Como Lula e Flávio se mobilizam para ‘liquidar a fatura’ em primeiro turno
Principais pontos
- Pesquisas mostram os dois candidatos com mais de 40% das intenções de voto no primeiro turno.
- Números intensificam movimento por “voto útil”, com incentivo aos que declaram preferência em outras candidaturas a migrar de vez para Lula ou Flávio.
- Campanha do PT associa opositor a risco democrático, enquanto bolsonarista aposta na mobilização do antipetismo para concentrar votos da direita.

Na semana do primeiro turno das eleições, marcado para este domingo, 4, tanto o presidente Lula (PT) quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) ultrapassam 40% das intenções de voto e trabalham para conquistar a vitória sem necessidade de segunda votação — o que depende da obtenção de maioria entre os votos válidos.
Com um cenário em que os demais concorrentes não empolgam nas pesquisas e seus respectivos movimentos, lulismo e bolsonarismo, se solidificam eleitoralmente, o GSW Brasil explica neste texto como as duas campanhas estão trabalhando, cada uma a seu modo, para acelerar a definição da disputa pelo Palácio do Planalto.
Derretimento de um lado, calcificação do outro
O histórico pesa contra os dois concorrentes mais competitivos à Presidência da República. Em nove eleições diretas desde a redemocratização, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) alcançou mais de 50% dos votos válidos e venceu em turno único (foram duas vezes, em 1994 e 1998).
Nos demais pleitos, a disputa estendeu-se por duas votações, todas elas opondo um candidato do PT a um adversário à direita, dualidade que se mantém para 2026. Desde a ascensão de Jair Bolsonaro (PL) ao Executivo, em 2018, no entanto, o eleitorado brasileiro passa por um fenômeno que Felipe Nunes e Thomas Traumann, autores de “Biografia do Abismo” (HarperCollins Brasil, 2023), chamam de “calcificação”.
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Nesta dinâmica, petismo e bolsonarismo fidelizam grupos que não trocam de candidato sob nenhuma hipótese e são capazes de concentrar a maior parte dos votantes do país.
Nas rodadas mais recentes de Datafolha e Quaest, Lula e Flávio somaram mais de 80% das intenções de votos válidos — soma que exclui brancos, nulos e indecisos — para este domingo.
Somada à tendência de redução daqueles que ainda não se decidiram e de estabilização ou queda do percentual que declara voto em Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), a equação levou analistas e pesquisadores a apontarem para a possibilidade de migração de eleitores rumo às candidaturas que estão em vantagem, aumentando as chances de que uma delas alcance o número “mágico”.
As peças se movem pelo ‘voto útil’
Diante da possibilidade de exercitar um fenômeno conhecido como “voto útil”, tanto a campanha do incumbente quanto a do bolsonarista têm buscado estimular essa migração, usando o alto nível de rejeição ao respectivo oponente — 54% rejeitam Lula e 56%, Flávio, segundo a Quaest — como incentivo à resolução antecipada.
O PL tem reforçado o investimento na imagem da família Bolsonaro como única capaz de derrotar o petismo e, nos últimos dias, articulações para que Zema desistisse da candidatura para apoiar o “Zero Um” ganharam força sob a premissa de agregar os votos da direita.
Os petistas têm mais dificuldade em atrair eleitores dos postulantes menores, que estão alinhados à direita, e optam por reeditar um discurso conhecido da eleição de 2022 de que, com Flávio no páreo, a democracia estaria ameaçada — seu pai, vale lembrar, foi condenado por tentar um golpe de Estado após perder a reeleição.
Em 28 de setembro, a Fundação Perseu Abramo, braço acadêmico do PT, publicou um artigo intitulado “Voto útil: especialistas analisam a escolha estratégica no primeiro turno das eleições” em que considera essa dinâmica.
Além do risco de que o oponente tenha maior potencial de crescimento na segunda etapa da votação — dada a possibilidade de herdar votos dos derrotados por similaridade ideológica —, Lula é ameaçado ainda por outros fatores, como o risco de perder palanques em estados estratégicos.
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Em São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil, pesquisas projetam uma derrota do ex-ministro Fernando Haddad (PT) para o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sem necessidade de segundo turno; em Minas Gerais, o segundo, os levantamentos indicam chances de Cleitinho Azevedo (Republicanos) terminar o domingo eleito.
Fundador do instituto de pesquisas Ideia e professor da Universidade George Washington, Maurício Moura afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que o “Zero Um” poderá ser beneficiado, nesta definição, por um fenômeno conhecido como “antipetismo de chegada”.
Neste cenário, é comum “as pessoas largarem os candidatos de alguma preferência no primeiro turno e votarem naquele candidato que tem melhor condição de ganhar do PT já no primeiro turno”, afirmou.
Por outro lado, o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, avaliou à emissora GloboNews que as chances de conclusão em turno único são baixas.
“Pelo menos metade dos eleitores desses outros nomes da terceira via já definiu o voto e provavelmente não vai abandonar os seus candidatos preferidos. Até porque a rejeição dessas pessoas ao Flávio Bolsonaro e ao Lula é uma rejeição muito óbvia. Então, essa migração é difícil”, avaliou.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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