Como o Brasil saiu do "muito baixo" para o "muito alto" em desenvolvimento humano
Principais pontos
- Indicador que mede renda, educação e longevidade coloca o Brasil na melhor faixa de desenvolvimento humano. Na análise mais recente, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) atingiu 0,805, o maior resultado da série histórica.
- Educação foi o principal motor dessa melhora nos últimos 12 anos. Entre 2012 e 2024, o componente registrou a maior evolução, impulsionado pelo aumento da escolaridade e da conclusão do ensino médio entre os jovens.
- IDHM e IDH Global usam metodologias diferentes. O indicador nacional é calculado com dados brasileiros de municípios; o da ONU utiliza uma metodologia internacional. No IDH Global mais recente, o Brasil é classificado como um país de alto desenvolvimento humano e ocupa a 84ª posição entre 193 países.

Se alguém perguntar sobre a qualidade de vida no Brasil, que resposta receberá? Do ponto de vista do desenvolvimento humano, o resultado talvez surpreenda. Vivemos um momento positivo, em seu grau mais elevado. É o que aponta o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que se baseia em três fatores – longevidade, educação e renda – para avaliar como estamos. No fim de maio, anunciou-se que o Brasil atingiu, pela primeira vez, a marca de 0,805, entrando na faixa de "muito alto desenvolvimento humano".
O resultado, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Fundação João Pinheiro (FJP), é a fotografia atual de um cenário de meio século e que começa em um Brasil radicalmente diferente.
Para entender esse processo, o GSW Brasil conversou com Cláudio Hamilton Matos dos Santos, doutor em economia e técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, e Rodrigo Prando, doutor em sociologia e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Evolução desde 1970
Séries históricas reconstruídas pelo Ipea, PNUD, FJP e IBGE com base nos dados disponíveis para cada período mostram o caminho brasileiro, desde 1970, à faixa de “muito alto desenvolvimento humano”.
O índice usa a mesma escala do IDHM atual, de 0 a 1, com os mesmos cortes de classificação: muito baixo (até 0,499), baixo (0,500–0,599), médio (0,600–0,699), alto (0,700–0,799) e muito alto (acima de 0,800).
Nos anos 1970, o Brasil estava na faixa "muito baixo", com índice estimado entre 0,487 e 0,507. Era um país marcado por aceleração da urbanização e crescimento econômico concentrado, mas que ainda deixava parcelas enormes da população sem acesso à educação ou renda digna.
Nos anos 1980, mesmo em meio à crise da dívida externa e à hiperinflação, o índice subiu para a faixa "baixo", chegando a cerca de 0,610 ao final da década. A redemocratização e a Constituição de 1980 estruturaram o avanço observado em 1990, com garantias constitucionais de gastos mínimos em educação e, mais tarde, em saúde.
Nos anos 1990 veio o Plano Real, que trouxe a estabilização econômica necessária para alçar o país à faixa dos “médios”, chegando a 0,660.
Nos anos 2000 o ritmo se acelerou, especialmente por conta das políticas de inclusão social, expansão do ensino superior e o ciclo de crescimento das commodities. O Brasil alcançou o nível "alto". Em 2012, quando começa a série do Radar IDHM, o Brasil estava em 0,744. Em 2024, chegou a 0,805.
Para o sociólogo Rodrigo Prando, professor do Mackenzie, o avanço do Brasil nesses 50 anos vai além do crescimento do PIB. Ele aponta quatro fatores: urbanização acelerada, transição demográfica, a Constituição de 1988 – que universalizou saúde e educação como direitos –, e o ciclo redistributivo dos anos 2000.
Diferença em relação ao IDH Global
Antes de entrar nos dados recentes, há uma distinção técnica que importa.
O IDHM não é o mesmo que o IDH Global, que compara 193 países. Os dois medem o mesmo conceito (longevidade, educação e expectativa de vida), mas com metodologias e fontes diferentes. O IDH Global usa renda nacional bruta per capita e bases internacionais; o IDHM usa a PNAD Contínua do IBGE e indicadores específicos do sistema educacional brasileiro. Ambos seguem a mesma escala de 0 a 1, mas não são diretamente comparáveis.
É por isso que o Brasil aparece com 0,805 (muito alto) no IDHM de 2024 e com 0,786 (alto, 84ª posição entre 193 países) no ranking global do IDH referente a 2023.
Cláudio Hamilton Matos dos Santos, do Ipea, explica a diferença. "O IDH global é calculado por organizações internacionais com base em uma metodologia uniforme para quase duas centenas de países e não é publicado todos os anos – e quando é, traz dados defasados. O Radar IDHM traz uma base anual no período 2012-2024. É normal, portanto, que os dados do Radar IDHM sejam mais tempestivos. Os números são parecidos, entretanto".
Educação, o motor

