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Ceará vai ganhar a primeira fábrica de curativos de pele de tilápia do Brasil
Principais pontos
- Jaguaribara, cidade a 226 quilômetros de Fortaleza, receberá o empreendimento, que terá investimento de R$ 52 milhões em três anos. A unidade dará escala industrial a um projeto nasceu de pesquisa na Universidade Federal do Ceará.
- Rica em colágeno tipo 1, a pele de tilápia tem características que favorecem seu uso como curativo e pode reduzir trocas dolorosas durante o tratamento de queimaduras. É também uma opção mais barata que os tratamentos convencionais.
- Desenvolvida a partir de 2015, a tecnologia já foi usada em mais de 350 pacientes. O trabalho transformou em biomaterial uma parte do peixe que era descartada pela cadeia produtiva da tilápia.

A cidade de Jaguaribara, a 226 quilômetros de Fortaleza, receberá a primeira fábrica do país dedicada à produção de curativos biológicos feitos com pele de tilápia. A tecnologia foi desenvolvida no estado, a partir de um estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC).
A pesquisa começou em 2015 no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC, com a participação de pesquisadores do Ceará, de Pernambuco e de Goiás. O resultado é um curativo com base em pele de animal aquático e que agora ganha escala industrial.
A fábrica foi viabilizada por meio de uma parceria entre o Governo do Ceará e a empresa Biotec Medical Xenograft Engineering e a escolha da cidade não foi por acaso. Jaguaribara é a maior produtora de tilápia do Ceará e ocupa a 14ª posição no ranking nacional, sendo que a piscicultura sustenta boa parte da economia local.
O empreendimento representa um investimento superior a R$ 52 milhões nos próximos três anos. A expectativa é impulsionar a capacidade produtiva de 180 mil peles processadas mensalmente no início das atividades para 400 mil por mês ao final do terceiro ano.
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Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a fábrica deve gerar mais de 200 empregos diretos já no primeiro ano e a previsão é de que os trâmites para sua instalação, incluindo a compra de equipamentos e a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sejam concluídos em até 15 meses.
Manoel Odorico de Moraes Filho, pesquisador e um dos coordenadores do projeto, também acredita que a fábrica "vai colocar a cidade de Jaguaribara no mapa do Ceará, do Brasil e do mundo".
Como se deu a descoberta
A tecnologia começou a ser desenvolvida há mais de uma década, em 2015, no NPDM. Os pesquisadores estavam em busca de uma solução para o tratamento tradicional de queimaduras, que até então dependia de sulfadiazina de prata (creme antibiótico de uso tópico) ou de bancos de pele humana, um recurso escasso e caro no país.
A pele humana é doada por familiares próximos de uma pessoa falecida. É o principal método utilizado até hoje. Ela cobre menos de 1% da demanda dos cerca de 500 mil pacientes que sofrem queimaduras todos os anos no Brasil e que seriam elegíveis para esse tipo de tratamento.
Foi aí que a tilápia virou o centro do estudo, pois sua pele tem alta concentração de colágeno tipo 1 e tem características equivalentes à da pele humana. O peixe é um animal de criação rápida, pronto para consumo em seis a oito meses. "A pele da tilápia era o único produto da cadeia produtiva da tilápia que era descartado, jogado no lixo", conta Odorico.
O estudo desenvolveu um processo que usa liofilização (processo avançado de desidratação) e esterilização por radiação gama, o que permite guardar a pele em temperatura ambiente, sem a necessidade de refrigeração. Na hora de usar, basta reidratar o curativo com soro fisiológico.
Mas o que muda para os pacientes?
Mais de 350 pacientes já passaram pelo tratamento, com resultados positivos na cicatrização de queimaduras de segundo grau. Diferentemente do curativo tradicional, a pele de tilápia é aplicada uma única vez e retirada apenas quando a cicatrização termina.
Além do conforto com a diminuição das trocas constantes de curativo, os pacientes passam por menos sessões de anestesia e correm menor risco de infecção hospitalar. "O tratamento convencional exige que você substitua o curativo a cada 24h ou no máximo 48h. Então, você imagina uma pessoa queimada, com 30% da área corporal queimada, e você tendo que substituir esse curativo. Imagine a dor que esse paciente vai sentir", explica.
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Hoje, a tecnologia já saiu do Ceará e ganhou diferentes aplicações, com seu uso em cirurgias ginecológicas. Já foi utilizada com sucesso em procedimentos de reconstrução vaginal de mulheres transsexuais, com síndrome de Rokitansky (malformação congênita rara que afeta o sistema reprodutivo feminino e que faz com que a menina nasça sem o útero e com ausência total ou parcial do canal vaginal), agenesia vaginal (malformação congênita) e câncer pélvico.
O próximo passo do estudo
Em 2017, pesquisadores da UFC inauguraram o primeiro banco de pele de tilápia para uso em tratamentos médicos. Atualmente, estuda-se um potencial subproduto, com o uso do scaffold, ou matriz dérmica acelular da tilápia.
O processo retira quimicamente todas as células da pele do peixe, deixando apenas uma membrana pura de colágeno. "Consegui identificar 48 aplicações em medicina humana, medicina veterinária e em odontologia", afirma Odorico.
O scaffold já foi testado com sucesso em lesões de córnea de cerca de 900 cães e gatos, e agora passa por pesquisas clínicas em córneas humanas. Também está sendo estudado para a reconstrução da dura-máter, a membrana que protege o cérebro, em procedimentos de neurocirurgia.
Economia bilionária para o SUS
Fora os pacientes, o Sistema Único de Saúde (SUS) deverá sentir o impacto da tecnologia. Responsável por 93% dos atendimentos a queimados no país, enquanto uma membrana artificial importada custa cerca de R$ 50 por centímetro quadrado, a pele de tilápia sairia por apenas R$ 0,12 por centímetro quadrado, aponta Odorico.
A diferença de preço, multiplicada pela escala de produção industrial, deve representar uma economia bilionária para o setor de saúde, além de otimizar o trabalho das equipes médicas, reduzir o tempo de internação e diminuir o desperdício de insumos descartáveis.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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