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    <title>Global South World Brasil - Cuba</title>
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    <language>pt-BR</language>
    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
    <item>
      <title>Os desafios do novo ciclo escolar em Cuba</title>
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      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 15:00:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Mais de 1,4 milhão de crianças e adolescentes começaram o ano letivo em Cuba na terça-feira, 1ª, sob uma regra incomum: nem todas as escolas funcionarão da mesma maneira. A depender das condições de cada local, a direção poderá mudar os dias de aulas presenciais, os horários, o transporte e até a oferta de alimentação aos estudantes.</p>
<p>A abertura do novo ciclo escolar se deu em meio à falta de combustível, aos apagões, à escassez de materiais e ao déficit de professores. Para a ministra da Educação, Naima Ariatne Trujillo Barreto, o grande desafio será conseguir manter o sistema funcionando ao longo do ano. “Nenhuma instituição tem por que se parecer com outra, porque as comunidades também não são iguais”, explicou ao Granma, jornal oficial do Partido Comunista, dias antes, ao detalhar a organização das escolas.</p>
<p>Na prática, a orientação é manter o máximo possível de atividades presenciais, mas as decisões serão tomadas de acordo com as condições de cada escola, território e comunidade. Transporte e alimentação, por exemplo, podem determinar se um estabelecimento conseguirá manter dois turnos ou precisará reduzir ou modificar a jornada. A merenda escolar também poderá variar de uma região para outra.</p>
<p>Nos semi-internatos e internatos que começaram a funcionar, o Ministério da Educação afirmou que as condições básicas de alimentação estavam asseguradas, mas a quantidade de suprimentos disponíveis não era a mesma em todo o país. Na semana anterior ao início do ciclo escolar, algumas instituições estavam abastecidas para 15 dias, outras para 20 e havia locais onde os produtos ainda estavam sendo distribuídos.</p>
<p>O transporte é outro ponto crítico. Em algumas escolas com alunos que vivem longe, os períodos de permanência serão maiores para diminuir a necessidade de deslocamentos. Na província de Granma, 4.560 estudantes de 42 instituições em regime de internato ficarão três semanas seguidas nas escolas, até 18 de setembro, devido às limitações de combustível.</p>
<p>Em outras instituições da província, a solução foi espaçar ainda mais os encontros. Escolas provinciais, como as de formação pedagógica e o pré-universitário vocacional, terão períodos presenciais de 15 dias a cada dois meses.</p>
<p>Os problemas de energia elétrica também acompanham alunos e professores para além dos portões das escolas. Em Santiago de Cuba, Tania, professora de uma escola secundária, contou ao Granma que deixou os uniformes dos dois filhos passados desde o domingo anterior ao primeiro dia de aula por causa dos apagões prolongados. Ela queria que as crianças fossem à escola com as roupas impecáveis.</p>
<p>Meses antes, ao falar das dificuldades enfrentadas ainda no período letivo anterior, Naima já tinha descrito como a falta de eletricidade interferia no ensino. Depois de uma noite sem energia, comentou ela, é difícil atrair o aluno para a escola e fazê-lo se concentrar. E os professores chegam à sala de aula após enfrentar os mesmos apagões e, em alguns casos, problemas de abastecimento de água em casa.</p>
<h2>Pressão sobre o fornecimento de petróleo</h2>
<p>A crise energética cubana é anterior a este ano, mas ganhou uma nova dimensão em janeiro. No dia 29 daquele mês, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva que criou um mecanismo para aplicar tarifas adicionais a produtos de países que vendam ou forneçam petróleo a Cuba, direta ou indiretamente.</p>
<p>A decisão aumentou a pressão sobre o abastecimento da ilha num momento em que a Venezuela, durante anos uma importante fornecedora de Cuba, interrompeu os embarques ainda no fim de 2025. No início do ano, Trump determinou a invasão do país (ação que a ONU considerou como violação das regras do direito internacional) e a captura de Nicolás Maduro, hoje preso em uma cadeia federal em Nova York. Nesse cenário, o México tinha se tornado o principal fornecedor. Mas a possibilidade de retaliação comercial norte-americana também colocou os envios mexicanos sob pressão.</p>
