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O projeto de lei que levou Erika Hilton ao topo da política

Principais pontos

  • Ao liderar a pauta da redução dos dias e horas de trabalho, em tramitação no Senado, Erika Hilton ganhou súbita evidência e mobilizou eleitores de diferentes vertentes políticas.
  • Na corrida pela reeleição, o governo Lula incorporou a proposta como uma de suas bandeiras para disputar os votos dos mais jovens, atualmente mais inclinados para a direita e centro-direita.
  • A deputada do PSOL, postulante a novo mandato, consolida seu nome como uma das principais apostas da esquerda para puxar votos em São Paulo e ganhar espaço em futuras disputas eleitorais.
Foto mostra Erika Hilton (PSOL - SP) durante sessão da comissão Especial sobre o Fim da Escala 6x1
Erika Hilton (PSOL - SP) durante sessão da comissão Especial sobre o Fim da Escala 6x1
Source: Câmara dos Deputados
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Alçada à condição de principal aposta de reconexão popular da esquerda para reeleger outra vez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a redução da escala 6x1 — modelo de trabalho em que as 44 horas semanais de trabalho previstas na CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) são distribuídas em seis dias consecutivos de expediente e um de folga — não foi gestada nas bases do Partido dos Trabalhadores.

Em meados de 2023, um ex-balconista do Rio de Janeiro passou a registrar e publicar nas redes sociais relatos seus e de terceiros a respeito da exaustão provocada pelo trabalho. Nascia ali o VAT (Vida Além do Trabalho), inspirado por movimentos internacionais que rapidamente encontrou ressonância em especial entre os mais jovens.

O fundador do movimento — Rick Azevedo — elegeu-se vereador na capital fluminense com o objetivo de pressionar o Congresso a discutir a redução da jornada de trabalho. No partido em que ingressou, o PSOL, encontrou o endosso de Erika Hilton, nona deputada federal mais votada de São Paulo.

Mesmo com popularidade digital relevante para o campo progressista — boa parte de suas lideranças ainda patina nas redes sociais — e atuação reconhecida em especial nas causas LGBTQIA+, faltava a Erika protagonizar uma discussão de caráter majoritário. Até a 6x1.

Em fevereiro de 2025, a parlamentar protocolou uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que prevê a alteração da CLT para reduzir a duração do trabalho a 8 horas diárias e 36 horas semanais. Sob forte pressão nas plataformas digitais, deputados da direita à esquerda apoiaram a tramitação do texto. Na prática, a projeção de Erika e Azevedo era atrair holofotes para a necessidade de reduzir a carga trabalhista e consolidar um acordo neste sentido — ainda que as 36 horas fossem um objetivo implausível. 

Com problemas para alavancar sua aprovação, emplacar programas populares e conquistar os mais jovens — 52% dos brasileiros nascidos entre 1997 e 2009 se declaram de direita ou centro-direita, conforme pesquisa da Atlas Intel divulgada no final de 2025 —, o governo Lula (PT) viu na 6x1 a oportunidade de hastear uma bandeira eleitoral com grande potencial no segmento e embarcou na articulação da deputada do PSOL. 

Pouco mais de um ano após a apresentação do texto inicial, a redução da escala 6x1 foi aprovada na Câmara — na perspectiva mais realista, prevendo cinco dias de trabalho para dois de descanso semanais — e aguarda tramitação no Senado. Lula defendeu a proposta em cadeia nacional de rádio e televisão em 1º de maio, Dia do Trabalhador. Erika, postulante a um novo mandato em Brasília, é a esperança do PSOL — que perdeu seu deputado mais votado em 2022, Guilherme Boulos, que trocou a reeleição para ser ministro de Estado — para puxar votos em São Paulo e, à luz de um quadro envelhecido e de pouco espaço para a renovação, da própria esquerda para pleitos posteriores.

A trajetória de Erika Hilton

Foto mostra Erika Hilton durante sessão deliberativa no plenário da Câmara dos Deputados
Erika Hilton durante sessão deliberativa no plenário da Câmara dos Deputados
Source: Câmara dos Deputados

Nascida em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, em 1992, Erika se afastou de familiares depois de sofrer rejeição a sua expressão de gênero — a parlamentar se identifica como mulher trans — e foi expulsa de casa na adolescência. Anos mais tarde, reconciliou-se com a mãe.

Na Universidade Federal de São Carlos, onde cursava Gerontologia — faculdade que não concluiu —, participou do movimento estudantil e ingressou na militância política. Em atividades de mobilização digital, reivindicava o reconhecimento do nome social de pessoas trans.

Filiada ao PSOL, fez parte do grupo eleito para formar a Bancada Ativista da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) em modelo de revezamento da titularidade. Em 2020, elegeu-se individualmente vereadora da capital paulista com mais de 50 mil votos — a sexta mais votada do pleito —, tornando-se a primeira pessoa trans no cargo.

No primeiro mandato legislativo, dedicou-se a causas ligadas à sua identidade. Idealizou e presidiu uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar violência contra pessoas trans e travestis na cidade. Com um cargo federal na mira, usou a vereança para protocolar ações contrárias ao então presidente Jair Bolsonaro.

Em 2022, conseguiu chegar à Câmara dos Deputados alçada por mais de 250 mil votos. Em Brasília, não integra bancadas setoriais e tem uma taxa de 86% de adesão aos projetos enviados pelo governo Lula. Além da 6x1, dedicou-se a propostas direcionadas à inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho em escala nacional.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.