quando, em situações de muita tensão, de ameaças senhoriais, de muita violência senhorial, elas tiravam a vida de seus filhos, das crianças pequenas. Elas tentavam também o suicídio e muitas delas sobreviveram. Enfim, são situações muito dramáticas e muito trágicas. Uma questão importante é que o Rio de Janeiro foi um porto que recebia até 1831, no Valongo, muitas africanas e africanos. A escravidão urbana nas grandes cidades sempre precisou muito dessas mulheres no trabalho doméstico ou no ganho de rua, como quitandeiras. Então, as mulheres eram muito numerosas no Rio de Janeiro, que era corte imperial também. Só para se ter noção, em 1849, o censo, apesar de seus problemas de imprecisões, registrou na cidade e nas franjas suburbanas aproximadamente 40 mil mulheres. Metade delas eram africanas. Essa demografia do tráfico contava com mulheres de Congo-Angola, dos portos de Benguela, de Luanda, de Cabinda, de Ambris, que eram mulheres também falantes das línguas Congo, ambundo, quicongo. Tive interesse em compreender as visões de mundo, a cultura e as reelaborações dessas mulheres na diáspora. Elas chegavam meninas, jovenzinhas, e reelaboraram, dentro das circunstâncias e das limitações da escravização, em diferentes momentos históricos, as suas práticas culturais de criação de filhos, o uso de amuletos para proteger os bebês, as redes de parentesco para evitar que os filhos fossem separados delas.</p>
<p>Havia boas fontes por aqui ou foi necessário fazer uma pesquisa fora do Brasil para completar seu trabalho?</p>
<p>Trabalhei com muitas teses de medicina. No século XIX, os estudantes de medicina tinham de fazer um trabalho de conclusão de curso, que chamavam tese de doutorado – mas não era o nosso doutorado. Um dos principais temas abordados era a questão da amamentação e da higiene infantil, dentro de um discurso que colocava as mulheres brancas em um novo papel social voltado para a função de mãe, como as responsáveis pelos cuidados dos filhos e pelo futuro da nação. Ao mesmo tempo, eram trabalhos que faziam críticas às amas de leite negras africanas e descendentes. Eram trabalhos que acabavam justificando, de alguma maneira, o uso de amas de leite, dizendo que as mulheres brancas eram frágeis, fracas, que o leite delas era pouco nutritivo. Então, eles justificavam, de algum modo, a prática escravista de alugar ou de usar mulheres mães escravizadas como amas de leite. Também pesquisei teses sobre menstruação e sobre aborto. Usei muitas fontes da medicina de casos clínicos, de atendimento dos médicos, geralmente da classe senhorial mais abastada – eles chamavam os médicos em último caso, diante de complicações na gestação ou no parto das mulheres cativas. Eles nem sempre conseguiam dar conta dos problemas no parto porque a cesariana só vai ser uma cirurgia segura no comecinho do século XX. Então, eles iam com fórceps e, muitas vezes, causavam lacerações nas mulheres e nas crianças. A gente vê, por meio dessas teses e dos casos clínicos, as práticas das parteiras a partir de uma análise das entrelinhas, das críticas que faziam a elas. Também usei muito jornais através da hemeroteca digital, que é uma base de dados da Biblioteca Nacional, com muitos jornais do século XIX digitalizados. Ali, encontrei muitos anúncios de fuga, de venda, de aluguel de mulheres grávidas ou com bebês e crianças pequenas. Também pesquisei literatura de viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil, literatura de memórias de fazendeiras, de mulheres brancas escravistas, que escreviam sobre o cotidiano dentro de um discurso de paternalismo, de uma escravidão benigna, cheio de distorções, e também por meio de fotografias e pinturas. Eu investi num conjunto de fontes bem amplo para conseguir encontrar indícios desses aspectos das vidas das mulheres escravizadas, que não ficaram nos registros ou que eram pouco registrados nas fontes ligadas às instituições ou aos interesses das classes senhoriais brancas. Com relação a fontes estrangeiras, usei alguns manuais de medicina franceses. Pesquisei tudo isso através de buscas em bibliotecas digitais. Também em alguns livros de viajantes ingleses que estiveram na África Central e na África Ocidental. Fiz uma viagem durante o doutorado para Edimburgo, na Escócia, onde havia uma professora que pesquisava sobre mulheres escravizadas no Caribe britânico, na Jamaica. Ali, na biblioteca, foi muito importante o acesso que tive à bibliografia sobre parteiras e partos em algumas regiões da África. Então, a maior parte das pesquisas eu fiz no Brasil mesmo.</p>
