Por que o Pix entrou na conta do tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil

Principais pontos

  • As tarifas adicionais de 25% impostas pelos Estados Unidos a parte dos produtos brasileiros entraram em vigor nesta quarta-feira, 22.
  • Entre os argumentos do governo Trump para o tarifaço está o Pix que, na visão de Washington, coloca empresas norte-americanas de pagamentos eletrônicos em desvantagem.
  • Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, avalia que a ofensiva procura punir o sucesso de uma plataforma pública de pagamentos mais eficiente e barata.


Celular mostra transferência via Pix.
O Pix entrou na mira do governo de Donald Trump.
Source: Agência Brasil/ Bruno Peres

As tarifas adicionais de 25% impostas pelos Estados Unidos a parte dos produtos brasileiros entraram em vigor nesta quarta-feira, 22. Entre as justificativas apresentadas pelo governo de Donald Trump para a medida está uma ferramenta presente no cotidiano de milhões de brasileiros: o Pix.

O sistema de pagamentos instantâneos foi incluído na investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O dispositivo permite ao governo norte-americano adotar medidas contra políticas estrangeiras que considere discriminatórias ou prejudiciais às empresas do país.

O Pix não é o único ponto da investigação. O governo Trump também questiona políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, às tarifas de importação, ao combate à corrupção, à proteção da propriedade intelectual, ao acesso do etanol americano ao mercado nacional e ao desmatamento ilegal.

No caso dos pagamentos eletrônicos, a acusação é direta. Segundo o USTR, o Brasil favorece o Pix e coloca empresas americanas concorrentes em desvantagem. A medida atinge principalmente companhias que operam no mercado de cartões e em outros serviços digitais de pagamento.

Criado pelo Banco Central e lançado em novembro de 2020, o Pix permite transferências e pagamentos em poucos segundos, a qualquer hora e em todos os dias da semana. O serviço é gratuito para pessoas físicas na maior parte das operações e tem custos relativamente baixos para empresas.

Concorrência ou vantagem indevida?

Para o governo norte-americano, a participação do Banco Central na criação e na administração da infraestrutura, somada à obrigação de determinadas instituições financeiras oferecerem o Pix, concede uma vantagem indevida ao sistema brasileiro.

Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2008, contesta esse raciocínio. Em texto publicado em seu perfil na plataforma Substack na segunda-feira, 20, o economista afirmou que o tarifaço procura punir o Brasil pelo sucesso de uma plataforma pública que oferece pagamentos mais rápidos e baratos.

“Por que seria desleal um país oferecer aos próprios cidadãos uma forma melhor de fazer compras e pagar contas?”, questionou.

Na avaliação de Krugman, a perda de participação de empresas norte-americanas não comprova a existência de uma prática comercial injusta. Representa o resultado da concorrência com uma tecnologia que conquistou os consumidores por sua eficiência e pelo baixo custo.

“Desde quando é uma prática comercial desleal que empresas percam mercado para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?”, escreveu.

O economista compara a situação à atuação do serviço postal dos Estados Unidos e de plataformas americanas como PayPal e Venmo. Para ele, não faria sentido impedir o funcionamento desses serviços apenas porque competem com outras empresas privadas.

Cartões perderam espaço, mas continuaram crescendo

O avanço do Pix alterou a distribuição do mercado brasileiro de pagamentos, até então dominado pelos cartões. No segundo semestre de 2025, o sistema respondeu por 54,7% das transações realizadas no país, enquanto cartões de crédito, débito e pré-pagos, somados, ficaram com 30,4%, segundo dados do Banco Central.

Isso não significa, porém, que o uso dos cartões tenha diminuído. No mesmo período, as operações com cartão de crédito cresceram 9,4% em relação ao ano anterior. Desde a criação do Pix, o número de cartões ativos também aumentou de 324 milhões, em 2020, para 477 milhões, no final de 2025.

Os cartões perderam participação relativa porque o Pix cresceu mais rapidamente, mas continuaram avançando em números absolutos. No segundo semestre de 2025, as três modalidades somaram 23,8 bilhões de transações.

Os dados relativizam a acusação de que o sistema brasileiro teria impedido o crescimento de empresas americanas. Visa e Mastercard estão entre as principais bandeiras que operam no Brasil, ao lado da brasileira Elo.

Resistência às inovações

Krugman considera que a reação ao Pix faz parte de uma postura mais ampla do governo Trump contra inovações digitais do sistema financeiro quando elas ameaçam os interesses de grupos privados.

Segundo ele, os Estados Unidos ficaram para trás nessa área devido à resistência política e à pressão de empresas que poderiam perder mercado. O economista menciona especialmente os interesses ligados aos cartões e às criptomoedas.

Para Krugman, esses setores receiam que uma solução pública eficiente reduza o interesse dos consumidores por produtos privados mais caros, arriscados ou difíceis de usar. A preocupação, argumenta, não seria a possibilidade de o sistema fracassar, mas de funcionar bem demais.

Ele compara o sucesso do Pix à tentativa de El Salvador de transformar o Bitcoin em um meio de pagamento amplamente utilizado. Enquanto o sistema brasileiro foi incorporado à rotina da população, a iniciativa salvadorenha não alcançou a mesma adesão.

Tarifa entrou em vigor com exceções

A cobrança adicional de 25% passou a atingir nesta quarta-feira diferentes produtos exportados pelo Brasil. Entre os itens alcançados estão etanol e outros biocombustíveis, máquinas agrícolas, equipamentos de mineração, transformadores elétricos, calçados, móveis de madeira, pisos, revestimentos, rochas ornamentais, roupas e tecidos.

A medida contém exceções para mercadorias importantes da pauta brasileira, como café, carne bovina, suco de laranja, aeronaves e peças aeronáuticas.

Krugman havia avaliado que o alcance das tarifas seria limitado pelo receio do próprio governo americano de elevar os preços pagos pela população. Ao mesmo tempo, argumentou que o Brasil poderia ampliar sua presença em outros mercados.

Embora o Pix tenha entrado formalmente na lista de práticas contestadas pelos Estados Unidos, a tarifa não incide sobre o sistema nem impede seu funcionamento. A cobrança recai sobre mercadorias brasileiras. O Pix tornou-se uma das justificativas usadas pelo governo Trump para ampliar uma disputa comercial que ultrapassa o setor financeiro.

Para Krugman, a ofensiva dificilmente levará o Brasil a abandonar um sistema amplamente utilizado pela população. “O governo Trump declarou guerra ao futuro”, escreveu. “E uma coisa que sabemos sobre Trump é que ele nunca admite quando suas guerras escolhidas fracassam.”

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.