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Estudo de dez anos mostra o peso da desigualdade social na prática de exercícios
Principais pontos
- Pesquisa acompanhou 978 moradores de São Paulo e identificou aumento da prática de atividade física na cidade, porém os grupos mais vulneráveis do ponto de vista social não registraram o mesmo avanço que os menos vulneráveis.
- A atividade física de lazer passou de 51% para 65% no grupo com melhores condições sociais e de 29% para 39% entre as pessoas com maior risco social.
- Mulheres de grupos raciais ou étnicos minoritários e com baixa escolaridade enfrentam mais barreiras para se exercitar no tempo livre.

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros, em parceria com cientistas de universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido, mostra que, na última década, embora tenha aumentado a parcela de moradores que praticam alguma atividade física, há uma importante desigualdade no acesso às atividades físicas durante o tempo livre, o que afeta, sobretudo, as pessoas em situação de maior vulnerabilidade social. Com foco em São Paulo, a pesquisa foi publicada no periódico científico International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.
Ao acompanhar 978 moradores da capital paulista por dez anos, entre 2014 e 2024, os pesquisadores identificaram que pessoas com maior vulnerabilidade social — mulheres, indivíduos pertencentes a grupos raciais ou étnicos minoritários e com baixa escolaridade — têm menor prevalência de atividade física de lazer do que homens brancos com ensino superior. E o mais preocupante: essa distância, que já era grande no início do estudo, ficou ainda maior com o passar dos anos.
Como o estudo foi feito
A pesquisa usou dados do ISA — Inquérito de Saúde de São Paulo: Atividade Física e Ambiente, um estudo de longo prazo que investiga como características do ambiente urbano influenciam comportamentos. As informações foram coletadas em três ondas: a primeira entre 2014 e 2015, com entrevistas presenciais; a segunda entre 2020 e 2021, feita por telefone devido à pandemia de covid-19; e a terceira entre 2023 e 2024, combinando entrevistas presenciais e por telefone. Eles informaram a frequência e a duração de atividades como esportes e exercícios, e a de deslocamentos a pé.
A atividade física foi medida por meio de um formulário chamado IPAQ (Questionário Internacional de Atividade Física). É um instrumento padronizado e validado para uso no Brasil, que investiga separadamente dois domínios: a atividade física de lazer (exercícios, esportes, caminhada por prazer) e a atividade física de deslocamento, nesse caso restrita à caminhada como forma de locomoção para o trabalho, a escola ou outros compromissos.
Para a análise principal, os pesquisadores consideraram como praticantes os participantes que relataram ao menos dez minutos semanais de atividade em cada domínio.
O diferencial metodológico do estudo está na forma como ele mediu a desigualdade social. Em vez de olhar separadamente para sexo, raça/cor ou escolaridade — como costuma ser feito na maioria das pesquisas —, os autores construíram um índice combinado, batizado de Índice de Vulnerabilidades Múltiplas. A lógica por trás do conceito é que essas características não atuam isoladamente: elas se sobrepõem e se multiplicam, criando níveis de vulnerabilidade que uma análise isolada de cada fator não conseguiria captar.
O índice atribuiu pontuações a cada participante: 0 para homens, 1 para mulheres; 0 para pessoas brancas, 1 para pessoas negras, pardas, indígenas, asiáticas ou que se identificaram com outras categorias raciais; e de 0 a 2 para escolaridade, do ensino superior completo até o ensino fundamental incompleto. A soma desses pontos gerou uma escala de 0 (menor vulnerabilidade: homem, branco, com curso superior) a 4 (maior vulnerabilidade: mulher, de grupo racial ou étnico minoritário, com baixa escolaridade).
Os cientistas, então, usaram modelos estatísticos multinível — que consideram a repetição das medidas ao longo do tempo, dentro de cada indivíduo, e a localização geográfica dos participantes — para testar a associação entre esse índice e a prática de atividade física nos dois domínios estudados.