<p>Que aspectos podem ser ressaltados das mulheres escravizadas no Rio de Janeiro antes e depois da Lei do Ventre Livre, em relação à sexualidade, maternidade, criação de filhos, morte de mães e filhos?</p>
<p>A Lei do Ventre Livre foi promulgada em 1871, no final do século XIX. Teve um impacto importante do ponto de vista do direito das mulheres escravizadas se manterem junto a seus filhos até os 8 anos, pelo menos. Porém, também foi muito conservadora porque a lei obrigava os “ingênuos”, como eram chamadas as crianças nascidas de ventre livre, a 21 anos de trabalho para os senhores. Aí, eles seriam libertos. Então, do ponto de vista do direito à maternidade, essas mulheres disputaram muito a lei, sobretudo quando a classe senhorial praticava escravização ilegal, ao tentar vender em separado mãe e crianças, principalmente na Bahia e no Nordeste. Algumas delas foram vendidas com os filhos, ou seja, respeitando a Lei do Ventre Livre. Muitas vezes, ela foi burlada, separando mães e crianças. Então, um dos impactos mais importantes foi a questão da manutenção dos vínculos maternos com as crianças. A Lei do Ventre Livre vai retroceder uma lei de 1869. Nessa, ficava estabelecida a proibição da venda em separado de mães e filhos de até 15 anos de idade. A do Ventre Livre, baixou essa idade para 12 anos. Ou seja, ela protegeu também a relação das mães com filhos nascidos antes da Lei do Ventre Livre, ou seja, para os filhos a quem legavam a sua condição escravizada. A Lei do Ventre Livre também teve impactos muito específicos com relação aos contextos, se era urbano ou se era rural. No caso da cidade do Rio de Janeiro, em que havia um mercado de aluguel de amas de leite bastante importante, muitos dos bebês ingênuos foram abandonados para que a mãe fosse alugada como ama de leite por um preço mais alto. Muitos desses senhores, sobretudo os das elites e das classes médias, não tinham interesse em criar essas crianças porque elas não seriam escravizadas. Então, a lei teve um impacto no mercado de amas de leite, principalmente no Rio de Janeiro. E houve um impacto com relação à sobrevivência dessas crianças. Muitas foram mortas, abandonadas nas ruas e nas rodas dos expostos, em que a Igreja Católica acolhia bebês abandonados. Havia projetos de lei que eram mais arrojados, vamos dizer assim. Eles previam uma libertação imediata, mas o que acabou vencendo foram os interesses senhoriais de postergar ao máximo a exploração dos filhos das mulheres escravizadas.</p>
<p>No livro, você destacou alguns nomes. Que material encontrou para falar delas? Como foi o resgate das histórias dessas mulheres?</p>
<p>Essa escolha dependeu muito da disponibilidade das fontes históricas. Por exemplo, um anúncio de fuga muitas vezes é um texto curto de um senhor ou de uma senhora que descreve os laços sociais, as roupas, o olhar senhorial sobre o físico, sobre o jeito [da pessoa escravizada]. No anúncio de busca dessas mulheres aparecem muitos detalhes das vidas delas. Alguns foram muito ricos nesse sentido, ao mostrar as relações que estavam indo encontrar com a mãe. Muitas dessas mulheres escravizadas tinham relações com mães que eram libertas ou escravizadas, fugindo junto com companheiros. Teresa Benguela era uma mulher comum, africana, embarcada no porto angolano de Benguela. Eu a escolhi, por exemplo, porque tem indícios muito interessantes em muitos desses anúncios que falam de traços da maternidade. A que eu pude aprofundar mais foi a Geralda, que era uma mulher ocupada como mucama. Ela foi vendida do Rio Grande do Sul. Pesquisei através da Gazeta dos Tribunais, que era uma