Marçal reproduz cartilha de candidatos inelegíveis que terminaram fora das urnas
Principais pontos
- Marçal registra candidatura, mas sua presença nas urnas ainda depende de decisões da Justiça Eleitoral.
- Inelegível até 2032, ele enfrenta condenações relacionadas à campanha de 2024 e ao uso irregular de redes sociais.
- A estratégia é conhecida: manter a candidatura e a exposição política enquanto tenta reverter os impedimentos judiciais.

O pedido de registro da candidatura de Pablo Marçal (PRTB) à Presidência da República no limite do prazo estabelecido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não elimina as dúvidas sobre a presença ou ausência do ex-coach nas urnas em 4 de outubro, data do primeiro turno da eleição.
Barulho alto
Marçal nunca escondeu o desejo de ocupar o Palácio do Planalto. Em 2022, com 10 milhões de seguidores a menos do que atualmente, filiou-se ao Pros -- partido nanico que viria a ser absorvido pelo Solidariedade -- para arriscar-se numa disputa já polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
No fim das contas, a legenda coligou-se ao petista e retirou a candidatura de Marçal após uma ruidosa troca de comando. Fora do páreo, o empresário que à época já declarava um patrimônio de R$ 169 milhões ao TSE apostou em impulsionar sua atuação como influenciador, utilizando o alcance em plataformas digitais para comercializar cursos e palestras e investindo na construção de um discurso político conservador.
Com a atuação, preparou terreno para filiar-se ao PRTB -- novamente uma legenda nanica -- e disputar a prefeitura de São Paulo. Contra os candidatos de Bolsonaro e Lula -- o prefeito Ricardo Nunes (MDB), reeleito na ocasião, e o ministro Guilherme Boulos (PSOL) --, multiplicou o alcance de suas redes sociais, apostou em uma plataforma agressiva de acusação dos oponentes e recebeu 1,7 milhão de votos no primeiro turno, 56.880 a menos do que o candidato do PSOL, derrotado no segundo.
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Fora do páreo
Apesar da boa performance eleitoral, a campanha fez o ex-coach perder seus direitos políticos. Em razão da publicação de um laudo médico falso nas redes sociais em que acusava Boulos de ter sido internado pelo consumo de cocaína, Marçal foi declarado inelegível até 2032 pelo TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral).
A inelegibilidade pelo caso foi revertida por meio de um acordo firmado com o MPE (Ministério Público Eleitoral), mas Marçal foi condenado também pelo chamado "campeonato de cortes", estratégia adotada também no pleito de 2024 em que colaboradores produziam e disseminavam trechos de suas declarações e entrevistas nas redes sociais e eram remunerados por isso sem constarem nos gastos da campanha, o que permite remuneração com patrimônio próprio -- prática vedada pela Justiça Eleitoral
Mesmo sem direitos políticos, Marçal manteve o capital eleitoral do desempenho-fenômeno na eleição municipal e assegurou a entrada no União Brasil -- este um partido grande -- anunciada em março de 2026. No evento de filiação, o ex-coach pediu desculpa a desafetos antigos, ensaiou um discurso "pacificador" à direita e comprometeu-se a apoiar Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
Embora tenha entrado em rota de colisão com a família Bolsonaro em 2024 -- o próprio ex-presidente foi a público dizer que não apoiava o ex-coach na eleição paulistana --, Marçal era interpretado por lideranças do grupo majoritário da direita como um ativo com potencial demais para ser afastado, ao contrário de desafetos anteriores -- como Alexandre Frota e Joice Hasselmann.
No cálculo partidário, caso revertesse a situação judicial, o empresário teria grande potencial para ser um dos candidatos mais votados à Câmara dos Deputados pelo União Brasil, sigla do "centrão" que confia na formação de grandes bancadas para multiplicar os recursos do fundo eleitoral a que tem acesso.
Na teoria, a conta dependia de uma reversão da situação no TSE, última instância da Justiça Eleitoral. Na prática, Marçal abriu mão do cálculo anterior, retomou o antigo sonho e, sem espaço para a empreitada em uma legenda de maior expressão, retornou ao PRTB para se candidatar ao Planalto.
Estratégia conhecida
A estratégia não é nova no meio político. Em 2018, o próprio presidente Lula registrou o nome para disputar o cargo quando, condenado na Operação Lava Jato, estava preso na superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.
O entendimento do Judiciário foi de que o petista estava enquadrado na Lei da Ficha Limpa e, portanto, não poderia concorrer. A insistência, no entanto, permitiu ao PT manter Lula nos materiais de campanha e na propaganda eleitoral até a substituição por Fernando Haddad, registrado como vice.
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Em outras eleições, candidatos chegaram a estar disponíveis nas urnas para votação e receberam votos em meio ao imbróglio jurídico sobre suas candidaturas, mas o desempenho terminou anulado pela Justiça Eleitoral.
Um dos casos mais emblemáticos se deu em 2022, quando Valmir de Francisquinho (PL) foi o candidato mais votado para o governo do Sergipe, mas uma decisão da Justiça Eleitoral indeferiu a candidatura e fez com que a disputa tivesse a maior proporção de votos nulos do país: 39,78%.
Francisquinho estava inelegível por decisão do TRE-SE, mas a decisão foi referendada pelo TSE apenas na semana do primeiro turno, quando não havia mais tempo para retirar a opção das urnas.
Neste ano, concorrentes a governos estaduais como José Roberto Arruda (PSD-DF) e Anthony Garotinho (Republicanos-RJ) apostam na mesma estratégia e registraram suas candidaturas mesmo enfrentando entraves na Justiça Eleitoral.
O advogado Arthur Rollo, especialista em direito eleitoral, afirmou ao Global South World Brasil que "não há viabilidade jurídica na candidatura" de Marçal. "Ou ele obtém efeito suspensivo nos processos, o que dificilmente ocorrerá, ou essa é uma empreitada fadada ao insucesso", acrescentou.
Para o advogado, a tendência é que o desfecho seja similar ao que ocorreu com Lula em 2018. "O registro da candidatura deve ser rapidamente julgado e a maior probabilidade é que seja indeferido, o que fará seu nome não constar nas urnas. Mas até lá Marçal poderá participar de atos de campanha. Essa é a aposta dele", disse Rollo.
Procurada, a assessoria de imprensa de Marçal não respondeu ao contato.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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