Projeto de ícone da maratona no Brasil prepara jovens corredores para o alto rendimento
Principais pontos
- Único brasileiro a conquistar uma medalha olímpica nos 42km, Vanderlei Cordeiro de Lima lança iniciativa que reúne dez jovens atletas de diferentes regiões do país em preparação de longo prazo.
- Concentrados em Campinas (SP), os corredores recebem treinamento especial, bolsa, alojamento e acompanhamento médico, psicológico e nutricional.
- O projeto, cocriado com a Olympikus, busca reduzir a distância entre o crescimento da corrida de rua no Brasil e a formação de atletas capazes de competir em alto nível no cenário internacional.

Único maratonista brasileiro a conquistar uma medalha olímpica, Vanderlei Cordeiro de Lima lançou um projeto de longo prazo que visa preparar jovens corredores para o alto rendimento. Foram selecionados dez talentos, com idades entre 17 e 23 anos, de diferentes partes do país. A expectativa é vê-los atingir índices que os façam brilhar em grandes competições internacionais no futuro.
Batizada de Corre do Amanhã, a iniciativa une os esforços do Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima (IVCL) e da Olympikus, idealizadores do projeto, que dá largada neste mês de agosto.
Os dez integrantes da equipe (quatro mulheres e seis homens) começam a preparação no Centro Esportivo de Alto Rendimento (Cear), em Campinas (SP), sob orientação de Ricardo D'Angelo, técnico responsável pelo time e gestor do IVCL.
Além do trabalho esportivo, os jovens corredores terão acesso a acompanhamento médico, psicológico, nutricional e social, bolsa de estudos, alojamento, e acesso à infraestrutura do Cear, com quem o IVCL tem parceria. Outro benefício é a oferta de um programa de medicina desenvolvido com outro apoiador, a Unimed Campinas.
Entre setembro e dezembro de 2025, formou-se uma primeira turma com quatro competidores, que despontavam como promessas na corrida de fundo. No primeiro semestre, os responsáveis pelo projeto percorreram as cinco regiões do Brasil em busca de mais atletas.
Na segunda etapa do processo seletivo, que envolveu 370 inscrições, foram preenchidas seis vagas, anunciadas no fim de julho. As seletivas foram realizadas em Porto Alegre (RS), Campinas, Manaus (AM), Recife (PE) e Cuiabá (MT).
Os dez atletas do Corre do Amanhã
Os candidatos foram avaliados com base em critérios como ranking nacional, marcas pessoais, histórico esportivo e desempenho técnico. Os selecionados são:
- Ana Laura Domingues Trevisan — 17 anos, de Tatuí (SP).
- Cael do Nascimento Lima Pinto — 19 anos, de Capivari (SP).
- Emanuel Rodrigues Garcia — 17 anos, de Anápolis (GO).
- Emille Laize Pereira Santos — 23 anos, de Cachoeira (BA).
- Gustavo dos Santos Silva — 20 anos, de Monte Santo de Minas (MG).
- Kauã Mendes Fermino — 22 anos, de Cocal do Sul (SC).
- Mateus Rodrigues dos Santos — 17 anos, de Campinas (SP).
- Thaylane da Silva Mota — 17 anos, de Coroatá (MA).
- Vitor Apolinario Benício — 19 anos, de Patos (PB).
- Yasmin Nogueira Ferreira — 18 anos, de Santa Cruz do Sul (RS).
"O Brasil sempre revelou grandes corredores, mas muitos talentos acabaram ficando pelo caminho por falta de oportunidade e estrutura. O Corre do Amanhã nasceu para mudar essa realidade, oferecendo condições para que esses jovens possam desenvolver todo o seu potencial com planejamento, acompanhamento e visão de longo prazo", afirma Ricardo D'Angelo, treinador de Vanderlei por muito tempo e que esteve com ele nos preparativos para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, quando o brasileiro conquistou a medalha de Bronze na maratona (42,195 km).
Para Vanderlei, o projeto representa a continuidade de uma trajetória construída dentro das pistas e das ruas. Ele comentou os trabalhos com a primeira turma (formada por Cael, Ana Laura, Gustavo e Mateus).
“É bonito ver como cada um deles carrega a mistura de disciplina e vontade de crescer. Poder trocar experiência com eles, contar um pouco do que vivi e ver esse aprendizado se transformando em resultado no dia a dia é algo que me realiza muito”, contou.
Ícone no universo da corrida e do atletismo, Vanderlei festeja a formação da equipe. “Com a chegada dos seis novos integrantes, estamos completando um ciclo importante; um grupo maior, mais forte, pronto para escrever suas próprias histórias dentro do atletismo brasileiro", declarou.
Quantos são os corredores no país?
O Brasil vive um boom de corridas de rua. Um estudo encomendado pela Olympikus mostrou que houve um aumento de dois milhões de corredores no ano passado, fazendo com que esse público atinja 15 milhões de pessoas que correm ao menos uma vez por semana.
De acordo com essa pesquisa, a atividade física é a quarta mais praticada no país, atrás de caminhada (39% das respostas), musculação (25%) e futebol (16%). A corrida ficou com 14%.
Com tamanho contingente e popularidade, seria de se esperar que despontassem talentos para as modalidades de alto rendimento. Mas os resultados não estão atingindo os níveis dos grandes corredores no mundo.
