Câncer do papa mostra como o Vaticano mudou a forma de falar da saúde dos pontífices
Principais pontos
- Após cirurgia anunciada pelo próprio Leão XIV, Vaticano revela o diagnóstico de câncer de pulmão e detalha a operação pela qual passou o líder da Igreja Católica.
- O papa teve retirado o lobo inferior do pulmão direito no Hospital Gemelli, em Roma. A cirurgia ocorreu sem complicações.
- Retrospectiva mostra como o Vaticano passou do sigilo sobre doenças dos pontífices à divulgação de boletins médicos mais completos.

Desde que o papa Leão XIV anunciou no domingo, 11, que faria uma operação para retirar um nódulo pulmonar, o mundo tem acompanhado com atenção as notícias do Vaticano a respeito da saúde do sumo pontífice. Dois dias depois, a Santa Sé revelou que o líder da igreja tinha câncer de pulmão e detalhou a intervenção realizada no Hospital Gemelli, em Roma. Nesta quarta-feira, 14, o Vaticano informou que Leão XIV passou uma noite tranquila.
A rapidez e o detalhamento dos comunicados ilustram uma transformação na maneira como o Vaticano trata a saúde de seus líderes. Ao longo de mais de seis décadas, a Santa Sé passou do silêncio sobre doenças graves à divulgação de diagnósticos, procedimentos cirúrgicos e boletins médicos periódicos.
Leão XIV, de 71 anos, fez o anúncio ao final da oração do Ângelus, na Praça de São Pedro. Explicou que o nódulo havia sido identificado em exames de rotina, ainda em fase inicial, e que decidiu seguir a recomendação dos médicos. Aos fiéis, pediu: “Entrego-me às orações de vocês”.
Na terça-feira, 13, o papa foi operado na Policlínica Gemelli, em Roma. Os médicos retiraram o lobo inferior do pulmão direito por meio de uma cirurgia videoassistida, técnica que utiliza uma câmera e instrumentos introduzidos por pequenas incisões. A intervenção durou aproximadamente 90 minutos, sem complicações, embora o pontífice tenha permanecido cerca de três horas na sala de cirurgia.
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O exame realizado durante a operação identificou um adenocarcinoma pulmonar, tipo de câncer que já era suspeitado pelos exames pré-operatórios. Segundo o boletim médico divulgado pelo Vaticano, a retirada do lobo pulmonar teve como objetivo remover completamente o tecido tumoral.
A equipe cirúrgica foi coordenada pelo médico Stefano Margaritora. O comunicado, assinado também pelo médico Luigi Carbone, informou que Leão XIV despertou normalmente da anestesia e retornou ao quarto, no décimo andar do hospital, consciente e orientado. A previsão inicial é de aproximadamente uma semana de internação, período em que serão realizados exames pós-operatórios e a análise do material retirado.
A comunicação sobre a saúde de Leão XIV segue uma tendência de maior abertura que se consolidou especialmente durante o pontificado de Francisco, falecido em 2025, quando os boletins médicos passaram a trazer informações detalhadas e os profissionais responsáveis pelo tratamento chegaram a responder diretamente às perguntas dos jornalistas.
Mas nem sempre foi assim. Confira esta retrospectiva da AFP que mostra como o Vaticano administrou, ao longo dos últimos pontificados, a divulgação das doenças, internações e limitações físicas dos líderes da Igreja Católica.
João XXIII (1958-1963)
Eleito aos 76 anos, o italiano Angelo Giuseppe Roncalli sofria de um câncer de estômago diagnosticado vários meses antes de sua morte, em 3 de junho de 1963.
A gravidade de seu estado de saúde não foi divulgada.
Em pleno Concílio Vaticano II (1961-1965), que ele próprio havia convocado, o Vaticano manteve a incerteza sobre o diagnóstico exato, que os fiéis só descobriram após sua morte.
