Corrida pelo hexa atrai torcedores mundo afora
Principais pontos
- Em Lyari, bairro de Karachi conhecido como "Mini Brazil", moradores financiam telões e param a rotina para ver o time verde-e-amarelo a cada Copa
- Um cartaz de 122 metros com jogadores como Neymar e Vinicius Jr. simboliza a rivalidade entre torcedores de Brasil e Argentina em Munda, cidade no sul da Índia
- Port Vila, capital de Vanuatu, vive a "Brazil Fever", que leva multidões às ruas em desfiles e esgota bandeiras da seleção no comércio local

Corriam 21 minutos do primeiro tempo quando o meia Ismael Saibari, da seleção de Marrocos, aproveitou uma brecha na defesa e encobriu o goleiro Alisson no MetLife Stadium, em Nova Jersey (EUA), na estreia do Brasil na Copa do Mundo, no sábado, 13. O baque que atingiu os torcedores brasileiros foi sentido em diferentes fusos horários.
Em Lyari, no Paquistão, já passava de uma da manhã, mas centenas de pessoas estavam espremidas diante de um telão na rua, conforme vídeos que circulam nas redes sociais. Os amantes do futebol brasileiro levaram as mãos à cabeça, repetindo o mesmo gesto de desolação visto em bares do Rio de Janeiro, de Salvador ou de São Paulo.
À mesma hora, em Kerala, no sudoeste da Índia, imagens monumentais de Neymar erguidas pela própria comunidade emolduravam a multidão. O estado se divide entre torcedores de Brasil e Argentina com uma seriedade que, em 2022, produziu brigas entre torcedores nas ruas de Kollam.
A Índia nunca disputou uma Copa do Mundo, nem por isso deixa de acompanhar o principal torneio de futebol do planeta. Em 1950, chegou a se classificar, mas desistiu da competição – não pela lenda do impedimento de “jogar descalço”, que virou folclore, mas por desorganização da federação local e falta de interesse na época.
A ansiedade também chegou às vilas de Vanuatu, um arquipélago remoto de 83 ilhas vulcânicas no Pacífico Sul. Até o gol de empate de Vinicius Júnior, aos 32 minutos do primeiro tempo, o futebol operou um pequeno milagre geopolítico: fez três cantos distantes do planeta prenderem a respiração no mesmo fuso horário de sofrimento brasileiro. Todos conectados na busca pelo hexacampeonato na Copa do Mundo.
O que essas três torcidas improváveis têm em comum? Para entender como essa paixão se consolidou em lugares tão remotos, é preciso olhar de perto para a realidade de cada uma delas.
O mini-Brasil no Paquistão
Situado a 12,8 mil quilômetros de Brasília, o epicentro do fenômeno fica em Lyari, um dos bairros mais antigos e pobres de Karachi. A cada Copa do Mundo, o bairro ganha o apelido de “Mini Brazil”.
Enquanto o resto do Paquistão tem no críquete a sua quase exclusiva paixão esportiva, os jovens de Lyari crescem chutando bola nos becos estreitos.
A obsessão começou nas transmissões via satélite dos anos 1970 e 1980, com Pelé e Zico. Para os sheedis, descendentes de africanos levados ao subcontinente como escravos entre os séculos 12 e 19, a identificação foi imediata.
A cada Copa, Lyari para. Lojas fecham mais cedo, casamentos são reagendados e mutirões pintam fachadas de verde e amarelo. Os telões nas ruas são financiados pelos próprios moradores, de porta em porta.
A guerra das imagens em Kerala
No sudoeste da Índia, a paixão pelo futebol se mede em altura de cartazes. Especialmente em Malappuram, a rivalidade Brasil x Argentina (e Portugal) virou uma verdadeira “guerra dos outdoors”.
No dia da estreia do Brasil na Copa de 2026, torcedores da cidade de Munda ergueram uma imagem de quase 122 metros de comprimento com imagens de Neymar, Vinicius Júnior e todo o elenco. Os argentinos responderam com estruturas ainda maiores. Teve tréplica e os brasileiros saíram vencedores. E foi só a primeira rodada da fase de grupos do torneio.
Essa mobilização não é novidade. Dias antes dos jogos, comunidades inteiras se organizam para montar as estruturas, muitas vezes financiadas coletivamente. O comércio para, riquixás – os tradicionais táxis de três rodas da Índia – circulam pintados de verde e amarelo, e vilarejos inteiros se transformam em um mar de bandeiras e cores.
A rivalidade já chegou a extrapolar o clima de festa. Em novembro de 2022, às vésperas da Copa do Catar, o vilarejo litorâneo de Sakthikulangara virou palco de um confronto físico entre dezenas de torcedores de Brasil e Argentina.
A confusão começou durante uma caminhada das torcidas, quando uma provocação sobre os outdoors escalou para uma briga generalizada com o uso de paus e canos de ferro. O vídeo das agressões viralizou pelo mundo, exigindo a intervenção da polícia local para dispersar o tumulto.
A conexão do Pacífico em Vanuatu
Mais longe ainda, em Vanuatu, o futebol consegue romper o isolamento de um arquipélago espalhado pelo Pacífico Sul.
Neste mês de junho, o país vive o chamado “Brazil fever”. Dias antes da estreia da seleção verde-e-amarela, milhares de vanuatuenses participaram da tradicional World Cup Parade, um desfile de rua organizado pela VBTC, a emissora nacional de televisão do país.
Vestidos com camisas amarelas, carregando bandeiras grandes e tocando música, os torcedores tomaram as ruas de Port Vila. As poucas lojas que vendem bandeiras esgotaram o estoque do Brasil em poucas horas.
Ali, a paixão pelo futebol canarinho se fortaleceu na década de 1990, com a chegada das primeiras antenas parabólicas comunitárias. Nos dias de jogos, as vilas que têm gerador viram ponto de encontro e comunidades inteiras se reúnem em torno de telões improvisados, bebendo kava, a bebida cerimonial feita da raiz de uma planta local, de efeito relaxante, que estrutura a vida social do arquipélago há séculos.
Nesta sexta-feira, 19, quando o Brasil enfrentar o Haiti, a cena deve se repetir nos três cantos do mundo. Curiosamente, o adversário também carrega uma torcida histórica pela seleção brasileira.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.