Direitos e Empoderamento das Mulheres no Brasil
Uma comunidade para mulheres, mães e profissionais que acompanham as leis de igualdade, a transparência salarial e as histórias de empoderamento no Brasil — com conversas no WhatsApp.
Para chefe do YouTube na América Latina, liderar é também decidir onde investir o tempo

Mulheres na liderança: experiências e desafios no mundo do trabalho
O YouTube é uma das maiores empresas de mídia do mundo em receita e em audiência. No Brasil, a base de usuários chega a 144 milhões de pessoas. Um dos segmentos em que a plataforma mais cresce no país é o esportivo, com transmissões que estão fazendo história, como 100% dos jogos da Copa do Mundo, projeto em parceria com a Cazé TV. O setor é conhecido por ser liderado em sua imensa maioria por homens. Pelo lado do YouTube, quem dá as cartas, como diretora-geral da América Latina, é Patricia Muratori, profissional que saiu do mercado de agências de publicidade para entrar no Google há 13 anos.
Em seu papel de liderança, ela se dedica a promover a equidade de gênero nas tomadas de decisão e em posições de comando na companhia. E também oferece mentorias a profissionais que podem galgar posições na companhia.
O GSW Brasil inaugura com esta entrevista uma série de conversas com lideranças femininas de diferentes segmentos sobre experiências e desafios na sociedade contemporânea.
Há quanto tempo você desempenha cargos de liderança no YouTube? E antes do YouTube?
Tenho o privilégio de comandar a estratégia da plataforma na região como diretora-geral do YouTube para a América Latina, liderando times talentosos e multifuncionais espalhados por diversos países. Minha história no Google, onde inicialmente liderei as equipes de vendas nos segmentos de telecom e varejo, já soma 13 anos. Antes de ingressar na empresa, construí minha carreira no mercado publicitário. Minha última posição nessa área foi como diretora-geral de mídia na DM9DDB. Nessa trajetória, sempre estive à frente do lado estratégico e da construção de grandes marcas. Hoje, enxergo a liderança de uma maneira muito mais ampla. Vai além de gerenciar negócios ou chefiar equipes. Trata-se de ocupar uma posição de influência positiva e transformação, tanto internamente, no desenvolvimento das nossas pessoas, quanto externamente, no impacto que geramos no ecossistema digital.
Falando da perspectiva de uma mulher na liderança de uma empresa de tecnologia e também conectada ao audiovisual, que desafios encontrava ao desempenhar seu papel profissional e sua rotina pessoal? Entendemos que o Google é diferente das empresas mais tradicionais, mas mesmo assim pergunto. No seu entorno, percebia questões que mereciam mais atenção?
Mesmo em um ambiente inovador e culturalmente avançado como o do Google, os desafios de conciliar a liderança executiva com a rotina pessoal exigem muita inteligência emocional e, acima de tudo, um olhar muito consciente sobre nossas escolhas. Nós, mulheres, costumamos acumular múltiplas funções. Liderar, para mim, também significa decidir onde investir o nosso ativo mais valioso: o tempo. Entre minha família, a carreira, projetos voluntários, estudos contínuos e cadeiras em conselhos, o que existe é uma gestão mais cuidadosa de prioridades. Confesso que não acredito na ideia romântica de equilíbrio perfeito. O que funciona, na prática, é dedicar presença absoluta para cada “prato” que decido equilibrar, dependendo do momento. No âmbito corporativo, barreiras invisíveis e fenômenos como a Síndrome da Impostora são realidades complexas que muitas de nós enfrentamos ao longo da carreira. Tive o privilégio de contar com excelentes aliados, aliadas, referências e grandes mentores na minha jornada, mas, a falta de representatividade e de referências femininas no topo da pirâmide sempre foi uma questão que mereceu mais atenção. É justamente por entender essa lacuna que faço questão de dedicar parte do meu tempo à mentoria de lideranças femininas. E esse olhar para a diversidade vai além do gênero: tive a honra de liderar o comitê de pessoas com deficiência no YouTube globalmente. Para mim, o papel da liderança atual é ajudar a pavimentar o caminho e abrir portas para que todas as pluralidades possam, genuinamente, ocupar espaços de decisão.