<p>O governo cubano atribui a essa política parte do agravamento da falta de combustível e dos apagões. Na abertura do ano escolar, o presidente Miguel Díaz-Canel reconheceu que o ciclo começava em uma situação complexa e relacionou as restrições enfrentadas pelo país ao bloqueio norte-americano.</p>
<h2>Faltam professores</h2>
<p>Colocar os alunos dentro das escolas é apenas parte do problema. Também é preciso ter professores para dar aulas. Em Granma, 108.431 estudantes começaram o ano distribuídos por 1.127 instituições. A província tem 14.735 docentes e uma cobertura de 96,9%, mas ainda precisava preencher 461 postos, principalmente nas disciplinas de matemática, física, química e espanhol.</p>
<p>Uma das saídas foi buscar profissionais fora do quadro habitual. Foram reincorporados 320 professores aposentados e outros 752 recém-formados em cursos pedagógicos. Universitários do terceiro e do quinto anos também foram chamados para ajudar a suprir a falta de docentes. Há ainda professores assumindo carga horária adicional.</p>
<p>Os percentuais de cobertura mostram diferenças importantes entre as províncias. Guantánamo iniciou o ano com mais de 79 mil estudantes e 93% das vagas docentes cobertas. Em Villa Clara, onde 696 instituições abriram as portas, a cobertura era de 90,3%.</p>
<p>Díaz-Canel reconheceu outra dificuldade da categoria. Ao se dirigir aos professores na abertura das aulas, afirmou que o salário recebido por eles não é o que o governo gostaria nem remunera todo o esforço exigido. Também admitiu que haverá situações em que faltarão recursos didáticos e pedagógicos.</p>
<h2>Um ano letivo planejado para funcionar de outro jeito</h2>
<p>As adaptações de setembro foram preparadas ainda durante o período anterior, quando o agravamento da crise energética já obrigava o governo a mudar a rotina das escolas.</p>
<p>Em maio, Cuba decidiu antecipar em um mês o encerramento do ano letivo 2025-2026, que seria em julho. Na época, a ministra Naima informou que algumas localidades já tinham reduzido as aulas presenciais e o serviço de semi-internato por causa da falta de combustível e das dificuldades logísticas.</p>
<p>As avaliações foram flexibilizadas, e a educação especial terminou o período ainda em maio devido às dificuldades adicionais de deslocamento dos estudantes. Círculos infantis também não conseguiram manter a jornada completa em determinados dias por problemas relacionados à preparação da alimentação e ao transporte.</p>
<p>Foi a partir dessa experiência que começou a ser preparado o período iniciado agora.</p>
<p>Díaz-Canel pediu aos ministros da Educação e da Educação Superior e aos demais órgãos envolvidos que desenhassem um ano letivo possível diante das restrições energéticas. O resultado é o modelo descentralizado atualmente em vigor.</p>
<h2>Ensino superior também começa com adaptações</h2>
<p>As universidades entraram no novo período acadêmico submetidas à mesma lógica de adaptação.</p>
<p>Uma das mudanças mais importantes ocorreu antes mesmo da matrícula. Em maio, o governo decidiu, excepcionalmente, eliminar os exames de ingresso no ensino superior devido à crise energética. A distribuição das vagas passou a considerar o desempenho acadêmico obtido pelos estudantes durante o ensino pré-universitário.</p>
<p>O funcionamento das universidades também pode variar. Na Universidade de Sancti Spíritus José Martí Pérez, o ano começou em regime semipresencial. Os estudantes dos cursos regulares diurnos iniciaram as atividades por plataformas digitais e interativas, enquanto os encontros presenciais serão incorporados gradualmente, em períodos concentrados.</p>
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        <media:credit role="provider">Reprodução/ Facebook - Ministério da Educação de Cuba (a imagem foi editada por IA para aumentar a resolução)</media:credit>
        <media:title>escola-cuba</media:title>
      </media:content>
      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>100 anos do nascimento de Fidel Castro; o que restou de sua revolução?</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/100-anos-apos-o-nascimento-de-fidel-castro-o-que-restou-de-sua-revolucao</link>
