Violência contra a mulher segue em alta, mesmo com programas e campanhas
Principais pontos
- No estado de São Paulo, os casos de feminicídio subiram 30,5% nos quatro primeiros meses de 2026, em comparação com o mesmo período no ano passado
- Em 2025, no Brasil, as vítimas desse crime chegaram a 1.568 em todo o país, crescimento de 4,7% em relação a 2024
- Como forma de ampliar os mecanismos de proteção, foi criado o Cadastro Nacional de Agressores, um banco de dados com nomes de pessoas condenadas pela Justiça por violência contra a mulher

A morte da soldado da Polícia Militar (PM) Gisele Alves Santana, vitimada por um tiro na cabeça em sua casa, causou comoção no país em fevereiro deste ano. No primeiro momento, trataram do caso como suicídio. Mas as investigações mudaram o rumo da história. Nesta segunda-feira, 29, começaram as audiências do processo em que o marido de Gisele, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, também da PM, é réu por feminicídio e fraude processual. Ele estava no apartamento no momento do tiro, que ocorreu após uma briga do casal, e disse que confundiu o som do disparo com o barulho de uma porta batendo. Mas as circunstâncias da morte de Gisele levantaram suspeitas de assassinato. Mensagens no celular de Gisele aumentaram as dúvidas sobre a alegada inocência de Rosa Neto, que está preso desde o dia 18 de março.
O caso gerou, mais uma vez, debates sobre o aumento da violência contra a mulher no Brasil. O processo ainda tem está em seu início, mas exames demonstraram que Gisele foi agredida por um adulto e que não havia vestígio de pólvora nas mãos da soldado. Também não havia nas mãos do tenente-coronel, que decidiu tomar banho quando a polícia chegou, apesar da orientação contrária. Foram encontradas manchas de sangue no banheiro e no calção de Rosa Neto. E mensagens de celular demonstraram que a soldada passava por situações de humilhação por parte do marido.
Entre os casos confirmados como feminicídio, os números demonstram a gravidade e a escalada do quadro de violência contra a mulher no país, apesar de o tema ser cada vez mais divulgado e debatido, dos meios acadêmicos aos protestos nas redes sociais. Apenas no estado de São Paulo, o que mais registra esse tipo de morte, o balanço do primeiro quadrimestre de 2026 revela que a situação é alarmante. De janeiro a abril, foram 107 os casos de feminicídio, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública. É um aumento de 30,5% em relação ao mesmo período no ano passado. É também o maior número registrado nos quatro primeiros meses do ano desde 2018.
Cenário nacional
Divulgado em março, o estudo “Retrato dos feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que, em 2025, o número de vítimas de feminicídio no país foi de 1.568, que representa um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. A tipificação da lei do feminicídio, em 2015, considera que esse crime está relacionado à condição da vítima ser do sexo feminino. Desde a entrada em vigor da Lei Maria da Penha, foram contabilizadas mais de 13 mil mulheres vítimas de feminicídio em todo o território brasileiro.
Uma prima da estudante de educação física Lorena Gonçalves de Oliveira, moradora de Betim (MG) faz parte dessa aterradora estatística. “Para a família é muito triste. O ex-namorado dela não aceitou a separação e isso me mostrou a realidade: o quanto é importante apontar esse quadro para as pessoas porque não é algo normal. Acho que isso tem de ser trabalhado na sociedade”, afirma.
Já Larissa Martins da Silva, estudante de engenharia civil, relata que percebe essa realidade no dia a dia. “A violência está muito agravada. Está fora do comum. Eu vejo como influência de o homem sentir poder sobre a mulher. Tem muito influenciador digital que trata mulher como se fosse objeto”, acredita Larissa, que trabalha em construção civil em Belo Horizonte. Para ela, as leis precisam ser cumpridas de maneira mais eficaz. “Elas não são corretamente aplicadas”.
O relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indica que os números são gerados por boletins de ocorrência registrados pelas polícias civis de cada estado. Os dados podem ser ainda maiores, já que nem todos os casos são tipificados como feminicídio, seja na hora de registrar o boletim de ocorrência ou pela falta de registro como um todo.
Agressores na mira
Em maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um conjunto de Projetos de Lei e decretos para ampliar a proteção das mulheres e fortalecer mecanismos de responsabilização de agressores. Nesse sentido, foi criado o Cadastro Nacional de Agressores, um banco de dados com nomes de pessoas que foram condenadas por violência contra a mulher.
Outra proposta focou o ambiente digital como meio de combater o discurso de ódio. Com isso, as plataformas sociais devem atuar para coibir a disseminação de crimes, fraudes e violências em seus ecossistemas e reduzir eventuais danos causados às vítimas.
As medidas surgiram na data em que se celebraram 100 dias do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, firmado entre Executivo, Legislativo e Judiciário. No balanço desse acordo, o Ministério da Justiça informou que mais de seis mil agressores de mulheres foram presos. Nesses 100 dias, o poder judiciário deu celeridade em algumas das decisões. Mais da metade das medidas protetivas de urgência, contra agressores de mulheres, passaram a ser concedidas no mesmo dia.
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