Como o impeachment de Dilma reverbera na política brasileira 10 anos depois
Principais pontos
- Uma década depois, impeachment de Dilma Rousseff ainda influencia alianças, disputas e estratégias políticas no Brasil.
- PT perdeu força e espaço eleitoral após 2016, apesar da volta de Lula ao Planalto.
- Crise mudou o campo oposicionista e abriu espaço para novas forças políticas.

Há uma década, o PT deixava o governo federal depois de 13 anos no poder, encerrando um ciclo iniciado com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, e suspenso em 31 de agosto de 2016, quando o Senado cassou o mandato de Dilma Rousseff e consumou o processo de impeachment levou à sua saída da Presidência.
Embora o processo tenha tido como justificativa formal as chamadas pedaladas fiscais e a edição de decretos de crédito suplementar sem autorização do Congresso, apontadas como crimes de responsabilidade, a queda da presidente foi resultado de uma crise que já havia ultrapassado a discussão sobre as contas públicas.
À época, Dilma vivia uma queda vertiginosa de aprovação, enfrentava uma relação cada vez mais deteriorada com o Congresso e assistia à multiplicação de grandes manifestações de rua que pediam sua saída em meio ao avanço da Operação Lava Jato e à crescente rejeição ao PT.
A saída de Dilma Rousseff, primeira mulher a chegar à Presidência da República, encerrou o ciclo de quatro vitórias presidenciais consecutivas do PT, mas não os efeitos políticos daquela crise. Ao contrário, o processo mudou o rumo de personagens e forças políticas que, de lados opostos, tiveram papel decisivo na crise.
RECOMMENDED FOR YOU

Crise no STF mobiliza direita em ato de Flávio pelo 7 de Setembro
Lula voltou à Presidência e tenta agora um quarto mandato nas eleições de outubro, enquanto Dilma Rousseff, que deixou o Planalto em 2016 e tentou retornar à política eleitoral dois anos depois, sem conseguir se eleger para o Senado por Minas Gerais, preside desde 2023 o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco dos Brics.
Aloizio Mercadante, que ocupava a Casa Civil de Dilma no período mais agudo da crise, hoje preside o BNDES.
Jair Bolsonaro, então deputado de pouca expressão nacional, chegou ao Planalto, governou o país por quatro anos e se tornou inelegível.
Já Sergio Moro deixou a magistratura para entrar na política, foi eleito senador pelo Paraná e agora disputa o governo do Paraná, enquanto Deltan Dallagnol, outro dos principais símbolos da Lava Jato, elegeu-se deputado federal em 2022 e teve o mandato cassado pelo TSE no ano seguinte.
Entre os grupos que foram às ruas contra Dilma, o MBL seguiu um caminho próprio: Renan Santos, um dos fundadores do movimento, é candidato à Presidência da República.
As marcas deixadas no PT
A saída de Dilma não encerrou o desgaste que havia levado o PT à pior crise de sua história recente. Nas eleições municipais de 2016, realizadas poucas semanas depois do impeachment, o partido elegeu 256 prefeitos, contra 635 em 2012. Quatro anos depois, o número caiu novamente, para 183, antes de o partido recuperar parte do espaço em 2024, quando elegeu 252.
Nas capitais, a perda foi ainda mais evidente: o PT, que havia administrado quatro delas no ciclo anterior, terminou as eleições de 2020 sem comandar nenhuma e voltou a governar uma em 2024, Fortaleza, com Evandro Leitão.
A retração também apareceu nas eleições presidenciais. Em 2018, Fernando Haddad levou o PT ao segundo turno, mas acabou derrotado por Jair Bolsonaro, enquanto Lula, preso no ano anterior e impedido de disputar aquela eleição, permaneceu fora da corrida presidencial.
RECOMMENDED FOR YOU

Modera Brasil: Ministério da Saúde se inspira em SP e lança plataforma contra alcoolismo
Quatro anos depois, Lula voltou à disputa, venceu Bolsonaro e reconduziu o PT ao Planalto, mas em uma composição política diferente daquela que havia sustentado os governos petistas anteriores, com uma frente mais ampla e uma dependência maior de alianças com partidos de centro.
"Há uma diferença grande entre Lula e PT. Mesmo com o presidente de volta ao cargo e reabilitado, o partido nunca se recuperou plenamente dos desgastes do governo Dilma e, na mesma época, da Operação Lava Jato", afirma Renato Dorgan, cientista político e CEO do instituto Travessia de Pesquisas.
Em 2024, o PT recuperou parte do espaço perdido nas eleições municipais, mas ainda ficou distante da presença que tinha no início da década passada.
O enfraquecimento do partido também teve efeitos sobre a renovação de suas lideranças, avalia Dorgan, para quem o período "tirou espaço da geração que sucederia Lula no PT".
Rodrigo Prando, professor de ciência política do Mackenzie-SP, entende que a polarização produzida naquele período beneficiou os extremos do espectro político, enquanto o centro perdeu espaço.
"Em uma situação de política polarizada, sempre ganham todos os polos. O impeachment gestou forças de direita e até de extrema-direita, mas Lula também se reabilitou e voltou a ser presidente. Quem mais perdeu foi a terceira via, o campo da centro-direita."
A nova direita
A oposição ao PT mudou de configuração depois de 2016. Até então, o PSDB havia sido seu principal adversário eleitoral, disputando a Presidência quatro vezes contra os petistas entre 2002 e 2014. A crise econômica, a Lava Jato e as manifestações de 2015 e 2016 abriram espaço para movimentos que atuavam fora das estruturas partidárias tradicionais e ajudaram a deslocar a oposição para uma direita mais ampla.
"Quem se deu muito bem com o impeachment foi a direita, mais especificamente o bolsonarismo. O governo Dilma deu base para este grupo afirmar que os governos petistas são ruins", afirma Dorgan.
RECOMMENDED FOR YOU

Candidatos usam o 7 de setembro para reforçar suas propostas e atrair eleitores
A crise também ajudou Jair Bolsonaro a deixar a condição de deputado de pouca expressão nacional, tornar-se competitivo na disputa presidencial e vencer a eleição de 2018.
O bolsonarismo ocupou o espaço aberto pela crise e transformou a rejeição ao PT em uma força eleitoral nacional, mas a direita que havia se fortalecido naquele período nunca formou um bloco inteiramente coeso. Os grupos que haviam marchado juntos contra Dilma passaram, depois, a disputar entre si o espaço que ajudaram a abrir.
O MBL é um dos exemplos dessa ruptura. Depois de participar ativamente das manifestações contra Dilma, o movimento se afastou do bolsonarismo e passou a construir uma alternativa própria, processo que levou à criação do Missão e à candidatura presidencial de Renan Santos, um de seus fundadores.
A crise econômica que antecedeu o impeachment também continua presente no discurso da oposição. A recessão de 2015 e 2016, a deterioração fiscal e a perda de renda são usadas para atacar os governos petistas, enquanto, dentro do PT, permanece a interpretação de que Dilma foi vítima de um processo político que utilizou como fundamento crimes de responsabilidade cuja caracterização é contestada.
Para Prando, os efeitos políticos daquele período continuam presentes no debate eleitoral e ajudam a explicar a força da polarização atual.
"Independente do mérito do processo, fato é que a falta de condição política de Dilma, os maus resultados econômicos e as amplas manifestações populares contra seu governo transformaram-se em capital político ainda explorado pela oposição ao PT."
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
Se está acontecendo no Sul Global, está no nosso canal do WhatsApp.
Nós contamos as notícias que você precisa saber.
Inscreva-se agora