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    <title>Global South World Brasil - Entrevista</title>
    <link>https://www.globalsouthworld.com.br</link>
    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
    <item>
      <title>Como o afastamento do diretor da PF amplia uma crise sem precedentes no Supremo</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/como-o-afastamento-do-diretor-da-pf-amplia-uma-crise-sem-precedentes-do-supremo</link>
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      <pubDate>Tue, 08 Sep 2026 21:39:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>A decisão do ministro  André Mendonça  que determinou o  afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal  inaugurou um novo capítulo da  crise institucional que tem no STF (Supremo Tribunal Federal) seu personagem central .</p>
<p>Na decisão desta terça-feira, 8, Mendonça escreveu que a PF produziu ao menos seis relatórios de inteligência sobre sua atuação e a do advogado-geral da União, Jorge Messias, a partir de um  monitoramento ilegal  que durou ao menos 30 dias. </p>
<p>Para o magistrado, Rodrigues avançou indevidamente sobre a corte, a AGU e a própria corporação que dirigia e, para não interferir em novas investigações, deveria deixar o cargo cautelarmente. A decisão foi submetida à Segunda Turma do Supremo, onde houve maioria formada — com os votos de Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques — pela manutenção da decisão e um pedido de vista de Gilmar Mendes, que não derruba o afastamento.</p>
<p>Conforme reportaram diferentes veículos de imprensa, integrantes do  governo Lula (PT) e a cúpula da Polícia Federal viram motivação política por trás da ação do ministro  e avaliam uma reação;  11 diretores da corporação colocaram seus cargos à disposição em protesto . </p>
<p>Ainda que seja um órgão com autonomia para atuar, a  PF é subordinada à gestão petista da Justiça e Segurança Pública e Rodrigues foi indicado por Lula , reforçando a condição de antagonismo que Mendonça assumiu com relação ao Palácio do Planalto e ao ministro Alexandre de Moraes, seu colega de colegiado, nas últimas semanas.</p>
<p>No início do mês, mensagens extraídas pela mesma PF do celular de Daniel Vorcaro, presidiário e proprietário do Banco Master, e reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo explicitaram a profundidade de sua relação com Moraes ( entenda aqui ). Relator do caso na corte,  Mendonça retirou o sigilo do material e defendeu abertura de investigação contra o colega , que reagiu na mesma semana ao pedir que o próprio Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade. </p>
<p>As mensagens trocadas entre o banqueiro e Moraes incluem um pedido de proteção a um “Andrei”, identificado pelos policiais como o diretor da PF, e a um “Paulo”,  referência ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asGmZgaCLC26ISihL.jpg?width=800&height=600&quality=75" alt="O ministro Alexandre de Moraes"/>
<p>Diante da cisão interna, o presidente do STF,  Edson Fachin, tentou em vão pacificar a crise e tomar a dianteira das investigações . Sem citar Moraes,  Lula sugeriu que todos fossem investigados . Mas a situação havia resvalado profundamente no ministro, na PF e, portanto, no atual presidente. </p>
<p>As manifestações bolsonaristas no feriado da Independência, em 7 de Setembro, evidenciaram esse movimento. Na Avenida Paulista, em São Paulo, o presidenciável  Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que quem votasse em Lula estaria “votando em Moraes”  e prometeu renovar o Supremo cercado por faixas e bonecos em homenagem a Mendonça.</p>
<p>Com a prisão de seu diretor da PF ganhando ares de  novo “cartucho” do relator do caso Master na disputa interna com Moraes , o petista e seu governo se viram ainda mais dragados para o desgaste em torno da ala mais encrencada do Supremo e ameaçados pelos efeitos eleitorais dessa associação — na primeira pesquisa divulgada desde as revelações da última semana, a Quaest mostrou Lula e Flávio empatados em 41% das intenções de voto no segundo turno. </p>
<h2>Perspectivas de uma crise</h2>
