Nossa Senhora Aparecida ressurge na campanha às vésperas do 2º turno
Principais pontos
- Na disputa pelo voto católico a 13 dias do segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro participaram de missas em Brasília no Dia de Nossa Senhora Aparecida. O presidente criticou a intolerância religiosa, enquanto o senador reafirmou seu respeito à fé católica.
- Flávio anunciou que visitará o pai, Jair Bolsonaro, nesta terça-feira, 13, após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar a retomada das visitas regulares ao ex-presidente.
- Milhares de fiéis participaram das celebrações no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo. Entre os presentes estavam o vice-presidente Geraldo Alckmin, candidato à reeleição na chapa de Lula, e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Com bengalas, flores e lágrimas nos olhos, milhares de peregrinos veneraram, nesta segunda-feira, 12, Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, no Santuário Nacional, em Aparecida (11). Em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participaram de missas, com cenas distribuídas pelas redes sociais. A 13 dias da votação do segundo turno, os dois candidatos disputam o voto dos católicos.
A Virgem Negra tornou-se protagonista do primeiro turno das eleições presidenciais, quando o senador conservador teve de negar uma informação falsa que sugeria que ele pretendia retirar-lhe o título de padroeira caso se tornasse presidente.
Favorito no segundo turno de acordo com as rodadas mais recentes das pesquisas de intenção de voto, Flávio é evangélico e declarou, em agosto, que um de seus primeiros atos como presidente seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Mas apenas isso.
No entanto, houve um projeto de lei que tencionava restringir o título de Nossa Senhora aos católicos. Apresentada em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, a proposta foi arquivada. Galli foi assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro e declarou apoio à candidatura de Flávio neste ano.
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Em atos de campanha no primeiro turno, Lula tratou de dizer que, enquanto for presidente, Nossa Senhora Aparecida continuará a ser padroeira do Brasil.
Nesta segunda-feira, no feriado nacional de Nossa Senhora Aparecida, Lula assistiu à missa na capela da residência oficial. Flávio esteve na catedral de Brasília.

Após a missa, o presidente lamentou que a virgem seja "ofendida" por "alguns religiosos que não querem respeitar a religião dos outros". Ele salientou que a fé deve aproximar as pessoas, e não servir de motivo para intolerância. “Cada um segue a religião que quiser e todos temos de respeitar. Ninguém é obrigado a ser da mesma religião”.
Visita a Jair Bolsonaro
Por sua vez, o senador quis deixar claro ao sair da missa seu "respeito à fé de milhões de brasileiros". Ele aproveitou o momento para falar sobre a visita que fará ao pai na manhã desta terça-feira, 13. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a retomada das visitas regulares ao ex-presidente. “Fiquei muito feliz que bem no dia de Nossa Senhora Aparecida é bem o dia em que estou autorizado a voltar a visitar o meu pai”, comentou.

Na missa solene no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, um dos presentes foi o candidato a vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin (PSB). Ele estava na primeira fila de uma missa onde milhares de pessoas cantaram emocionadas, agitando os tradicionais lenços azuis. Alckmin é do Vale do Paraíba, onde fica a cidade de Aparecida. Também esteve presente Alexandre Padilha, ministro da Saúde.
Os católicos são maioria no Brasil (quase 57%), mas seu número está em declínio diante do forte avanço dos evangélicos (27%), segundo os dados oficiais mais recentes, de 2022.
"Pura jogada política"
Apoiada na bengala que a guiou durante sete dias e 240 km de caminhada de sua cidade Valinhos, Maria Vanda Lopes se preparava, do lado de fora do templo, para entrar e ver a Virgem — uma pequena estátua de terracota encontrada por três pescadores em 1717 que encheu suas redes de peixes.
"A controvérsia é um absurdo. Pura jogada política, ninguém vai tirar o título de padroeira", disse à AFP a mulher de 54 anos, que estuda pedagogia.
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Ela tem seu voto definido: "Sou feminina, não feminista. Eu sou tradicional, eu sou de direita. Vou com Bolsonaro", acrescentou, em uma esplanada guardada por estátuas de apóstolos e santos.
As pesquisas indicam que a maioria dos católicos vota em Lula, enquanto os evangélicos preferem Flávio Bolsonaro, assim como preferiam seu pai.
O Brasil é um "Estado laico", mas com Flávio "a gente não vive isso. A gente está vivendo um momento de insegurança em relação à fé católica (...), com medo", disse Amanda Rosa Alves, estudante de 29 anos, eleitora de Lula, que chegou a Aparecida vinda de Viçosa (MG).
A Igreja aplaca os temores sobre o título da padroeira, outorgado pelo papa em 1930.
"Claro que existem vários questionamentos daquilo que poderá acontecer no próximo ano dependendo das eleições no segundo turno, mas no momento não cabe a nós fazer cenários que nos assustem", disse o arcebispo de Aparecida, dom Mário Antonio da Silva.
Convivência "super normal"
"Seria importante não misturar política com religião", afirmou David de Santos, com chapéu de caubói, após percorrer 50 km debaixo de chuva para chegar ao santuário, que autodenomina como o maior templo mariano do mundo.
Sem querer revelar seu voto, este operador de motosserra, de 47 anos, exaltou a convivência entre católicos e evangélicos.
Ele conta que, em seu trajeto, encontrou evangélicos oferecendo apoio aos peregrinos. "Distribuíam água, fruta, remédio", contou.
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"Um bom exemplo dessa convivência super normal está no núcleo familiar da família Bolsonaro", disse à AFP o pastor Gustavo Knauer, lembrando que, ao contrário de Flávio, Jair é católico.
Knauer, especialista em ciências políticas, defende o maior peso eleitoral de seu grupo.
"Hoje nós decidimos quem é o presidente do Brasil, porque o evangélico tem um fenômeno que é o voto em bloco, tem um sentimento de pertencimento no grupo maior que o católico", afirmou.
Para Rodrigo Nunes, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o discurso conservador dos evangélicos tem funcionado como "um polo magnético no debate público".
Questões morais, como as de gênero, ganharam força inclusive entre os católicos, e isso faz com que, nestas eleições, ocorra uma "migração" de votos católicos para a direita, explicou à AFP.
As pesquisas preveem uma vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula no segundo turno, depois de o senador ter superado o presidente por 2,22 milhões de votos no primeiro turno.
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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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