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Dia dos Professores: satisfação com a carreira resiste à falta de valorização
Principais pontos
- Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que 87% dos professores brasileiros estão satisfeitos com o trabalho, índice estável desde 2013.
- Apenas 22% aprovam os salários e somente 14% consideram que a profissão é valorizada pela sociedade.
- Condições de emprego pioraram desde 2018, e 16% relatam impactos muito negativos do trabalho sobre a saúde mental.

O Dia dos Professores, nesta quinta-feira, 15, é uma data festejada pelo país. Nas escolas e nas redes sociais, todos celebram a dedicação dos mestres do ensino. A realidade do docente, porém, é menos reconhecida do que se imagina. É o que dizem os próprios professores. Embora no Brasil 87% dos docentes se digam satisfeitos com o trabalho que realizam, apenas 22% aprovam o salário que recebem e somente 14% acreditam que a profissão é valorizada pela sociedade. Os números mostram que a realização profissional convive com dificuldades persistentes de remuneração, reconhecimento e condições de trabalho.
Os dados fazem parte de duas publicações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne 38 países e faz estudos comparativos sobre educação, economia e políticas públicas. A mais recente, Education at a Glance 2026 (Panorama da Educação), divulgada no fim de setembro, apresenta indicadores sobre os sistemas educacionais e dedica atenção especial à carreira docente.
A outra é a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), realizada em 2024 e com resultados divulgados em 2025. Diferentemente do Panorama da Educação, que reúne estatísticas sobre financiamento, formação, organização escolar e professores, a Talis entrevista docentes e dirigentes de escolas para conhecer suas percepções sobre o ambiente de ensino e as condições de trabalho.
Parte dos resultados da Talis foi incorporada ao Panorama da Educação de 2026. No Brasil, a pesquisa é conduzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Os percentuais de satisfação apresentados nesta reportagem se referem aos professores dos anos finais do ensino fundamental, etapa que corresponde, no Brasil, do 6º ao 9º ano.
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A satisfação de ensinar resiste às dificuldades
O percentual de professores brasileiros satisfeitos com o trabalho chama atenção não apenas por sua dimensão, mas pela estabilidade ao longo do tempo. Em 2013, 2018 e 2024, aproximadamente 87% declararam satisfação com a profissão. O índice brasileiro, no entanto, está ligeiramente abaixo da média de 89% dos países da OCDE.
A permanência desse sentimento positivo ao longo de 11 anos não significa que as condições de trabalho tenham ficado estagnadas. Tampouco indica que os professores estejam satisfeitos com todos os aspectos da carreira. A pesquisa diferencia a satisfação geral com o trabalho da avaliação de questões específicas, como remuneração, estabilidade e reconhecimento.
A distância entre esses indicadores é expressiva. Enquanto quase nove em cada dez professores brasileiros declaram satisfação com o trabalho, pouco mais de dois em cada dez estão satisfeitos com os salários.
O contraste é importante porque impede uma interpretação simplificada da profissão: a satisfação em ensinar não elimina a necessidade de melhores condições para exercer a atividade.
Salários e condições de emprego preocupam
A insatisfação salarial é, de fato, um dos aspectos mais evidentes da pesquisa. No Brasil, 22% dos professores estão satisfeitos com sua remuneração, ante 39% na média dos países da OCDE.
Embora o percentual brasileiro tenha aumentado quatro pontos percentuais entre 2018 e 2024, a distância em relação à média internacional permanece elevada.
A avaliação das condições de emprego, sem considerar o salário, também é desfavorável. Apenas 44% dos professores brasileiros estão satisfeitos, contra 68% na média da OCDE. Nesse caso, houve piora: o índice caiu oito pontos percentuais desde 2018.
Outro problema é a estabilidade dos vínculos profissionais. No Brasil, 64% dos professores pesquisados têm contrato permanente, proporção inferior à média de 81% da OCDE. Entre 2018 e 2024, a participação dos contratos permanentes diminuiu 16 pontos percentuais no país.
