Curta resgata história da ‘mãe do futebol feminino brasileiro’

Principais pontos

  • “A Casa de Dona Carlota” recupera a trajetória de Carlota Rezende, dirigente e treinadora de um time de mulheres no Rio de Janeiro dos anos 1940.
  • A produção terá sua primeira exibição no Festival do Rio, com sessões nos dias 7, 8 e 9 de outubro.
  • Escrito e dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, o curta tem Ingrid Trigueiro como protagonista.
Curta conta a história de Carlota Rezende, dirigente e treinadora do Primavera Atlético Clube, do Rio de Janeiro.
Curta conta a história de Carlota Rezende, dirigente e treinadora do Primavera Atlético Clube, do Rio de Janeiro.
Source: Divulgação

Nos anos 1940, quando jogar futebol era visto como incompatível com o papel reservado às mulheres, Carlota Rezende não apenas comandava um time feminino como planejava levá-lo para jogar no exterior. Dirigente e treinadora do Primavera Atlético Clube, ela transformou a própria casa, em Pilares, no subúrbio do Rio de Janeiro, em sede de uma equipe na qual mulheres treinavam, conviviam, festejavam e chegavam a ganhar dinheiro com o esporte.

A ousadia teve consequências. Em 1941, Carlota foi presa pela Delegacia de Costumes e a sede do Primavera foi fechada. Três meses depois, o governo Getúlio Vargas publicou o decreto-lei que proibiu às mulheres a prática de esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”.

O futebol feminino passaria décadas submetido a restrições e só seria regulamentado no país em 1982. Agora, o esporte atravessa outro momento no país, que receberá a Copa do Mundo em 2027.

Mais de oito décadas depois, a mulher chamada de “mãe do futebol feminino brasileiro” tem sua trajetória levada ao cinema. Carlota é a protagonista de “A Casa de Dona Carlota”, curta-metragem escrito e dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer que terá sua primeira exibição no Festival do Rio, que começou no dia 1º e vai até 11 de outubro.

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O filme será apresentado nesta terça-feira, 7, na Estação Gávea; na quarta-feira, 8, no Cine Odeon, em sessão seguida de debate; e na sexta-feira, 9, no Cinesystem Belas Artes Botafogo. A estreia no Festival do Rio dá início à trajetória do curta por festivais nacionais e internacionais. Segundo a produção, há perspectiva de distribuição em plataformas de streaming em 2027.

Uma casa onde mulheres podiam jogar

Baseado na pesquisa histórica de Aira Bonfim, o curta acompanha Carlota enquanto prepara o Primavera para uma excursão internacional no início da década de 1940. No centro da trama está a negociação da dirigente com o empresário argentino Afonso Doce para levar suas jogadoras ao exterior.

A história revela também o que existia no futebol feminino brasileiro antes da proibição. Nas décadas de 1930 e 1940, equipes de mulheres atraíam público e começavam a reivindicar a profissionalização, ao mesmo tempo que enfrentavam a pressão do Estado Novo e de setores da imprensa que condenavam a presença feminina nos campos.

O Primavera era parte desse movimento. Mais do que sede do clube, a casa de Carlota tornou-se um espaço de autonomia pouco comum para as mulheres daquele período.

No cinema, Carlota é interpretada pela atriz paraibana Ingrid Trigueiro, que tem mais de três décadas de carreira no teatro e no audiovisual. Ela esteve em filmes como “Bacurau”, “Manas”, “Rebento” e “Central do Brasil”.

O elenco reúne ainda Tay O’hana, Luisa Mangini, Diego Pallardo e Bruna Linzmeyer – que faz sua estreia como diretora e roteirista. A produção conta com participação especial de Sandra Sá.

Lili Fialho e Bruna Linzmeyer assinam a direção e o roteiro de "A Casa de Dona Carlota". Bruna também atua no filme.
Lili Fialho e Bruna Linzmeyer assinam a direção e o roteiro de "A Casa de Dona Carlota". Bruna também atua no filme.
Source: Divulgação

Memória do futebol feminino

Bruna Linzmeyer atua há quase dez anos em projetos ligados à cultura do futebol de mulheres e, ao longo desse período, aproximou-se de atletas, torcedoras, pesquisadoras e profissionais da modalidade.

Lili Fialho, que também assina o argumento do filme, já desenvolvia trabalhos dedicados à memória do futebol feminino. Entre eles estão “Absolutas”, série documental sobre a modalidade, e “Joias Brutas”, sobre jovens promessas do esporte. O curta nasceu de anos de pesquisa sobre as mulheres que participaram dessa história e acabaram apagadas de sua narrativa mais conhecida.

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“Mesmo durante a proibição, elas nunca pararam de jogar bola”, afirma Bruna, em comunicado. Segundo ela, recuperar o sucesso de Carlota e do Primavera é também uma maneira de desafiar a história oficial do futebol feminino e seguir os rastros deixados por essas mulheres.

Produzido por Mayra Faour Auad e Gabrielle Auad, “A Casa de Dona Carlota” é uma produção da MyMama Entertainment. A produtora completou 15 anos em 2026. Entre seus projetos recentes estão “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira; “Fogaréu”, de Flávia Neves; “Alice”, de Gabriel Novis; e a coprodução “Vitória”, dirigida por Andrucha Waddington e estrelada por Fernanda Montenegro.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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