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    <title>Global South World Brasil - Banco Ueno</title>
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    <description><![CDATA[Notícias, opinião e análise voltadas para o Sul Global e as nações emergentes do mundo, do Global South World Brasil.]]></description>
    <copyright>Copyright © 2026 — Global South World Brazil</copyright>
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      <title>Fraude financeira e queda do presidente: o escândalo do Banco Ueno no Paraguai</title>
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      <pubDate>Thu, 05 Nov 2026 18:13:00 Z</pubDate>
      <description><![CDATA[<p>Um banco digital que conquistou quase metade dos habitantes do Paraguai, recebeu centenas de milhões de dólares em recursos públicos e manteve vínculos com o presidente da República tornou-se o centro de um escândalo que derrubou o governo. Em apenas três dias, o fechamento do Banco Ueno deixou 2,9 milhões de clientes sem acesso às contas, levou dirigentes financeiros à prisão e culminou na renúncia do presidente Santiago Peña, nesta quinta-feira (5).</p>
<p>O caso representa uma das mais graves crises bancárias enfrentadas pelo Paraguai nas últimas décadas. A instituição, que havia crescido rapidamente com serviços digitais, promoções e patrocínios esportivos, apresentava problemas de solvência e operações financeiras sob suspeita. Seu colapso também expôs as relações entre autoridades políticas, empresários e órgãos responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro. Ele tem sido comparado ao Banco Master.</p>
<p>Peña, economista que assumiu a presidência em agosto de 2023, anunciou a renúncia enquanto a Câmara dos Deputados discutia um pedido de impeachment apresentado por 35 parlamentares, entre oposicionistas e dissidentes do governista Partido Colorado. A pressão aumentou com os protestos de clientes e a perda de apoio dentro da própria legenda.</p>
<p>Em mensagem divulgada nas redes sociais, o presidente afirmou que sua decisão buscava preservar a estabilidade nacional, a paz social e as instituições democráticas. Também defendeu que a recuperação do dinheiro dos depositantes fosse tratada como prioridade.</p>
<p>A renúncia ainda depende de aceitação pelo Congresso. Pela Constituição, o vice-presidente Pedro Alliana, que também foi alvo de um pedido de impeachment, é o sucessor previsto para completar o mandato até agosto de 2028.</p>
<h2>O que aconteceu com o Banco Ueno e qual é a ligação de Peña?</h2>
<p>Controlado pelo Grupo Vázquez, o Ueno recebeu autorização para operar como banco em 2023, depois de atuar como financeira. Em pouco tempo, tornou-se uma das instituições mais populares do Paraguai, com milhões de correntistas atraídos pela facilidade de abertura de contas e por benefícios oferecidos aos clientes.</p>
<p>O crescimento, porém, foi acompanhado por operações que passaram a ser questionadas pelo Banco Central. A fiscalização identificou empréstimos a empresas ligadas aos controladores da instituição, documentação insuficiente e registros contábeis irregulares.</p>
<p>A revisão dos balanços revelou que o índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. Esse indicador mede a capacidade de um banco de absorver perdas e cumprir suas obrigações financeiras.</p>
<p>Em 3 de novembro, o BC anunciou a intervenção e o início do procedimento de resolução do Ueno. As operações foram suspensas, impedindo clientes de utilizar cartões, aplicativos, caixas eletrônicos e outros serviços.</p>
<p>Entre os recursos administrados pelo banco estavam aproximadamente US$ 850 milhões de instituições públicas. Desse total, cerca de US$ 355 milhões pertenciam ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por aposentadorias e benefícios de saúde. O Ueno também participava do pagamento de benefícios a aproximadamente 32 mil aposentados.</p>
<p>A ligação de Peña com a instituição agravou a crise. O presidente foi acionista do grupo controlador até março de 2025 e, ao assumir o governo, nomeou o economista Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central. Carvallo havia comandado a financeira Ueno antes de assumir o órgão responsável pela fiscalização bancária. Ele foi diretor do BC em 2015, substituindo Peña que, na ocasião, assumiu o ministério da Fazenda.</p>
<p>A nomeação de Carvallo chegou a provocar questionamentos sobre conflito de interesses. Em 2024, investimentos do IPS no Ueno já tinham gerado críticas de parlamentares. Em 2025, a instituição também foi alvo de advertências relacionadas às suas operações.</p>