<p>Para interpretar os efeitos dessa sequência de fatos sobre a crise institucional protagonizada pela alta cúpula do Judiciário brasileiro, o  GSW Brasil  entrevistou  Rubens Glezer , professor e coordenador do Núcleo de Justiça e Constituição da FGV-SP (Fundação Getulio Vargas).</p>
<p>GSW  O afastamento diretor-geral da PF eleva a atual crise à condição de maior da história do Supremo? Há precedentes?</p>
<p>Rubens Glezer  Nós temos acompanhado, ao longo da última década e meia, uma  intervenção cada vez mais severa e aguda do Supremo no ambiente político , com decisões monocráticas e, por vezes, de fundamentação frágil ou questionável.</p>
<p>Nunca antes tivemos um caso como este , de retirada de um diretor-geral da Polícia Federal. No entanto, temos antecedentes para esse tipo de intervenção robusta, e quase todos profundamente problemáticos. </p>
<p>O primeiro é a anulação, por parte do ministro Gilmar Mendes, da nomeação do então ex-presidente Lula para o Ministério da Casa Civil por Dilma Rousseff com base em uma captura ilegal feita pelo juiz Sergio Moro [hoje senador, na época à frente da Operação Lava Jato]. </p>
<p>Depois, a ministra Cármen Lúcia anulou a nomeação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho no governo Michel Temer pela existência de processos abertos contra ela na Justiça do Trabalho; o mandato parlamentar de Eduardo Cunha foi suspenso pelo ministro Teori Zavascki, em decisão monocrática; as tentativas monocráticas dos ministros Marco Aurélio Mello e Luiz Fux de derrubar mandatos parlamentares, revertidas pelo colegiado; enfim, há uma longa cadeia de intervenções excedentes por parte do Supremo.</p>
<p>No caso atual, há uma fragilidade na decisão do ministro André Mendonça e uma tentativa clara de interferência em uma crise política.  Há uma troca de ataques entre ministros [Mendonça e Moraes] que estão imbricados com agentes de órgãos de investigação .</p>
<p>GSW  Faltou reação interna do próprio Supremo até aqui a este embate interno?</p>
<p>Rubens Glezer  Há um esclarecimento a ser feito sobre o papel do presidente do Supremo:  Fachin não manda e nem sequer tem mais força do que os demais ministros . A função tem uma força administrativa relevante, mas não tem autonomia para retirar relatorias das mãos de um magistrado ou trocar julgamentos entre as Turmas. </p>
<p>O que pode haver é composição política, que Fachin optou por não fazer [até este momento],  para manter um grau maior de institucionalidade na sua posição. Com isso, ele não ganhou força para instaurar, por exemplo, um Código de Ética no tribunal. Quem tem que se arrogar de responsabilidade [sobre essa intervenção] é, também, o mundo político.</p>
<p>GSW  Diante dessa postura de Fachin e das limitações internas do Supremo, quais reações são plausíveis para contornar a crise institucional na atual condição de gravidade? Há uma perspectiva de resolução?</p>
<p>Rubens Glezer  É uma crise sem precedentes porque é, antes de mais nada, de origem interna; historicamente, esse tipo de situação é provocada por uma ameaça externa. Crises de origem interna, no geral, se resumem a divergências ideológicas entre ministros ou discordâncias na posição adotada em  julgamentos, que são mais facilmente contornáveis.</p>
<p>Essa atual tem caráter ético e começa em dezembro de 2025, com a subida do caso Master ao STF com uma justificativa frágil e, então, uma série de episódios seguintes, com relação ao comprometimento do relator inicial [Dias Toffoli] no escândalo.  Sob a condução de  Mendonça, o sigilo das investigações é retirado e toma-se conhecimento das possíveis implicações de Moraes. Isso abre uma disputa fratricida entre os dois magistrados, que envolve e permeia as relações da corte com a Polícia Federal e, potencialmente, com o Ministério Público Federal.</p>
<p>Não é apenas um problema de reputação, mas potencialmente criminal.  Há um risco de perda completa de legitimidade do tribunal , que se mistura ao pleito eleitoral e torna quase impossível uma acomodação — que, cenário atual, com uma pressão pública gigantesca e a ascendência do STF à condição de principal pauta da eleição, é inimaginável.</p>
<p>Agora, fato é que  a crise atual é uma consequência dos vícios de ministros que nunca aceitaram limites . Não há saída de curto prazo. Ainda que haja uma investigação e responsabilização dos agentes, a  necessidade é de se pensar uma reforma do Supremo e do sistema político, como um todo .</p>