“A atual geração tem muito mais acesso para fazer esporte, principalmente na corrida. Tem potencial. Mas o mundo virtual tira um pouco do foco. É preciso buscar as ferramentas certas para que eles tenham mais determinação e comprometimento”, diz Vanderlei.
Ricardo reforça o valor de treinamento seguindo uma metodologia própria para o alto rendimento. E ressalta que paciência também é necessária, o que o medalhista corrobora. “Essa é uma geração que quer resultados, mas não querem processos. Resultados expressivos vêm depois de sete anos”, emendou.
Por isso, o projeto se volta ao longo prazo. Ricardo explica que, no curto prazo, bons resultados nas provas nacionais devem vir entre dois e três anos. De quatro a cinco anos, a expectativa é ver a equipe alcançar boas marcas nas provas sul-americanas. E, entre sete e oito anos, os atletas do Corre do Amanhã podem obter índices competitivos no calendário global.
Se os atletas que já iniciaram essa jornada se prepararem bem e os cálculos se cumprirem, eles podem almejar presença nos Jogos Olímpicos de Brisbane, em 2032.
Como o Brasil perdeu espaço no cenário internacional

“Em termos de massificação da corrida, o Brasil é um dos países do topo. Mas quando você olha para o alto rendimento, já estivemos nesse lugar. Hoje não produzimos o que tínhamos. Na América do Sul, colombianos, uruguaios, argentinos, chilenos, peruanos e equatorianos estão na nossa frente”, avalia Ricardo.
Um dos principais fatores para isso é a falta de oportunidade para os talentos que surgem. Segundo ele, para a grande maioria não há estruturas que os preparem para o alto rendimento. Há provas, por exemplo, em que as distâncias não são exatas, o que não permite medir o nível técnico. Mesmo sistemas de cronometragem apresentam erros e falhas.
“O atleta que não conta com estrutura para se preparar acaba correndo no final de semana para ganhar dinheiro. E, se correr muitas dessas provas, não há probabilidade de sustentar o alto rendimento. O Vanderlei corria apenas duas maratonas por ano”, conta o técnico.
Oportunidade é uma palavra importante, nesse sentido. Um dos atletas do projeto era carregador de feira. Seu talento foi descoberto e agora é hora de preparar seu futuro.
No mesmo dia em que os novos integrantes da equipe foram anunciados, foi lançado um documentário, produzido pela Olympikus, que revisita um dos momentos mais marcantes da carreira de Vanderlei: a maratona nos Jogos de Atenas, na qual teve a liderança prejudicada ao ser atacado por um irlandês, que invadiu o percurso em um momento transmitido ao vivo para o mundo.
Quase duas décadas depois, ele retornou à capital grega para correr mais uma vez os 42 km. O documentário mostra sua participação na Maratona de Atenas dezenove anos depois do bronze olímpico. Aos 54 anos, Vanderlei completou o percurso em 2h54min29s.
O legado de Vanderlei Cordeiro de Lima
Nascido em Cruzeiro do Oeste (PR), Vanderlei começou a correr ainda criança. Ele ajudava os pais nas lavouras de café e cana-de-açúcar e, aos 11 anos, ganhou seu primeiro par de tênis, começando a participar de competições na escola. Incentivado por um professor de educação física, ele passou a se dedicar ao atletismo aos 14 anos. Disputou sua primeira corrida oficial em 1985, antes de iniciar a carreira profissional em São Paulo, em 1988.
Em 1998, Vanderlei terminou a Maratona de Tóquio em segundo lugar com a marca de 2h08min31s, seu recorde pessoal. É o quarto melhor tempo dentre os atletas brasileiros.
Para os Jogos de Atenas, Vanderlei chegou com boas expectativas, já que tinha vencido a Maratona de Hamburgo e tinha feito uma preparação específica para o percurso olímpico. A estratégia combinada com Ricardo D’Angelo era acelerar em momentos determinados da prova.
Durante o percurso, ele percebeu que os favoritos estavam se marcando e decidiu atacar antes do planejado. Por volta do quilômetro 20, Vanderlei assumiu a liderança. Aos poucos, foi abrindo vantagem sobre o pelotão perseguidor e chegou a ter cerca de 50 segundos de vantagem.
Com pouco mais de 6 km para o fim, seguia para uma conquista inédita: seria o primeiro brasileiro campeão olímpico da maratona. Foi então que o ex-padre irlandês Cornelius (Neil) Horan invadiu o percurso e agarrou Vanderlei, empurrando-o para fora da pista.
O brasileiro ficou preso por alguns segundos até ser ajudado por um espectador, que afastou o invasor. Mais do que o tempo perdido, Vanderlei teve o ritmo e a concentração quebrados em uma etapa decisiva da prova.
Pouco depois, o italiano Stefano Baldini assumiu a liderança. Em seguida, o norte-americano Meb Keflezighi também ultrapassou o brasileiro. Vanderlei resistiu até o fim e cruzou a linha de chegada em terceiro lugar, com o tempo de 2h12min11s. Baldini conquistou o Ouro em 2h10min55s, e Keflezighi ficou com a Prata em 2h11min29s.
Ao entrar no estádio Panatenaico, Vanderlei comemorou o resultado com os braços abertos, em celebração, o que emocionou o público. Meses depois, o Comitê Olímpico Internacional lhe concedeu a Medalha Pierre de Coubertin, uma das mais altas honrarias do movimento olímpico, em reconhecimento ao espírito esportivo demonstrado diante da adversidade.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.