<p>Carvallo apresentou sua renúncia também no dia 3, a pedido de Peña, após o anúncio da intervenção. A investigação criminal levou à detenção de oito dirigentes e à apresentação de acusações contra 27 pessoas ligadas ao banco, entre elas Miguel Vázquez, um dos principais nomes do grupo controlador.</p>
<p>Os deputados que pediram o impeachment de Peña acusaram o presidente de conflito de interesses, favorecimento regulatório e responsabilidade por irregularidades envolvendo recursos previdenciários. Ele negou ter cometido irregularidades e defendeu a responsabilização judicial dos envolvidos.</p>
<h2>Por que o escândalo é comparado ao caso do Banco Master?</h2>
<p>O colapso do Ueno passou a ser comparado ao do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025. As duas instituições apresentaram crescimento acelerado, atraíram recursos de investidores e entidades previdenciárias e se tornaram alvo de investigações sobre operações financeiras.</p>
<p>No Brasil, o Master oferecia certificados de depósito bancário (CDBs) com rendimentos superiores aos praticados por muitas instituições concorrentes. Também recebeu aproximadamente R$ 1,9 bilhão de regimes previdenciários de estados e municípios.</p>
<p>No Paraguai, o Ueno conquistou clientes com serviços digitais, descontos e devolução de parte dos valores gastos em compras. Ao mesmo tempo, concentrou recursos de instituições públicas, incluindo aplicações da Previdência Social.</p>
<p>A dimensão relativa dos dois bancos ajuda a compreender o impacto dos escândalos. O Master representava aproximadamente 0,55% das captações do sistema bancário brasileiro, enquanto o Ueno concentrava cerca de 9,1% dos depósitos paraguaios.</p>
<p>As investigações e os mecanismos de intervenção são distintos, assim como as legislações dos dois países. A comparação está principalmente na rápida expansão das instituições, nas suspeitas sobre suas operações e na exposição de recursos previdenciários.</p>
<h2>O que acontece com o dinheiro dos clientes?</h2>
<p>O fechamento do Ueno não significa que todos os correntistas perderam definitivamente suas economias. O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos que cobre valores de até 75 salários mínimos por depositante, equivalentes a aproximadamente 228 milhões de guaranis, ou R$ 211 mil.</p>
<p>Segundo as autoridades paraguaias, essa cobertura seria suficiente para proteger integralmente os depósitos de aproximadamente 97% dos clientes. Quem possui valores superiores ao limite depende dos procedimentos de recuperação dos ativos do banco.</p>
<p>O Banco Central iniciou medidas para devolver recursos aos depositantes e transferir contas e ativos viáveis para outras instituições. O órgão afirma que o problema do Ueno é isolado e não representa uma crise generalizada do sistema financeiro paraguaio.</p>
<h2>Brasileiros também enfrentam incertezas</h2>
<p>O Paraguai vive um movimento recorde de imigração brasileira. Em 2025, o país concedeu 23.526 autorizações de residência a cidadãos do Brasil, crescimento de 37,3% em relação ao ano anterior. Brasileiros representaram mais de 57% de todas as autorizações concedidas a estrangeiros, conforme levantamento da Direção Nacional de Migrações publicado pelo GSW Brasil.</p>
<p>A tendência continuou em 2026. Apenas no primeiro trimestre, 9.195 brasileiros obtiveram autorização para residir no Paraguai. Em 2020, haviam sido concedidas 10.039 autorizações durante o ano inteiro.</p>
<p>O interesse pelo país vizinho é impulsionado por impostos mais baixos, oportunidades de negócios, menor custo de vida e acesso a cursos universitários, especialmente Medicina. O regime tributário conhecido como Triple 10, com alíquotas de 10% para os principais impostos, é um dos atrativos para empreendedores.</p>
<p>Brasileiros estão entre os clientes que tiveram dinheiro bloqueado após a intervenção no Ueno. O problema atinge famílias que mantêm filhos estudando Medicina no Paraguai e comerciantes da região de fronteira, especialmente em Ciudad del Este, onde o banco era amplamente utilizado em pagamentos eletrônicos. As restrições dificultam o pagamento de despesas cotidianas, como aluguel, mensalidades universitárias e fornecedores.</p>
<p>Os brasileiros que mantêm depósitos no Ueno estão sujeitos às mesmas regras de garantia aplicadas aos clientes paraguaios. Ainda não há um levantamento público que identifique quantos foram diretamente prejudicados.</p>
