Debate expõe distância entre polarização e eleitores indecisos

Principais pontos

  • Debate teve excesso de ataques e pouca discussão de propostas, frustrando eleitores indecisos.
  • Avaliações qualitativas apontam críticas aos dois candidatos, apesar de percepções mais favoráveis a Lula em grupos ligados ao PT.
  • Pesquisas divulgadas nesta segunda-feira mostram empate técnico com Flávio numericamente à frente, mas não captam o possível efeito do debate.
Lula e Flavio Bolsonaro participam de debate presidencial em São Paulo,  ( Foto de Marina Uezima / Brazil Photo Press via AFP)
Lula e Flavio Bolsonaro participam de debate presidencial em São Paulo, ( Foto de Marina Uezima / Brazil Photo Press via AFP)
Source: BRAZIL PHOTO PRESS

O primeiro debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado pela Band na noite de domingo, 18, terminou sem sinais claros de que um dos candidatos tenha conseguido conquistar os eleitores indecisos. 

As avaliações qualitativas apontaram insatisfação com o tom do confronto e críticas aos dois presidenciáveis, enquanto pesquisas divulgadas nesta segunda-feira, 19, mantêm a disputa apertada a seis dias da votação definitiva.

Em levantamento BTG/Nexus, Flávio registrou com 50,3% das intenções de votos válidos, ante 49,7% de Lula. A AtlasIntel/Bloomberg registrou 51,1% a 48,9% a favor do “Zero Um”, enquanto o PoderData mostrou um cenário de 52% a 48%. Vale lembrar que as entrevistas foram realizadas antes ou durante o debate e não permitem medir o efeito do confronto sobre as intenções de voto.

Indecisos mais distantes

Uma pesquisa qualitativa encomendada pelo jornal O Estado de S. Paulo ao instituto Travessia de pesquisas. Entre 12 eleitores que acompanharam o debate em São Paulo, divididos entre apoiadores de Lula, de Flávio e indecisos, houve críticas ao excesso de ataques e à falta de discussão sobre propostas.

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“O primeiro bloco, sobretudo, teve uma carga emocional muito pesada, o que prejudicou as avaliações ao longo do debate. O tom do confronto baixou as expectativas em relação aos candidatos e deixou os eleitores desanimados quanto às perspectivas para o futuro. Lula pareceu repetitivo e um tanto demagogo, enquanto Flávio soou vazio e agressivo demais”, comentou Renato Dorgan, presidente do instituto, em entrevista à emissora Times Brasil.

O resultado entre os indecisos foi limitado. Uma das quatro pessoas desse grupo passou a preferir o petista, citando a falta de propostas de seu oponente e dúvidas sobre sua capacidade de governar. As outras três continuaram considerando votar em branco ou anular o voto, embora duas tenham indicado que, se escolhessem um candidato, tenderiam a votar no representante do bolsonarismo.

A avaliação se aproxima da análise de Thomas Traumann, ministro-chefe da Secom (Secretaria de Comunicação) do governo Dilma Rousseff (PT), ao jornal O Globo, para quem o confronto representou uma “derrota para os eleitores indecisos”. Segundo Trumann, Flávio adotou uma estratégia de provocar o presidente sem se comprometer com respostas detalhadas para “irritar o adversário”.

Traumann também apontou falhas na atuação de Lula, que teria demonstrado mais nervosismo do que o adversário e deixado de explorar oportunidades para pressioná-lo. Na mesma linha, Creomar de Souza, CEO da consultoria Dharma Politics, avaliou que Flávio é um “candidato digital”, que foi bem preparado para “não responder nada e explorar o passivo da relação entre o PT e a corrupção”, enquanto incumbente “não conseguiu encontrar um espaço de pressão”.

Mauricio Moura, economista e fundador do Instituto Ideia, disse à TV Cultura que a troca de provocações sem discussão de propostas fez eleitores indecisos “se desconectarem” do debate. “Na minha experiência, essa postura desengaja. Se você imagina que, com esse tipo de atitude, fará quem não apareceu no primeiro turno decidir votar no segundo, é uma expectativa muito alta; pelo contrário, as pessoas ficam desmotivadas”, avaliou.

Uma segunda pesquisa qualitativa, encomendada pela campanha do PT e divulgada pelo Poder360, identificou uma avaliação mais favorável ao presidente em cinco grupos focais com eleitores que votaram nele em 2022, mas não o escolheram no primeiro turno de 2026. Flávio foi descrito por participantes como “despreparado”, “agressivo” e “infantil”, mas a maioria continuou em dúvida e manifestou desejo de mudança.

O levantamento também indicou que os participantes preferiram os momentos em que os candidatos discutiram temas concretos, como custo de vida, saúde, fim da escala 6x1 e privatizações. A predominância de ataques, por outro lado, dificultou a comparação entre as propostas. Como os grupos focais têm caráter qualitativo e não representam estatisticamente o eleitorado, os resultados identificam percepções, mas não permitem estimar quantos votos cada candidato ganhou ou perdeu.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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