Os impactos econômicos do fim da escala 6x1
Principais pontos
- Análise da MB Associados aponta que o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais trarão impactos relevantes para pequenos negócios.
- Setores mais afetados serão comércio, agropecuária, transporte e empresas de pequeno porte.
- Período de transição ideal para novo modelo seria de quatro a seis anos.

A proposta que põe fim à escala 6x1 traz consigo a velha confusão entre o tamanho do choque e o estrago que, de fato, provoca à economia. As estimativas sobre o impacto econômico das propostas que reduzem a jornada de trabalho e colocam fim à escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho e um de descanso) vão de efeitos contidos a cenários catastróficos. Mas essa dispersão de análises em circulação tem mais relação com o método de cada análise do que sobre a economia, avalia o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.
Segundo ele, o choque é relevante, da ordem de um ano de crescimento abaixo da média, porém distribuído ao longo da transição e fortemente heterogêneo, afetando o comércio, a agropecuária, o transporte e as empresas de pequeno porte.
Na avaliação do economista, não é a redução de jornada em si que destrói emprego e produto, e sim o descompasso entre a elevação do custo da hora e o ganho de produtividade. Quando os dois movimentos andam juntos, o efeito se anula.
A análise de Vale tomou como base os microdados da PNAD Contínua do primeiro trimestre de 2026 e a propagação do efeito da medida sobre os setores da economia usando a Matriz Insumo-Produto, da Nereus/USP.
Dos 39,2 milhões de celetistas com carteira de trabalho no país, 21,6 milhões (55,2% do total) cumprem jornada habitual superior a 40 horas semanais e seriam diretamente alcançados pela proposta. Apenas 36,3% dos celetistas trabalham exatamente 40 horas.
Agropecuária
Na avaliação por setores, o levantamento da MB Associados aponta a incidência das mudanças na agropecuária, uma vez que 71,4% de empregados em regime CLT trabalham acima de 40 horas. Na sequência está o comércio, com 69,1%, e o transporte, com 64,2%.
Os pequenos negócios concentram exposição relativa bem maior. Entre empresas de até quatro vínculos, 87,7% dos trabalhadores estão acima de 40 horas. Vale destacar que esse dado evidencia a necessidade de tratamento de transição diferenciado para esse grupo da economia. O estudo também construiu quatro cenários que avaliam a magnitude efetiva dos impactos econômicos com o novo regime pela capacidade do empresariado de se adaptar às mudanças.
Quanto à magnitude do choque, o efeito varia de acordo com setor econômico. Os mais afetados tendem a repassar sua elevação de custos de modo que o efeito se propaga ao longo da cadeia produtiva, o que pode vir a pressionar a inflação. O economista destaca que os efeitos negativos podem ser amenizados com um regime de transição mais distribuído entre quatro e seis anos.
Tempo de transição
A atenção se volta, então, ao calendário. Pelo texto da PEC aprovada pela Câmara dos Deputados, do relator Leo Prates (Republicanos-BA), o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana estão previstas para acontecer em até 14 meses. Vale diz que a transição é curta. O cenário ideal seria de quatro a seis anos de período de transição, destaca o levantamento da MB Associados.
Na América Latina, Chile e Colômbia adotaram reduções de jornada de trabalho. Em 2023, o Chile adotou uma redução de 45 para 40 horas com implementação gradual até 2029.
O sistema adotado pelo país é considerado uma referência. A Colômbia reduziu de 48 horas para 42 horas, com implementação gradual de três anos. Na Europa, a jornada de 40 horas ou menos já é predominante. A França adota 35 horas semanais desde os anos 2000. A Alemanha e a Holanda já têm médias de horas semanais inferiores a 40 horas.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.