<h2>Paraguai revive crises bancárias dos anos 1990</h2>
<p>O fechamento do Ueno trouxe de volta a memória das crises financeiras que atingiram o Paraguai entre 1995 e 2003, período em que o país enfrentou cinco episódios de instabilidade bancária.</p>
<p>A primeira grande onda começou em 1995, quando problemas de gestão, operações irregulares e insuficiência de capital provocaram intervenções e falências de bancos e financeiras. A crise se prolongou pelos anos seguintes, acompanhada por recessão e perda de confiança no sistema financeiro.</p>
<p>Estudos do Ministério da Economia paraguaio estimam que as três primeiras crises custaram ao setor público aproximadamente 15% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que representa o conjunto de bens e serviços produzidos no país.</p>
<p>O episódio atual envolve uma instituição com milhões de contas digitais e uma parcela expressiva de recursos públicos. Embora seja uma das crises bancárias mais graves das últimas décadas, ainda não é possível determinar se as perdas econômicas superarão as registradas nos anos 1990.</p>
<h2>As crises políticas que marcaram o país</h2>
<p>A renúncia de Santiago Peña é a primeira de um presidente paraguaio em 27 anos. A anterior ocorreu em março de 1999, quando Raúl Cubas deixou o governo após o assassinato do vice-presidente Luis María Argaña e uma onda de protestos conhecida como Março Paraguaio.</p>
<p>A crise provocou confrontos violentos, deixou mortos e feridos e levou o Congresso a iniciar um processo de impeachment contra Cubas, que estava no cargo havia apenas sete meses.</p>
<p>O episódio ocorreu dez anos depois do fim da ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai de 1954 a 1989. A transição democrática foi marcada por disputas entre grupos políticos, especialmente dentro do Partido Colorado, que havia sustentado o regime autoritário.</p>
<p>Em junho de 2012, outra crise interrompeu um mandato presidencial. Fernando Lugo, eleito em 2008 e responsável por encerrar mais de seis décadas de domínio colorado na Presidência, foi destituído pelo Congresso.</p>
<p>O impeachment ocorreu após um confronto entre policiais e camponeses em Curuguaty, que deixou 17 mortos. O processo foi concluído em menos de dois dias, provocando críticas internacionais pela rapidez do julgamento e pelas limitações impostas à defesa. O Paraguai acabou temporariamente suspenso do Mercosul.</p>
<p>No caso de Peña, a perda de apoio dentro do próprio Partido Colorado acelerou a crise. O ex-presidente Horacio Cartes, dirigente da legenda, retirou seu respaldo ao governo em meio ao avanço das iniciativas de impeachment.</p>
<h2>Cronologia: o escândalo do Banco Ueno</h2>
<p>2023 — Expansão do banco e chegada de Peña ao poder</p>
<p>O Ueno recebe autorização para operar como banco. Santiago Peña assume a Presidência em agosto e nomeia Carlos Carvallo, ex-dirigente da financeira Ueno, para comandar o Banco Central.</p>
<p>Outubro de 2024 — Questionamentos sobre recursos previdenciários</p>
<p>Investimentos do Instituto de Previdência Social no Ueno provocam questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses. Peña rejeita as acusações.</p>
<p>Março de 2025 — Peña deixa o grupo controlador</p>
<p>O presidente encerra sua participação acionária no Grupo Vázquez, proprietário do banco.</p>
<p>2025 e outubro de 2026 — Alertas e pressão política</p>
<p>Operações do Ueno passam a ser questionadas pela fiscalização. Parlamentares cobram explicações sobre a situação financeira da instituição e os recursos públicos nela aplicados.</p>
<p>2 e 3 de novembro de 2026 — Intervenção no Ueno</p>
<p>O Banco Central decide iniciar o procedimento de resolução do banco e anuncia a medida em 3 de novembro. Os serviços são interrompidos, Carlos Carvallo apresenta sua renúncia e a investigação criminal leva à detenção de dirigentes.</p>
<p>4 de novembro — Pedidos de impeachment</p>
<p>Um grupo de 35 deputados apresenta acusações contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. A Câmara convoca sessões extraordinárias para discutir os pedidos.</p>
<p>5 de novembro — Renúncia de Santiago Peña</p>
<p>O presidente perde apoio de integrantes do Partido Colorado e anuncia sua renúncia, enquanto o Congresso discute o impeachment.</p>
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      <dc:creator><![CDATA[Lena Castellon]]></dc:creator>
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