Paulo VI (1963-1978)
Giovanni Battista Montini sofria de artrose e diversos problemas relacionados à idade, que limitaram sua mobilidade durante a década de 1970.
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Morreu aos 80 anos, em 6 de agosto de 1978, vítima de um infarto, na residência pontifícia de Castel Gandolfo, perto de Roma.
Durante seu pontificado, as informações médicas divulgadas pela Santa Sé foram escassas.
Em novembro de 1967, porém, Paulo VI agradeceu publicamente aos fiéis pela preocupação com sua saúde, poucos dias antes de passar por uma cirurgia na próstata para tratar uma lesão benigna. A intervenção foi realizada em uma sala de cirurgia montada no Palácio Apostólico, segundo o Vatican News.
João Paulo I (agosto-setembro de 1978)
Albino Luciani, eleito em 26 de agosto de 1978, morreu repentinamente 33 dias depois, aos 65 anos, o que provocou espanto e dúvidas na Igreja Católica.
O Vaticano anunciou que a causa da morte foi um infarto, mas não foi realizada uma autópsia.
As versões contraditórias dos primeiros comunicados oficiais sobre as circunstâncias de sua morte alimentaram especulações e teorias da conspiração.
João Paulo II (1978-2005)
Com João Paulo II, a saúde do papa se tornou um tema de interesse mundial.
Após o atentado sofrido em 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro, no qual ficou gravemente ferido, o Vaticano passou a informar regularmente sobre seu estado de saúde, acompanhado hora a hora pelos meios de comunicação.
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As fotos do papa polonês em uma cama de hospital, com as mãos e os braços cobertos de curativos e recebendo soro, deram a volta ao mundo.
Posteriormente, ele passou por várias cirurgias, uma delas em 1992 para retirar um tumor benigno no cólon.
O Vaticano começou a divulgar mais informações sobre suas internações do que anteriormente, mas demorou a reconhecer os sintomas da doença de Parkinson, apesar de já serem visíveis na década de 1990.
Nos últimos meses de seu pontificado, os boletins médicos se multiplicaram.
Karol Wojtyla manteve sua agenda até sua morte, em 2 de abril de 2005, apesar de estar cada vez mais debilitado e ter dificuldades para falar.
Bento XVI (2005-2013)
Eleito aos 78 anos, o alemão Joseph Ratzinger divulgou poucos detalhes sobre sua saúde, mas, em 11 de fevereiro de 2013, anunciou sua renúncia, alegando o enfraquecimento de suas capacidades físicas e mentais, algo inédito em sete séculos. Ele não revelou nenhuma doença específica.
O anúncio introduziu no debate público a questão da capacidade física de um papa para governar a Igreja e rompeu o tabu da renúncia de um pontífice.
Francisco (2013-2025)
O argentino Jorge Mario Bergoglio, eleito aos 76 anos, havia passado por uma cirurgia para retirar parte de um pulmão na juventude.
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Seu pontificado foi marcado por dores no joelho, que o levaram a usar primeiro uma bengala e depois uma cadeira de rodas, além de várias internações.
Em julho de 2021, foi submetido a uma cirurgia no cólon no Hospital Gemelli, em Roma, e, em junho de 2023, passou por uma intervenção cirúrgica para tratar uma hérnia abdominal.
Esses problemas de saúde alimentaram especulações sobre uma possível renúncia.
Em fevereiro de 2025, foi internado devido a uma bronquite que evoluiu para uma pneumonia bilateral e permaneceu hospitalizado por mais de cinco semanas.
O Vaticano publicou boletins médicos periódicos, nos quais detalhava os tratamentos.
O saguão do Hospital Gemelli se transformou em uma sala de imprensa, onde os médicos do papa respondiam ao vivo às perguntas de jornalistas de todo o mundo.
Francisco morreu em 21 de abril de 2025, aos 88 anos, um dia após sua última aparição pública por ocasião da Páscoa.
Com informações do Vatican News.
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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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