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SUS impressiona estrangeiros com universalidade, mas opera sob pressão
Principais pontos
- O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou mais de 1,4 milhão de atendimentos a estrangeiros em 2024 e 775 mil em 2025 na Atenção Primária.
- Estrangeiros, incluindo turistas e influenciadores de países ricos, têm elogiado nas redes o atendimento gratuito e de qualidade do SUS.
- Apesar da universalidade, o sistema enfrenta redução de leitos, longas filas de cirurgias, escassez desigual de médicos e pressão financeira que ameaça sua sustentabilidade.

Criado em 1988 e oficializado em 1990, o Sistema Único de Saúde (SUS) é um modelo de cobertura universal de saúde implantado no Brasil que vem atraindo mais atenção de populações de outras nações. E quem está gerando mais interesse pelo atendimento público brasileiro são os estrangeiros que residem no país, em especial influenciadores. Em 2025, foram realizados 775.619 atendimentos a 256.946 gringos só na atenção primária, a porta de entrada do sistema.
Em 2024, foram 337.187 estrangeiros atendidos, alta de quase 18% frente aos 286.990 de 2023. Os dados foram fornecidos pelo Ministério da Saúde a pedido do GSW Brasil.
As cinco nacionalidades com mais registros são Venezuela, Haiti, Paraguai, Argentina e Cuba. O acesso ao sistema independe de nacionalidade ou situação migratória regular. Isso porque a Lei 8.080/1990 garante atendimento integral sem distinção entre residentes e não residentes.
A Lei de Migração, de 2017, estende essa garantia a qualquer pessoa em território nacional, documentada ou não. Desde 2024, o Ministério da Saúde tem nota técnica orientando unidades de saúde sobre acolhimento de migrantes, refugiados e apátridas, incluindo cadastro sem documentação completa.
Esse é um desenho raro mesmo entre países com saúde pública consolidada. O NHS britânico, citado por décadas como inspiração para o SUS, cobra por atendimento hospitalar de quem não é residente ordinário no Reino Unido, com isenção só para emergência. Quem não tem direito a atendimento gratuito paga 150% do custo do tratamento pelo NHS. O modelo que ajudou a inspirar o SUS hoje pratica o oposto da universalidade sem fronteira que o Brasil mantém.
O que as redes mostram
Turistas, expatriados e criadores de conteúdo de países ricos têm relatado nas redes o atendimento gratuito que receberam no SUS.
A alemã Lea Maria Jahn, com 1,6 milhão de seguidores, contou em vídeo que sempre foi atendida de graça no país. Segundo ela, na Alemanha há idosos que juntam dinheiro para cobrir o tratamento de problemas de saúde porque, mesmo pagando plano a vida inteira, sempre existem custos extras e altos. "O Brasil pode ter vários problemas, mas tem o maior sistema público de saúde do mundo", disse.
A cantora escocesa Georgia Santana, radicada no Brasil, engravidou cinco meses depois de chegar ao país, ainda como turista, e relatou ter feito todo o pré-natal e o parto pelo SUS sem custo algum. De acordo com Georgia, ela teve "sorte" de engravidar no país e ter facilidade para fazer todo o acompanhamento no sistema público.
O influenciador britânico Nick Whincup gravou um vídeo em Botafogo, no Rio de Janeiro, dizendo estar "chocado" com a qualidade do atendimento. "Na Inglaterra temos saúde gratuita, e é muito boa, mas nunca experimentei essa qualidade de cuidado e serviço no Reino Unido em toda a minha vida", afirmou. Whincup descreveu o atendimento como rápido, o ambiente como organizado e limpo, e os funcionários como extremamente gentis e educados.
O jornalista Terrence McCoy, chefe da sucursal do Washington Post no Rio, sofreu um acidente em Paraty e foi atendido pelo SUS gratuitamente. Ele realizou exames de tomografia e raio-X, além de sutura. McCoy relatou que ninguém pediu seu seguro de saúde. O caso teve forte repercussão nas redes sociais.
Sistema que opera no limite
A universalidade do SUS convive com uma estrutura que encolhe. Entre 2010 e 2023, o Brasil perdeu 25 mil leitos de internação, uma redução de 8% no total, segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina baseado no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde. Somados apenas os leitos pediátricos, psiquiátricos e obstétricos, a perda chega a 44 mil, queda de 33% em 13 anos.
Em terapia intensiva, o SUS opera com 24,87 leitos de UTI por 100 mil habitantes, menos de um terço da proporção disponível na rede privada, de 69,28 por 100 mil beneficiários. O resultado são filas longas.
Um levantamento obtido pelo Jornal Nacional via Lei de Acesso à Informação mostrou que a espera por cirurgias eletivas no SUS cresceu 26% em 2024 em relação ao ano anterior. Mais de 1,3 milhão de brasileiros aguardavam por um procedimento – o equivalente à população de Porto Alegre –, com tempo médio de espera de dois anos e quatro meses. São Paulo e Minas Gerais concentram quase metade dos pacientes na fila, com mais de 600 mil pessoas à espera.
Em 2025, o governo informou recorde de cirurgias realizadas, mas não divulgou o tamanho atualizado da fila nacional.
Há também escassez de médicos, com distribuição desigual. O Brasil tem cerca de 2,8 médicos por mil habitantes, abaixo da média da OCDE de 3,5. Enquanto 94% dos municípios brasileiros, aqueles com até 100 mil habitantes, têm acesso a apenas 14% dos médicos do país, 48 cidades grandes - a maioria no Sudeste e no Sul - concentram 62% dos profissionais.
Por trás da pressão sobre a estrutura está o financiamento. Um estudo da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado Federal, publicado em julho de 2025, projeta que as despesas do SUS crescerão em média 3,9% ao ano nas próximas quatro décadas e meia, ritmo superior ao limite de 2,5% previsto no arcabouço fiscal.
Segundo o levantamento, não é possível atender plenamente as necessidades de saúde dentro das regras fiscais atuais sem realocar recursos. É essa mesma estrutura, com redução de leitos, filas crescentes e orçamento restrito, que continua atendendo brasileiros e estrangeiros sem cobrança.
O governo federal vem anunciando medidas para ampliar a capacidade do sistema. Nesta sexta-feira, 3, foram liberados R$ 464,8 milhões para novos hospitais, equipamentos, inovação e atendimento especializado.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.