O gráfico acima mostra que o avanço de 2012 a 2024 não foi uniforme entre as três dimensões do índice.
A Educação cresceu a uma taxa média de 1,35% ao ano, passando de 0,679 para 0,798. O indicador mais dinâmico de toda a série foi o percentual de jovens de 18 a 20 anos com ensino médio completo, que saltou de 47,46% para 64,37%, crescimento médio de 2,57% ao ano.
A escolaridade da população adulta com ensino fundamental completo passou de 59,53% para 71,38%. Longevidade e Renda cresceram em ritmo mais modesto, 0,31% ao ano cada.
Na Renda, a domiciliar per capita média nacional avançou de R$ 759,11 para R$ 903,42 (valores deflacionados), a proporção de pessoas vulneráveis à pobreza caiu de 26,78% para 17,56% e o Índice de Gini (que mede o grau de concentração de renda) recuou de 0,540 para 0,506.
A interrupção da curva ascendente fica por conta de 2020 e 2021, quando o IDHM caiu, chegando a 0,757, reflexo direto da pandemia. A recuperação foi rápida: em 2022 o Brasil retomou crescimento em todas as três dimensões e em 2024 atingiu o melhor resultado da série.
Na visão de Cláudio Hamilton, esse avanço independe da paternidade de qualquer governo recente. “O Brasil tem mínimos constitucionais para gastos em educação desde 1934 e em saúde desde a Emenda 29/2000. Desde a Constituição de 1988, há uma preocupação sistemática com os componentes de longevidade e educação do IDH”.
Prando complementa com uma ressalva sobre o que o índice de educação mede e o que deixa de fora.
“A variável educação no índice mede anos de escolaridade e fluxo escolar, não o que se aprende nem como se aprende. Indicadores de aprendizagem como o Pisa e os índices de analfabetismo funcional não acompanharam esse ritmo quantitativo."
Para ele, a desigualdade educacional não desapareceu, apenas migrou de lugar: "Antes, havia uma porta de escola separando quem entrava e quem ficava fora. Hoje, o problema está dentro da escola, na diferença enorme de qualidade entre as redes de ensino dos mais ricos e dos mais pobres."
O papel do Bolsa Família
Um dos pilares silenciosos do avanço educacional está nas políticas de transferência de renda. Prando destaca a arquitetura específica do Bolsa Família como o que o diferencia de um simples auxílio financeiro.
"Ele condicionou a transferência de renda à frequência escolar e à vacinação. Não atacou apenas o sintoma, que é a renda baixa dos pais, mas também o mecanismo que transmite pobreza, que é a escolaridade interrompida dos filhos."
O sociólogo aponta que os efeitos foram sentidos com defasagem de quase uma década: as crianças que não foram para o trabalho infantil graças ao programa puderam completar o ciclo educacional.
"Há evidências de que estamos quebrando, sim, uma certa hereditariedade da miséria. Mas quebrar a transmissão de pobreza extrema não é a mesma coisa que garantir mobilidade e ascensão social. As duas questões precisam ser conjugadas."
O Brasil e o Sul Global
O marco brasileiro ganha peso quando visto no contexto internacional. O Relatório de Desenvolvimento Humano 2025 do PNUD revela que o progresso global está na pior desaceleração dos últimos 35 anos.
Pelo quarto ano consecutivo, a desigualdade entre países com IDH baixo e IDH muito alto continua aumentando, revertendo uma tendência de longo prazo de redução das desigualdades entre nações ricas e pobres.
Entre os BRICS (incluindo os novos membros), o Brasil (0,786, 84ª posição) ocupa um lugar intermediário num bloco de enorme diversidade de desenvolvimento humano, considerando o índice global. Os Emirados Árabes Unidos lideram com folga (IDH 0,940, 15ª posição no mundo), seguidos pela Rússia (64ª), os únicos do bloco na faixa “muito alto”.
A maioria está na faixa “alto”, incluindo China (78ª, IDH 0,797), Irã, Brasil, Egito, África do Sul e Indonésia. A Índia é o único grande membro ainda na faixa de desenvolvimento humano médio (0,685, 130ª posição), enquanto a Etiópia figura entre os de desenvolvimento “baixo”.
A China está a apenas um passo de cruzar para a faixa “muito alto” no IDH Global – a mesma fronteira que o Brasil acabou de ultrapassar no IDHM nacional. Em 1990, a China registrava apenas 0,484; em 2023 chegou a 0,797, uma das maiores transformações já registradas na história do índice.
Para Prando, o Brasil não é um modelo a ser copiado nem um desastre a ser evitado, mas um laboratório que oferece uma demonstração clara de que é possível, num país semiperiférico, dentro de uma democracia e sem ruptura revolucionária, mover os indicadores sociais de centenas de milhões de pessoas por meio de política pública focada em transferir renda, universalizar serviços e valorizar o salário mínimo.
“Mas ainda temos uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho e uma distância enorme dos países capitalistas centrais”, completa, citando o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e Celso Furtado para ancorar a leitura: o Brasil demonstrou que há desenvolvimento possível, ainda que dependente. A questão é o que se faz com ele.
A questão racial

