Pandemias artificiais: IA já consegue projetar vírus inexistentes na natureza. Entenda como e por quê

Principais pontos

  • Pesquisadores estão usando modelos de inteligência artificial para sintetizar vírus artificiais inéditos, em laboratório, capazes de combater bactérias-alvo.
  • A IA atua como um acelerador e otimizador na análise de sequências genéticas complexas.
  • Como a legislação ainda não acompanha a rapidez dessas inovações, a prática acende um alerta para o risco de agentes mal-intencionados criarem patógenos perigosos. 
A IA já se demonstra capaz de projetar vírus funcionais voltados para o combate a bactérias.
A IA já se demonstra capaz de projetar vírus funcionais voltados para o combate a bactérias.
Source: Depositphotos

A inteligência artificial (IA) atingiu um novo patamar na biologia ao se demonstrar capaz de projetar vírus funcionais voltados para o combate a bactérias. A conquista, fruto de pesquisas lideradas pela Universidade de Stanford e pelo Arc Institute, resultou na criação de genomas virais inéditos, gerados por modelos computacionais. 

Após serem sintetizados em laboratório, esses vírus comprovaram sua eficácia ao eliminar bactérias-alvo em testes reais. O avanço abre portas promissoras para a medicina. Por outro lado, acende um alerta sobre os riscos do uso indevido dessas tecnologias na geração de patógenos perigosos.

Na verdade, a manipulação e a reconstituição de sequências de DNA não são conceitos novos. São praticadas desde os primórdios da biologia molecular e da engenharia genética, que fundamentam abordagens como a terapia gênica. 

O grande diferencial do atual experimento está no papel desempenhado pela inteligência artificial, como explica Laurent Foiry, doutor em genética molecular e biólogo. Ele é autor do livro “Les faux savants Plongée au cœur du complotisme scientifique” (“Cientistas falsos: uma análise profunda do coração das teorias da conspiração científica", em tradução livre).

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 Segundo Foiry, a IA altera o panorama científico em duas frentes centrais: 

  • No processamento de volumes massivos de dados, o que expande a escala dos trabalhos genéticos;
  • No aprimoramento da criação de organismos sintéticos. 

Como grande parte do DNA não é codificante – isto é, não produz proteínas diretamente –, a tecnologia otimiza a concepção dessas sequências complexas e simplifica drasticamente o processo de construção. Apesar do feito, Foiry destaca que a taxa de sucesso da pesquisa ainda é modesta, com 16 acertos em 285 tentativas.

Ele explica que vírus são estruturas inanimadas relativamente simples e com genomas curtos, o que torna sua modelagem menos complexa do que a de sistemas biológicos mais avançados. 

Para que o vírus funcione, é necessário reunir elementos de infecção, reprodução e proteção celular, etapa em que a IA atua como um potente otimizador e acelerador.

Os riscos e o enfraquecimento das barreiras de entrada

A possibilidade de surgirem vírus inéditos e até pandemias artificiais figuram no debate científico desde a consolidação da engenharia genética. Esse debate foi intensificado nos últimos anos com as discussões sobre a origem do vírus da Covid-19 e pesquisas de "ganho de função". 

No entanto, na era da IA, a evolução acelerada das ferramentas computacionais e biológicas reduziu significativamente as barreiras técnicas e financeiras de entrada.

Tecnologias de biologia molecular tornaram-se acessíveis e de baixo custo, com grande parte dos insumos e equipamentos disponíveis em catálogos comerciais. 

Esse cenário reduz a complexidade prática das manipulações biológicas, criando o risco real de que agentes mal-intencionados reúnam os meios necessários para desenvolver organismos nocivos.

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Nesse contexto, a IA pode abrir caminho para avanços extraordinários, como o direcionamento celular preciso, tratamentos customizados e até vacinas personalizadas. No entanto, Foiry alerta que a sua capacidade de iterar sucessivamente até atingir um resultado ideal também pode ser aplicada para conceber organismos capazes de burlar o sistema imunitário e os tratamentos existentes.

Ética, regulamentação e o papel da comunidade científica

Diante dessa dupla face da tecnologia, a busca por um equilíbrio entre os benefícios terapêuticos e o controle de riscos vai além do rigor científico, recaindo principalmente no campo da ética. Particularmente, na ética científica.

“Esse debate existe há muito tempo”, diz Foiry. “Quando eu ainda era estudante, a clonagem já gerava muita controvérsia. Após o nascimento da ovelha Dolly, houve uma corrida para clonar diferentes espécies. Mas nunca apresentaram evidências de que um ser humano havia sido clonado”.

Em termos de fiscalização, a regulamentação atual apresenta fortes lacunas e ainda muitas diferenças de acordo com cada país.

Foiry ressalta que, como costuma ocorrer com inovações muito aceleradas, as leis surgem com atraso e criam pontos cegos difíceis de verificar. 

Nesses cenários, a responsabilidade ética do próprio cientista torna-se a principal linha de defesa. Isso exige reflexão contínua sobre a legitimidade das pesquisas e a consulta a órgãos de tutela no setor público ou o cumprimento estrito do enquadramento jurídico no setor privado.

Ao mesmo tempo, o arcabouço legislativo precisa evoluir de forma equilibrada, para acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas sem inviabilizar o progresso. 

Para Foiry, o debate central antecede as leis, e deve ser profundamente ético. Segundo ele, a sociedade precisa definir até onde está disposta a ir em nome do avanço científico para fundamentar a futura regulamentação de uma realidade que já se faz presente.

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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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