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      <pubDate>Thu, 13 Aug 2026 17:07:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>13 de agosto de 2026 marca o 100º aniversário do nascimento de Fidel Castro. Mais de 1.500 ativistas e representantes de mais de 60 países viajaram a Cuba para eventos comemorativos, de acordo com o governo cubano.</p>
<p>Mas o centenário chega em um momento difícil.</p>
<p>Cuba passa atualmente por uma de suas crises econômicas e energéticas mais graves em décadas. Os cortes de energia excedem 20 horas por dia em muitas províncias, enquanto a escassez de alimentos, combustível e medicamentos continua afetando a vida cotidiana. A rede elétrica sofreu três falhas nacionais só em julho.</p>
<p>O governo culpa o endurecimento das sanções dos EUA e um embargo de petróleo introduzido pela administração do presidente Donald Trump em janeiro pelo agravamento da crise. Havana respondeu com 176 medidas econômicas destinadas a abrir partes de sua economia socialista a mais investimentos privados e estrangeiros.</p>
<p>É nesse cenário que o legado de Castro está sendo revisitado nesta quinta-feira.</p>
<p>Nascido em 13 de agosto de 1926, Castro se tornou politicamente ativo após se formar como advogado. Em 1953, juntou-se a mais de 100 outras pessoas em um ataque malsucedido ao Quartel Moncada em uma tentativa de derrubar Fulgencio Batista.</p>
<p>Após a prisão e o exílio no México, Castro retornou a Cuba e liderou uma campanha de guerrilha que culminou na derrubada de Batista em 1959.</p>
<p>O governo de Castro transformou o país por meio da reforma agrária, da nacionalização de empresas privadas e de uma grande campanha de alfabetização. Essas políticas também colocaram Cuba em rota de colisão com os Estados Unidos.</p>
<p>Sua influência acabou se estendendo muito além da ilha. Em toda a América Latina e nos países em desenvolvimento, Castro se tornou um símbolo dos movimentos revolucionários e anticoloniais.</p>
<p>Mas seu legado permanece profundamente contestado. Os apoiadores apontam os avanços na educação e na saúde, bem como a resistência de Cuba à influência dos EUA. Os críticos apontam as restrições às liberdades políticas e o monopólio do Partido Comunista no poder.</p>
<p>Essa divisão permanece visível hoje. Alguns cubanos mais velhos expressaram nostalgia por Castro enquanto o país luta com sua crise atual, enquanto as gerações mais jovens estão cada vez mais distantes da era revolucionária.</p>
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        <media:credit role="provider">Alejandro Ernesto/Lusa</media:credit>
        <media:title>Fidel Castro</media:title>
      </media:content>
      <dc:creator><![CDATA[Edward Sakyi]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Apagões em Cuba agravam saúde mental e colapsam sistema hospitalar</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/apagoes-em-cuba-agravam-saude-mental-e-colapsam-sistema-hospitalar</link>
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      <pubDate>Mon, 10 Aug 2026 20:09:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Em meio ao sétimo apagão nacional só em 2026, a estatal cubana Unión Eléctrica projetou neste domingo, 9, blecautes que deixariam até 70% do país sem energia no horário de pico. Em algumas províncias, moradores passaram mais de dois dias seguidos sem luz.</p>
<p>Cuba enfrenta problemas estruturais na rede elétrica desde 2024 por conta de seu sistema de usinas termelétricas obsoletas, falta de manutenção e escassez crônica de combustível. Mas o quadro piorou depois que o governo Donald Trump apertou o cerco energético à ilha a partir de janeiro, impondo tarifas a qualquer país que venda petróleo a Cuba. O resultado foi a quase paralisação das importações de combustível e uma sequência inédita de apagões nacionais.</p>
<p>A pressão americana não se limita ao campo energético. Segundo reportagem do New York Times, a CIA montou uma força-tarefa dedicada a Cuba, com recrutamento de oficiais de operações secretas e de inteligência para atuar na ilha. Ao jornal americano, o vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío classificou a iniciativa como mais um capítulo histórico de tentativas de desestabilização do governo por Washington.</p>
