O futuro da educação no Brasil
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Meninas permanecem mais tempo na escola em busca de um futuro melhor
Principais pontos
- Meninas já são maioria no Ensino Médio em várias regiões brasileiras, impulsionadas pelo papel emancipador da escola e por programas de permanência
- Dados da Unesco e do Banco Mundial mostram que 133 milhões de meninas estão fora da escola no mundo; nos países de baixa renda, a pobreza extrema, o trabalho precoce e a gravidez impedem a conclusão dos estudos.
- A evasão escolar custa US$ 10 trilhões anuais à economia global, enquanto o Brasil tenta combater o problema e o "efeito tesoura" com iniciativas de incentivo à liderança feminina, à leitura e à inclusão de mulheres na ciência.

Gisele Melo trabalha há 13 anos como especialista da educação básica na Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Betim, Minas Gerais. Ao longo desse tempo, viu uma reviravolta silenciosa nas matrículas da escola: meninas que antes não chegavam até o fim do Ensino Médio hoje são maioria entre os alunos.
Hoje, segundo a educadora, esse padrão local de evasão mudou de perfil, e o ganho de permanência feminina é parte do que ela chama de papel emancipador da escola.
"Quero ressaltar o papel que a educação tem para as mulheres. Ele é fundamental para a emancipação feminina, para a igualdade de oportunidades e também para a igualdade no trabalho. Por isso, nós incentivamos todos os alunos, mas de forma ainda mais positiva para essas meninas que, muitas vezes, não tinham tantas oportunidades nem tanta longevidade escolar."
Sofia Lessa Medeiros, de 14 anos, está no 9º ano do Colégio Tiradentes de Betim. Ela já formula, na própria trajetória, o raciocínio que orienta políticas públicas de permanência escolar no mundo todo: educação como condição de futuro.
"Vejo a escola com grande importância porque a gente precisa estar sempre estudando, sempre aprendendo. Estudando, o futuro de todo mundo será melhor", diz.
Sofia também menciona um hábito que a literatura educacional associa a um melhor desempenho escolar, que é a leitura por prazer fora do currículo obrigatório. "Gosto muito de ler, tanto livros normais quanto da escola, porque eu acho que consigo fixar melhor quando estou lendo. É bem legal, você adiciona mais palavras no seu vocabulário."
Padrão a ser superado
O que Betim mostra em escala municipal reflete um problema que o mundo ainda não resolveu. Segundo o Relatório de Monitoramento Global da Educação da Unesco, 133 milhões de meninas estavam fora da escola em 2024, parte de um contingente global de 273 milhões de crianças e jovens sem acesso à educação.
A desigualdade de gênero na conclusão escolar varia conforme a renda do país. Em nações de baixa renda, apenas 79 mulheres jovens completam o Ensino Médio para cada 100 homens na mesma faixa etária. Em países de alta renda, essa proporção se inverte: 106 mulheres concluem a etapa para cada 100 homens.
O recorte por escolaridade básica confirma o padrão. Em países de baixa renda, apenas 38% das meninas completam o ensino fundamental II (lower secondary), contra 43% dos meninos. O Banco Mundial atribui essa diferença, sobretudo, à pobreza: meninas que enfrentam desvantagens superpostas, como baixa renda familiar, residência em comunidades remotas ou pertencimento a minorias étnicas, ficam mais distantes do acesso e da conclusão escolar. Em 20 países com dados disponíveis, menos de 1% das jovens rurais entre os 20% mais pobres concluem o Ensino Médio.
No Brasil, a Pnad Contínua Educação do IBGE mostrou que, entre as mulheres de 14 a 29 anos que abandonaram a escola ou nunca a frequentaram em 2024, a necessidade de trabalhar foi o motivo mais citado (25,1%), seguida pela gravidez (23,4%) e pela falta de interesse (22,5%). Entre os homens na mesma faixa etária, a necessidade de trabalhar concentrou 53,6% das respostas.
