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Com viés antibolsonarista, documentário sobre CPI da Covid estreia nos cinemas
Principais pontos
- O documentário "Anatomia do Caos" destaca a CPI da Covid como peça-chave para acelerar vacinas e coibir a corrupção na área de saúde durante a crise sanitária
- Para a diretora Dandara Ferreira, a comissão evitou mais mortes no segundo país com maior número de vítimas fatais da pandemia.
- Apesar de focar na defesa da ciência e na preservação da memória, o filme oferece uma visão parcial da crise da Covid, sem ouvir membros do governo Bolsonaro ou aliados do ex-presidente

“Anatomia do Caos”, documentário que estreou na quinta-feira, 2, nos cinemas brasileiros, destaca o papel dos senadores responsáveis pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid-19 para que a pandemia não fizesse ainda mais vítimas no país.
O coronavírus matou cerca de 693 mil pessoas no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), que durou de 2019 a 2022. Ao Global South World Brasil, a diretora Dandara Ferreira atribuiu à investigação parlamentar responsabilidade parcial pelo fracasso na tentativa de reeleição do ex-presidente, ainda que não tenha gerado responsabilização judicial -- o relatório final pediu o indiciamento de 65 pessoas pela atuação na pandemia, mas as investigações foram arquivadas pela PGR (Procuradoria-Geral da República).
"Há um sentimento de injustiça, claro. Bolsonaro foi preso [por uma tentativa de golpe de Estado], mas não foi punido [pela pandemia]", disse Dandara. "Ao mesmo tempo, a CPI provocou a aceleração na compra de vacinas, paralisou um esquema de corrupção que estava em curso e foi muito responsável pelo resultado das eleições de 2022. Não 'terminou em pizza'", concluiu.
Vale lembrar que, na contramão de entidades científicas e da OMS (Organização Mundial da Saúde), o ex-presidente se opôs à vacinação, ao uso de máscaras e ao isolamento social. Durante seu governo, o Brasil -- sétima população do mundo -- tornou-se o segundo país com maior número de vítimas fatais da Covid-19.
Documentário tem abordagem unilateral
Ao longo de 85 minutos, a produção intercala registros das sessões em que integrantes do alto escalão do governo federal, médicos que defenderam o tratamento precoce contra o coronavírus e empresários aliados de Bolsonaro foram interrogados na CPI, declarações agressivas do então chefe do Executivo e entrevistas realizadas nos gabinetes do Senado, onde Omar Aziz (PSD-AM) e Randolfe Rodrigues (PT-AP) -- presidente e vice da CPI -- detalham os trabalhos em curso.
Dandara relatou à reportagem que o acesso aos políticos foi fruto de uma relação de confiança com os parlamentares, construída durante os mais de cinco meses de filmagens, e da percepção de que o trabalho da CPI precisava ser divulgado.
Ao mesmo tempo, atribuiu a uma decisão narrativa a escolha de não abrir o microfone a aliados de Bolsonaro. "Os apoiadores do governo optaram por obstruir [as investigações] e negar obviedades que estavam sendo denunciadas. Eu adoraria, inclusive, que eles tivessem levado a CPI a sério e explicassem o atraso para a compra de vacinas, a descrença na ciência, a falta de empatia com os mortos e suas famílias. Se isso tivesse acontecido, eu poderia ouvi-los. Mas todo filme tem um lado, ainda que pareça neutro. Eu não escondo o lado do meu filme, que é favorável à ciência", concluiu.
"Anatomia do Caos" engrossa uma lista que já conta com títulos como "Apocalipse nos Trópicos" (2025, disponível na Netflix), de Petra Costa, e "O Processo" (2018, também disponível na Netflix), de documentários que registram episódios recentes da política nacional. Ao Global South World Brasil, a diretora classificou o próprio filme como uma obra sobre a necessidade de preservação da memória.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.