<p>O sistema de saúde do país, outrora muito elogiado, é o primeiro a sentir os efeitos da crise. Segundo dados do Ministério da Saúde Pública cubano, há hoje uma fila de espera em hospitais de 96 mil pacientes, entre eles mais de 11 mil crianças aguardando cirurgia. O bloqueio energético dificulta tanto a importação de medicamentos quanto o acesso a matérias-primas para a indústria farmacêutica local, o que forçou hospitais a concentrar a capacidade operacional quase exclusivamente no atendimento de emergências.</p>
<p>Um levantamento da mídia estatal Cubadebate, divulgado em junho, mostrou queda na taxa de sobrevivência de crianças com câncer, de 85% para 65% desde o início das restrições energéticas em janeiro. Há também quase 3 mil pacientes em diálise afetados pela crise energética, segundo o mesmo levantamento.</p>
<p>Em março, o sistema da ONU em Cuba lançou um apelo emergencial de US$ 94,1 milhões, alertando para risco de perdas de vidas com o agravamento da escassez de combustível. Na ocasião, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chamou a situação sanitária cubana de "profundamente preocupante" e defendeu que a saúde não deveria ficar refém de geopolítica.</p>
<h2>Impacto psicológico</h2>
<p>O colapso também afeta a saúde mental. A relação começou a ser medida em 2025, antes mesmo do agravamento mais recente da crise. Um estudo dos psicólogos Yunier Broche-Pérez e Zoylen Fernández-Fleites, publicado na revista científica Social Science & Medicine, ouviu 415 adultos cubanos entre julho e novembro daquele ano e encontrou 55,4% com depressão "extremamente severa", 65,8% com estresse extremo e 66% com ansiedade severa. Outros 79% relataram irritabilidade alta. Os autores encontraram relação direta entre a duração dos apagões e a piora dos sintomas.</p>
<p>Em entrevista à DW, Broche-Pérez, que dirige um centro terapêutico na Flórida, apontou a imprevisibilidade como o fator mais desgastante. Sem saber quando a energia falta nem quanto tempo o corte vai durar, a pessoa permanece em estado constante de vigilância e antecipação, o que impede qualquer rotina estável de sono, trabalho, alimentação ou cuidado com filhos e idosos. O psicólogo defendeu que a instabilidade energética seja tratada como problema de saúde pública, não apenas como inconveniente técnico.</p>
<p>Em Centro Habana, Mayumis Núñez, de 44 anos, dorme numa cama improvisada na rua desde que o prédio onde morava desabou parcialmente e foi interditado. O que mais pesa, contou à AFP, não é o desconforto físico, mas não saber quando a situação vai terminar. Já o guia turístico Leandro Wanton, desempregado após o colapso do setor, disse à reportagem que a frustração, em muitos dias, é difícil de conter.</p>
<p>A mesma reportagem ouviu Tania Peón, diretora de Saúde Mental de Havana, para quem grande parte da população cubana vive hoje em estado de alerta permanente, gasta tentando resolver necessidades básicas do dia a dia. Segundo ela, esse esforço contínuo se acumula num quadro que descreve como estresse sobre estresse. Peón também alerta para o aumento de comportamento suicida entre adolescentes no primeiro semestre de 2026, embora faça a ressalva de que o fenômeno não pode ser atribuído apenas à crise energética.</p>
<p>Dados apresentados pela ONU em maio reforçam o quadro material por trás dos números de saúde mental. Segundo a organização, 33,9% dos lares cubanos relataram fome recente, e 79,4% das famílias destinam mais de 80% da renda à compra de alimentos.</p>
<p>A exaustão da população acompanha um quadro migratório que já vinha se agravando antes mesmo do atual ciclo de apagões. Segundo dado divulgado em julho pela Oficina Nacional de Estatística e Informação (ONEI), Cuba fechou 2025 com 9.434.593 habitantes, 313.414 a menos que no ano anterior 
–
 pelo menos 245.264 dessas pessoas emigraram. Desde 2020, a população da ilha caiu quase 1,8 milhão de pessoas.</p>
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        <media:credit role="provider">YAMIL LAGE / AFP)</media:credit>
        <media:title>cubae</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Global South World]]></dc:creator>
    </item>
    <item>
      <title>Em meio a apagões, Cuba vive dilema entre abertura econômica e sobrevivência</title>
      <link>https://www.globalsouthworld.com.br/article/em-meio-a-apagoes-cuba-vive-dilema-entre-abertura-economica-e-sobrevivencia</link>