Aumento de renda
A relação entre escolaridade feminina e desenvolvimento econômico é um dos achados mais consistentes da pesquisa educacional recente. Um estudo de 2024 citado pela Parceria Global pela Educação estima que a educação responde por 50% do crescimento econômico global, por 70% dos ganhos de renda entre a parcela mais pobre da população mundial e por 40% da redução da pobreza extrema desde 1980. Cada ano adicional de escolaridade concluído por uma pessoa gera, em média, 10% de aumento de renda, retorno superior à média histórica do mercado de ações americano.
A Unesco também quantificou o custo da omissão: a evasão escolar e as lacunas educacionais custam US$ 10 trilhões por ano à economia global até 2030. Em sentido inverso, reduzir em 10% a proporção de jovens que abandonam a escola sem habilidades básicas poderia elevar o PIB mundial em mais de US$ 6,5 trilhões ao ano.
O Relatório de Monitoramento Global da Educação de 2025 da Unesco, dedicado à liderança feminina na aprendizagem, identificou ainda uma defasagem de 20 pontos percentuais na presença de mulheres em cargos de liderança escolar, mesmo em sistemas educacionais onde elas já são maioria entre professoras e estudantes.
O que o Brasil faz a respeito
A virada que Gisele descreve em Betim tem paralelo em iniciativas espalhadas pelo país, a maioria delas nascidas dentro da própria rede pública. Desde 2013, o projeto de extensão Meninas na Ciência, do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), leva oficinas de robótica, astronomia e física a escolas públicas de Porto Alegre e da região metropolitana, priorizando unidades em situação de vulnerabilidade social.
A iniciativa já levou mais de 500 meninas para conhecer laboratórios da universidade e formou cerca de 50 estudantes de graduação como instrutores, numa tentativa direta de enfrentar o que pesquisadoras da área chamam de "efeito tesoura": a saída progressiva de mulheres das carreiras de ciência e tecnologia conforme a trajetória acadêmica avança.
Em Brasília, o projeto Mulheres Inspiradoras seguiu caminho parecido a partir da sala de aula de língua portuguesa. Criado em 2014 por uma professora da rede pública de Ceilândia, no Distrito Federal, o projeto leva estudantes a ler obras de autoras como Carolina Maria de Jesus e Malala Yousafzai e, depois, escrever a história de mulheres de suas próprias famílias e comunidades. A iniciativa foi premiada pela Organização de Estados Ibero-Americanos e pelo Ministério da Educação, e se tornou política pública da Secretaria de Educação do Distrito Federal, hoje presente em dezenas de escolas.
Na educação profissional, o Mulheres Mil, programa do Ministério da Educação em parceria com institutos federais, oferece qualificação técnica a mulheres em situação de vulnerabilidade social, incluindo moradoras de comunidades tradicionais e sobreviventes de violência doméstica. Entre 2023 e 2025, o programa recebeu R$ 216,1 milhões em investimentos, abriu 127,1 mil vagas e chegou a mais de 520 municípios.
Em março deste ano, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação lançou a Política de Empoderamento de Meninas e Mulheres na Ciência, Tecnologia e Inovação, construída ao longo de três anos de diálogo com a sociedade civil. A política prevê editais, bolsas e ações afirmativas para ampliar a presença feminina em carreiras científicas, além da criação de um comitê permanente dentro do ministério para acompanhar a equidade de gênero nas políticas públicas de ciência e tecnologia.
No Brasil, dados do MEC mostram que a virada observada por Gisele em Betim é também nacional: a matrícula de meninas no Ensino Médio público cresceu nos últimos anos, acompanhando o avanço de programas de permanência como o Pé-de-Meia e o Bolsa Família, cujas condicionalidades de frequência escolar miram dois dos principais motivos de evasão feminina identificados pelo IBGE: trabalho precoce e gravidez na adolescência.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.