]]></description>
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        <media:credit role="photographer">Montagem/GSW Brasil</media:credit>
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        <media:title>André Mendonça e Andrei Rodrigues</media:title>
      </media:content>
      <dc:creator><![CDATA[Carlos Eduardo Vasconcellos]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Implicação do STF no Master não é 'crise interna' e revela necessidade de reforma, diz Marsiglia</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/implicacao-do-stf-no-master-nao-e-crise-interna-e-revela-necessidade-de-reforma-diz-marsiglia</link>
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      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 11:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Ação e reação. Essa é a premissa que define o protagonismo do STF (Supremo Tribunal Federal) na semana que se encerra no Brasil. Na terça-feira, 1º, mensagens extraídas pela Polícia Federal do aparelho celular de  Daniel Vorcaro ,  presidiário e proprietário do Banco Master , e reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo explicitaram a  profundidade de sua relação com o ministro Alexandre de Moraes .</p>
<p>Segundo os policiais, o banqueiro negociou transferência de cotas de um jatinho e de um helicóptero para honrar um  contrato milionário com o escritório advocatício Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes , esposa do magistrado, tratado por ele como o "mais importante que temos" em diálogo com um sócio. </p>
<p>Mais do que isso,  relatou a Moraes que precisaria da proteção de "Andrei" e "Paulo", referências nada discretas ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet , e consultou o ministro sobre  deixar o país dois dias antes de ser preso pela primeira vez , em novembro de 2025. " Acha que segunda já tenho que estar fora? ", questionou Vorcaro. A PF obteve somente os registros do aparelho do remetente e, portanto,  não identificou respostas de Moraes ou ações consequentes em benefício do banqueiro. O magistrado nega irregularidades.</p>
<p>+Leia também: Juristas defendem reforma para tornar STF mais enxuto e eficiente</p>
<p>O inquérito do Master é conduzido pelo ministro  André Mendonça , que ordenou a PF a apurar as conversas com Moraes e, conforme revelou a CNN Brasil, passou a  consultar colegas sobre a abertura de uma investigação contra o colega -- a instauração depende do aval da maioria do colegiado .</p>
<p>Um dia após essa revelação, mensagens vazadas da investigação revelaram que este  relator teve um encontro com Vorcaro mediado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) . Mendonça admitiu o encontro, mas afirmou que o Master não foi assunto da ocasião.</p>
<p>A escalada prosseguiu. Na quinta-feira, 3, Moraes usou um despacho do inquérito das fake news, do qual é relator há extensos sete anos, para  pedir ao presidente da corte, Edson Fachin, que Mendonça seja investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade  na condução dos inquéritos do Master e do escândalo do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o qual também relata. No pedido, Moraes argumentou que o colega direcionou a investigação a determinados alvos -- lista em que se inclui -- "por motivos pessoais e políticos". </p>
<p>Essa sequência de episódios revela, acima de tudo,  o quão contaminada a cúpula do Judiciário brasileiro está pelo escândalo do Master . Desde que Vorcaro foi capturado pela PF, a revelação de sua teia de influências na política foi alçada a novo patamar na medida em que descortinaram-se as relações do banqueiro com Dias Toffoli -- que deixou o processo após admitir ter feito negócios com sócios do banco no Resort Tayayá -- e o próprio Moraes. </p>
<p>As informações rapidamente resvalaram na imagem da corte, realçaram a discussão sobre um Código de Conduta para limitar as relações políticas de seus membros, afugentaram políticos que antes defendiam a atuação dos magistrados, sustentaram novos pedidos de impeachment contra Moraes e, talvez o mais importante, empoderaram Mendonça -- como demonstram as reações internas.</p>