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A insegurança contratual pode dificultar o planejamento da carreira e contribuir para a rotatividade dos profissionais, especialmente entre os mais jovens.
Reconhecimento social continua baixo
Apenas 14% dos professores brasileiros acreditam que sua profissão é valorizada pela sociedade. O percentual está abaixo da média de 22% dos países da OCDE.
O problema não é recente. Em 2013, a proporção brasileira era de aproximadamente 13%. Mais de uma década depois, a percepção de reconhecimento social continua restrita a uma pequena parcela dos profissionais.
Entre 2018 e 2024, houve uma melhora de três pontos percentuais nesse indicador, mas o avanço não foi suficiente para alterar significativamente o quadro.
A percepção de valorização é uma dimensão distinta da satisfação com o trabalho. Um professor pode sentir realização ao ensinar e, simultaneamente, considerar que a sociedade não reconhece a importância de sua atividade.
Esse descompasso ajuda a compreender por que o debate sobre valorização docente não pode ficar restrito aos salários. Ele envolve também as condições oferecidas pelas escolas, a autonomia profissional, as oportunidades de desenvolvimento e o reconhecimento público.
Pressões do trabalho afetam a saúde mental
A pesquisa também revela o peso das exigências cotidianas da profissão.
No Brasil, 21% dos professores relatam sentir muito estresse no trabalho, proporção próxima da média de 19% da OCDE. O percentual brasileiro aumentou sete pontos entre 2018 e 2024.
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Os efeitos sobre a saúde são ainda mais preocupantes. Entre os docentes brasileiros, 16% afirmam que o trabalho prejudica muito sua saúde mental, contra 10% na média internacional. Outros 12% relatam impactos muito negativos sobre a saúde física, ante 8% na OCDE.
Entre as fontes de pressão estão a responsabilidade pelos resultados dos estudantes, a manutenção da disciplina em sala de aula, a correção de avaliações e o volume de tarefas administrativas.
Esses indicadores demonstram que o ofício pode ser considerado gratificante e, ao mesmo tempo, impor exigências que afetam o bem-estar dos profissionais.
A profissão muda, e os professores também
Os dados mostram que os professores brasileiros estão incorporando novas ferramentas e práticas ao cotidiano escolar.
Segundo a Talis 2024, 56% dos docentes brasileiros afirmam utilizar inteligência artificial em suas atividades profissionais, proporção superior à média de 36% dos países da OCDE.
Outro resultado positivo diz respeito à percepção dos professores sobre sua capacidade de apoiar os estudantes. No Brasil, 92% afirmam conseguir contribuir para a aprendizagem social e emocional dos alunos, contra 73% na média internacional.
Os resultados mostram os docentes procuram responder às transformações da educação e às necessidades dos estudantes.
Um desafio para os próximos anos
O Panorama da Educação 2026 acrescenta outra dimensão ao debate: a capacidade dos sistemas educacionais de manter profissionais qualificados nas escolas.
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No Brasil, 10,3% dos professores plenamente qualificados do ensino fundamental e médio deixaram a profissão, por aposentadoria ou desligamento, no período de referência de 2022.
O relatório também aponta que 11,5% dos docentes brasileiros dos anos finais do ensino fundamental ingressaram na profissão depois de exercer outra atividade, percentual superior à média de 8,4% da OCDE.
Para os próximos anos, a organização projeta uma redução de 3% na população brasileira de 5 a 14 anos entre 2024 e 2033. Isso poderá alterar a demanda por professores, mas não elimina a necessidade de profissionais qualificados, já que as necessidades variam entre regiões, disciplinas e redes de ensino.
Os resultados podem ajudar a dimensionar um desafio que vai além de homenagear os professores: é preciso criar condições para que a satisfação com o ensino seja acompanhada de valorização, estabilidade e qualidade de vida.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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