Longe do STF, Joaquim Barbosa agora almeja o Palacio do Planalto
Principais pontos
- Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do julgamento do Mensalão, Joaquim Barbosa é lançado como pré-candidato à Presidência da República pelo Democracia Cristã.
- A aposta é reavivar a imagem do ex-ministro como símbolo do combate à corrupção, na expectativa de impulsionar o desempenho eleitoral da legenda e ampliar sua representação no Congresso.
- Polarização entre Lula (PT), que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) reduz o espaço para uma terceira via, dificultando a captação de recursos e o crescimento de candidaturas fora dos dois principais polos.

Ministro do Supremo Tribunal Federal entre 2003 e 2014, Joaquim Barbosa é, aos 71 anos, pré-candidato à Presidência da República nas eleições de outubro. Ao menos, é o que garante o Democracia Cristã, partido nanico que abriu portas ao magistrado aposentado sem grande alarde e lançou a pré-candidatura em meados de maio, rifando o nome — antes posto e autodeclarado — do ex-ministro Aldo Rebelo.
Já listado e pontuando em pesquisas de intenção de voto para o Palácio do Planalto, Barbosa não falou publicamente sobre a pretensão.
Entre integrantes de outras pré-campanhas e analistas, há desconfiança. A menos de quatro meses do pleito (o primeiro turno será em 4 de outubro), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), outra vez candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) têm ampla vantagem sobre os demais postulantes nas pesquisas e dão pouca margem para crença em uma “terceira via”. Os dois atraem mais de 40% do eleitorado, segundo a maior parte dos institutos, com certo favoritismo para o incumbente, enquanto os nomes de Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) não chegam aos dois dígitos.
Em tempos mais práticos do que programáticos, o baixo teto de potencial para crescer se traduz em cautela dos partidos e pouca disposição a investir recursos na candidatura. Dependentes dos R$ 4,9 bilhões do fundo eleitoral para custear as campanhas e preocupados com as bancadas de deputados federais — cujo tamanho dita a distribuição deste mesmo montante —, as siglas estão cada vez menos propensas a investir em disputas onde há menor chance de vitória, realidade que afetará qualquer candidatura distanciada de lulismo e bolsonarismo na campanha atual.
Neste cenário, cabe ao presidenciável ter capacidade de atrair investidores, recursos para financiar a própria campanha — como fez o ex-ministro Henrique Meirelles em 2018, pelo MDB, quando amargou a sétima posição na eleição presidencial — ou apostar na mobilização de uma militância altamente engajada para fazer frente a orçamentos mais robustos — como parece ser a aposta de Renan Santos.
Barbosa não faz gestos em nenhuma dessas direções. Sem se posicionar publicamente como presidenciável, também perde oportunidades e convites para eventos em que políticos nesta condição se apresentam, defendem suas ideias e ganham adesão — ou antipatia — de empresários interessados em participar da definição dos rumos do país.
Ao mesmo tempo, tem presença quase nula no ambiente digital. No X, única rede social que utiliza publicamente, são pouco mais de 500 mil seguidores e apenas uma publicação em 2026 até um incógnito anúncio de retorno, publicado na terça-feira 16.
Nacionalmente conhecido pela atuação na punição de um esquema de corrupção, tem persona distante de um espírito do tempo que tem Lula, outrora condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, e Flávio, intimamente relacionado às encrencas do Banco Master de Daniel Vorcaro, como principais catalisadores do eleitorado.
Relator do Mensalão
Nem sempre foi assim. Quando anunciou que deixaria o STF, em maio de 2014, Barbosa tinha 59 anos e poderia ocupar a cadeira por outros 16. Então presidente da corte, tornara-se nacionalmente conhecido como relator da Ação Penal 470, o processo do Mensalão, que levou à prisão políticos como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o ex-ministro petista José Dirceu.
A implacável atuação na relatoria transformou o magistrado em símbolo do enfrentamento à corrupção, alçada por imprensa e sociedade à condição de agenda prioritária do país. Ao se aposentar, Barbosa declarou que a política não lhe era de “grande interesse” para negar as especulações de que ingressaria na vida partidária assim que fechasse a porta do tribunal.
Mas o sentimento floresceu. Ao longo dos anos seguintes, mais políticos de relevo foram colocados atrás das grades pelos desdobramentos da Operação Lava Jato, força-tarefa do Ministério Público cujas decisões eram sistematicamente referendadas pelo Supremo. Brasileiros avolumaram-se nas ruas em manifestações populares que, embora fossem endereçadas à classe política de maneira geral, foram decisivas para o impeachment da petista Dilma Rousseff, sucessora de Lula no Planalto, em 2016.
Com o sentimento antissistema turbinado e Lula inelegível, os personagens mais instados a concorrer à Presidência no pleito de 2018 eram Barbosa e Sergio Moro, na época juiz da Lava Jato. O ministro aposentado ingressou no PSB, flertou com a candidatura e, em meados de abril daquele ano, chegou a aparecer em segundo nas pesquisas de intenção de voto. A promessa nunca se concretizou e, da negação à política, elegeu-se Jair Bolsonaro, deputado com mais de 20 anos de Câmara, e dono de um voraz discurso antipetista.
Duas eleições mais tarde, bolsonarismo e lulismo se sucederam no governo federal e consolidaram o que pesquisadores chamam de polarização calcificada — em resumo, o espaço para alternativas é cada vez mais restrito. Mesmo entre os analistas e marqueteiros políticos que apostam contra Lula e Flávio nas urnas, não há dúvida de que, em tempos de impopularidade do STF, um ministro aposentado da corte não é o perfil mais buscado pelo eleitorado.
Ao mesmo tempo, a conjuntura política mudou radicalmente. Sem financiamento empresarial e com a cláusula de desempenho ameaçando fechar a torneira da verba pública para partidos nanicos, o Democracia Cristã — que não tem representação no Congresso Nacional — confia que, ao evocar Barbosa em tempos de Master e Vorcaro, poderá reavivar um sentimento insuficiente para eleger um presidente, mas quem sabe capaz de fazer alguns deputados por associação. Resta saber se o magistrado aceitará o acordo.
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