O avanço nacional coexiste com desigualdades que o relatório não esconde. A mais profunda delas é racial.
Em 2024, a população branca tem IDHM de 0,851 (muito alto) e a negra, 0,774 (alto). A distância caiu de 0,110 pontos em 2012 para 0,077 em 2024, uma redução de 14% para 9% na proporção entre os dois grupos. O ritmo de avanço da população negra foi quase o dobro do da branca no período, 10,3% contra 5,5%. Ainda assim, o melhor IDHM já alcançado pela população negra, em 2024 (0,774), ainda é inferior ao que a população branca tinha em 2012 (0,804).
Santos, do Ipea, localiza a raiz no tempo: "A desigualdade entre brancos e não brancos é traço estrutural de toda a América Latina, enraizado na colonização europeia e, no caso brasileiro, no legado da escravidão africana".
Embora as políticas públicas consigam universalizar serviços básicos como escola fundamental e acesso básico à saúde, há uma parte mais resistente, relacionada à renda, ao patrimônio construído, à ocupação no topo da estrutura social e à violência letal a que jovens negros são submetidos.
Para Rodrigo Prando, a convergência futura depende de decisões políticas, não apenas do tempo: "A aceleração recente decorre das ações afirmativas dos últimos anos. O futuro dessa convergência depende de escolhas, não de se acreditar que os números vão, sozinhos, equiparar brancos e negros."
Desigualdade de gênero e território

O IDHM geral mostra homens (0,802) e mulheres (0,798) quase no mesmo patamar. Mas isolando a dimensão Renda do trabalho, a diferença cresce: homens chegam a 0,822 (muito alto) e mulheres a 0,679 (médio), distância de 0,143 ponto. O mercado de trabalho segue expondo a desigualdade de gênero no país.
No território, o avanço também foi desigual, mas mostra que os estados que mais cresceram entre 2012 e 2024 foram os mais pobres. Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte lideraram o crescimento do IDHM no período, o que é explicado pelo economista do Ipea.
"Como as políticas nacionais de educação e saúde são claramente redistributivas, é de se supor que os dados mostrem alguma convergência. Mesmo no componente econômico: o peso da economia do Sudeste no PIB nacional caiu de 56,1% em 2010 para 53% em 2023, enquanto o peso do Norte cresceu de 5,3% para 5,8% e o do Nordeste de 13,5% para 13,8%."
O que só o IDHMAD mostra

O Radar IDHM traz, pela primeira vez, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Ajustado à Desigualdade (IDHMAD). A lógica é simples: o índice perde pontos quanto mais desigual for a distribuição de renda, educação e longevidade entre a população.
Com o ajuste, o Brasil vai de 0,805 (muito alto) para 0,641 (médio) em 2024. A perda causada pela desigualdade foi de 20,4% do potencial do índice, contra 23,9% em 2012.
Prando argumenta que o Brasil é competente para produzir desenvolvimento, mas estruturalmente incompetente em distribuir.
“A gente gera renda, escolaridade e longevidade em volume. O que falha é a socialização desses ganhos”, completa.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.