revista que transcrevia partes de processo criminal. Os processos adentram mais na vida das pessoas envolvidas. Trabalhei também com a Marcelina, uma mulher que foi presa acusada de ter matado a locatária. Pelos testemunhos do processo é possível ver as tensões cotidianas, as relações de opressão e também os limites dessa mulher. Foi uma situação de luta corporal, em que ela é acusada de ter sufocado a senhora, a locatária, na verdade. A Ângela Maria é uma mulher que matou os filhos em um contexto de muitas ameaças da classe senhorial. Ela tentou se matar depois. Foi um infanticídio seguido de tentativa de suicídio. Ela tenta se matar afogada na praia do Flamengo. E assim, um envolvimento muito afetivo com essas pessoas, com essas mulheres do passado. Eu me esforcei em escrever [sobre elas]. O texto é historiográfico. Foi escrito dentro de uma pesquisa acadêmica, mas escrevi de maneira a respeitá-las, a tratá-las com dignidade e olhá-las com delicadeza dentro das relações sociais em que elas foram tão objetificadas, como foi a escravidão negra nas Américas. Tive um envolvimento profundo, tive momentos de tristeza, de identificação também com os indícios do que elas viveram, do que elas passaram. Como falar sobre temas delicados também, como falar sobre estupros, abusos sexuais de meninas de 12 anos, 11 anos, 10 anos? Isso aparecia também em algumas fontes da medicina. São casos de muito sofrimento. Então, foi desafiador falar sobre temas que são delicados e que tocam mulheres negras e as descendentes dessas africanas e afrodescendentes do século XIX. Essas são realidades, legados ainda da sociedade escravista.</p>
<p>Que indícios encontrou de Teresa Benguela [líder quilombola] e de Felipa Crioula [mulher escravizada que vivia no Rio de Janeiro no fim do século XIX]?</p>
<p>Encontrei indícios de Teresa Benguela em um anúncio de fuga. Dizia que ela fugia grávida e com uma criança pequena, um filho dela. Essa fuga falava da fuga dela da casa da senhora e do senhor e buscando dar à luz longe deles, indo para uma casa de uma comadre, de uma pessoa da comunidade afrodescendente, que era muito populosa na época em que ela viveu. Felipa Crioula também aparece em um anúncio de fuga, mas já no final do século XIX, em torno de 1872. É no contexto do Ventre Livre, em que as relações escravistas estão sendo colocadas em xeque pelos próprios escravizados. Nesse anúncio de fuga, parece que ela está grávida, quase a ponto de dar à luz. Ela é vista por pessoas conhecidas da casa senhorial, trocando de roupa e de nome. E com pessoas que conhecia. Ou seja, ela mobilizou uma rede de solidariedade. Ela tinha outros filhos também. Achei em um jornal que ela entrou com uma ação de liberdade, um processo em que os escravizados acionavam a Justiça para se alforriarem, para fazer a auto compra.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asAuPyC7lzoHHyHyN.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="A fotografia "Partida para a Colheita do Café, Vale do Paraíba, c. 1882", de Marc Ferrez, está no livro."/>
<p>De que modo sua pesquisa se conecta a outros trabalhos relativos às populações escravizadas que saíram da África e foram levadas às Américas?</p>
<p>Minha pesquisa se insere dentro da tradição da história social, mais especificamente da história social das mulheres e da história social da escravidão. É uma linha historiográfica que tenta recuperar, analisar e compreender o mundo social, econômico e político a partir das perspectivas desses grupos sociais; no caso, de subalternizados como foram as africanas, africanos e seus descendentes que foram atravessados pela escravização. Acredito que o meu trabalho dialoga muito com trabalhos sobre mulheres negras e maternidade no sul dos Estados Unidos e no Caribe. A gente poderia falar de uma perspectiva Atlântica. Busquei também o que havia de comum, o que aproximou as vivências dessas mulheres nesses diferentes países – alguns eram independentes, outros eram colônias. Entendo meu trabalho como diálogo com estudos da diáspora africana e das reelaborações das culturas, dos