Indianos viram ‘treinadores de robôs’ para tarefas domésticas
Principais pontos
- Empresas estão pagando indianos para gravar tarefas domésticas e atividades em fábricas, criando bancos de dados que ensinam robôs humanoides a executar trabalhos manuais.
- Especialistas afirmam que a gravação de sequências de ações humanas deve acelerar o desenvolvimento de robôs capazes de realizar trabalhos manuais.
- A renda extra gerada hoje por esse mercado pode dar lugar à substituição de milhões de trabalhadores nas próximas décadas, alerta uma think-tank.

Em 2025, vídeos de cidadãos brasileiros escaneando suas íris em troca de dinheiro viralizaram nas redes sociais. Na época, o World ID, projeto de Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou que o objetivo era criar uma rede de identificação global para diferenciar humanos de robôs e inteligências artificiais (IAs).
Se antes vendiam a ideia de um “certificado de humanidade”, companhias de tecnologia agora investem pesado para tornar robôs e IAs cada vez mais parecidos com os humanos.
Na Índia, trabalhadores de fábricas estão iniciando seus expedientes com uma nova ferramenta: um celular amarrado à testa que registra todas as suas atividades.
Com sensores avançados de movimento, a câmera captura a etiquetagem, prensa e a embalagem de roupas, material bruto extremamente valioso para empresas como a Objectways, que repassa essas gravações para pelo menos dez empresas de dados.
“Vai ser uma nova tendência no mundo todo. Gravar essas sequências de ações é uma maneira muito eficiente para treinar modelos robóticos. Isso vai gerar uma aceleração muito grande no desenvolvimento de humanoides capazes de fazer trabalhos manuais”, explica Joel Ramos, criador do primeiro robô humanoide do Brasil, ao GSW Brasil.
E o chão de fábrica não foi o único alvo: donas de casa estão recebendo até 250 rupias indianas por hora (aproximadamente R$ 13,42) para gravar tarefas do cotidiano, como lavar a louça, arrumar a cama e descascar legumes.
“Quem mais vai te pagar por hora apenas para realizar serviços domésticos? Posso até ter um robô desses no futuro”, disse a dona de casa Nagireddy Sriramyachandra, em entrevista à agência de notícias AFP.
As gravações são exigentes em termos de posicionamento da câmera e captura de movimentos, e podem ser feitas na própria casa do contratado, ou em um estúdio montado pela própria empresa.
O aumento de ofertas é movimento de um mercado que se prepara um futuro que não surpreende. O banco de investimentos norte-americano Morgan Stanley prevê que quase um bilhão de robôs humanoides podem estar em uso para propósitos comerciais e industriais até 2050.
Dados da consultoria norte-americana ABI Research, relatados em julho do ano passado, apontam que, embora hoje a adoção desses robôs ainda seja muito limitada, o mercado pode chegar a cerca de US$ 6,5 bilhões no mundo até o fim da década
Um futuro de novas facilidades que gera renda temporária, mas que pode custar milhões de empregos nas próximas décadas, especialmente na Índia, que conta com quase 490 milhões de trabalhadores informais, segundo dados da think-tank NITI Aayog.
“Essas pessoas serão violentamente substituídas e isso será problemático. Esse tipo de evolução gera uma onda de desemprego, criando uma catástrofe que acaba desacelerando esse mesmo avanço tecnológico para que ele aconteça em sincronia com a transformação social”, detalha Ramos.
Questionado sobre o assunto, Ravi Shankar, fundador da Objectways, afirmou em entrevista à AFP que “alguns trabalhos foram feitos para serem substituídos”. E completou: “Dessa forma, os humanos podem realizar coisas melhores”.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.