<h2>Abalo sísmico</h2>
<p>Para interpretar o peso histórico desse caso para a principal instituição do Judiciário brasileiro, o  GSW Brasil  entrevistou  André Marsiglia , advogado constitucionalista, membro da Comissão de Liberdade de Imprensa da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil) e fundador do think tank Lexus.</p>
<p>GSW  Há precedente  para eventual investigação ou responsabilização de um ministro do STF pela própria corte por possíveis crimes de responsabilidade?</p>
<p>Marsiglia  Não há. Nem de impeachment de ministro pelo Senado em razão de crime de responsabilidade, nem de investigação desses magistrados por crimes comuns. </p>
<p>O impeachment é um processo previsto em uma lei específica, enquanto a  previsão de que os integrantes da corte sejam julgados por seus pares consta na Constituição e no regimento interno do STF  [havendo maioria do colegiado], como Mendonça buscava fazer, ao levar a julgamento a conduta do ministro por suspeita dos crimes de advocacia administrativa e corrupção passiva. É isso que seria avaliado: as mensagens foram encaminhadas a Moraes, mas não se sabe o que ele fez com elas.</p>
<p>GSW  Esse processo de apuração da conduta de Moraes e pedido de investigação de Mendonça configura uma crise interna de qual gravidade para a corte?</p>
<p>Marsiglia  Recuso a análise de que há uma crise no STF, porque isso pressupõe colocar tudo no mesmo balaio: Mendonça encontrou-se com Vorcaro e Moraes também, como se fossem as mesmas coisas, quando não são;  não há nenhum indício de que Mendonça tenha atuado a favor do banqueiro . </p>
<p>Encontrar-se com um bandido não é crime, mas fazer algo a favor dele é, e as suspeitas sob investigação são de que Moraes tenha atuado para beneficiar Vorcaro.  Colocar essas suspeitas dentro de um contexto de crise interna me parece uma estratégia para que elas sejam encaradas como uma espécie de "briga de família",  de modo que não haja interferência externa. O fato é que as suspeitas sólidas envolvem a conduta de Moraes, enquanto Mendonça cumpriu seu papel na relatoria do processo.</p>
<p>GSW  O nível de comprometimento da corte neste escândalo poderá gerar consequências efetivas para o comportamento de seus integrantes ou, ao menos, empoderar os sistemas de fiscalização de suas condutas?</p>
<p>Marsiglia  Não acredito  que uma fiscalização interna do STF seja suficiente para produzir soluções, porque temos um órgão que, em tese, é responsável por isso, que é o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), e a própria discussão sobre um Código de Conduta não foi adiante a ponto de incluir a atuação desses ministros.</p>
<p>Nós temos um problema no Supremo que vai além da fiscalização, e se origina na forma como ele foi concebido:  o poder dos ministros é excessivo . Há uma concentração de autoridade que precisa ser diluída com os demais Poderes; isso tem a ver com foro privilegiado, com o papel de julgar a constitucionalidade das leis, com o fato de que a corte se tornou também criminal e, enfim, com uma série de prerrogativas que gestou a situação em que nos encontramos.</p>
<p>É adequado que um Poder fiscalize o outro, e o Senado ter esse papel com o Supremo me parece razoável. O problema é que, com o foro privilegiado, os ministros podem julgar os senadores, que por consequência tornam-se reféns desta condição e perdem a autonomia para fiscalizá-los.</p>
<p>A diluição dessa concentração de poder permitiria que os magistrados fossem  julgados efetivamente por seus crimes de responsabilidade. Ou seja,  é necessário reformar o Judiciário, não somente ampliar sua fiscalização . </p>
]]></description>
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        <media:title>O ministro Alexandre de Moraes</media:title>
      </media:content>
      <dc:creator><![CDATA[Leonardo Rodrigues]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>'Não quero ser exceção': estudante da USP cria app gratuito para ajudar jovens no vestibular</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/nao-quero-ser-excecao-estudante-da-usp-cria-app-gratuito-para-ajudar-jovens-no-vestibular</link>
