ONU alerta: cortes de recursos ameaçam assistência a 8,3 milhões de refugiados e deslocados
Principais pontos
- Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados recebeu até julho apenas 32% dos US$ 8,5 bilhões necessários para suas operações em 2026.
- Falta de dinheiro já ameaça serviços de registro, proteção de crianças e mulheres, abrigos e programas de geração de renda em diferentes países.
- Chade, Etiópia, Sudão, Síria, Afeganistão e Iraque estão entre os países onde programas de assistência são afetados ou correm risco de redução.

Quase 8,3 milhões de refugiados, deslocados à força e apátridas correm o risco de perder o acesso a serviços essenciais diante da forte redução dos recursos destinados à assistência humanitária. O alerta foi feito nesta terça-feira, 29, pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), agência da ONU responsável pela proteção e assistência a refugiados e outras populações deslocadas à força.
O número aparece no relatório “Proteção em erosão: o custo humano do subfinanciamento”, divulgado pela agência. O documento mostra que a crise de financiamento já obriga o Acnur a reduzir programas considerados essenciais em algumas das principais regiões de deslocamento forçado do mundo.
Os recursos disponíveis para a agência caíram de US$ 5,2 bilhões em 2024 para US$ 3,9 bilhões em 2025. A situação se agravou neste ano: até o fim de julho, apenas 32% dos US$ 8,5 bilhões necessários para 2026 tinham sido recebidos.
A redução ocorre em um momento em que o número de pessoas sob o mandato de proteção do Acnur permanece em níveis historicamente elevados.
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“Quando o registro é interrompido, abrigos seguros fecham ou serviços de proteção infantil desaparecem, os mesmos riscos dos quais as pessoas fugiram — violência, exploração e abuso — reaparecem durante o deslocamento”, afirmou Dominique Hyde, diretora de relações externas do Acnur.
De acordo com ela, há um limite para a redução desses serviços. “Abaixo de determinado nível, os serviços não apenas passam a atender menos pessoas; eles podem deixar de funcionar completamente.”
Crianças e mulheres entre os mais afetados
Os efeitos dos cortes variam de acordo com cada país. No Chade, 319 mil refugiados enfrentam atrasos no registro. Sem a documentação, eles podem ficar sem acesso a serviços e mais expostos ao risco de detenção.
No mesmo país, até 200 mil mulheres e meninas podem perder o acesso a espaços seguros e programas de prevenção, enquanto cerca de 233 mil crianças correm o risco de ficar sem serviços de proteção infantil.
Na Etiópia, a capacidade dos abrigos destinados a sobreviventes de violência de gênero caiu para menos da metade em apenas um ano. Em algumas regiões, a cobertura dos serviços de proteção infantil recuou até 85%.
No Sudão, dezenas de milhares de sobreviventes de violência sexual e crianças em situação de grave risco também podem perder serviços essenciais de proteção.
Cortes dificultam reconstrução da vida
A falta de recursos não afeta apenas a assistência emergencial. Programas destinados a ajudar refugiados e deslocados a conquistar renda própria e reduzir a dependência da ajuda humanitária também estão sendo atingidos.
No Chade, oportunidades de geração de renda, capacitação profissional e desenvolvimento de negócios estão ameaçadas para aproximadamente 395 mil refugiados e moradores das comunidades que os recebem. No Iraque, até 350 mil refugiados e solicitantes de asilo podem perder o acesso a oportunidades de inclusão econômica.
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O impacto também aparece quando essas pessoas tentam reconstruir a vida em seus países de origem. Na Síria, 162,5 mil deslocados internos vulneráveis e refugiados que retornaram ao país ficarão sem auxílio financeiro nas primeiras etapas do retorno caso novos recursos não sejam obtidos rapidamente.
No Afeganistão, a diferença é ainda mais evidente. Em 2024, 5,3 mil famílias receberam recursos destinados à reintegração. Em 2026, até agora, apenas 175 foram atendidas.
Menos recursos e menos liberdade para usá-los
Além da redução do financiamento, o Acnur enfrenta outro problema: uma parcela cada vez maior das doações chega com destino previamente determinado.
Em 2022, 19% do financiamento estava vinculado a atividades ou projetos específicos. Em 2026, essa proporção chegou a 51%. Isso reduz a possibilidade de transferir rapidamente recursos e equipes para os locais onde as necessidades são maiores.
“O financiamento flexível nos ajuda a direcionar os profissionais especializados e os recursos adequados para onde são mais necessários”, afirmou Hyde. Segundo ela, esse tipo de recurso permite agir rapidamente quando as necessidades mudam, preservar serviços essenciais e responder a novas emergências sem abandonar crises que deixaram de ocupar as manchetes.
O Acnur afirma ter adotado reformas e estabelecido prioridades para preservar suas operações mais críticas. Mas alerta que a duração e a dimensão do déficit de financiamento já começam a atingir até os programas considerados de maior prioridade.
A agência pede aos países doadores e parceiros apoio urgente e uma ampliação dos recursos que possam ser direcionados de acordo com as necessidades de cada emergência.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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