modos de viver e de se relacionar, e dos cultos e da espiritualidade dessas pessoas, sobretudo meninas e mulheres africanas. É também uma história de sobrevivência, de muita luta, e dores e lamentos, mas também de vitórias. Eu tive um mestre, Flávio dos Santos Gomes, professor na UFRJ, que foi muito importante na minha pesquisa de doutorado. Ele é um grande historiador da escravidão, dos quilombos e é um homem negro. Ele me dizia: as pessoas escravizadas são pressionadas pela escravidão, mas não são reduzidas a ela. Então, esse olhar da história social e o olhar que eu dirigi para essas mulheres, quando interpretei as fontes históricas, foi para inserir num contexto maior as suas vivências, as suas relações sociais. Escrevi com esse objetivo de olhá-las para além da condição de escravidão. Olhei também suas outras identidades, os seus outros pertencimentos, as suas relações familiares, suas relações amorosas e sexuais, suas relações com seus filhos, com a comadre, e, enfim, com os senhores, que eram muito tensas.</p>
<p>O interesse por uma edição em inglês foi atendendo a pedidos de outros pesquisadores e universidades?</p>
<p>O caminho para a publicação desse livro se deu sobretudo quando eu recebi um prêmio pela minha tese de doutorado, como a melhor tese pela Lasa, a Latin American Studies Association. É um prêmio considerado nas universidades norte-americanas. Uma colega me sugeriu que eu entrasse em contato com essa editora. Daí teve todo um processo de pareceristas, de pessoas que leram a obra em português, que avaliaram e fizeram sugestões. Fiz algumas mudanças e aí o livro foi traduzido. De uns anos para cá, tem sido criadas redes de pesquisadoras e pesquisadores, de historiadoras e historiadores que abordam mulheres africanas e afrodescendentes numa perspectiva atlântica. Então, tem vários grupos de pesquisa que estão se conectando, como historiadores que trabalham com gênero e escravidão nas Américas. Por uma questão linguística, o português não é lido pelos pesquisadores anglófonos. Acho que há interesse pelas universidades do sul dos Estados Unidos, como a da Geórgia. Essa universidade tem uma série de publicações que se chama “Gender and Slavery”, sobre gênero e escravidão. A edição é uma possibilidade para o público anglófono, sobretudo para se aproximarem dos estudos sobre a escravidão no Brasil, é muito pouco conhecida por eles – apesar de a nossa escravidão ter sido a mais longa e nós termos sido o país que mais recebeu africanas e africanos entre todas as Américas.</p>
]]></description>
      <source url="https://www.globalsouthworld.com.br">Global South World Brasil</source>
      <media:content url="https://gsw.codexcdn.net/assets/astybBmgTZhiqf1LO.jpg?width=1280&amp;height=720&amp;quality=75&amp;r=fill&amp;g=no" medium="image" type="image/jpeg">
        <media:credit role="provider">Staatliche Museen zu Berlin</media:credit>
        <media:title>aquarelas_Eduard Hildebrandt</media:title>
      </media:content>
      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Livro analisa a independência americana, que comemora 250 anos sob Donald Trump</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/livro-analisa-a-independencia-americana-que-comemora-250-anos-sob-donald-trump</link>
      <guid isPermaLink="true">https://www.globalsouthworld.com.br/article/livro-analisa-a-independencia-americana-que-comemora-250-anos-sob-donald-trump?feed=Hist%C3%B3ria</guid>
      <pubDate>Fri, 03 Jul 2026 21:31:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Os Estados Unidos comemoram seu 250 anos de independência em um momento inusitado. Em várias de suas metrópoles, times e torcidas vindos de países dos quatro cantos do mundo (entre eles, o Brasil) celebram a maior Copa de Mundo da Fifa já realizada —  e atualmente prestes a começar a fase de oitavas de finais. </p>
<p>Em Washington, o presidente Donald Trump tentou preparar um cenário para uma festa estrondosa, mas que não parece estar dando muito certo. Sua reforma do espelho de água em frente ao Memorial de Abraham Lincoln foi um desastre e a festa que está realizando já há alguns dias no Mall tem atraído apenas uma ínfima parte do público esperado. </p>