O que os dados mostraram
Ao longo da década, a prática de atividade física de lazer cresceu de forma geral entre os paulistanos: de 38% dos participantes no início do estudo para 51,4% na última medição. A caminhada para transporte também aumentou, passando de 61,8% para 71,6%. À primeira vista, os números parecem positivos — e são. O problema é a distribuição desse ganho.
Quando os pesquisadores cruzaram esses números com o Índice de Vulnerabilidades, ficou claro que o crescimento não foi igual para todos. No início da pesquisa, a prática de atividade física de lazer era de 51% entre o grupo menos vulnerável e de apenas 29% entre o grupo mais vulnerável — uma diferença já expressiva. Dez anos depois, essa diferença se ampliou: 65% no grupo menos vulnerável contra 39% no mais vulnerável.
De acordo com o estudo, quanto maior o número de fatores de vulnerabilidade acumulados, menor a chance de praticar atividade física de lazer, numa gradação estatisticamente significativa.
Segundo os autores, a prática de exercícios não deve ser tratada exclusivamente como uma decisão individual. Afinal, o acesso ao lazer ativo é influenciado pela disponibilidade de tempo, pela renda, pelas condições de trabalho, pela divisão das tarefas domésticas e de cuidado, pela segurança e pela oferta de parques, praças e instalações esportivas. No caso de mulheres socialmente vulneráveis, elas podem enfrentar jornadas de trabalho extensas, empregos precários e maior responsabilidade pelo cuidado de crianças, idosos e pela manutenção da casa.
Já a atividade física de deslocamento (caminhar para ir a algum lugar) não apresentou essa mesma desigualdade. Isso não quer dizer que esse tipo de atividade seja mais "democrático", mas sim que ele muitas vezes não é uma escolha — é uma necessidade, ligada à falta de acesso a transporte motorizado ou a proximidade forçada entre moradia e destino, uma condição que atinge diferentes grupos sociais por razões distintas.
O que isso revela sobre o Brasil urbano
Os resultados confirmam, com evidência de dez anos de acompanhamento, algo que estudos transversais (feitos em um único momento) já vinham sugerindo: a atividade física de lazer no Brasil segue sendo, em grande medida, um privilégio de grupos socialmente favorecidos. O acesso a ambientes seguros, tempo livre, infraestrutura de lazer, flexibilidade no trabalho e redes de apoio social — fatores que facilitam a prática de exercícios — não está distribuído de forma equânime pela cidade.
A pesquisa situa São Paulo dentro de um panorama mais amplo do Sul Global. Os autores citam evidências semelhantes vindas da Colômbia, do México, da Índia, de países africanos e do Chile, reforçando que a combinação entre desigualdade estrutural, urbanização desigual e barreiras de gênero e raça é um padrão que se repete em diferentes contextos de países de renda baixa e média.
Caminhos possíveis a partir dos achados
O estudo também aponta direções para políticas públicas. Os autores defendem o que chamam de "universalismo proporcional": em vez de políticas genéricas de incentivo à atividade física, que tendem a beneficiar primeiro quem já tem mais acesso a recursos, as intervenções deveriam ser dimensionadas de acordo com o nível de vulnerabilidade social de cada grupo, priorizando investimento onde a barreira estrutural é maior.
Entre os caminhos estão investimentos em espaços públicos de lazer seguros, oportunidades acessíveis de atividade física e sistemas inclusivos de mobilidade, além de ações articuladas entre planejamento urbano, transporte, educação, segurança pública e proteção social. Os autores também recomendam que essas ações estejam alinhadas às metas de atividade física da Organização Mundial da Saúde (OMS) e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, como forma de dar sustentabilidade de longo prazo a esse tipo de política.
O trabalho foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e a pesquisadora principal recebeu ainda uma bolsa da Bridge Global Health Partnership, parceria entre as universidades de Birmingham e Illinois.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.