E hoje? O YouTube lidera um movimento importante, de transformação do consumo de mídia e de expansão do audiovisual? Que ambiente encontra? Um dos segmentos em que o YouTube cresce é justamente no campo esportivo, sabidamente um setor dominado por homens – que o diga Leila Pereira (presidente do Palmeiras).
O ambiente atual no mercado é de transformação e consolidação. Estamos vivenciando um marco histórico no Brasil: a TV conectada superou o celular e tornou-se a principal tela de consumo do YouTube dentro das casas brasileiras, consolidando a plataforma como o serviço de streaming número um do país. Os criadores deixaram de ser apenas “canais" e se transformaram em verdadeiras startups de entretenimento que definem o horário nobre. Viver essa transformação como mulher traz uma camada profunda de responsabilidade. O audiovisual e a tecnologia — e, de forma ainda mais acentuada, o campo esportivo, que é um dos segmentos onde o YouTube mais cresce — são setores sabidamente dominados por homens, como bem pontua o exemplo da Leila Pereira. Estar na liderança desse movimento significa ter de provar nossa competência constantemente, mas também nos dá a oportunidade única de moldar como esses novos espaços são construídos. Como mulher, tenho o compromisso, pessoal e profissional, de garantir que essa transformação não seja apenas tecnológica, mas também inclusiva. Promover intencionalmente a equidade de gênero nas tomadas de decisão e em cargos de liderança na equipe e fomentar parcerias e ecossistemas plurais no nosso relacionamento externo são algumas das maneiras que tenho buscado na minha atuação profissional. Ocupar essa cadeira me permite abrir portas para que a nova era do entretenimento digital seja escrita por muitas outras vozes femininas.
Como as mulheres podem assumir posições de liderança nesses setores: tecnologia e audiovisual? O que tem ouvido das pessoas que estão nesses postos?
O caminho para que mais mulheres assumam posições de destaque nesses setores passa pela criação de redes de mentoria, engajamento em governança corporativa e o fortalecimento mútuo. Ouvindo outras executivas e lideranças, fica evidente que precisamos ir além do discurso e aplicar o conceito de capitalismo consciente na prática, gerando oportunidades reais de ascensão e, principalmente, puxar a próxima cadeira. Devemos investir ativamente no desenvolvimento da nova geração de talentos, quebrando ciclos históricos de exclusão. O topo só será verdadeiramente plural se pavimentarmos o acesso desde a base.
Por fim, uma pergunta sobre IA: afinal, ela tem ajudado com a rotina a ponto de permitir mais tempo para outras demandas, inclusive as pessoais? Muito se teme a IA como "eliminadora de empregos", mas ela pode ser uma facilitadora para que os profissionais, em especial as mulheres (que têm dupla jornada), tenham mais tempo para outras atividades?
Sem dúvidas. No YouTube, nós enxergamos a Inteligência Artificial não como uma substituta da capacidade humana, mas como a próxima grande alavanca para a criatividade. Ferramentas de IA generativa estão ajudando criadores e profissionais a superar barreiras, otimizando o tempo de produção de forma inovadora. Um exemplo prático e revolucionário que demonstramos recentemente é o recurso de dublagem automática por IA, que permite que um criador fale com mais pessoas mantendo sua própria voz em outros idiomas, expandindo audiências. Quando a tecnologia assume tarefas repetitivas e operacionais, ela atua diretamente como uma facilitadora de tempo. Para as mulheres, que frequentemente enfrentam os desafios da dupla jornada, a IA tem o potencial de ser uma aliada, devolvendo horas preciosas do dia para que possamos focar em decisões estratégicas, na nossa criatividade e, fundamentalmente, na nossa vida pessoal e bem-estar.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.