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      <pubDate>Thu, 30 Jul 2026 22:26:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Anos antes de entrar na USP (Universidade de São Paulo) para cursar Ciências da Computação,  Mariana Cardoso  aguardava a mãe chegar do trabalho para pegar  seu celular emprestado, se conectar ao wi-fi de uma residência vizinha e dedicar suas horas livres ao estudo, com o objetivo de ingressar na Etec (Escola Técnica Estadual). </p>
<p>"Era uma das poucas chances que eu tinha para mudar de vida", explicou Mariana ao  Global South World Brasil . Desde o início de julho, ela passou a receber relatos agradecidos de jovens que, como ela, "suavam a camisa" para avançar nos estudos, mas ganharam uma força extra sem precisar pagar por isso.</p>
<p>A razão é o  Tita , um aplicativo disponível para  download gratuito  e acesso offline que reúne videoaulas, apostilas em PDF e centenas de questões -- formuladas com inteligência artificial -- inspiradas em provas da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) e da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).</p>
<p>Desenvolvido por Mariana com recursos próprios e conhecimentos de programação adquiridos na Etec e na USP, o app nasceu com o objetivo de transformar as universidades em ambientes onde a estudante deixe de ser a "mínima exceção" entre egressos de escolas privadas e cursinhos preparatórios. </p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asBuLCTVd80WsMpoD.jpeg?width=800&height=600&quality=75" alt="Mariana Cardoso, estudante da USP e criadora do Tita: 'Mercado não quer tanto assim um aplicativo gratuito'"/>
<p>Os números mostram que o acesso ao ensino superior público ainda é elitizado no Brasil, apesar da adoção de medidas para reverter a situação. Foi apenas no vestibular de 2021 que a USP atingiu maioria de ingressantes de escolas públicas, com 51,7% -- após a destinação de porcentagens maiores a cotistas na Fuvest.</p>
<p>Para entender o impacto da educação e do acesso à tecnologia na vida dessa estudante, o  GSW Brasil  entrevistou Mariana Cardoso. </p>
<h2>Leia a íntegra</h2>
<p>GSW  Como surgiu o objetivo de criar um aplicativo de estudos, do zero?</p>
<p>MC  Eu sempre tive o sonho de usar a computação para ajudar a resolver os problemas da sociedade. O principal momento em que eu senti falta de um aplicativo como o Tita foi pouco antes do vestibular da faculdade, quando prestei o 'vestibulinho'para entrar na Etec. </p>
<p>Aos 15 anos e sem celular próprio, eu esperava minha mãe chegar do serviço [para pegar o aparelho emprestado], à noite, sentava num corredor de concreto onde era possível 'roubar' o wi-fi do vizinho, porque não tínhamos condição de assinar um plano de internet, e estudava assistindo vídeos no YouTube. </p>
<p>Não era uma rotina de estudos organizada, e esse era um grande obstáculo. Ao mesmo tempo, precisava continuar porque essa era uma das poucas chances que eu tinha para mudar de vida. </p>
<p>Quando entrei na USP, eu senti o peso de ser a "mínima exceção", ao lado de pessoas que passaram cinco, dez anos em cursinhos, o que não aconteceu comigo. Mesmo tendo acesso a um ensino de excelência [na Etec], senti falta de conhecimentos que as pessoas tiveram em cursinhos. Faltavam mais pessoas como eu naquele espaço.</p>
<p>Então, o Tita nasceu com esse sonho, de fazer com que mais pessoas pudessem ter a mudança de vida que a educação me proporcionou. Que mais pessoas voltassem a ter, na educação, o  principal meio para essa mudança.</p>
<p>GSW  Qual foi a complexidade de transformar este sonho em um aplicativo, de fato?</p>
<p>MC  Foi muito difícil conciliar o desenvolvimento do aplicativo com universidade,  estágio e demais dificuldades do cotidiano. Usei as férias, virei noites e madrugadas e tive a sorte de, na Etec, ter aulas de desenvolvimento de aplicativos, o que me deu a base de conhecimento necessária. </p>
<p>Foram cerca de oito meses programando, aprendendo e testanto. Tive que fazer sozinha a curadoria dos vídeos [exibidos no app], perguntando para a minha irmã, que está no terceiro ano do Ensino Médio, assim como tive que formular um banco de 1.500 questões.</p>