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      <pubDate>Tue, 07 Jul 2026 19:52:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Cuba restabeleceu nesta terça-feira, 7, cerca de 30% do fornecimento de energia em Havana após sofrer, no dia anterior, o seu terceiro apagão nacional em grande escala em apenas seis meses. O desligamento completo do Sistema Elétrico Nacional na segunda-feira, 6, paralisou a ilha de mais de 11 milhões de habitantes e marcou o oitavo colapso elétrico de grande porte sofrido pelo país desde o fim de 2024. </p>
<p>O cenário nas ruas é de exaustão, com moradores enfrentando cortes rotineiros de energia de mais de 24 horas consecutivas, chegando a 70 horas nas áreas rurais.</p>
<p>O colapso energético é o reflexo de dois fatores principais, que envolvem a infraestrutura obsoleta de termelétricas com mais de 40 anos de operação sem manutenção adequada e o impacto do bloqueio petroleiro imposto pelos Estados Unidos desde janeiro de 2026.</p>
<p>Segundo dados da Unión Eléctrica (Une), o sistema frequentemente opera atendendo apenas 40% a  60% da demanda, com déficits diários que chegam a superar 1.000-1.700 MW em horários de pico.</p>
<p>A nova estratégia de Washington, que ameaça com tarifas países e petroleiras estrangeiras que forneçam óleo à ilha, secou as reservas de combustível de Cuba. Desde o início do ano, a chegada de navios-tanque caiu drasticamente, exaurindo os estoques em poucas semanas.</p>
<p>Durante os piores momentos da crise, panelaços e protestos  em Havana e regiões próximas expuseram o cansaço dos moradores diante de apagões que inviabilizam o dia a dia, causam a perda de alimentos e travam serviços essenciais.</p>
<p>Sem combustível para os geradores e para as usinas como a Antonio Guiteras, paralisada por falhas técnicas, o país vive um desmonte produtivo. Em fevereiro, a falta de combustível nos aeroportos provocou o cancelamento de voos de grandes companhias aéreas internacionais, fazendo o fluxo de turistas despencar 58% e asfixiando a principal fonte de moedas fortes do país.</p>
<p>O presidente Miguel Díaz-Canel atribuiu a crise diretamente à política americana, classificando o embargo energético como "genocida". </p>
<p>Pressionado pela forte onda de protestos nas ruas, o governo cubano agilizou os trâmites para aprovar o maior pacote de reformas econômicas em mais de seis décadas.</p>
<h2>Os principais pontos da reforma econômica</h2>
<p>Em meados de junho, em uma articulação relâmpago, o Comitê Central do Partido Comunista referendou e a Assembleia Nacional ratificou, por unanimidade, o Programa Econômico e Social, composto por 176 medidas estruturadas em 23 eixos. O pacote altera as estruturas econômicas fundacionais da ilha ao implementar as seguintes mudanças principais:</p>
<p>Para Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a magnitude do pacote sinaliza uma mudança permanente.</p>
<p> "Embora o discurso oficial enfatize a defesa do socialismo contra o bloqueio externo, a amplitude do pacote – que acaba com o monopólio estatal sobre o comércio exterior, autoriza bancos privados e permite que empresas não estatais contratem mais de 100 funcionários – sinaliza que Cuba ultrapassou a barreira dos mecanismos puramente temporários”, avalia a pesquisadora. </p>
<p>Segundo ela, o país caminha em direção a uma variante própria de socialismo de mercado semelhante aos processos históricos da China e do Vietnã.</p>
<p>As lideranças cubanas, no entanto, tentam afastar a percepção de um recuo ideológico absoluto. O próprio presidente Díaz-Canel rejeitou publicamente essa leitura ao afirmar que "nenhum de nós está propiciando uma restauração capitalista em Cuba" e que as medidas são aplicadas "de maneira soberana".</p>
<h2>Abertura econômica sem perder o controle político</h2>
<p>A grande incógnita observada por analistas internacionais é se uma abertura de mercado tão expressiva pode coexistir com um regime de partido único centralizado.</p>
<p>A professora Regiane explica que a história recente do Sul Global demonstra que essa arquitetura é viável, desde que salvaguardados os setores estratégicos. </p>
<p>“A experiência histórica da China e do Vietnã demonstra que a liberalização econômica de fatores de produção, como o câmbio, o comércio exterior e a atração de capital estrangeiro, é viável sob regimes de partido único. Se o Estado mantiver as alturas dominantes da economia – as telecomunicações, o sistema financeiro, a indústria estratégica e o controle do solo –, isso é possível."</p>