<p>Nesse cenário, cabe uma reflexão sobre o que foi a independência dos Estados Unidos e seu significado para a história ocidental como conhecemos hoje.</p>
<p>Tal análise pode ser encontrada em um livro recém-lançado na França, escrito por um dos maiores especialistas do país. Trata-se de " 1776: O ano americano"  ("1776: L'année américaine", EditoraTallandier, 616 páginas ainda sem previsão de tradução ou lançamento no Brasil). </p>
<p>No livro, o historiador Bertrand Van Ruymbeke, professor de civilização e história americanas na Universidade Paris 8 e membro sênior do Instituto Universitário da França, um dos maiores especialistas franceses em relações transatlânticas entre a Europa e a América do Norte, entrega uma obra que foge do romance heroico e linear para mergulhar nas entranhas de um dos movimentos políticos mais complexos da história moderna. No livro, o leitor é convidado a abandonar o mito do "rio calmo e longo" e a encarar a história em sua escala mais crua e documental.</p>
<p>Em " 1776: O ano americano" , Van Ruymbeke abre a narrativa com o início da carreira de Benjamin Franklin e a explosiva Boston Tea Party, em 1773. O verdadeiro trunfo do autor está em sua perspectiva transatlântica. A abordagem não se isola no solo americano; ela costura um intrincado tabuleiro de xadrez diplomático que conecta os bastidores inflamados da Filadélfia, os gabinetes obstinados de Londres e os salões calculistas de Versalhes. </p>
<p>É nesse vaivém geográfico que descobrimos como a independência americana foi moldada tanto pelo idealismo dos colonos quanto pelo pragmatismo francês — personificado por Charles Gravier de Vergennes, ministro de Luís XVI, que viu na revolta a oportunidade perfeita para sangrar economicamente a rival Inglaterra.</p>
<h2>Detalhamento e erudição</h2>
<p>O grande mérito da obra reside no seu rigor quase cirúrgico. Van Ruymbeke não reconstrói o período com base em generalizações históricas, mas sim através da multiplicação e cruzamento meticuloso de fontes primárias compostas por diários oficiais, relatórios confidenciais, correspondências íntimas entre partidários e opositores do movimento separatista e relatos de diplomatas, pessoas comuns e espiões que operavam nas sombras.</p>
<p>Figuras colossais como Thomas Jefferson, John Adams, George Washington e o rei George III são analisadas sob uma ótica humana e multifacetada. No entanto, tamanha precisão científica cobra o seu preço do leitor comum. O livro exige uma atenção sustentada e fôlego. São 548 páginas de uma exegese densa de memórias e recortes de imprensa da época, sustentadas por impressionantes 68 páginas de referências bibliográficas e índices. Não se trata de uma leitura de aeroporto, mas de uma verdadeira suma informativa sobre os anos de fricção que antecederam o 4 de julho.</p>
<p>Com isso, "1776: O ano americano" consolida-se imediatamente como uma nova obra de referência historiográfica. Ao destrinchar os laços de todos os atores envolvidos — sem esquecer praticamente nenhum —, Van Ruymbeke entrega um ensaio brilhante, embora assumidamente direcionado a um público iniciado, advertido e apaixonado por história política. Quem se dispuser a vencer a densidade de suas páginas fechará o volume com a certeza de ter testemunhado, através dos olhos de especialistas, o momento exato em que o destino do mundo ocidental mudou de rumo.</p>
]]></description>
      <source url="https://www.globalsouthworld.com.br">Global South World Brasil</source>
      <media:content url="https://gsw.codexcdn.net/assets/asH3O0B85q2rWA5aK.jpg?width=1280&amp;height=720&amp;quality=75&amp;r=fill&amp;g=no" medium="image" type="image/jpeg">
        <media:credit role="photographer">DepositPhotos</media:credit>
        <media:credit role="provider">DepositPhotos</media:credit>
        <media:title>Independência americana</media:title>
      </media:content>
      <dc:creator><![CDATA[GSW Brasil]]></dc:creator>
    </item>
  </channel>
</rss>