<p>Mas a maior dificuldade, mesmo, é a falta de condição para bancar tokens de IA -- o que, inclusive, é um problema do Tita. Por mais que eu queira muito que o aplicativo cresça, tenho medo de que ele deixe de atingir todo mundo igualmente, porque não temos patrocínio para esses recursos e tivemos de utilizar modelos que, ainda que não sejam os ideais, permitem que o app se mantenha gratuito.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/as3RJAeHpDEujRaai.webp?width=800&height=600&quality=75" alt="Interface de abertura do aplicativo: acesso é gratuito e offline"/>
<p>GSW  Seu relato mostra que o Tita foi financiado com recursos próprios. Desde o lançamento, houve contato de empresas interessadas em investir no seu trabalho?</p>
<p>MC  Desde o início, meu objetivo foi criar um aplicativo 100% acessível. As pessoas me aconselhavam a cobrar um valor simbólico, como R$ 5, mas nem todo mundo tem essa quantia.</p>
<p>Então, sim, 100% [do financiamento do aplicativo] foi por mim, e ainda não houve conversa com nenhuma empresa. Eu até pensei em procurar patrocinadores, buscar recursos para a melhor tecnologia possível, mas é difícil encontrar interessados em uma iniciativa cujo objetivo é ser, para sempre, gratuita.</p>
<p>GSW  E qual foi a importância da universidade para essa iniciativa?</p>
<p>MC  A USP não me incentivou necessariamente a criar o aplicativo, mas o fez na medida em que nos incentiva permanentemente a busca métodos e desenvolver nossos próprios projetos. </p>
<p>O fato de eu ter colocado uma ideia no papel e construído o aplicativo sozinha tem clara influência da USP, que me ensinou a construir códigos, programar corretamente, pensar no custo-benefício do projeto e, enfim, atuar como pesquisadora, não apenas programadora. Não agir necessariamente conforme o 'mercado' quer, até porque ele não deseja tanto assim um aplicativo gratuito.</p>
<p>GSW  Como tem sido ver o impacto que você projetou se concretizar?</p>
<p>MC  O primeiro impacto veio antes mesmo  do aplicativo estar disponível na Play Store, porque eu precisei testá-lo e usei a escola onde estudei para isso. Hoje, minha irmã estuda lá. </p>
<p>Eu sou a primeira da minha família a fazer uma universidade pública. Minha bisavó, minha avó e minha mãe foram empregadas domésticas, e tenho muito orgulho delas, mas eu continuaria esse ciclo, não fosse pela educação. Ao ver a minha irmã testando o Tita para se preparar para o vestibular, eu vi que as opções para ela são outras e senti muito orgulho.</p>
<p>Depois do lançamento para o público geral, recebi [relatos de] que pessoas no Ceará estão usando o aplicativo, uma página relevante no Instagram nos divulgou, alunos e professores me enviaram agradecimentos. Cada vez que leio 'estava perdido nos estudos e o Tita me deu um norte', isso enche meu coração e me faz ver que o esforço valeu a pena.</p>
]]></description>
      <source url="https://www.globalsouthworld.com.br">Global South World Brasil</source>
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        <media:title>estudante-usp-app</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Leonardo Rodrigues]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Governos não conseguirão controlar emancipação da IA, diz ex-analista da CIA</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/governos-nao-conseguirao-controlar-emancipacao-da-ia-diz-ex-analista-da-cia</link>
      <guid isPermaLink="true">https://www.globalsouthworld.com.br/article/governos-nao-conseguirao-controlar-emancipacao-da-ia-diz-ex-analista-da-cia?feed=Entrevista</guid>
      <pubDate>Sat, 25 Jul 2026 14:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>No livro " The Revolt of the Public " ("A revolta do público", em tradução livre), publicado em 2014 e que permanece sem edição brasileira, o ex-analista da CIA  Martin Gurri  projetou que a ascensão das redes sociais provocaria o colapso das elites.</p>
<p>Ao longo da última década, essa interpretação foi amplamente utilizada para compreender movimentos como o dos Coletes Amarelos, na França, e a ascensão da direita radical registrada em boa parte do mundo, incluindo o Brasil.</p>