<p>Em Cuba, o Partido Comunista tenta replicar essa blindagem política por meio de fortes agências regulatórias, de uma fiscalização tributária severa e, fundamentalmente, mantendo as forças armadas, via conglomerados econômicos, na gestão dos principais ativos geradores de moeda forte, como o turismo de grande porte.</p>
<p>Esta nova realidade forçou uma reconfiguração da narrativa oficial diante do dogma igualitário tradicional do partido. “A ascensão dessas pequenas e médias empresas e a permissão para que um único indivíduo detenha múltiplas empresas privadas tensionam muito o dogma igualitário tradicional do partido. Para acomodar essa nova realidade, o partido reformulou a narrativa oficial. O setor privado não é mais visto como um mal necessário ou um vetor do capitalismo, mas como um ator complementar da economia socialista. Essa retórica partidária foca agora na tributação desse setor para financiar os programas sociais remanescentes, canalizando o dinamismo privado para os objetivos do desenvolvimento nacional”, analisa Bressan.</p>
<h2>Apagões como estopim e o fim da libreta universal</h2>
<p>A mudança ideológica foi imposta pela crise estrutural da ilha. Os sucessivos apagões nacionais funcionaram como o principal acelerador das reformas econômicas.</p>
<p>“Os apagões funcionam como um grande vetor de urgência das reformas. A ilha precisa de desenvolvimento, de investimento e de infraestrutura, e a crise energética reflete esse colapso físico de uma infraestrutura obsoleta, de termoelétricas e de severa escassez de divisas para importar combustíveis”, ressalta Regiane.</p>
<p>Diante do risco real de uma convulsão social provocada pelo efeito cascata imediato, onde alimentos estragam, as indústrias param e a insatisfação social atinge níveis críticos, o governo foi forçado a abrir mão de exigências históricas. A liderança política se viu pressionada a acelerar a desregulamentação para atrair capital estrangeiro para o setor de energia, inclusive sem a exigência anterior de consórcios paritários obrigatórios com o Estado.</p>
<p>Essa asfixia fiscal também decretou uma guinada histórica em um dos maiores símbolos de igualitarismo da Revolução: a libreta de abastecimento. O modelo tradicional, que garantia uma cesta de produtos altamente subsidiados a todos os cidadãos de forma universal, está sendo progressivamente desmantelado. Em seu lugar, entra um sistema direcionado exclusivamente aos indivíduos em comprovada situação de vulnerabilidade.</p>
<p>“A transição de um modelo de libreta de abastecimento universal para um sistema direcionado exclusivamente aos indivíduos em situação de vulnerabilidade é a admissão factual do esgotamento fiscal do Estado cubano. O modelo tradicional de bem-estar social, pilar da legitimidade da revolução, está se tornando insustentável diante da hiperinflação e do desmantelamento produtivo. Essa mudança sinaliza realmente uma guinada do igualitarismo universal para a focalização de políticas públicas, uma tentativa de reduzir o déficit fiscal crônico sem abandonar por completo a rede de proteção social”, afirma a professora.</p>
<h2>Impasse com Washington</h2>
<p>Apesar da profundidade das reformas econômicas, a tensão geopolítica permanece. Em resposta aos embargos,  lideranças de bastidores da ilha começaram a emitir sinais de flexibilização pragmática para tentar sobreviver. Em entrevista ao jornal americano USA Today, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do ex-presidente Raúl Castro,  afirmou publicamente que a ilha está disposta a negociar diretamente com o presidente Donald Trump. </p>
<p>A  sinalização ocorre em meio a uma forte pressão da Casa Branca, mas o caminho para o entendimento ainda é complexo. Com uma linha dura encabeçada pelo secretário de Estado Marco Rubio, o país indica que as exigências vão além do campo econômico. </p>
<p>Washington mantém a postura de exigir reformas políticas plenas, abertura democrática multipartidária e a transição do regime unipartidário para aceitar o levantamento definitivo do embargo petroleiro e financeiro.</p>
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        <media:title>Imagem de uma rua em Havana, capital de Cuba</media:title>
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      <dc:creator><![CDATA[Carlos Eduardo Vasconcellos]]></dc:creator>
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