<p>Nesta entrevista ao  Atlantico.FR , veículo parceiro do  Global South World Brasil , Gurri avalia que a inteligência artificial representa uma nova etapa dessa emancipação política dos cidadãos, e que os governantes não têm instrumentos suficientes para controlá-la.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asDWhqjlRLepLLVFc.jpeg?width=800&height=600&quality=75" alt="'The Revolt of The Public', de Martin Gurri, antecipou em 2014 que massificação das plataformas reduziria poder das elites"/>
<h2>Leia a entrevista completa</h2>
<p>Atlantico  Em The Revolt of the Public, o senhor descreveu as redes sociais como um tsunami que submergiu as elites sem colocar nada sólido em seu lugar. A IA representa uma segunda onda desse mesmo tsunami ou algo qualitativamente diferente? Os políticos levaram anos para compreender o Twitter e o Facebook — e muitos jamais conseguiram fazê-lo. O senhor acredita que a IA é ainda mais opaca para eles ou, ao contrário, lhes oferece novos instrumentos de controle?</p>
<p>Martin Gurri  São perguntas excelentes. Creio que a IA seja a conclusão lógica do tsunami digital: esse dilúvio de informações aleatórias que se apresenta como conhecimento organizado, como verdade. Evidentemente, não é isso que ela é.</p>
<p>A IA se parece com um "idiota sábio": possui uma memória monstruosamente vasta e a capacidade de organizar informações em argumentos convincentes. Esses argumentos às vezes se aproximam da verdade, outras vezes não. O futuro pertencerá àqueles que souberem distinguir uma coisa da outra.</p>
<p>Nos Estados Unidos, alguns políticos — especialmente do campo populista — compreenderam o poder da IA. Mas, de maneira geral, as elites, tanto na América quanto na Europa, não possuem nem o interesse nem a formação necessários para lidar com uma inovação revolucionária que ameaça seu controle sobre as instituições.</p>
<p>O governo Biden pretendia utilizar seus poderes regulatórios para neutralizar a IA. Na Europa, difundiu-se a ideia de que é melhor ser sufocado por uma montanha de regulamentações do que inovar.</p>
<p>Dos dois lados do Atlântico, as velhas elites desejam retornar ao século XX, quando podiam silenciar o público e governar a sociedade de cima para baixo. Mas essa máquina do tempo reacionária não existe — e jamais existirá.</p>
<p>Atlantico  A IA agora permite que qualquer cidadão examine um orçamento público, analise um projeto de lei ou confronte um especialista. Trata-se de uma verdadeira democratização do conhecimento ou corremos o risco de confundir acesso à informação com capacidade de compreendê-la? Em seu livro, o senhor distinguia a capacidade de destruir a legitimidade das elites da capacidade de construir algo novo. A IA dará ao público meios para construir ou apenas para contestar com mais eficiência?</p>
<p>Martin Gurri  A IA pode seguir dois caminhos. O primeiro colocaria todas as informações já registradas desde o surgimento da humanidade nas mãos de cada indivíduo. Apenas pela expansão de sua consciência, essas pessoas deixariam de ser comuns e evoluiriam para algo semelhante a uma inteligência híbrida -- metade humana, metade máquina.</p>
<p>Seria a  revolta do público  acelerada. Como as elites governantes dependem mais da hierarquia do que do conhecimento, elas se tornariam menos instruídas, menos eloquentes e, no fim, menos inteligentes do que um ser humano potencializado pela IA.</p>
<p>O outro caminho seria a concentração da IA nas mãos de um pequeno círculo de  poderosos, que a utilizariam para reforçar a hierarquia existente ou criar uma nova elite tecnocrática.</p>
<p>Ao monopolizar o acesso a essa inteligência ampliada, essas pessoas acabariam se parecendo com os deuses do Olimpo: vaidosos, arbitrários e quase imortais, consultados pelos mortais como se fossem oráculos. </p>
<p>O restante da população seria abandonado a uma espécie de barbárie confortável, passando a temer o conhecimento como um domínio reservado às elites. Esses são os dois extremos. </p>
<p>Em certos momentos — como durante a Revolução Francesa — a história realmente chega às conclusões mais radicais. Na maior parte das vezes, porém, as coisas permanecem confusas. Se eu fosse um apostador, o que não sou, apostaria que a IA seguirá um caminho intermediário entre a elevação do público e a divinização das elites. Mas apenas o futuro poderá dizer.</p>
<p>Atlantico  O senhor escreveu que o impacto da IA dependerá da força moral da nossa civilização. Mas, se a IA se adapta para dizer a cada usuário exatamente aquilo que ele deseja ouvir, ela não destrói justamente as condições necessárias para essa força moral existir — o debate compartilhado e uma realidade comum? </p>
<p>As redes sociais fragmentaram o espaço público em bolhas. A IA personalizada vai ainda mais longe: ela não apenas filtra a informação, mas a produz sob demanda. Trata-se de uma diferença de grau ou de natureza?</p>
<p>Martin Gurri  Não compartilho dessa premissa. A disputa para definir o que será a IA ainda está em andamento e, portanto, não podemos caracterizar seus efeitos de forma definitiva.</p>
<p>Um dos cenários possíveis é que a IA reúna toda a reflexão e sabedoria acumuladas pela humanidade desde o Paleolítico. Em outras palavras, ela poderá tornar-se a base comum da próxima etapa da vida civilizada.</p>
<p>Em vez de aprofundar as divisões criadas pelas redes sociais, poderá funcionar como uma força de integração intelectual. De Homero ao Homem-Aranha, de Monteverdi aos Beatles, compartilharíamos as mesmas referências ao discutir mudanças políticas.</p>
<p>Aliás, as únicas pessoas verdadeiramente presas em uma bolha informacional hoje são justamente as elites governantes, que desprezam o universo digital. O público, por sua vez, está imerso na internet e bombardeado continuamente por opiniões divergentes. Pode ser fanático ou niilista — e frequentemente é as duas coisas ao mesmo tempo —, mas sabe perfeitamente o que cada lado pensa sobre cada tema político ou social.</p>
<p>Já aqueles cuja informação provém exclusivamente de grandes jornais, como o The New York Times ou o Le Monde, tornam-se voluntariamente surdos e cegos enquanto dançam à beira do precipício.</p>
<img src="https://gsw.codexcdn.net/assets/asxOHVIgwhJYsUI7b.png?width=800&height=600&quality=75" alt="Instalação artística de IA na Alemanha reimagina Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg como cães-robôs: nova elite é formada por proprietários de big techs"/>
<p>Atlantico  Diante de cidadãos mais preparados para argumentar e potencialmente presos às próprias convicções, qual é a estratégia racional para um político? Adaptar-se ou tentar regular a IA para recuperar o controle? Regimes autoritários já utilizam a IA para vigiar e moldar a opinião pública. As democracias, por sua vez, hesitam. Isso representa uma fraqueza estrutural?</p>
<p>Martin Gurri  Antes de tudo, todos os seres humanos, ao longo da história, sempre foram prisioneiros de suas próprias certezas. Não devemos imaginar que uma mudança na estrutura da informação tenha alterado a natureza humana.</p>
<p>A única diferença — e ela é importante — é que agora podemos expressar publicamente essas convicções, enquanto antes isso era impossível ou passível de punição.</p>
<p>O tsunami informacional é, por natureza, contrário à hierarquia. O público comeu o fruto da árvore do conhecimento, e os governos não podem regular ou reprimir esse fenômeno para retornar à inocência perdida.</p>
<p>As ditaduras sempre exploraram as novas tecnologias. Hitler, por exemplo, dominava perfeitamente o uso do rádio. Mas algumas tecnologias favorecem muito mais o controle vertical do que outras.</p>
<p>A internet — como a imprensa fez por cinco séculos —  impõe às autoridades desafios muito maiores do que os jornais ou os telejornais. Precisamos de uma classe política que compreenda o universo digital, se sinta confortável nele e não tema suas consequências. Essa não é a classe política que temos hoje.</p>
<p>Atlantico  Com a renovação natural das gerações, surgirá uma nova geração de líderes políticos. Em uma década, a IA terá servido mais para emancipar o cidadão comum ou para consolidar o poder daqueles que a controlam?</p>
<p>Martin Gurri  Provavelmente, ambos. Haverá um processo darwiniano, no qual a IA será utilizada de maneiras boas e ruins por diferentes sociedades, grupos sociais e indivíduos. As aplicações mais bem-sucedidas sobreviverão e se multiplicarão.</p>
<p>Atlantico  Elas favorecerão a liberdade ou a tirania?</p>
<p>Martin Gurri  Como sempre, sou pessimista no curto prazo, mas otimista no longo prazo.</p>
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